quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A Mortificação do Pecado (parte final)


Acho oportuno referir-me às palavras de J. I. Packer em que trata sobre a espiritualidade de John Owen sobre a relação da oração na mortificação do pecado:  
A oração é a atividade mediante a qual o crente garante diretamente a mortificação dos pecados. Isso inclui a lamentação, pela qual ele estende diante de Deus o seu pecado e as suas dificuldades, afligindo a sua alma ao reconhecer humildemente o quanto seus erros têm provocado a ira de Deus contra ele; e inclui também a petição, por meio da qual pleiteia fervorosa e importunamente peãs promessas divinas de livramento e ampara a sua fé no cumprimento dessas promessas, relembrando aqueles eventos nos quais Deus já evidenciou o seu amor para com ele. Subjetivamente falando, o efeito da oração é duplo. Primeiro, a graça é revigorada. “A alma de um crente nunca é soerguida a uma mais elevada tensão de espírito, na busca, no amor e no deleite da santidade, e não é mais confirmado em santidade, moldando-se à mesma, do que quando ele ora”. Em segundo lugar, o pecado é debilitado e definha quando o crente contempla a Cristo com fé e amor. “Que a fé contemple Cristo no evangelho, conforme Ele é ali apresentado, sendo crucificado e morrendo por nós. Olhe para Ele a sofrer sob o peso de nossos pecados; orando, sangrando, morrendo. Contemplando-O dessa forma, traga-O ao seu coração, mediante a fé; aplique o sangue dEle às suas corrupções; faça isso diariamente...”. [i]
As palavras de outro puritano que Owen gostava de ouvir pregar, John Bunyan,  cabem aqui:
A oração fará o homem parar de pecar, ou o pecado o seduzirá a parar de orar.


Em sexto lugar, você deve meditar na Palavra de Deus. De acordo com o salmista a Lei do Senhor “restaura” a alma (19.7). A palavra “restaura” em outros lugares das Escrituras é traduzida por “converter” (Sl 51.13). A Palavra de Deus converte o coração do filho a Seu Pai, advertindo-o quanto aos seus pecados, até mesmo os ocultos (19.11) dando-lhes sabedoria (19.7), alegria que vem com a certeza de perdão (19.8), iluminando-os os seus olhos espirituais (19.8) para contemplar a recompensa eterna que tem aqueles que de coração guardaram a Palavra Viva (19.11). Kris Lundgaard[ii] declara:
Estude a Palavra escrita para conhecer a Palavra viva. (...) O poder dessa meditação... se encontra na sua habilidade de expor as obras secretas do pecado – que vantagens a carne tem conseguido sobre você; que tentações ela tem usado com sucesso, que danos já causou e que males ainda planeja. ...essa meditação pede ao Espírito que use a Sua Palavra para iluminar as frestas e fendas de sua alma, para mostrar-lhe cada real necessidade e perigo nela.
A meditação na Palavra de Deus é o que nos fará dizer com o salmista:
Considero os meus caminhos e volto os meus passos para os teus testemunhos. Apresso-me, não me detenho, em guardar os teus mandamentos (Sl 119.59,60)
Prossegue Lundgaard:
...a oração e a meditação sondam as profundezas de sua alma, desenterram os esquemas e tramas da lei do pecado e os arrasta para a luz da presença de Deus. Em sua luz, toda a imaginação da carne é julgada, condenada, detestada e lamentada.
Mas acima de tudo, abandonada com um brado – “fora daqui” (Is 30.22).  

Em sétimo lugar, você deve refletir sobre a seriedade do seu pecado. O fato de muitos repudiarem a mortificação do pecado tem suas raízes no fato de que não consideram a seriedade do pecado.  Se o pecado não fosse algo tão grave, tão ofensivo a Deus, tão mortífero, tão debilitante e incapacitante ao homem certamente não exigiria o sacrifício de Cristo. Por isso os crentes envolvidos na mortificação do pecado devem refletir sobre a seriedade do pecado. Devemos refletir:
a)      Pecado é desprezo pela soberania de Deus. Deus, o grande legislador do universo, proíbe o pecado. Pecado é justamente a transgressão dos ditames divinos (1 Jo 3.4). O temor de pecar contra Deus foi o que manteve José longe da cama da mulher de Potifar (Gn 39.9). O pecado é desprezo pela Palavra de Deus. Quando Davi pecou com a mulher de Urias, por intermédio de Natã o Senhor declarou que Davi agiu com desprezo para com a sua palavra (1 Sm 11.9,10). Quando somos assaltados pelo desejo da carne, o que deve estar em nossas mentes é que ao pecar desprezamos a soberania divina e certamente Deus não terá por inocente aqueles que escarnecem de Sua soberania.
b)      Pecado é desprezo pela bondade e amor de Deus. Lundgaard comenta com sabedoria:
Quando o amor de Deus toca a sua alma e transforma você, e você sabe que cada pecado é contra aquele que ama a sua alma, você não vai pecar. [iii]
Se amor de Cristo não o constrange a abandonar o pecado é porque você nunca conheceu o amor de Cristo (2 Co 5.14,15).
c)      Pecado merece justo castigo. A Palavra de Deus declara que Ele “não inocenta o culpado” (Êx 34.7). Em outras palavras, todo pecado merece o justo castigo e Deus há de retribuir a cada um segundo as suas obras, por isso declara o autor de Hebreus: “horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10.30,31).

Em oitavo lugar, você deve ter em mente a sua meta, Fp 3.12-14 (2 Pe 1.11; Hb 12.1-3).  Nós ainda não atingimos a perfeição, portanto nos cumpre prosseguir em direção ao alvo, à meta.  

Em nono lugar, você precisará ter fé para mortificar a sua carne, diz Owen:
“exerce fé em Cristo, tem em mira a morte do teu pecado... e morrerás vencedor. Sim, por meio da providência divina, viverás para ver a tua concupiscência morte aos teus pés”. [iv]

a)      Deposite fé em Cristo como provedor de tudo o que você necessita para a mortificação do pecado. Pedro deixou claro que em Cristo temos plena suficiência para tudo o que se refere “à vida e à piedade” (2 Pe 1.3). Diz Owen:
Fixe a sua fé nesta maravilhosa verdade, e medite continuamente nela. É verdade que na sua própria força você nunca conquistará estes poderosos desejos pecaminosos. Você pode ter tentado e fracassado, tão frequentemente, que está cansado da batalha e pronto a desistir. É preciso que fixe a sua fé nAquele que tem poder para capacitá-lo a triunfar na Sua força. Você pode se apropriar da confiante exclamação do apóstolo Paulo: “tudo posso naquele que fortalece” (Fp 4.13). Por mais que seus desejos pecaminosos sejam poderosos e ingovernáveis, fixe sua mente na plenitude da graça de Cristo. Fixe sua mente nos tesouros de força, poder e socorro que estão em Cristo para o seu apoio (veja Jo 1.16; Cl 1.19). Permita que estes pensamentos constantemente encham sua mente.[v]
b)      Pela fé encoraje seu coração na expectativa de alívio da parte de Cristo. Diz Owen:
Esta instrução nos leva a um estágio adiante... Leva-nos da simples crença de que Jesus pode ajudar-nos, para a crença que Ele o fará. A fé se transforma em esperança de uma libertação real. A fé espera no Senhor para vir e ajudar. Ainda que a libertação do Senhor pareça demorar para vir, a fé continua a esperar por ela.[vi]

Para desenvolver esta fé expectante Owen recomenda:
a)      Reflita em Cristo como o seu grande Sumo Sacerdote no céu;
b)      Reflita sobre a fidelidade das promessas de Deus
c)      Reflita nas vantagens que ganhará esperando ajuda de Cristo
E por fim, acrescenta o grande puritano
Fixe sua fé especialmente na morte de Cristo. A razão fundamental para que você mortifique seus desejos pecaminosos é a morte de Cristo. O grande objetivo da morte de Cristo foi destruir as obras do diabo – “o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda a iniqüidade, e purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras” (Tt 2.14). Ele morreu para nos libertar do poder de nossos pecados e para nos purificar de cada desejo pecaminoso que nos macula. Focalize sua fé em Cristo como Ele nos é apresentado no evangelho, morrendo e sendo crucificado por nós. Olhe para Ele quando ora, sangra e morre sob o peso do seu pecado. Pela fé, traga este crucificado Salvador para viver em seu coração (Ef 3.17). Aplique Seu sangue, pela fé, a todos os seus desejos pecaminosos. Faça disso uma prática diária. [vii]

Eles, pois, o (o diabo e o pecado) venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte,
não amaram a própria vida. 
Apocalipse 12:11
Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras [no sangue do Cordeiro], para que lhes assista o direito à árvore da vida, e entrem na cidade pelas portas. 
Apocalipse 22:14

Soli Deo Gloria!

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Notas:
 [i] Entre os Gigantes de Deus, Ed. Fiel, p.217
[ii] O Mal que Habita em Mim, Kris Lundgaard, Cultura Cristã, p. 68
[iii] O Mal que Habita em Mim, p. 81
[iv] A Tentação, A Mortificação, p. 172
[v] Idem, p.173
[vi] Idem, p. 174
[vii] Idem, pp.176,177