quinta-feira, 28 de julho de 2011

A GRAÇA DE DEUS

A. W. Pink

Esta perfeição do caráter divino só é exercida em favor dos eleitos. Nem no Velho Testamento nem no Novo jamais se men­ciona a graça de Deus em conexão com a humanidade em geral, e muito menos com as ordens inferiores das Suas criaturas. Nisto a graça se distingue da "misericórdia", pois a misericórdia é "... sobre todas as suas obras1' (Salmo 145:9). A graça é a única fonte da qual fluem a boa vontade, o amor e a salvação de Deus para o Seu povo escolhido. Este atributo do caráter divino foi definido por Abraham Booth em seu proveitoso livro, The Reign of Grace — O Reino da Graça, assim: "É o livre, absoluto e eterno favor de Deus, manifesto na concessão de bênçãos espirituais e eternas a culpados e indignos.
A graça divina é o soberano e salvador favor de Deus exercido na dádiva de bênçãos a pessoas que não têm em si mérito nenhum, e pelas quais não se exige delas nenhuma compensação. Não apenas isso, é ainda mais; é o favor de Deus demonstrado a pessoas que, não só não possuem merecimentos próprios, mas são totalmente merecedoras do inferno. É completamente imere­cida, não é procurada de modo nenhum e não é atraída por nada que haja nos objetos aos quais é dada, por nada que deles pro­venha, e tampouco pelos próprios objetos. A graça não pode ser comprada, nem obtida, nem conquistada pela criatura. Se pudes­se, deixaria de ser graça. Quando dizemos que uma coisa é "de graça", queremos dizer que seu recebedor não tem direitos sobre ela, que de maneira nenhuma ela lhe era devida. Chega-lhe como pura caridade e, a princípio, não solicitada nem desejada.
A mais completa exposição da maravilhosa graça de Deus acha-se nas epístolas do apóstolo Paulo. Em seus escritos "graça" está em direta oposição a obras e merecimento, todas as obras e todo merecimento, de qualquer espécie ou grau. Vê-se isto com muita clareza em Romanos 11:6, na versão utilizada pelo autor: "E se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se é por obras, já não é pela graça; de outra maneira, as obras já não são obras". É tão impossível unir a graça e as obras, como o é unir um ácido e um álcali. "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie (Efésios 2:8-9). O absoluto favor de Deus não pode harmonizar-se com o mérito humano, mais do que o óleo e a água fundir-se num só elemento. Ver também Romanos 4:4-5.
São três às principais características da graça divina: primei­ra, é eterna. A graça foi planejada antes de ser exercida, e fez parte do propósito divino antes de ser infundida: "Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos" (2 Timóteo 1:9). Segunda, é livre, ou gratuita, pois ninguém a pôde comprar jamais: “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça..." (Ro­manos 3:24. Terceira, ê soberana, porque Deus a exerce em favor daqueles a quem Lhe apraz, e a estes a concede: "Para que... também a graça reinasse..." (Romanos 5:21). Se a graça "reina", ocupa um trono, e o ocupante do trono é soberano. Daí o "...   trono da graça..." (Hebreus 4:16).
Exatamente porque a graça é um favor imerecido, exerce-se necessariamente de maneira soberana. Portanto, o Senhor declara: "Terei misericórdia" (ou graça) "...de quem eu tiver misericór­dia,..'" (Êxodo 33:19). Se Deus mostrasse graça a todos os des­cendentes de Adão, os homens logo concluiriam que Ele, sendo justo, estava compelido a levá-los para o céu como uma razoável compensação por ter deixado a raça humana cair em pecado. Mas o grande Deus não está sob nenhuma obrigação para com nenhu­ma de Suas criaturas, menos ainda para com os que são rebeldes contra Ele.
A vida eterna é um dom e, portanto, não pode ser obtida pelas boas obras, nem reivindicada como um direito. Vendo que a salvação é um "dom", quem tem direito de dizer a Deus a quem Ele deve doá-lo? Não é que o Doador recusa este dom a qualquer que o busque de todo coração e de acordo com as re­gras que Ele prescreveu. Não; Ele não o recusa a ninguém que O busca de mãos vazias e da maneira determinada por Ele. Mas, se de um mundo impenitente e incrédulo Deus está resolvido a exercer o Seu direito soberano escolhendo um número limitado de pessoas para serem salvas, quem sai prejudicado? Estará Deus obrigado a impor o Seu dom aos que não lhe dão valor? Estará Deus compelido a salvar os que estão determinados a seguir o seu próprio caminho!
Nada, porém, enraivece mais o homem natural e mais con­tribui para trazer à tona a sua inata e inveterada inimizade con­tra Deus, do que insistir com ele sobre a eternidade, a gratuidade e a absoluta soberania da graça divina. Dizer que Deus formou Seu propósito desde a eternidade, sem nenhuma consulta à cria­tura, é demasiadamente humilhante para o coração não quebrantado Dizer que a graça não pode ser adquirida ou conquistada pelos esforços do homem, esvazia demais o ego dos que confiam em sua justiça própria. E o fato de que a graça separa os que ela quer para serem os objetos do seu favor, provoca acalorados protestos  dos  rebeldes  arrogantes.  O  barro se  levanta  contra  o Oleiro e pergunta: "Por que Tu me fizeste assim?'   Um rebelde infrator da lei atreve-se a questionar a justiça da soberania divina. Vê-se a distintiva graça de Deus no ato de salvar aqueles que Ele separou  soberanamente  para  serem os  Seus  favoritos.  Com "distintiva" queremos dizer que a graça discrimina, faz diferenças   escolhe alguns e deixa de lado outros. Foi a distintiva graça de Deus que separou Abraão dentre os seus vizinhos idolatras e fez dele "o amigo de Deus". Foi a distintiva graça que salvou "publicanos e  pecadores", mas disse acerca dos fariseus: Deixai-os"   (Mateus   15:14).  Em parte nenhuma a glória da livre e soberana graça de  Deus  fulge mais conspicuamente  do que na indignidade e diversidade dos que a recebem. Esta verdade foi belamente ilustrada por James Hervey (1751):
"Onde o pecado abundou, diz a proclamação do tribunal do céu superabundou a graça. Manasses foi um monstro cruel, pois fez passar seus próprios filhos pelo fogo, e encheu Jerusalém de sangue inocente. Manasses foi-perito em iniqüidade, pois, não só multiplicou, chegando a extremos extravagantes, as suas impiedades sacrílegas, como também envenenou os princípios e perver­teu os costumes dos seus súditos, fazendo-os agir pior do que os pagãos idolatras mais detestáveis. Veja 2 Crônicas 33. Contudo, através desta super abundante graça, ele se humilhou, mudou de vida, e se tornou um filho do amor que perdoa e um herdeiro da glória imortal.
"Vede Saulo, aquele perseguidor cruel e sanguinário, quan­do, respirando ameaças e disposto à matança, atormentava as ove­lhas de Jesus e levava à morte os Seus discípulos. A devastação que causara e as famílias inofensivas que arruinara, não eram su­ficientes para mitigar o seu espírito vingativo. Eram apenas uma amostra para o paladar que, em vez de saciar a sede de sangue, fizeram-no seguir mais de perto a presa e ansiar mais ardentemente pela destruição. Continuava sedento de violência e morte. Tão ávida e insaciável era sua sede, que chegava a respirar amea­ças e mortes (Atos 9:1). Suas palavras eram verdadeiras lanças e flechas, e a sua língua, uma espada afiada. Para ele, ameaçar os cristãos era tão natural como respirar. Nos propósitos do seu coração rancoroso, eles não paravam de sangrar. Só devido à falta de poder é que cada sílaba que proferia e cada sopro da sua respiração não espalhavam mais mortes nem faziam cair mais discípulos inocentes. Quem, segundo os princípios da justiça hu­mana, não o teria pronunciado vaso da ira, destinado a inevitável condenação? E mais, quem não estaria pronto a concluir que, se houvesse cadeias mais pesadas e masmorra mais triste no mundo das torturas, certamente se reservariam para tão implacável ini­migo da verdadeira religiosidade? Entretanto, admirai e adorai os inexauríveis tesouros da graça — este Saulo é admitido na santa comunhão dos profetas, é enumerado com o nobre exército de mártires e faz distinguida figura no glorioso colégio dos apóstolos.
"Era proverbial a maldade dos coríntios. Alguns deles cha­furdavam em tão abomináveis libertinagens, e estavam habituados a tão ultrajantes atos de injustiça que eram uma infâmia até para a natureza humana. Contudo, até mesmo esses filhos da violência e escravos do sensualismo foram lavados, santificados, justificados (1 Coríntios 6:9-11). "Lavados" no sangue precioso do Redentor que deu Sua vida; "santificados" pelas poderosas operações do bendito Espírito; "justificados" através das misericórdias infini­tamente ternas do Deus da graça. Os que outrora foram um afli­tivo fardo para a terra, vieram a ser o júbilo do céu, o encanto dos anjos".
Agora, a graça de Deus se manifesta no Senhor Jesus Cristo, por Ele e através dEle.-"Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo (João 1:17). Isto não significa que Deus nunca exercera a Sua graça em favor de al­guém antes de encarnar-Se o Seu Filho, Gênesis 6:8; Êxodo 33:19; etc; mostram que a verdade é outra. Mas a graça e a verdade foram plenamente reveladas e perfeitamente exemplifica­das quando o Redentor veio a esta terra e morreu na cruz por Seu povo. Ê somente através de Cristo, o Mediador, que a graça de Deus flui para os Seus eleitos. "Muito mais a graça de Deus e o dom pela graça, que é dum só homem (ou "por um SÓ ho­mem"), Jesus Cristo... muito mais os que recebem a abundância da graça, e o dom da justiça, reinarão em vida por um só — Jesus Cristo ... para que ... também a graça reinasse pela jus­tiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor" (Roma­nos 5:15, 17, 21).
A graça de Deus é proclamada no evangelho  (Atos 20:24), o qual é para o judeu confiante em sua justiça própria um "es­cândalo" (ou "pedra de tropeço"), e para o grego presunçoso e filósofo   "loucura". Por quê? Porque não há nada no evangelho que se preste para gratificar o orgulho do homem. Ele anuncia que se não formos salvos pela graça, não seremos salvos de modo nenhum. Ele declara que, fora de Cristo - o Dom inefável da graça de Deus — o estado de todos os homens é desesperador, irremediável, sem esperança. O evangelho trata os homens como criminosos culpados, condenados e mortos. Declara que o mora­lista mais puro está na mesma condição terrível em que se acha o libertino mais  voluptuoso;  que o religioso confesso e zeloso, com todas as suas práticas religiosas, não é melhor do que o mais profano infiel.
O evangelho considera a todo descendente de Adão como pe­cador decaído, corrupto, merecedor do inferno e desvalido. A gra­ça que o evangelho divulga é a sua única esperança. Todos per­manecem diante de Deus como réus sentenciados, transgressores da Sua santa lei, como criminosos culpados e condenados, não a espera de alguma sentença, mas esperando a execução da sentença já passada sobre eles (João 3:18; Romanos 3:19). Queixar-se da parcialidade da graça é suicídio. Se o pecador insiste em que se lhe faça a pura justiça, então o "lago de fogo" terá que ser o seu quinhão eterno. Sua única esperança está em render-se a sen­tença que a justiça divina lhe passou, apropriar-se da retidão abso­luta que a caracteriza, lançar-se à misericórdia de Deus, e esten­der mãos vazias para servir-se da graça de Deus, que agora chegou a conhecer por meio do evangelho.
A terceira pessoa da Deidade é o comunicador da graça  pelo que e denominado "... o Espírito de graça... " (Zacarias 12-10) Deus, o Pai, é a fonte de toda graça, pois Ele em Si mesmo deter­minou a aliança eterna da redenção. Deus, o Filho, é o único canal da graça. O evangelho é o divulgador da graça. O Espírito é o doador. Ele aplica o evangelho com poder salvador à alma vivificando os eleitos enquanto ainda mortos, dominando as suas von­tades rebeldes, amolecendo os seus duros corações,  abrindo-lhes os olhos da sua cegueira, limpando-os da lepra do pecado   Pode­mos assim dizer com G. S. Bishop (já falecido): «A graça é uma provisão para homens que se acham tão decaídos que não podem erguer o machado da justiça, tão corruptos que não podem mudar as suas próprias naturezas, tão contrários a Deus que não podem voltar para Ele, tão cegos que não podem vê-10, tão surdos que não podem ouvi-1O, e tão mortos que Ele mesmo precisa abrir os seus túmulos e levantá-los para a ressurreição".



sábado, 9 de julho de 2011

O MATERIALISMO

D. M. Lloyd-Jones 

Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e ficam como únicos moradores no meio da terra! A meus ouvidos disse o SENHOR dos Exércitos: Em verdade, muitas casas ficarão desertas, até as grandes e belas, sem moradores. E dez jeiras de vinha não darão mais do que um bato, e um ômer cheio de semente não dará mais do que um efa. 

(Isaías 5:8-10)


Vimos que Isaías, no seu quinto capítulo, entregou uma mensagem a seus contemporâneos, os filhos de Israel, na forma de um poema ou quadro. Ele começa apresentando o caso e depois procede particularizando e ilustrando, de uma forma geral, o que dissera.
Seu argumento é o de que Israel é um padrão ou exemplar colocado por Deus diante de toda a raça humana, de forma a transmitir sua grande mensagem de que homens e mulheres, na sua rebelião contra Deus, são ignorantes quanto à própria natureza, irracionais, perversos e totalmente inescusáveis. A única esperança para eles é entender tudo isso, antes de que seja tarde demais; arrepender-se e se voltar para Deus, antes que a sua ira desça sobre eles.
Aqui está o quadro completo, apresentado em poucas palavras. Ao fazer isso, porém, o profeta continua a nos dar exemplos particulares e ilustrações. Agora, alguém pode muito bem perguntar: Eles são necessários? Há necessidade de nos importarmos com eles? Por que o profeta os coloca em termos de seis "ais"? Por que ele se contentou em apenas entregar a mensagem geral?
Existe muita gente que mantém esse ponto de vista. O mesmo argumento é apresentado contra um evangelho pessoal. Algumas pessoas não fazem objeção alguma quanto ao evangelho enquanto estiver no campo geral das idéias, mas, no momento em que se torna pessoal, em que passa ao campo aplicado, quando começa a fazer pressão sobre elas e a chamá-las a fazer algo, criam objeção e deixam de gostar dele.
As pessoas, porém, que fazem objeções desse tipo deveriam saber que estão contestando o método bíblico. A Bíblia nunca se detém em generalidades. Ela sempre vai ao particular, e faz isso a fim de nos trazer a verdade diretamente, e produzir em nós uma convicção real.
Eu poderia ilustrar isso em muitas diferentes formas. Lembro-me por exemplo, de uma ocasião em que ouvi um eloqüente homem de Estado fazendo um grande discurso sobre "A Santidade dos contratos Internacionais". O tema era a importância de uma palavra séria nas relações. Aqui está um grande princípio. A Grã-Bretanha, naquela época, estava lutando na Primeira Guerra Mundial, e lutava por este princípio. Ao mesmo tempo, porém, em que aquele homem era capaz de falar tão eloqüentemente sobre o princípio geral, por outro lado não estava sendo leal a seu próprio contrato matrimonial. Veja bem: é muito bom ficar entusiasmado com a santidade de contratos internacionais, e falar em torno de idéias gerais. A questão, porém, importante é: Você realmente crê na santidade de contratos? A forma mediante a qual se descobre isso não é pela discussão de princípios e idéias gerais, e, sim, do exame da própria vida. É muito fácil sentar-se e dizer: "Sim, este é um bom princípio." Mas será que você realmente concorda com ele? Você mantém os contratos. – no caso presente, o contrato matrimonial na sua vida e na sua conduta pessoal? Esta é uma das razões para sempre se trazer o assunto do geral até o particular. O particular nos atinge diretamente. Devemo-nos examinar a nós mesmos, porque o particular nos leva a fazer isso.
Em segundo lugar, particulares, afinal de contas, são apenas ilustrações do geral. Eles pertencem ao geral, e são um bom modo de ilustrá-lo. Além disso, nós nem sempre visualizamos um princípio até que uma ilustração seja dada. "Ah!" – dizemos –, "agora eu entendi. Eu não conseguia compreender o princípio, mas agora, como você o está colocando num exemplo concreto como este, posso entender exatamente sobre que você está falando."
Mas há um terceiro valor nesses particulares, para o qual estou especialmente interessado em atrair a atenção, mediante esta primeira ilustração. É o seguinte: Os particulares, na forma em que temos aqui, se não fizerem nada mais, pelo menos nos mostram que apesar da passagem dos séculos os homens e as mulheres continuam essencialmente o que sempre foram. Agora, se eu construir uma afirmação geral como esta, alguém poderá tomá-la e dizer: "Está muito bem, mas como você nos prova que as pessoas ainda são o que sempre têm sido?"
Minha resposta é a de que eu descubro que há 2.800 anos o profeta Isaías tomou seis coisas que estavam palpavelmente erradas na vida de sua nação e na vida de homens e mulheres em pecado e separados do conhecimento de Deus. Creio que será uma tarefa muito fácil para eu mostrar que esses são os principais problemas enfrentados por todas as nações do mundo atual. Os particulares nos ajudam a ver, de uma forma como nada conseguiria mostrar, que o pecado é ainda pecado, e que os seres humanos ainda são exatamente como sempre foram através de toda a sua história conhecida e registrada. Em outras palavras: vou mostrar que as características da vida de então continuam a ser as mesmas da vida atual.
Os particulares são apresentados aqui em forma de 'ais'. "Ai daqueles", diz o profeta. Por que Deus está preocupado? Por que Deus iria punir a nação de Judá? Se vocês estão em dúvida, diz o profeta, eu lhes vou contar com mais detalhes. É que vocês são culpados dessas coisas todas. Esses são os particulares que justificam o veredicto geral de ira e condenação.
Em primeiro lugar, "Ai daqueles que adicionam casa a casa, somam campo a campo, até que não haja mais lugar, e eles sejam os únicos no meio da Terra! Aos meus ouvidos falou o Senhor dos Exércitos: na verdade, muitas casas ficarão desertas, mesmo as grandes e belas, sem habitantes. Sim, dez acres de vinhedos darão um bate" – seus dez acres produzirão apenas a porção de um dedal. "Um ômer de semente" – em lugar de produzir uma colheita abundante – "não dará mais do que um efa".
Que é que o profeta está censurando aqui? Referente a que Deus está pronunciando este "ai"? A resposta é: sobre o materialismo ou mundanismo. Naquela civilização antiga, é claro, era uma questão de casas e campos. Aquele era o estilo de vida em que eles viviam: Israel era, acima de tudo, uma comunidade agrícola. Assim são esses pontos apresentados no imaginário do Velho Testamento, em termos de casas, campos e animais. O princípio, porém, é o que interessa.
Se não servir para mais nada, serve para mostrar que homens e mulheres continuam a ser o que sempre foram: o pecado continua sendo pecado; nada mudou. Não há ninguém mais cego do que a pessoa que diz: Eu não vejo como o Velho Testamento possa estar-se referindo a mim. Não vê? Eu espero poder mostrar que tem tudo a ver, porque, embora você esteja vivendo nos dias de hoje, você é exatamente igual ao que eram as pessoas 800 anos antes do nascimento do Senhor Jesus Cristo. O problema, em primeiro lugar, era materialismo, e nós ainda o enfrentamos, exatamente como antes.
Evidentemente que nosso estilo de vida mudou. Talvez para a maioria de nós as casas sejam mais importantes que os campos, mas esta é uma mudança apenas superficial. Agora nós pensamos mais em termos de dinheiro e daquilo que ele pode comprar: propriedades, mercadorias enfim, tudo o que se torna nosso como resultado do seu uso. Aqui está a essência do problema moderno. O Cristianismo é como um artigo barato de liquidação no qual as pessoas não estão interessadas. Apenas 10% têm algum interesse, e, ainda assim, a metade deles está em dúvida, para se dizer o mínimo. Qual é o problema com os outros 95%? O problema é que, exatamente como o povo de Israel deu as costas a Deus, os homens e as mulheres deste século fizeram o mesmo, mostrando interesse tão-somente em posses materiais.
E, é claro, tudo no mundo promove o materialismo. Ele é encorajado por todos os partidos políticos. Na verdade, eles fazem isso visando a angariar votos, porque conhecem seus constituintes muito bem: sabem perfeitamente que o candidato que fizer mais promessas é o que tem mais possibilidades de se eleger. Não é necessário ser psicólogo para depreender isso. Os políticos competem uns com os outros, oferecendo mais e mais, e afirmando que a sua oferta é melhor que a de qualquer outro. E todos dizem a mesma coisa. Eu acuso todos eles de encorajarem um forte espírito de materialismo, e terem muito pouco interesse em princípios.
Não estou querendo dizer que não deveríamos ter políticos; alguém tem que governar o país. Que bom seria, porém, se tivéssemos políticos que se preocupassem com a verdade, os princípios, a moralidade e um viver correto, e não apenas com regras políticas que só induzem à lascívia e aos desejos materiais ou lúbricos de homens e mulheres! Tudo por nada! Também os jornais talvez sejam até os maiores culpados de encorajar essa atitude. Por isso mesmo, são uma das piores influências no mundo, sempre dando a impressão de que a vida gira em torno de dinheiro e posses: sempre desfilando esse princípio nefasto diante de nossos olhos.
Você encontra exatamente isso em toda a mídia: televisão, rádio e tudo o mais. O mundo inteiro está pregando o materialismo, porque não está de modo algum interessado no espiritual. Ele nos diz que temos de nos concentrar nesta vida, no agora e já. O fato é que se julgam muito inteligentes, ao debocharem de atitudes que parecem "voltadas para o alto", falando sobre coisas práticas e pessoas que – dizem eles – "têm os pés no chão e a cabeça no lugar". O problema, porém, não está de fato com os assim acusados de "desligados do mundo". Ele acontece porque homens e mulheres são fracos, não pensam, não sabem como raciocinar.
Deixe-me provar minha argumentação. Um "ai" foi pronunciado, então vamos examiná-lo do modo como está revelado. Aqui está a coisa da qual as pessoas se gloriam hoje: a perspectiva materialista. Quais são as suas características? A primeira que precisamos notar é sua pequenez. Que vidinha! Imagine identificar a vida com um certo número de casas ou campos! Mas é isso mesmo o que as pessoas fazem! É dessa forma que elas expressam sua filosofia de vida, sua visão de si mesmas: ser bem-sucedido é possuir mais e mais!
Há uma ótima ilustração sobre isso na Bíblia; você a encontrará no capítulo 12 do evangelho de Lucas. Jesus estava pregando um dos seus mais místicos sermões, que jamais pregara, sobre o relacionamento de homens e mulheres com Deus. Ele estava falando de tempo e eternidade. Ele os estava prevenindo para que não o negassem, mas, pelo contrário, fossem verdadeiros com ele. E também os avisava sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo. Aí nós lemos: "Um do grupo Lhe disse..." – no momento em que Jesus parou como que para tomar ar, um homem se saiu com esta: "Mestre, fala com meu irmão que divida a herança comigo'. E ele respondeu: 'Homem, quem me fez juiz ou testamenteiro entre vocês?'" (v.13,14) Então, ele se voltou para o grupo e disse: "Tomem cuidado com a cobiça; porque a vida de um homem não consiste da abundância das coisas que ele possui."
Por que o Senhor falou desse modo? A resposta é perfeitamente óbvia. Aqui está Jesus falando sobre coisas de suma importância, e sobre os grandes mistérios e maravilhas da vida e da eternidade. E ali está um homem na congregação, cara a cara com o Filho de Deus, sem, porém, estar realmente ouvindo o que ele diz, por que não? Porque para ele o que importava não era o relacionamento com Deus e com o céu, a relação da alma com o Espírito Santo, mas uma herança! Há uma disputa entre ele e seu irmão sobre um terreno ou algumas casas, de forma que, no momento em que o Senhor faz uma pausa, ele interrompe com seu pedido: "Fala com meu irmão para que divida a herança comigo."
Então, o Senhor diz: "De fato, você acha que eu vim a este mundo, e estou agüentando tudo o que estou passando para resolver probleminhas como esta divisão de herança, esta disputa sobre propriedades e dinheiro? Você acha que eu vim do céu para isso?"
Mas esta é a visão da vida para muitas pessoas. Que determina uma pessoa? O tamanho da casa, a quantidade de dinheiro no banco, as mercadorias e disponibilidades. Hoje, nós chamamos isso de "símbolos de status". Isso é o que se supõe que faça uma pessoa parecer grande.
Que concepção de vida! Que concepção sobre o valor de homens e mulheres! Esta é uma visão extremamente pequena, abismalmente minúscula! A vida de uma pessoa, o ser e a existência reduzidos às coisas que podem ser compradas com dinheiro! Mais uma vez, afirmo que, se eu não tivesse outra razão para ser um cristão, isso já seria o suficiente para mim. A visão não-cristã da vida faz de nós criaturas minúsculas, porque nos estima e nos julga segundo aquilo que possuímos, não considerando nada sobre nossa alma, espírito e o que nos liga a Deus e às possibilidades da eternidade. Ela não sabe nada sobre essas coisas. É um insulto à natureza humana.
Mas não apenas isso; ela é também totalmente degradante. Nosso Senhor, mais uma vez, retrata isso perfeitamente. Ele continua dizendo: "Porque onde estiver o teu tesouro, ali estará o teu coração" (v. 34). Trata-se do mesmo problema: Que vamos comer, que vamos beber, como nos vamos vestir? Todas essas coisas as nações do mundo - os ímpios – buscam. É claro que buscam, e sempre buscarão, porque é isso que determina a "vida" deles. De forma que a competição continua: meu vestido – o vestido da outra mulher; minha casa –, a casa do outro; os campos, os carros.e todas as outras coisas. E as pessoas não conseguem dormir em razão da preocupação, da ansiedade, do ciúme, da inveja, da rivalidade e da disputa. Que, na verdade, faz um homem e uma mulher? Que é a vida? Símbolos de status? O número e o valor das coisas que possuem?!
Não há nada errado em possuir coisas. A Bíblia não é irracional. Existem coisas que são necessárias, talvez essenciais, e a Bíblia não as proíbe. Mas, quando você põe seu coração nelas, quando busca sua identidade mediante elas, e quando não pode viver sem elas, então você se torna um escravo, é o que diz a Bíblia. As pessoas podem possuir coisas, mas, quando são possuídas por elas, isso nada mais é do que absoluta escravidão; é totalmente degradante. Nosso Senhor diz o seguinte sobre isso: "A vida é mais do que comida, e o corpo é mais do que vestuário" (Lucas, 12:23). A vida é que é, realmente, importante; e a alma. Não a roupa, nem o alimento, nem a casa, nem os campos, nem as posses.
Mas veja o terrível elemento de cobiça que o profeta enfatiza aqui: "Ai daqueles que acrescentam casa a casa, campo a campo, até que não haja mais lugar e eles sejam os únicos no meio da Terra!" Isso é avareza, é claro, nada mais do que cobiça, e, uma vez que você se envolve com isso, nunca se satisfaz. Este é o sentido da cobiça: uma "afeição desordenada". Uma afeição, um desejo, está bem, mas, quando se torna desordenado, então está errado; significa que você é governado e controlado por ele, e nunca se sentirá totalmente satisfeito. A cobiça caracterizava o povo no tempo de Isaías, e o mundo moderno está hoje cheio dela.
Mas devo enfatizar um aspecto em particular, que é o do egoísmo. "Ai daqueles que adicionam casa a casa, campo ao campo, até que não haja mais lugar, até que" – note bem – "eles sejam os únicos no meio da Terra!" Que não haja mais ninguém! "Eu comprei todas as casas, ou, pelo menos, consegui controlar quase todas, e tenho todos os campos. Sou só eu no meio de tudo isso; possuo tantas coisas que não vejo mais ninguém; e espero que isso me dê um pouco de prazer." O cúmulo do egoísmo! Ninguém mais tem valor além de eu mesmo!
Leia outra vez a história da vinha de Nabote (I Reis, 21). O rei Acabe tinha muitos vinhedos, e havia um homenzinho que só tinha um. Seu nome era Nabote. Sua vinha era uma propriedade da família. Ele não era um grande proprietário; só tinha essa vinha onde seus pais, avós e ancestrais haviam trabalhado. O rei queria o lugar porque ficava perto de seu palácio, e ele planejava transformá-lo num jardim de ervas aromáticas. Mas Nabote, muito justamente, não estava preparado para vendê-la ou negociá-la, porque a terra fora dada à sua família por Deus como herança e parte na terra prometida. Vendê-la seria desobedecer à ordem expressa de Deus. Se assim fizesse, ele estaria quebrando o tratado com Deus (Levítico, 25 :23).
O rei, porém, não conseguia dormir; nem podia comer. Ele estava infeliz, e – como um bebê – virou a cara para a parede.
Aí veio sua mulher, a sutil Jezabel, e disse: Vamos, aja como um homem. Não é você quem manda? Eu vou conseguir o terreno para você. Então, ela planejou o assassinato daquele inocente pobre homem, Nabote. Eles, claro, pensaram que tudo seria maravilhoso. 'Nabote está morto; vá e aproprie-se da vinha.' E Acabe foi para lá.
Mas quando você lê essa história, veja o veredicto de Deus. O julgamento de Deus se cumpriu literalmente, com o terrível fim do rei Acabe, e o fim ainda mais terrível de Jezabel, aquela mulher maquinadora – e maquiavélica, diríamos hoje!
Esta é a história. Mas note o quanto de egoísmo ela envolve. A falha de Acabe de não considerar ninguém mais além dele. Quem é Nabote? De que valem seus sentimentos pessoais? De que vale seu orgulho de família? Nada interessa além da minha família, minha grandeza! Que direito tem Nabote de recusar-se a vender? Eu vou tomá-la!
Este é o problema com o mundo. Este foi exatamente o problema, por exemplo, de Hitler. Ele o chamou de Lebensraum; esta grande nação alemã precisava de mais espaço para se expandir, e Hitler não se satisfaria com coisa alguma menos do que o mundo todo. Igualmente, os assim chamados conquistadores mundiais são motivados pelo mesmo espírito de egoísmo. Eles não pensam em ninguém mais, a não ser neles mesmos: querem ser os únicos.
Isso não se aplica apenas a tiranos, mas ao indivíduo. Não é esta a maior causa das disputas trabalhistas? Elas podem ser sempre justificadas? Houve um tempo em que eram mais do que justas, quando as pessoas ainda não recebiam salários decentes. Eu vivi essa época nos anos 30. Comecei meu ministério imediatamente depois da greve geral e dos seis meses de greve dos mineiros em 1926, e vi homens, mulheres e crianças à beira da morte por desnutrição. Foi um escândalo! Mas não é mais assim. Agora as pessoas, mesmo sendo bem pagas, ainda fazem greve. Por quê? Mais uma vez, em razão de procura de status. Apesar de ganharem bem, se alguém ganha mais ainda, então por que não tentar?...
Assim se pode arriscar todo o futuro industrial da nação. Mas que interessa a nação? O que imporia sou eu, e este é o princípio, o espírito que existe entre os trabalhadores e também entre os patrões. Vale para ambos os lados. Todos querem o seu. Estamos todos, por natureza, defendendo interesses pessoais, e tudo não passa de uma manifestação de puro egoísmo. Que interesse tem o sentimento das outras pessoas? E que importância têm os sentimentos de uma esposa e dos filhos, se a sensualidade de um homem precisa de ser satisfeita? Daí, as mágoas e os problemas da vida moderna. O espírito de egoísmo que impera é uma expressão desta perspectiva ímpio-materialista sobre todos os aspectos da vida.
Mas deixe-me tratar de algo mais importante. Nós vimos a análise do problema pelo profeta. Qual é, porém, a causa real? Que leva a isso? E a resposta é muito simples: "Aos meus ouvidos" proclama o profeta – "diz o Senhor dos Exércitos..." (v. 9) O profeta percebe que está errado; mas como chega a essa conclusão? Ah, Deus sussurrou nos ouvidos dele! Deus falou e o profeta ouviu ! Ele creu, ele viu o que era o certo, e então passa a mensagem adiante.
Mas o problema com o homem é que ele se esquece de Deus. Deus não está presente em sua vida mental. Esta é a essência do problema do homem e da mulher modernos, que os leva a todos os dilemas e infelicidade. Eles se esqueceram de Deus. É aí que está o erro. Muitas pessoas pensam que estão praticando princípios cristãos. Mas isso não vai adiantar nada se eles se esquecerem de Deus.
Você pode ver o Sermão da Montanha como um tipo de filosofia e dizer: Temos que fazer com que patrões e empregados apliquem esses princípios. Não adianta! Se as pessoas não se lembrarem de Deus, os princípios, por si, não vão funcionar.
Homens e mulheres vêem a si mesmos como seres autônomos. Eles pensam que são o centro da vida. No momento, porém, em que dão as costas a Deus eles se fazem de deuses: tornam-se o centro da vida, o centro do universo, os determinantes do próprio destino, seus donos e senhores. Então, decidem o que é o certo e o errado. E é isso que está acontecendo no mundo no tempo presente.
Este foi o pecado original do homem. Como já vimos, ele foi colocado neste mundo, no Paraíso, por Deus. Mas o diabo veio e disse: Deus disse isso?
Sim, disse o homem. Que direito ele tem de dizer alguma coisa? Vamos dar-Lhe as costas. Nós mesmos decidiremos!
Foi assim que todos os problemas começaram na vida da humanidade. O pecado original foi o pecado de esquecer Deus. Adão e Eva deram as costas a Ele – daí os problemas. "Aos meus ouvidos, disse o Senhor dos Exércitos" – e esta é a mensagem da Bíblia e de Deus para o mundo.
Deus ainda tem o controle. O mundo pertence a Ele e ainda está em suas mãos; nosso tempo está totalmente em suas mãos. O povo de Israel no livro de Isaías deu as costas a Deus e passou a viver como se ele não existisse. Mas isso não faz a mínima diferença. Deus é e permanece o mesmo. Ele está em toda parte e o mundo ainda é seu. Ele se inclina para baixo e fala. E o que fala é que, visto que o mundo é Seu, a coisa mais importante para nós é saber alguma coisa sobre Ele. Porque nós nunca conheceremos a nós mesmos até que conheçamos algo sobre Ele. Só começamos a nos conhecer quando entendemos que somos feitos à imagem de Deus.
Além disso, Deus revelou seu caráter. Ele é santo, justo e reto. Ele é um Deus de eqüidade, um Deus justo. "Deus é luz, e nele não há trevas" (I João 1:5). E como Ele é o criador e controlador do mundo, é também o juiz do mundo. Aqui está uma mensagem para nós. Se homens e mulheres continuam a viver como se não houvesse Deus, eles se insultam e a própria natureza; eles se rebaixam, se pervertem, se tornam vis. E o tempo todo Deus os está vendo. Lembre-se: "Aos meus ouvidos diz o Senhor dos Exércitos" – o Senhor dos exércitos celestiais; o Senhor e Mestre de todos os seres angelicais, poderes e potestades; o Senhor que é onipotente e cujo poder não tem limite algum; o Senhor que é absoluto e reina e governa sobre tudo. "O Senhor reina; tremam os povos" (Salmos 99:1). Esta é a mensagem, seu anúncio. Ele é o Senhor de poder ilimitado, autoridade e controle. Não há nada que Ele não possa fazer.
Além disto, Ele já declarou a sua vontade. Deus declarou, através dos séculos, que esta vida de materialismo, de pequenez, egoísmo e cobiça é uma abominação à sua vista. "Não há paz, disse o meu Deus ao perverso." Você encontrará esta afirmativa duas vezes nesta profecia de Isaías (em Isaías, 48:22 e 57:21), e eu sinto que esta é uma palavra da qual nossa geração necessita muitíssimo. Não importa quão inteligente você é, quão capaz ou quão próspero; se você for mau, você não terá paz. Você pode acrescentar casa a casa, campo a campo, pode imitar Acabe e Jezabel, mas você não terá paz. O Senhor assim garante.
Agora quero levá-lo um passo adiante. Deus não apenas diz isso, mas atua de acordo com seu pronunciamento. Assim, o mundo se torna culpado não apenas de esquecimento em relação a Deus, mas igualmente de esquecimento da história. Quando aprenderemos a partir da história? Atrás de nós há uma grande história mundial. Então, veja e examine, e tente aprender com ela. Apesar de Hegel, filósofo alemão, não haver sido cristão, disse: "A História nos ensina que a História não nos ensina nada." Você pode pensar que as duas grandes guerras mundiais nos ensinaram alguma coisa, mas elas não nos ensinaram nada.
Os homens e as mulheres são ignorantes da história, porque, se não o fossem, eles se comportariam de maneira bem diferente. "Ai daqueles" – diz o Senhor dos Exércitos! E é isso que ele tem dito desde o começo.
A geração anterior ao Dilúvio deu as costas a Deus. "Como era" – diz nosso Senhor – 'nos dias de Noé..." (Lucas 17:26). "Eles comiam, bebiam, casavam-se, davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca, e o Dilúvio veio e os destruiu a todos" (Lucas, 17 :27). A raiz do problema da geração antes do Dilúvio era, na verdade, o materialismo. Deus não importava a ninguém. Eles Lhe haviam dado as costas; podiam viver melhor sem Ele. E assim, em lugar de adorarem a Deus, e serem guiados por Ele, estavam comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento, exatamente como fazem hoje. Eles não tinham jornais naquele tempo, mas todo mundo estava falando sobre isso: "casando e dando-se em casamento" : "Esse homem arranjou outra mulher..." O mundo, antes do Dilúvio, estava cheio desse tipo de coisa. E Deus disse que isso é abominação: "Toda a imaginação dos pensamentos do coração do homem é continuamente má" (Gênesis, 6:5). Então, Ele disse: "Eu destruirei o homem" (Gênesis, 6:7) – e o fez! Isso é História.
Igualmente o mesmo aconteceu em Sodoma e Gomorra. Não preciso de relembrar-lhe: o próprio nome "Sodoma" fala por si. E Londres é uma Sodoma. Tanto a alta quanto a baixa sociedades estão vivendo, nos dias de hoje, como em Sodoma. Materialismo! Que vida maravilhosa! Ló fez essa escolha, achando que estava sendo mais inteligente ao trocar seu tio Abraão pelas colinas para criar suas ovelhas. Ah, esta vida das cidades nas planícies! Sociedade! Civilização! Que maravilha! Mas Deus disse o que pensava sobre aquilo e cumpriu o que dissera. Eu já contei o que aconteceu com Acabe, rei de Israel, e sua mulher Jezabel. Seu crânio se partiu e o corpo dela foi comido pelos cães. Um final horrível tanto para o marido como para a mulher!
Esta é a grande história que se desenrola na Bíblia. Grandes nações aparecem – Assíria, Babilônia – que não criam em Deus mas nelas mesmas e em sua riqueza e poder. Deus viu tudo isso, e permitiu que elas fossem até um certo ponto, e então "as assoprou", e elas se foram! Babilônia! Grécia! Onde estão elas? O Egito já foi uma das maiores nações do mundo, com uma civilização impressionante. Olhe para ela agora, e veja como tem sido através dos séculos. Roma! Onde está sua grandeza? Grécia! Todos esses grandes impérios! Toda tentativa de dominação mundial terminou da mesma forma. Tudo está perfeitamente condensado no homem, que naturalmente falando, foi um grande homem: o imperador Napoleão. Ele saiu a conquistar o mundo, e onde foi parar? Confinado em uma ilhota no Atlântico Sul! Que resultado diferente daquele com que sonhara! Que final oposto ao que tanto ambicionara! Não: Deus diz e Deus faz.
E ele continua a dizer: Deus vai punir esta era materialista. Ele já está fazendo isso; transforma tudo em desolação.
Homens e mulheres dizem: "Eu vou juntar casa e mais casa, campo e mais campo..."
"Na verdade" – diga isso a eles: diz o Senhor – "muitas casas estarão desertas, até as grandes e belas, sem habitantes." Suas mansões se tornarão ruínas; não haverá homem ou mulher lá; os animais e a hera estarão lá; traça e ferrugem estarão lá. Desolação! E Deus fará isso.
Há uma extraordinária afirmativa sobre tudo isso em Isaías 45:7: "Eu formo, a luz e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas." Que Ele quer dizer quando diz que cria o mal? Não é que Ele crie erradamente, mas que permite que venham as conseqüências más do pecado. Deus diz: Vocês ajuntam campos e casas; eu as tornarei em desolação.
Quando o homem e a mulher pecaram, Deus amaldiçoou a Terra, e, apesar de todas os seus frenéticos empreendimentos e organização brilhante, desde então, através de todas as suas ambiciosas civilizações, eles não podem ver-se livres da maldição os espinhos, a sarça, a traça e a ferrugem! Então, o Senhor adverte: "Não ajuntem tesouros na Terra, onde a traça e a ferrugem corrompem, onde os ladrões roubam..." (Mateus 6:19) Isso é a vida neste mundo! Faça o que você quiser, mas você não poderá impedir que a traça e a ferrugem, sem que se note, subitamente comecem a fazer seu trabalho insidioso, e o que você construiu seja desolado, porque Deus amaldiçoou a Terra, e manifesta seu juízo desta forma.
Existem terríveis exemplos disso nos dias de hoje. Um dos maiores medos e ansiedades de alguns dos cientistas mais proeminentes no mundo de hoje é o medo da fome, o medo de morrer por desnutrição. Por quê? Existem duas razões principais. Uma é o crescimento fenomenal da população mundial, o número de bocas a serem alimentadas; a outra é a falta de alimento – e é aqui que o princípio que estamos considerando se aplica. Uma das grandes causas deste problema é a erosão do solo, como acontece nas regiões desérticas do continente americano. As pessoas que foram para lá no passado encontraram um rico solo virgem. Elas queriam fazer fortuna, então colheram um ano atrás do outro, sem repor nada no solo. Pensavam que podiam extrair tudo que quisessem, e que isso duraria para o resto da vida! Cortaram, então, todas as árvores, que eram a proteção natural e fonte de alimento do solo. E acabaram com tudo. Quanto mais terra melhor! – pensaram. Arranquem os troncos, criemos grandes fazendas e maravilhosos pastos. Vamos aproveitar tudo que pudermos! E assim fizeram, até que não ficou mais nada, a não ser poeira: "dustbowls" (regiões desérticas).
E assim, neste maravilhoso século XX, quando homens e mulheres se fizeram, e quando o conhecimento científico está tão adiantado, nosso maior problema é a fome. Não é irônico? Sim, mas é apenas o cumprimento da mensagem bíblica. Se você tem terra e começa a juntar mais e mais sem Deus, verá que seus maravilhosos campos se tornarão assim: "Dez acres de vinhedos darão um bate" – ridículo! – "e a semente de um ômer" – em lugar de se multiplicar quase que infinitamente – "dará apenas um efa." Você semeará grandes quantidades, mas o terreno estará tão desgastado que ficará improdutivo. Essas coisas acontecem! Elas não são como nós pensávamos que seriam.
Qual é o grande problema nos Estados Unidos hoje? Bem, é o problema racial, Mas como ele começou? Por que existe um problema racial? Por causa da escravidão! Quiseram fazer dinheiro rapidamente, e isso se faz quando se tomam outros para serem escravos. Você os compra por uma miséria e eles fazem o trabalho em troca de nada. Que maravilha! – disseram aqueles homens há 200 anos, durante a Guerra Civil. Perfeito! Nós vamos ter o trabalho em troca de nada, e vamos fazer grandes fortunas!
Completou-se o círculo, e a situação do negro é um grande problema hoje. O problema foi criado pela ambição, pela avareza, pelo materialismo, pelo erro de não se submeterem os homens total e absolutamente a Deus.
Vemos, assim, um exemplo deste princípio em geral, e, em termos, de países. Mas também é verdadeiro em termos de indivíduo. "Não há paz, diz meu Deus, para o perverso" (Isaías 57:21), e se você tentar viver uma vida materialista e banir Deus de seus pensamentos, você descobrirá que nunca estará satisfeito, nunca. Sempre haverá alguém que tem mais; ou você sentirá que não está tendo seus direitos respeitados; ou um ladrão assaltará; ou a traça e a ferrugem corroerão, e você pensará que está perdendo as coisas – e está mesmo –, e aquilo a que você dá valor não mais conta, sai de moda, e você fica sem 1 centavo. É assim a vida.
Aí, você chega ao fim da vida, e que você tem? Nada! "Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei para lá..." (Jó 1:21). Eu não posso levar essas coisas comigo. Afinal de contas, não passo de uma alma, mas eu negligenciei a mim mesmo. "Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?" (Marcos 8:36) Ele não nos permitirá que estejamos satisfeitos com coisas, porque Ele nos fez para si mesmo, e nós estamos além delas. Deus não permitirá que assim façamos, porque estaremos nos insultando. Ele assoprará sobre tudo e fará uma desolação, e no final estaremos sem esperança, e desesperados. "Ai daqueles" – diz Deus, o Senhor dos Exércitos. É o que ele promete certamente. Ele está fazendo diante de nossos próprios olhos hoje – nacionalmente, internacionalmente e individualmente.
Existe alguma esperança? Alguma saída? É claro! Foi por isso que Deus mandou o profeta. Apesar de isso ser verdade sobre nós, de sermos tão tolos a ponto de nos diminuirmos, e nos insultarmos, e desfigurarmos a imagem de Deus, Ele, em seu grande e glorioso amor, não nos abandona. Sua mensagem não é apenas uma mensagem de ira; há, também, uma mensagem de misericórdia. Ele levantou esses profetas para chamar a nação ao arrependimento: para que repensassem, vissem o que estavam fazendo, e, antes de que fosse tarde demais se voltassem para Ele e Lhe dessem ouvidos, a fim de que pudessem ser abençoados.
E Ele faz o mesmo conosco hoje. Esta é a sua mensagem para este mundo moderno, esta era materialista, que já está começando a ver as flores murchando em suas mãos, e todos os seus refulgentes prêmios se transformado em objetos baratos. Não gaste seu tempo pensando em coisas; não insulte a você mesmo dizendo que a vida consiste na abundância de coisas que possui (Luc. 12:15); não se torne um caçador de símbolos de status. Você é um homem, uma mulher! Não gaste seu tempo perguntando: "Que vou comer? Ou: Que vamos beber? Ou: Com que nos vestiremos?" (Mat. 6:31); nem: "Quantas casas temos conseguido comprar? Quantos terrenos? Qual tipo de carro podemos ter? De qual loja comprar?..." Não se preocupe com todas essas coisas que as pessoas vêem como sendo vitais.
Pare! – diz o Filho de Deus. "Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça" – busque isso em primeiro lugar – "e todas as [outras] coisas vos serão acrescentadas" (Mateus 6:33).Você terá suficiente e mais do que suficiente, para satisfazê-lo enquanto estiver neste mundo; começando por sua alma, estará bem com Deus, e, assim, terá sucesso no seu tempo de vida, na morre e através das incontáveis eras eternas.
O Filho de Deus veio a este mundo para nos angariar uma grande herança. Quando ele ressuscitou dos mortos, derrotando todos os nossos inimigos, sabe o que ele fez? De acordo com o apóstolo Pedro, "Ele nos gerou outra vez para uma viva esperança pela ressurreição de Jesus Cristo dos mortos (I Pedro 1:3)", "para uma herança incorruptível, pura, e que não se apaga, reservada nos céus..." por Deus para todos os que crêem em Cristo" (I Pedro 1:4). Se seu tesouro está neste mundo, quando você morrer você não terá nada. Mas se você "buscar primeiro o reino de Deus, e sua justiça" receberá a herança, que é incorruptível e indestrutível. Deixe que o mundo enlouqueça num cataclismo final e se destrua a si mesmo; você sabe que "Sua vida está escondida com Cristo em Deus" (Colossenses 3:3), e sua herança nunca se extinguirá.