segunda-feira, 2 de maio de 2011

Depravação Total - A Triste e Crítica Situação do Homem

Por 
Silas Roberto Nogueira

Efésios 2:1-3


INTRODUÇÃO

À
s vezes alguns questionam a razão pela qual a nossa soteriologia começa com uma questão tão negativa como a da corrupção da natureza humana, o pecado. O fato é que entendemos que esse deve ser o ponto de partida por ser fundamental à questão da salvação. Como falar de redenção sem falar de pecado? J. C. Ryle declarou com acerto que “existem muito poucos erros e doutrinas falsas cujas origens não possam ser vinculadas a pontos de vista incorretos sobre a corrupção da natureza humana. Perspectivas erradas sobre uma doença sempre trarão consigo perspectivas erradas sobre uma cura. Perspectivas erradas sobre a corrupção da natureza humana sempre trarão consigo perspectivas erradas sobre o grandioso antídoto e cura daquela corrupção.” Assim sendo, começamos por aquilo que consideramos fundamental, o estado do homem no pecado. Para expressar com clareza tal situação a teologia reformada usa a expressão “Depravação Total”. Como a expressão tem sido mal entendida, penso que é melhor começar dizendo o que tal expressão não quer dizer:

(1) Não quer dizer que todo homem é tão completamente depravado como poderia chegar a ser, sendo absolutamente depravado.

(2) Não quer dizer que o pecador não tem nenhum conhecimento inato de Deus, nem tampouco tem uma consciência que discerne entre o bem e o mal;

(3) Não quer dizer que o homem pecador raramente admira o caráter e os atos virtuosos dos outros, ou que é incapaz de afetos e atos desinteressados em suas relações com os seus semelhantes;

(4) Também não quer dizer que todos os homens irregenerados, em virtude da sua pecaminosidade inerente, se entregarão a todas as formas de pecado, muitas vezes acontece que uma forma de pecado exclui outra.

Com o uso dessa expressão queremos dizer que quando o homem caiu no pecado lá no Éden, caiu em sua “totalidade”, isto é, toda a personalidade do homem foi afetada pelo pecado, sua vontade, entendimento e afeições. Em outras palavras, o pecado abrange todas as partes da natureza humana, todas as suas faculdades e poderes da alma e do corpo. Isto implica em que o homem é totalmente incapaz de fazer ou desejar qualquer coisa que agrade a Deus e que não pode reverter sua condição por si só. Os arminianianos negam que a queda no pecado tenha sido cabal, eles afirmam que o homem ainda possui uma vontade livre que o capacita a buscar o bem espiritual. A Bíblia depõe em contrário, como veremos. Em Efésios capítulo 2 o apóstolo Paulo dá-nos uma descrição do estado e condição do homem no pecado.

1)    O HOMEM SEM CRISTO ESTÁ ESPIRITUALMENTE MORTO, v.1,5
O homem sem Cristo, na linguagem bíblica, está morto espiritualmente e a primeira coisa que isso nos ensina é que o homem está alienado de Deus, Ef 4.18. Assim como um defunto é separado da comunhão com os homens, um morto espiritual é separado da comunhão com Deus, Is 59.2. Em segundo lugar, tal expressão revela um quadro de total incapacidade espiritual. Em outras palavras, o homem não pode fazer absolutamente nada para sair dessa circunstância (Jr 13.23) e buscar a Deus, Rm 3.11. Depois, essa mesma figura de linguagem ainda expressa o estado de decomposição moral em que se encontra o homem sem Cristo (Ef 4.19; Rm 3.10-18), como um corpo sem vida. 

2)    O HOMEM SEM CRISTO É ESCRAVO, v. 2,3a
O homem sem Cristo, na linguagem bíblica, embora um “livre agente” é escravo, Jo 8.34. O verbo “andar” usado por Paulo tem um sentido ético de caminhar da vida, da maneira como vivem os homens. O incrédulo jamais caminha em direção a Deus, mas cada vez vai mais longe “segundo o curso deste mundo”. Em outras palavras, o homem segue como escravo cumprindo os ditames de uma cultura sem Deus, 1 Jo 5.19 (1 Pe 4.3). Em segundo lugar, estes versículos ensinam que o homem sem Cristo vive sob o domínio do Diabo – “segundo o príncipe da potestade do ar” (2b), Jo 8.44; At 26.18. Com a frase – “do espírito que agora atua (opera)” – o apóstolo intensifica a incapacidade do homem incrédulo de desvencilhar-se das algemas que o prendem. Em terceiro lugar, este texto deixa claro que o homem sem Cristo é satisfeito com seu estado, com sua escravidão – “fazendo a vontade da carne e dos pensamentos” (v.3; Tt 3.3). O que Paulo diz aqui é que o homem sem Cristo cumpre com satisfação os desejos da carne, Jo 3.19; 8.44. Parece-me claro que o incrédulo é incapaz de desejar algum bem espiritual, de agradar a Deus, Rm 3.10-18.

3)    O HOMEM SEM CRISTO É FILHO DA IRA, v. 3b
Em primeiro lugar observe o termo “natureza”, isto se refere ao que é inato no homem, em outras palavras, o pecado se encontra na natureza do homem, Sl 51.5; 58.3; Gn 5.3; Jó 15.14; 25.4; Rm 5.12; 1 Pe 1.18. O homem sem Cristo é por natureza um pecador. Em segundo lugar, este texto deixa claro que a humanidade sem Cristo é objeto da ira de Deus não só pelo que faz, mas também pelo que é, Rm 1.18 segs. Em terceiro lugar o homem é incapaz de mudar aquilo que é por natureza. Dr. Shedd comenta que a frase “filhos da ira” “é um hebraísmo para descrever que não há nenhuma possibilidade de sermos outra coisa, diferente do que éramos. Uma vez filho de alguém não se pode mudar a filiação. Portanto, esta descrição de condenação é completa e total...”.

Conclusão:
O que podemos dizer é que o pecado afetou o homem de modo completo, cabal. O pecado tornou o homem surdo espiritualmente (At 28.27), a sua mente obscurecida (Ef 4.18),  o seu coração depravado e enganoso e as afeições más (Jr 17.9; Mt 13.15), tem desviado os seus pés do caminho (Is 53.6), tem envenenado a sua boca (Rm 3.13,14), maculado os seus desígnios (Gn 6.5), tem dominado a sua vontade (Jo 5.40;Ef 2.3), tem cegado os seus olhos (2 Co 4.4), tem feito da sua justiça trapos de imundícia (Is 64.6) e feito dele um ser inútil (Rm 3.12). Tudo isso se resume em dizer que espiritualmente o homem está morto espiritualmente e o seu livre-arbítrio está morto com ele. Não há nenhuma maneira do cadáver se levantar para a vida, do escravo cortar suas correntes ou alforriar-se a si mesmo, do filho da ira mudar a sua natureza e retirar-se dessa ira. Daí resulta a necessidade de que Deus intervenha. Ele o fez, Paulo deixa bem claro isso na adversativa – “mas”, v.4. Isso deixa evidente a soberania de Deus na nossa salvação, vv.8-10. Eis a boa nova, Deus resolveu salvar o homem que estava perdido enviando Seu Filho amado Jesus Cristo para redimir os Seus eleitos. No nosso próximo estudo trataremos do supremo propósito de Deus- a Eleição Incondicional. 
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Notas da Série de Sermões sobre as Doutrinas da Graça, exposição feita na Comunidade Batista da Graça.