terça-feira, 14 de junho de 2011

Primícias das Suas Criaturas

C. H. Spurgeon


"Segundo a sua vontade ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas " (Tiago 1:18).


O apóstolo Paulo ensinou que a salvação é exclusivamente pela graça. Algumas pessoas dizem que Tiago não concordava com o apóstolo Paulo. Eles dizem que Tiago não ensina que o homem é salvo somente pela fé. Mas certamente, Tiago de fato concordava com Paulo. Ele sabia que tudo que há de bom no homem vem da graça de Deus. Tiago cria que o homem é salvo pela fé, e que a fé é dádiva de Deus. Ele escreveu: "Toda boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes..." (Tiago 1:17). Tiago não ensinou que as boas obras do homem de modo algum ajudam no que diz respeito a salvação, como algumas pessoas afirmam que ele ensinou. Ele dá toda a honra e a glória a Deus.
Eu também quero trazer honra e glória a Deus ao considerar este texto com vocês. O texto fala somente às pessoas que são salvas. Portanto devemos fazer antes de tudo uma divisão. Nem todos os homens são salvos. Nem todos são filhos de Deus. Precisamos sondar nossos corações e perguntar a nós mesmos se somos verdadeiros crentes em Jesus Cristo. Um dia Deus irá fazer uma separação entre os homens. Ele colocará aqueles que são crentes à sua mão direita. Essas pessoas irão aos céus. Ele colocará aqueles que não são crentes em Jesus à Sua mão esquerda. Essas pessoas irão para o inferno.
Vamos falar primeiro a respeito das pessoas mencionadas no texto os filhos de Deus. Em seguida falaremos das responsabi­lidades que temos por sermos filhos de Deus.

1. 0 privilégio que pertence aos filhos de Deus é que eles foram regenerados, nascidos de novo pelo Espírito Santo, através da Palavra de Deus. "Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade" (1 Ped. 1:23). Recebemos muitas bênçãos depois de nascermos de novo. Todas essas bênçãos vêm através da absoluta e graciosa vontade de Deus. Deus não está obrigado a nos abençoar. Ele pode fazer como quiser. Ele pode decidir não nos abençoar de modo algum. Tudo que podemos reivindicar de Deus é justiça, o que significa que Deus deve nos punir pelos nossos pecados.
Estamos nas mãos de Deus, esperando saber o que Ele vai fazer. Se Deus assim desejar, Ele pode salvar toda a humanidade. Ou se Ele quiser, Ele pode decidir não salvar ninguém. Se Deus desejar, Ele pode, na Sua misericórdia, salvar um homem e deixar outro para sofrer a punição pelo seu pecado. Não há injustiça alguma da parte de Deus se Ele assim fizer. É direito soberano de Deus fazer o que Lhe aprouver. Deus diz na Bíblia: "... compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia" (Rom. 9:15-16).
Alguns ficam muito zangados com este ensinamento. A ira deles não muda o fato de que a verdade da soberania de Deus mantém-se firme como uma rocha. Deus não tem que explicar ao homem o que Ele faz. Ele faz o que quer, nos céus e na terra.
A doutrina da soberania de Deus traz grande alegria aos que crêem nEle. Nós nos regozijamos no amor de Deus que nos escolheu para sermos Seus filhos. Deus deixa as pessoas que Ele não escolheu seguirem seus próprios caminhos e perecerem no final. Ele teve misericórdia de nós porque assim o quis, mesmo antes de nós começarmos a orar e procurá-lO. Este propósito eletivo de Deus é precioso. No mundo precisamos pleitear, até com pessoas ricas, antes que elas nos dêem alguma coisa. Não tivemos que implorar a Deus. Todas as coisas preciosas que Ele nos deu, foi "segundo a sua vontade". Deus Se apraz na misericórdia, em dar livremente. O nome de Deus é amor e a natureza de Deus é amor. É natural ao sol enviar luz. É coisa natural Deus enviar a luz de Sua eterna graça.
Louvemos ao Senhor que nos amou quando estávamos mortos em nossas transgressões e pecados. Glorifiquemo-lO pela Sua misericórdia livremente demonstrada a nós. Não merecíamos a misericórdia de Deus. Freqüentemente desprezamos essa miseri­córdia. Alguns de nós resistimos a misericórdia de Deus por longo tempo. Curvemo-nos então humildemente diante do trono de Deus. Vamos agradecer-Lhe pelas Suas misericórdias que duram para sempre. Quão maravilhoso é que, devido Deus assim o desejar, Ele teve compaixão de nós. O grande privilégio que Deus nos concedeu é que, através do poder divino do Espírito Santo, já nascemos de novo.
Nosso primeiro nascimento foi natural. Deus nos fez e nossos corpos são Sua maravilhosa criação. Nosso segundo nascimento foi espiritual. Nascemos de novo, regenerados pelo poder divino do Espírito Santo. Nosso segundo nascimento é uma obra de Deus, tão grande quanto o nosso primeiro nascimento, nossa criação natural. "Segundo a sua vontade" Deus nos deu uma nova vida, e nos fez novas criaturas. Acaso temos a certeza de que nascemos de novo? Sabemos que somos novas criaturas em Cristo?
Talvez às vezes tenhamos dúvidas se somos nascidos de novo. Mas o homem que nasceu de novo sabe que há uma mudança nele. Há vezes quando até aquelas pessoas que duvidam da sua salvação têm certeza que passaram da morte para a vida. Sonde seu próprio coração. Deixe que esta oração venha de seus lábios e coração: "Sonda-me, ó Deus, e prova-me". Devo advertir-lhes que se nada mais têm do que a natureza pode lhes dar, vocês perecerão. Viver uma vida boa e bem comportada não lhes dará uma entrada para o reino de Deus. "Necessário vos é nascer de novo" (João 3:7). Estas palavras estão no portão do céu. Até mesmo as pessoas mais destacadas na Igreja e na nação devem nascer de novo, para serem admitidas no céu. Não importa se vocês viveram uma boa vida ou se desobedeceram abertamente a lei de Deus — precisam nascer de novo. O Espírito Santo deve operar esta transformação sobrenatu­ral em vocês. Esta mudança é o resultado do eterno propósito, poder e amor de Deus.
Aqueles que têm parte deste precioso privilégio são felizes. Embora estivessem mortos em transgressões e em pecado, agora eles estão vivos. Embora fossem carnais e terrenos, agora são espirituais. Eles estavam distanciados, mas agora foram trazidos para perto de Deus. Todos estes privilégios são exclusivamente devidos à soberana vontade de Deus. Se vocês nasceram de novo, agradeçam a Deus de todo o coração e humilhem-se diante dEle.
A maneira que esta mudança foi operada em nossos corações é claramente expressa: "Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade" (Tiago 1:18). Homens são geralmente salvos ao ouvirem o evangelho pregado. Alguns afirmam que a pregação da verdade é eficaz para salvar o homem. Isto não é totalmente verdadeiro. A verdade de Deus pode ser fielmente pregada e ninguém ser convertido. Outros dizem que o Espírito de Deus regenera as pessoas sem se utilizar da Palavra de Deus. Isto também não pode ser verdadeiro. A Bíblia nunca diz que o homem pode ser salvo sem a Palavra de Deus. A Palavra e o Espírito sempre operam juntos. A Bíblia diz: "Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes..." (Heb. 4:12). As Escrituras ensinam claramente que o Espírito de Deus opera através da Palavra de Deus. A Palavra não opera sem o Espírito. "Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem" (Mar. 10:9). Amigo, você foi salvo pela leitura da Palavra de Deus? A Palavra de Deus é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê.
O que é esta Palavra de Deus que traz vida nova à pessoa? A palavra é a pregação da doutrina da cruz. Ninguém jamais nasceu de novo através da pregação da lei. A lei pode tornar um homem mais humilde. A lei pode quebrantar e ferir o homem. Ela poderá mostrar-lhe a punição que receberá como pecador. Contudo, a lei jamais lhe trará vida nova. A Bíblia diz: "... Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados" (II Cor. 5:19). Algumas pessoas removem o sacrifício de Cristo do evangelho. Elas condenam o texto: "... o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo pecado" (I João 1:7). Não deixam nada de evangelho. A palavra "sangue" é uma das mais solenes e importantes palavras em todas as Escrituras. As pessoas não serão salvas se esta doutrina não for pregada.
Se a pregação do evangelho trouxe salvação a você, então pregue-o aos outros. Fale a cada um do fato que Cristo morreu pelos pecadores. Afirme em todo lugar que qualquer um que crer no Senhor Jesus Cristo terá vida eterna. Diga às pessoas que Jesus Cristo foi o substituto dos culpados. Diga-lhes que Ele sofreu pelos pecadores; que a espada da justiça abateu o Pastor para que as ovelhas pudessem ser livres. Declare aos seus ouvintes como o Redentor sofreu a ira de Seu Pai para que os filhos dEle jamais tenham que enfrentar a Sua ira.
Nós crentes em Jesus devemos olhar para trás com gratidão e esperança pelo que Deus fez. "Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade".

2. Devemos pensar na obrigação que pesa sobre aqueles que têm o privilégio de serem salvos.
(I). Uma regra do governo de Deus tanto para aqueles que estão sob o evangelho como os que estão sob a lei, é que muito é esperado da pessoa a quem muito é dado. Nosso texto diz: "Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criatu­ras".
Deus coloca aqueles que Ele salvou em primeiro lugar. Ele lhes dá mais dignidade do que ao resto das criaturas. O Seu povo escolhido é o Seu tesouro especial. Creio que as pessoas mais pobres dentre o povo de Deus são mais importantes do que os homens mais eminentes da terra que não são convertidos. Deus vê Seus santos como jóias na Sua coroa. Ele vê o resto da humanidade como pedras comuns. Deus tem grande prazer em Seu povo. O Seu povo é muito especial para Ele. Portanto o povo de Deus é um povo privilegiado. Contudo, privilégios especiais acarretam obrigações especiais. Quero falar-lhes a respeito dessas obrigações.
Deuteronômio 26:1-4 nos diz que em Israel os primeiros frutos eram recolhidos das colheitas. Em seguida eles eram entregues a Deus. No Novo Testamento, Tiago nos diz que Deus nos salvou para que possamos nos oferecer como uma oferta, como primícias, a Deus. Os israelitas traziam uma cesta das primeiras espigas de trigo, para oferecê-las em sacrifício ao Senhor. Esta oferta das primícias foi ordenada por Deus e é uma obrigação dos crentes de hoje. Temos que entregar ao Senhor uma parte de todo o dinheiro que ganhamos. Espero que vocês já estejam fazendo isso. Não quero falar agora a respeito de dar dinheiro ao Senhor. Tudo que vocês tiverem, e todo o seu tempo pertencem a Deus. Quero, entretanto, falar-lhes a respeito de si mesmos. Toda pessoa redimida deve concordar que foi comprada por um preço. Dizer que é redimido significa que pertence a Cristo. Estão vocês, de fato, vivendo dia após dia como aqueles que vivem para Cristo? Podem dizer honestamente: "Para mim o viver é Cristo"? (Fil. 1:21). Se você não pode dizer isso, meu amigo, você está se portando desonestamente como cristão. Deve examinar seu coração para descobrir o que está errado.
O principal propósito da vida do autêntico cristão deve ser o de tentar expandir o reino de Cristo. O cristão deve também procurar demonstrar a glória de Cristo em sua vida. Se vocês empenham seu tempo servindo a si mesmos, então não são servos de Deus. Se Cristo realmente vive em vocês, desejarão viver para Ele. Muitas pessoas dizem que são cristãs, mas não vivem como cristãs. Elas servem a Deus limitando-se a freqüentar a igreja. A Bíblia nos diz que as nossas obras para Cristo que não são verdadeiras serão queimadas por completo como se fossem madeira, palha ou resto­lho. Até mesmo pregadores podem pregar a mensagem de Cristo com falta de sinceridade. Eles podem estar pregando somente para demonstrarem suas próprias habilidades. Tais pregadores trazem desonra ao nome de Cristo.
Venhamos a Cristo e confessemos nossas faltas. Peçamos graça para que em dias futuros possamos viver somente para Ele, que é o nosso "culto racional" (Rom. 12:1). Nossos espíritos, almas e corpos pertencem a Ele.
(II). A oferta das primícias no Velho Testamento era volun: tária. Não era obrigatório trazer as primícias. Entretanto, se a pessoa não trouxesse as primícias, ela perdia a bênção de Deus. Se trouxesse as primícias, Deus a amava porque era uma pessoa que dava prazerosamente. Peço que vocês se entreguem a Deus com a mesma disposição. Aos cristãos que não se entregaram verdadeiramente, eu digo: "Rogo-vos pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional" (Rom. 12:1). Rogar é uma palavra bem forte. Mas de fato eu "rogo" que vocês se entreguem a Deus. Em breve deixaremos este mundo. Lamentaremos então que perdemos oportunidades de servir ao Senhor. Vocês estão fazendo tudo que podem por Cristo? Jovens, vocês têm certeza que estão usando todas as habilidades que Deus lhes deu? Há algo mais que podem fazer por Cristo? Podemos continuar vivendo vidas vulga­res. No entanto, tudo pode ser feito para a glória de Deus, até o comer e o beber. Qualquer que seja o nosso trabalho, devemos fazê--lo diligentemente e no temor de Deus. Então nosso serviço será aceito por Deus como se fôssemos pregadores do evangelho, os quais estão a serviço de Cristo em tempo integral. Venham como são e entreguem-se com tudo que possuem com alegria a Deus. Façam de vocês mesmos um "sacrifício vivo".
Observem em Deuteronômio 26:4 que o homem trazia as espigas de trigo numa cesta. Ele trazia de livre vontade, porém não era ele quem as oferecia a Deus. "E o sacerdote tomará o cesto da tua mão, e o porá diante do altar do Senhor teu Deus". Nossa oferta deve também ser entregue a Deus por meio de um mediador. Não podemos nos oferecer diretamente a Deus. Devemos vir a Deus através do nosso Mediador, o Senhor Jesus Cristo. Nada que podemos fazer é em si mesmo aceitável a Deus. Cristo deve cobrir tudo que fazemos com Seu próprio mérito. Devemos trazer nossos corações e nossas obras ao Senhor Jesus Cristo, que é o nosso Sumo Sacerdote. Devemos pedir a Cristo que nos tome da maneira que somos e nos ofereça diante do trono eterno de Deus. Quando Cristo faz isso, somos feitos "agradáveis no amado" (Ef. 1:6). Somos aceitos por causa do sangue e da justiça de Cristo.
Depois que as primícias foram oferecidas, parece que o adorador em Deuteronômio, capítulo 26, fazia uma confissão do que ele devia a Deus. O judeu lá permanecia com suas espigas de trigo. Ele confessava que seu pai era "Siro". Por "Siro" ele queria dizer "Abraão". Os descendentes de Abraão emigraram ao Egito. Lá, Deus multiplicou-os e eles se tornaram a nação de Israel. Deus libertou e trouxe os filhos de Israel do Egito, através do deserto, para a terra que Ele lhes havia prometido. O adorador lembrava-se então que à parte da bondade de Deus ele nada tinha. Ele dizia a Deus: "... tudo vem de ti, e da tua mão to damos" (I Crôn. 29:14). Nós também devemos lembrar de tudo que Deus nos tem feito. Por isso, devemos nos entregar de novo e tudo que temos a Deus.
Que privilégio é conhecer o Senhor Jesus Cristo como Salvador por muitos anos. Tivemos muitas experiências em nossas vidas. Fomos muito ingratos e omissos. Mas Deus tem demonstrado fidelidade e benevolência a nós que nada merecemos. Louvemos a Deus pelo Seu amor, pela Sua imutabilidade e pela Sua graça perdoadora. Lembrem-se de todos os pecados que lhes foram perdoados e de toda a graça que receberam. Lembrem-se de todas as orações que foram respondidas. Pensem em todas as provações das quais foram libertos. Pensem em todos os conflitos em que Deus lhes ajudou a ser vitoriosos e ofereçam-se como sacrifícios vivos a Deus. Se você, amigo, nunca negou nada de si para Cristo, faça-o agora. Quanto mais negar a si mesmo e fizer mais por Cristo, tanto mais feliz você será. A religião será um peso ao cristão indiferente, um costume a ser suportado, não um banquete a ser desfrutado.
O adorador seguia seu caminho após ter apresentado seu feixe de trigo. Deuteronômio diz que seu coração ficará alegre, e que ele será abençoado. O fato de que as primícias foram dadas a Deus significava que toda a colheita seria abençoada. Da mesma forma, os crentes hoje em dia são abençoados por Deus e são eles próprios uma bênção para os seus semelhantes.
A Bíblia diz: "Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe, e faça resplandecer o seu rosto sobre nós. Para que se conheça na terra o teu caminho, e em todas as nações a tua salvação" (Sal. 67:1-2). Bênçãos são dadas às nações através do povo de Deus. Lem­brem-se da promessa: "Eu serei para Israel como orvalho; ele florescerá como o lírio, e espalhará as suas raízes como o Líbano" (Os. 14:5). Quando vocês se entregarem completamente a Deus, as pessoas ao seu redor serão abençoadas pela graça que Deus lhes dará. O verdadeiro avivamento começa em casa. Tirem primeiro as ervas daninhas de seus próprios jardins. Capinem seus jardins para que deles possam crescer flores. Se vocês querem que a graça de Deus passe às suas famílias, cuidem para que a graça de Deus esteja em suas próprias vidas. Entreguem-se ao Senhor agora, assim como as cestas de espigas de trigo eram entregues a Ele nos dias do Velho Testamento.
Até aqui estive falando aos filhos de Deus. Não posso falar, porém, da mesma maneira aos que não são filhos de Deus. Se o seu coração, meu ouvinte, não está correto diante de Deus, você não pode fazer oferta alguma a Ele. Deus não aceitaria nenhuma oferta a Ele oferecida que venha de um incrédulo.
No entanto, digo o que você pode fazer, por meio da graça de Deus. Você não pode trazer nada a Ele, mas pode pedir-Lhe algo. Você não pode ser um doador porém pode ser um receptor. Pode receber o amor de Cristo. Cristo apela a você que traga seu coração vazio e necessitado a Ele. Seu mandamento é: "Creia, e viverá". Crer é confiar em Cristo para lhe salvar. Ninguém que já creu em Cristo constatou que Ele não cumpriu a Sua promessa. Que você seja guiado pelo Espírito Santo a vir em confiança ao Salvador, Àquele que uma vez foi morto, mas que agora vive. Daí você dará a Deus todo o seu coração. Você irá então viver para Aquele que morreu por você.

terça-feira, 7 de junho de 2011

PROVAÇÕES

Dr. David Martyn Lloyd-Jones


"Em que vós grandemente vos alegrais, ainda que agora importa, sendo necessário, que estejais por um pouco contristados com várias tentações, para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória na revelação de Jesus Cristo".

I Pedro 1:6-7

Havendo considerado várias razões por que um cristão sofre de depressão espiritual, vamos agora examinar a causa específica que o apóstolo Pedro trata nesta passagem. Não há dúvida de que o seu objetivo ao escrever esta carta, era lidar exatamente com este problema. Ele começa por lembrar estas pessoas de certas coisas, e então vai direto ao assunto. Ele o apresenta falando sobre a grande salvação: "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável, e que se não pode murchar. . . Em que vós", ele diz, "grandemente vos alegrais, ainda que agora importa, sendo necessário, que estejais por um pouco contristados com várias tentações". Essa é sua descri­ção destas pessoas. Elas "grandemente se alegravam" nessa bendita esperança, e no entanto estavam "por um pouco contristados com várias tentações". Aqui novamente, como já vimos em várias ins­tâncias anteriores, a descrição parece ser bastante contraditória. Ele está descrevendo pessoas que ao mesmo tempo se alegram, e estão contristadas. Mas também já vimos que não há nada de contraditó­rio nisso. Podemos, se quisermos, chamar isso de paradoxal, mas não é contraditório. Na verdade, a condição do cristão como é descrita no Novo Testamento parece conter sempre esses dois elementos; estes cristãos a quem o apóstolo escreve estavam ao mesmo tempo "se alegrando grandemente" e também "contristados".
Este é um ponto que devemos esclarecer muito bem, antes de prosseguirmos. Existe uma visão superficial do cristianismo que con­sideraria isso impossível; é a perspectiva a respeito da vida cristã que simplesmente declara que todos os problemas se foram e que agora "sou feliz o tempo todo". Tais pessoas não conseguem aceitar a descrição de Pedro, nem por um momento sequer, e duvidam que qualquer cristão que está "contristado" seja realmente um cristão. Existe uma linha de pensamento a respeito da vida cristã que dá a impressão de que, uma vez tomada a decisão, ou uma vez conver­tido, não há mais ondas nem tempestades no mar da vida. Tudo vai ser perfeito, sem qualquer problema daí para a frente. Bem, a simples resposta a essa visão do cristianismo, é que isso não é o cristianismo do Novo Testamento. Esse é o tipo de coisa que as seitas sempre ofereceram, e que a psicologia moderna está ofere­cendo. Não há nada por que devemos agradecer mais a Deus, do que a honestidade das Escrituras. Elas nos dão a verdade a respeito de nós mesmos e a respeito da vida neste mundo.
Temos que começar, portanto, por compreender que isto é algo estipulado sobre o cristão. Ora, não vamos nos enganar quanto ao significado dessa palavra "contristado". Contristado significa estar entristecido; significa que estamos perturbados. Não significa ape­nas que temos que sofrer certas coisas, mas que esse sofrimento nos entristece. Essas coisas nos perturbam e realmente nos tornam infelizes. Pedro então descreve estas pessoas como apresentando estas duas características ao mesmo tempo, alegres e no entanto contristadas. Encontramos isso frequentemente nas Escrituras. To­memos como exemplo perfeito disso a série de paradoxos que o apóstolo Paulo usa para descrever a si mesmo em II Coríntios capítulo quatro: "Em tudo somos atribulados mas não angustiados;. perplexos, mas não desanimados; perseguidos mas não desampa­rados; abatidos, mas não destruídos; trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus" — e assim por diante. Tais afirmações parecem ser mutuamente exclusivas a princípio, mas não são. Apenas fazem parte do paradoxo da vida cristã. Isto é o mais espantoso no cristão, que ele pode experimentar estas duas coisas ao mesmo tempo. "Se isso é verdade", alguém dirá, "onde está o problema?" O problema está em que falhamos em manter o equilíbrio, e temos a tendência de permitir que essa tristeza nos oprima e realmente nos desanime. O perigo não está em ficarmos temporariamente perturbados com isso, mas em que isso se torne uma atitude predominante da qual não nos consigamos livrar, e que, como resultado, leve as pessoas que nos observam a perceber mais o lado de tristeza em nós do que a atitude de alegria. O que estamos realmente dizendo, e o que precisamos com­preender e lembrar, é que o cristão não é alguém que se tornou imune ao que está acontecendo à sua volta. É necessário enfatizar esta verdade porque há pessoas cuja noção e concepção da vida cristã torna o cristão um ser um tanto inatural. Tristeza e aflição são coisas às quais o cristão está sujeito, e estou pronto a defender o argumento que a ausência de um sentimento de tristeza no cristão em certas circunstâncias não é uma recomendação para a fé cristã. Não é natural, não vem do Novo Testamento, e é uma característica produzida mais pelo estoicismo, ou um estado psicológico produzido por certas seitas, do que pelo cristianismo. Não há nada mais instrutivo ou encorajador, ao ler as Escrituras, do que observar que os santos de Deus estão sujeitos às fraquezas humanas. Conhe­cem a dor e a tristeza, sabem o que é sentir solidão e desaponta­mento.  Temos  exemplos  abundantes  disso  nas  Escrituras;   e  o vemos na vida do apóstolo Paulo, talvez mais do que em qualquer outro. Ele estava sujeito a estas coisas, e não escondia o fato. Ele ainda era muito humano, apesar da sua extraordinária fé e das notáveis experiências que teve em sua comunhão com o Senhor. Pois bem, estas coisas podem ser encontradas ao mesmo tempo, e o cristão jamais deve considerar-se como alguém que está isento de sentimentos naturais. Ele tem algo em si que lhe permite elevar-se acima de todas essas coisas; mas a glória da vida cristã é justa­mente que podemos viver acima destas coisas, ainda que as sintamos. Não é uma ausência de sentimentos ou emoções. Esta é uma linha divisória de extrema importância.
Tendo demonstrado isso, vamos agora considerar por que um cristão se acharia nesta condição de tristeza, "contristado". A res­posta, é claro, está nas "várias tentações". A palavra traduzida como "tentações" realmente significa "provações". Estas pessoas estavam nesse estado de espírito porque estavam enfrentando várias provações. Ora, essa é uma palavra grega muito interessante, tradu­zida aqui como "várias". Obviamente é uma das palavras preferidas do apóstolo Pedro, e ele a usa mais adiante para descrever a graça de Deus, traduzida então como "multiforme". Significa "de muitas cores", como as várias cores do arco-íris. O poeta Shelley tinha isso em mente quando escreveu:
A vida, como um domo de vitrais coloridos, Marca a radiância branca da eternidade.
Esse é o sentido da palavra usada aqui, e o apóstolo diz que eles estavam perturbados porque atravessavam estas várias tentações ou provações. Elas vêm de diferentes formas e cores, em modelos e tamanhos diferentes, e sua variedade não tem fim.
O que são estas provações? Em sua epístola, Pedro deixa bem claro o que tem em mente. Muitos destes cristãos estavam sendo perseguidos. No segundo capítulo lemos: "Amados, peço-vos, como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais que combatem contra a alma; tendo o vosso viver honesto entre os gentios; para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no dia da visitação pelas boas obras que em vós observem." O cristão, por ser cristão, está sujeito a estas coisas no mundo. Porque ele é um novo homem, porque ele nasceu de novo, está inevitavelmente destinado a ser mal-compreendido. Ele é um peregrino, e é como um estrangeiro numa terra estranha. Vive um tipo de vida diferente, tem idéias e costumes diferentes. As pessoas que o observam notam a diferença e não gostam dela; de fato, deixam bem claro que a detestam. Aqueles cristãos primitivos estavam sujeitos a perseguições e pro­vações que os assaltavam dessa maneira.
Temos vários relatos destas provações na Bíblia, e os santos de Deus sempre tiveram que enfrentar esse tipo de coisas. Na verdade, o apóstolo Paulo, escrevendo a Timóteo (II Timóteo 3:12), vai ao ponto de dizer: "E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições". De acordo com as Escrituras, é uma lei que, quanto mais nos aproximamos do Senhor Jesus em nossa vida e nosso estilo de viver, mais proba­bilidades teremos de enfrentar problemas neste mundo. Olhem para Ele — que não cometeu mal algum, nem dolo se achou em Sua boca. Passou Sua vida curando as pessoas, fazendo o bem e pregan­do; e no entanto, vejam a oposição e as provações que teve de enfrentar. Por quê? Porque Ele era quem era. O mundo, no fundo do seu coração, odeia Cristo e odeia os cristãos, porque uma vida santa o condena. O homem do mundo não gosta disso porque o incomoda. O apóstolo sabia o que essas pessoas estavam experi­mentando nas mãos dos perversos, e ele continua no quarto capítulo, expressando-o ainda mais especificamente: "Porque é bastante que no tempo passado da vida fizéssemos a vontade dos gentios, andando em dissoluções, concupiscências, borrachices, glutonarias, bebedices e abomináveis idolatrias; e achando estranho não correrdes com eles no mesmo desenfreamento de dissolução, blasfemando de vós". O mundo estava aborrecido com essas pessoas porque elas tinham abandonado aquele tipo de vida e estavam vivendo a vida cristã. Assim que se tornaram cristãs, passaram a ter problemas com o mundo. Pessoas que antes eram amigáveis começaram a criticá-las, ignorá-las, ou a falar mal delas aos outros.
Essa era uma das coisas que lhes estava causando tristeza. Estavam contristados por causa disso, e é algo que os cristãos têm sido obrigados a suportar através dos séculos. Nada é mais penoso do que este mal-entendido da parte de outras pessoas, e se torna ainda mais difícil se acontece ser alguém muito chegado a nós. Como é difícil quando alguém é o único cristão da família. Este tipo de provação acontece, e se um cristão nunca enfrenta algum tipo de provação, isso sugere que há algo radicalmente errado com seu cristianismo. O apóstolo Paulo experimentou isto constan­temente.  Lembram-se  que  ele  disse:   "Demas  me  abandonou"? Aquilo não foi fácil para Paulo; realmente o perturbou. Teve que enfrentar  seu  julgamento  completamente  sozinho;   pessoas  com quem pensou que podia contar, de repente o abandonaram, e ali estava ele completamente só. "Todos me desampararam". Esse é o tipo de coisa que entristece o cristão, e basta lermos as biografias dos santos de Deus, para encontrarmos isso constantemente. Leiam os diários de John Wesley e descobrirão que ele estava frequente­mente neste estado por causa de mal-entendidos. Isso também é encontrado em larga escala na vida de Charles Haddon Spurgeon, em conexão com uma grande controvérsia na qual ele se achou envolvido. Homens a quem ele tinha considerado amigos, e alguns a quem ele havia instruído às suas próprias custas na faculdade, de repente se afastaram dele. Basta ler seu relato para perceber como ele foi machucado e entristecido. Estava contristado porque homens nos quais pensava poder confiar de repente lhe falharam. Isso sem dúvida encurtou a sua vida. Li nos diários de George Whitefield  recentecente  algo  muito  parecido.  Whitefield  havia experimentado uma época de excepcional proximidade de Cristo e estava se regozijando nisso, mas faz uma observação em seu diário, lembrando que de uma forma estranha tais experiências muitas  vezes  eram  seguidas  por provações  muito  duras,  e  ele escreve: "Sem dúvida estarei sujeito a isso novamente". Ele sabia, era sua experiência; é uma lei quase inevitável na vida do homem de. Deus num mundo de pecado.
Aqui, pois, estavam esses cristãos, sofrendo múltiplas provações. O termo é amplo, e significa qualquer coisa em nossa vida que tende a nos perturbar, algo que nos toca nas áreas mais delicadas e sensíveis do nosso ser, nosso coração, nossa mente, as coisas que tendem a nos abater. Como o apóstolo trata dessa situação? É muito interessante, e é o que devemos fazer se queremos manter esse aspecto duplo da nossa vida cristã. Se vamos continuar nos regozijando, apesar das coisas que nos entristecem, devemos enfren­tá-las da maneira que o apóstolo nos instrui. Qual é seu ensino? A primeira coisa que ele faz é apresentar um grande princípio, e é que devemos compreender por que estas coisas nos acontecem. Essa é a primeira coisa, e quantas vezes precisamos dizer isso a nós mesmos e uns aos outros! Às vezes penso que toda a arte da vida cristã é a arte de fazer perguntas. O perigo que corremos é de permitir que estas coisas nos aconteçam, sem proferir coisa alguma além de, talvez, um gemido, lamento ou reclamação. O que precisa­mos fazer, porém, é descobrir, se pudermos, por que estas coisas estão acontecendo; tentar descobrir a explicação, e em conexão com isto o apóstolo usa os seguintes termos: "Em que vós grandemente vos alegrais, ainda que agora importa, sendo necessário..." "Sendo necessário"! Ah, esse é o segredo. O que ele quer dizer com essa frase? Não há nenhuma dúvida quanto à resposta a essa pergunta. É uma declaração condicional, que podemos traduzir assim: "Por breve tempo, caso isso for necessário". "Se isso for necessário"! Não é apenas uma declaração geral de que num mundo como o nosso tais coisas têm que acontecer. Significa muito mais do que isso. Ele não diz: "Bem, vocês estão se regozijando nessa bendita esperança, ainda que num mundo como este tenham que suportar certas coisas". Isso está correto, é uma grande verdade; mas o apóstolo não encerra o assunto aí. Sua declaração é positiva. Ele diz: "Vocês estão enfrentando essa provação, porque isso é neces­sário no momento". Aqui, então, está nosso princípio: há um propósito definido em tudo isso. Nada disto acontece acidental­mente, nem é algo que ocorre simplesmente por causa de toda a organização da vida. Isso está incluído, mas não é a razão principal. Estas coisas acontecem, diz o apóstolo, porque são boas para nós, porque fazem parte da nossa disciplina nesta vida, e neste mundo, e porque — vamos deixar isso bem claro — Deus assim o deter­minou.
Essa é a doutrina do apóstolo, e é doutrina de todo o Novo Testamento, e certamente é a doutrina dos santos através dos séculos. Em outras palavras, devemos olhar para a vida cristã desta maneira. Estamos andando através deste mundo sob o olhar do nosso Pai celestial. Essa é a coisa fundamental;  o cristão deve pensar em si mesmo como alguém que está envolvido num rela­cionamento peculiar com Deus. Isso não pode ser dito de alguém que não é cristão. Há um plano e propósito muito definido para a minha vida; Deus me adotou e me colocou em Sua família. Para quê? Para que possa me levar à perfeição. Esse é Seu objetivo — "para sermos (mais e mais) conformes à imagem do Seu amado Filho". É isso que Ele está fazendo. O Senhor Jesus Cristo está trazendo muitos filhos a Deus, dizendo: "Eis-me aqui, e os filhos que me deste". Se não começarmos com esse conceito fundamental de nós mesmos como cristãos, iremos nos desviar, e certamente não entenderemos estas coisas.
A doutrina das Escrituras é, no mínimo, que Deus permite que estas coisas aconteçam conosco. Digo mais:  Deus às vezes determina que estas coisas aconteçam para o nosso bem. Ele às vezes o faz para nos disciplinar. Ele nos disciplina devido aos nossos fracassos ou à nossa irresponsabilidade. Examinamos no capítulo anterior a falha de muitos cristãos em disciplinar a si mesmos. Pedro exorta os cristãos a se disciplinarem, a "acrescenta­rem à sua fé", a guarnecê-la, a não se contentarem simplesmente com o mínimo, mas permitir que sua fé se expanda em todas as direções. Pode ser que não prestamos atenção a essa exortação, persistindo em nossa frouxidão e indolência. Bem, pela maneira que compreendo  a  doutrina  do  Novo  Testamento,  se fizermos isso, não devemos nos surpreender se certas coisas começarem a nos acontecer. Não devemos nos surpreender se Deus começar a nos disciplinar. Vejam a força do argumento de Hebreus, capítulo 12: "Porque o Senhor corrige o que ama". Se vocês nunca foram corrigidos pelo Senhor, eu até mesmo duvido que sejam realmente cristãos. Se podem dizer que, desde que creram, nunca tiveram qualquer problema, sua experiência provavelmente é psicológica e não espiritual. Há um realismo no cristianismo, como eu já disse, e vai ao ponto de ensinar que Deus — para o nosso próprio bem — nos corrigirá se não prestarmos atenção às exortações e aos apelos das Escrituras. Deus também tem outros métodos. Ele não faz estas coisas com aqueles que estão fora da família, mas se são Seus filhos, Ele os corrigirá para o seu próprio bem. Então talvez estejamos enfrentando várias provações como parte da disci­plina de Deus. Não estou dizendo que é inevitável — estou dizendo que pode ser assim.
Mas às vezes Deus faz isso conosco com o objetivo de nos preparar para algo. É uma regra das Escrituras, uma regra que é confirmada e exemplificada pela longa história da Igreja e seus santos, que quando Deus tem uma tarefa particularmente grande ou difícil para um homem, Ele geralmente o prova. Não importa que biografia escolhamos, podemos examinar a vida de qualquer homem que foi usado por Deus de forma notável, e descobriremos que houve um período de severos testes e provações em sua expe­riência. É como se Deus não Se arriscasse a usar um homem assim sem primeiro estar certo e seguro ao seu respeito. Então, alguém talvez tenha que passar por este tipo de experiência devido a uma tarefa especial que está à sua frente. Observem José e as coisas que aconteceram com ele. Poderiam imaginar um tipo de vida mais triste e desalentador? Todos pareciam estar contra ele. Seus próprios irmãos lhe tinham inveja e tentaram se livrar dele. Foi levado ao Egito, e lá as pessoas se voltaram contra ele. Nada fez de errado, mas por ser o que era, tudo se voltou contra ele. Mas em tudo isso Deus estava apenas preparando Seu servo para a grande posição que tinha para ele. E foi assim com todos os grandes homens da Bíblia. Vejam o sofrimento de um homem como David. Digo mais: olhem para a vida de qualquer um deles e descobrirão que foi cheia de provações e dificuldades. O apóstolo Paulo não foi exceção. Observem a lista de seus sofrimentos e provações em Sua Segunda Epístola aos Coríntios, capítulos onze e doze. Sempre tem sido assim.
Parece também, a julgar pelos ensinamentos das Escrituras e as vidas dos santos, que Deus às vezes prepara um homem para uma grande provação desta maneira. Quero dizer que Ele o prepara para uma grande provação através de provações menores. É nisso que posso ver o amor de Deus brilhando gloriosamente. Há certas grandes provações que surgem na vida, e seria terrível para alguém ser lançado nelas repentinamente, de uma vida calma e tranquila. Então Deus, às vezes, em Sua ternura e amor, envia provações menores para nos preparar para as maiores. "Sendo necessário": se se provar necessário, se Deus, olhando para nós como nosso Pai, perceber que isso é justamente o que necessitamos no momento. Assim começamos com esse grande princípio, que Deus sabe o que é melhor para nós, e o que é necessário. Nós não podemos ver, mas Deus sempre vê, e, como nosso Pai celestial, Ele vê a necessidade e prescreve a provação adequada, que irá resultar para o nosso bem.
Agora vamos passar para o segundo princípio, que é o precioso caráter da fé. Pedro diz no sétimo versículo que essas coisas aconte­ceram — essas "várias tentações" — para que "a prova da Vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória na revelação de Jesus Cristo". Como isso é importante — o precioso caráter da fé! Ele ressalta isso em sua comparação com o ouro. "Olhem para o ouro", ele diz. "O ouro é precioso, mas não tão precioso quanto a fé". Como ele estabelece isso? Ele mostra que o ouro é algo que um dia vai desaparecer. É apenas temporário, não há nada de permanente nele, ainda que seja maravilhoso e de muito valor. Mas a fé é eterna. O ouro vai perecer, mas a fé permanecerá. A. fé é algo que é duradouro e eterno. Aquilo através do que vivemos, diz o apóstolo, é o que é responsável por estarmos na vida cristã. Vocês estão nesta posição de fé, ele diz, e não percebem como isto é maravilhoso e admirável. Andamos pela fé, toda a nossa vida é uma questão de fé, e aos olhos de Deus isso é tão precioso, tão maravilhoso, que Deus quer que seja absolutamente puro. Purifica­mos o ouro através do fogo. Eliminamos todas as impurezas ao colocar o ouro no crisol, ou na fundição, submetendo-o a um alto grau de calor; assim tudo que é impuro é removido, permanecendo apenas o ouro. Seu argumento, então, é que se fazemos isso com o ouro que perece, quanto mais precisa ser feito com a fé. Fé é esse princípio extraordinário que liga o homem a Deus; é o que livra o homem do inferno e o leva para o céu; é a conexão entre este mundo e o mundo por vir; a fé é esse elemento místico e admirável que pode tomar um homem morto em delitos e pecados, e fazer dele uma nova criatura, um novo homem em Cristo Jesus. É por isso que é tão preciosa. É tão preciosa que Deus quer que seja absoluta­mente perfeita. Esse é o argumento do apóstolo. Então, enfrentamos essas várias tentações e provações por causa do caráter da fé.
Quero expressar isso de forma um pouco diferente. Vimos que nossa fé precisa ser aperfeiçoada. Portanto, devem existir níveis de fé. Há diferenças na qualidade da fé. A fé é multiforme. No princípio, em geral temos muita mistura no que chamamos de nossa fé; há muito da carne nela, ainda que não tenhamos cons­ciência disso. E à medida que aprendemos essas coisas, e progre­dimos nesse processo, Deus nos faz passar por períodos de testes. Ele nos testa através de provações, como se fosse pelo fogo, para que as coisas que não pertencem à essência da fé sejam eliminadas. Podemos achar que a nossa fé é perfeita, e que podemos enfrentar qualquer coisa. Mas de repente surge uma provação, e nós falhamos. Por quê? Bem, isso é uma indicação de que o elemento de confiança em nossa fé precisa ser desenvolvido; e Deus desenvolve a confiança em nossa fé mediante essas provações. Quanto mais enfrentamos estas coisas, mais aprendemos a confiar em Deus. Nós confiamos nEle naturalmente quando tudo vai bem, mas chega o dia quando as nuvens escurecem os céus, e começamos a questionar se Deus ainda nos ama e se a vida cristã é realmente o que imaginávamos. Ah, nossa fé ainda não tinha desenvolvido o elemento da confiança, e por isso Deus trata conosco nesta vida de forma a nos levar a confiar nEle nas trevas, quando não podemos ver luz alguma, e cara nos levar ao ponto em que possamos dizer com confiança:
Quando tudo parece estar contra nós, Para nos levar ao desespero, Sabemos que há uma porta aberta, E um ouvido que escuta nossa oração.
Isso é verdadeira fé, isso é confiança real. Observem um homem como Abraão. Deus tratou com ele de tal forma que ele pôde "esperar contra a esperança", Ele confiou em Deus de forma total e absoluta, quando todas as aparências indicavam o contrário. E isso precisa ser desenvolvido em nós. Não começamos assim, mas ao atravessarmos essas experiências descobrimos que "por trás de uma providência carrancuda, Ele esconde o rosto de um Pai", e quando as provações voltam, permanecemos calmos e controlados. Podemos dizer: "Sim, eu sei que não posso ver o sol, mas sei que ele está lá. Sei que atrás das nuvens o rosto de Deus está voltado para mim". É por meio dessas provações que esse elemento de confiança é desenvolvido em nós.
É exatamente o mesmo com o elemento de paciência, ou perse­verança, a capacidade de perseverar e ir em frente apesar de desâ­nimo e abatimento. Esse é um dos maiores testes que um cristão pode enfrentar. Não somos pacientes por natureza. Começamos a vida cristã como crianças, querendo tudo de uma vez; e se não o recebemos, ficamos impacientes e começamos a resmungar, recla­mamos e ficamos emburrados como crianças. Isso é porque nos falta paciência e perseverança. Não há nada que as epístolas do Novo Testamento enfatizem mais do que esta qualidade de perseverar, quer as coisas estejam indo bem ou não. Devemos perseverar dizendo: "Deus sabe o que é melhor para mim. Vou confiar nEle". "Ainda que ele me mate, nele esperarei". Isso é perseverança, e é à medida que somos testados e provados que todos esses outros elementos que devem "guarnecer" a nossa fé se desenvolvem e são aperfeiçoados.
Quero então expressá-lo num princípio final e geral, desta forma. Estas provações são essenciais, diz Pedro, para demonstrar a autenticidade da nossa fé. A frase que ele usa é: "Para que a prova da vossa fé". Ora, a palavra "prova" aqui tem o sentido de "a confirmação dela". O quadro que ele tem em mente, é o de um teste aplicado a algo, e depois que o produto é testado, recebe um certificado. Por exemplo, o veredito de um anel pode ser: "Sim, é ouro 18 quilates". É esse o sentido de "provação". Ele não está interessado no processo em si; a provação é o certificado de confirmação, declarando a autenticidade da nossa fé. O caráter aprovado da nossa fé se manifesta dessa maneira. É por isso que tais coisas acontecem conosco.
Certamente isto é bastante óbvio. É a maneira que enfrentamos as provações que realmente atesta a nossa fé. Vocês se lembram como o Senhor, na parábola do semeador, descreve a semente que cai entre os espinhos? Parecia prometer uma grande colheita, mas esta não se concretizou porque outras coisas sufocaram a Palavra. O Senhor interpretou isso como sendo comparável à maneira como as provações vêm e esmagam e sufocam a Palavra, de forma que nunca venha a frutificar. A princípio parece maravilhoso, mas não perdura. As provações mostram que era uma fé espúria, que não era real nem genuína. Não há nada que confirme a auten­ticidade da fé mais do que a paciência e perseverança da pessoa, sua capacidade de prosseguir apesar de tudo. Esse é o ensino de nosso Senhor, e é o ensino de todo o Novo Testamento.
Não há nada que seja mais maravilhoso na vida dos maiores cristãos, do que isso — a maneira como eles permaneceram firmes como rochas quando todos à sua volta sucumbiam. É a gloriosa história dos mártires e dos grandes proclamadores do cristianismo. Eles enfrentaram provações, mas ficaram firmes no que sabiam ser a verdade de Deus, sem se importar com as consequências, e prosseguiram com sua fé brilhando gloriosamente. Ora, estas coisas estão acontecendo com vocês, diz Pedro, para que a autenticidade da sua fé seja evidente a todos. Cristãos que desistem não são uma boa recomendação à fé cristã; quem começa bem mas não prossegue, torna-se uma desgraça para a fé. O que revela a diferença entre o falso e o verdadeiro, o espúrio e o real, é a capacidade de suportar o teste. "Nem tudo que brilha é ouro". Como provamos ouro? Colocando-o no crisol e acendendo o fogo debaixo dele. Veremos que as impurezas serão eliminadas enquanto o ouro per­manece, muito mais puro do que antes. Estas coisas acontecem conosco para que a autenticidade da nossa fé seja revelada. E essa é, no final das contas, a coisa mais importante de todas!
Permitam-me acrescentar mais uma palavra sobre o que Pedro diz para nosso encorajamento. Qual é a consolação? É que, ainda que essas coisas aconteçam conosco, elas apenas acontecem "por um pouco". "Em que vós grandemente vos alegrais, ainda que agora importa, sendo necessário..." Não pensem que estou ensinando que esta condição de testes e provações seja algo permanente para o cristão. Não é. Estas coisas vêm e vão, de acordo com o propósito de Deus. Nunca seremos provados e testados a não ser para o nosso próprio bem, e à medida que respondemos à lição, Deus decreta o fim do teste. Ele não nos mantém permanentemente sob provações. Como Whitefield disse, estas coisas se alternam, e Deus sabe exatamente como enviá-las, e quando. E podemos ter certeza, como o apóstolo Paulo, que "não veio sobre vós tentação, senão humana: mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar" (I Coríntios 10:13). Ele é o nosso Pai amoroso, e sabe quanto podemos suportar e enfrentar. Ele nunca nos enviará algo que seja demais para nós; pois sabe a quantidade certa, e permitirá apenas a quantidade certa, e quando tivermos aprendido, decretará um fim à provação. É apenas "por um pouco". Será que estas palavras estão chegando a um. cristão aqui abatido e sobrecarregado? Tudo lhe parece ser escuridão e trevas? Você, meu irmão, não tem a liberdade em oração que já teve um dia? Sente que quase perdeu sua fé? Não fique perturbado. Você está nas mãos do seu Pai. Talvez um período maravilhoso esteja para começar em sua vida; Ele talvez tenha uma bênção muito especial para você, ou uma tarefa extraordinária para você realizar. Não fique abatido — é apenas "por um pouco". Você está nas mãos do seu Pai amoroso, então confie nEle e vá em frente. Prossiga, dizendo: "Eu me contento em estar nas Tuas mãos. Fazer a Tua vontade, é toda a minha vontade".
A segunda coisa é esta. Ao atravessar este período de tristeza, lembrem-se das coisas nas quais vocês exultar!. Isso é algo que todos devemos fazer. O problema é que, quando essas provações nos sobrevêm, nossa tendência é ver somente as provações, nada mais senão nuvens. Em períodos assim, devemos nos lembrar do terceiro versículo deste capítulo. Quando não podemos ver coisa alguma, devemos abrir as Escrituras e começar a ler isto. Ainda que não vejam nada senão trevas no momento, devem lembrar-se disso, e dizer: "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo" — isso sabemos que é sempre verdade; "que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável, e que se não pode murchar, guar­dada nos céus para vós, que mediante a fé estais guardados pelo poder de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo". Devemos nos lembrar disso, e dizer: "Sim, estas coisas estão acontecendo, estas provações estão me acometendo de todo lado. Estão vindo de todas as direções, mas não vou me abater debaixo delas, nem me lamentar. Não; em vez disso, direi — eu sei que Deus é bom, sei que Cristo morreu por mim, sei que pertenço a Deus, sei que minha herança está no céu; não posso vê-la, mas sei que está lá; sei que Deus a está guardando, e ninguém jamais a tirará de Suas poderosas mãos". Digam isso a si mesmos. Lembrem-se das coisas em que vocês se regozijam —• ainda que agora, por um pouco, se necessário, vocês estejam enfrentando várias tentações.
Vamos então considerar a declaração final, que é esta: "Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória na revelação de Jesus Cristo." Ele virá; não sei quando, mas sei que virá — "o dia de Jesus Cristo" — e eu estarei lá. Sei, portanto, que tudo que acontece em minha vida e neste mundo tem isso como objetivo final. Vai ser um grande dia! Lembrem-se do que Paulo diz, ao escrever sobre pregadores. Ele falou de si mesmo, e de Apolo e outros, em I Coríntios, capítulo 3, e declarou que todo homem edifica sobre um fundamento. Alguns edificam com feno, madeira e palha; outros edificam cuidadosamente, com materiais sólidos, e Paulo diz que "o dia a declarará". A obra de todo homem será provada, e provada pelo fogo. E há muita coisa que vai se desfazer em fumaça. "O dia a declarará". "O dia" vai declarar quem edificou solidamente, e quem edificou apressadamente ou com o material inferior. "Todavia", diz Paulo, "a mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós, ou por algum juízo humano; nem eu tão pouco a mim mesmo me julgo." Ele confiara todo julgamento a Deus, e sabia que uma declaração seria feita no dia da revelação de Jesus Cristo (I Coríntios 4: 1-5).
Isso, diz Pedro, é o que devem aguardar. Quando o grande dia chegar, a autenticidade da sua fé vai se manifestar. Haverá louvor e honra e glória. Essa sua pequena fé, a fé que vocês pensam ser tão ínfima, vai se revelar como algo tremendo. Ela resistiu ao teste, e irá ministrar para louvor, e honra, e glória. Honra, louvor e glória de quem? Em primeiro lugar e antes de tudo, dEle. Já citei esta passagem antes. O Senhor Jesus Cristo diz: "Eis aqui estou, e os filhos que me deste". Ele olhará naquele grande dia com satisfação para os cristãos, aqueles a quem Ele chamou. Eles passa­ram por grandes tribulações, mas resistiram ao teste, e não falharam. Ele olhará para eles, e terá orgulho deles. Eles serão Sua glória, louvor e honra no grande dia que está por vir.
Outrossim, será também para a nossa honra, e louvor, e glória sua e minha. Vamos participar dessa glória, e vamos ouví-lO dizendo: "Bem está, servo bom e fiel; entra no gozo do teu Senhor". Ele nos revestirá com a Sua glória, e passaremos a eternidade usufruindo-a com Ele; e quanto maior e mais genuína a nossa fé, maior será a nossa glória. "Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal" (II Coríntios 5:10). Haverá um julgamento de recompensas, e será de acordo com a nossa fé e a maneira como resistimos aos testes que seremos recompensados.
Podemos estar contristados por muitas tentações e provações no tempo presente, chorando enquanto prosseguimos. Mas não importa. Temos a promessa de que o dia vai chegar quando "o Cordeiro que está no meio do trono. . . nos guiará às fontes de águas vivas" e que Deus mesmo "enxugará as lágrimas dos nossos olhos", e estaremos com Ele em glória eterna.
Essa é a maneira cristã de enfrentar provações. Graças a Deus que estamos em Suas mãos. É o Seu caminho de salvação, e não o nosso. Vamos nos submeter a Deus, contentando-nos em estar em Suas mãos, e dizendo a Ele: "Mande o que quiseres, nossa única preocupação é que sejamos sempre agradáveis aos Teus olhos".