quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A SINGULARIDADE DOS CAMINHOS DE DEUS


Dr. David Martyn Lloyd-Jones
Ministro por 30 anos da Westminster Chapel, Inglaterra.


Habacuque 1:1-11


A mensagem de Habacuque é de urgente necessidade nestes dias em que tantos vivem perplexos por este problema da história. Come­çamos, portanto, com duas declarações de fato:

I. Os caminhos de Deus às vezes são misterio­sos

A. Sua inação
A primeira coisa que descobrimos quando estudamos as ações de Deus é que pode parecer que ele esteja estranhamente silencioso e inativo em cir­cunstâncias provocativas. Por que Deus permite que certas coisas aconteçam? Por que a Igreja Cristã é o que é hoje? Veja sua história no decurso dos últimos quarenta ou cinqüenta anos. Por que permitiu Deus tais condições? Por que permitiu que surgisse o "modernismo", que solapa a fé e até nega suas verdades fundamentais? Por que ele não fere de morte essas pessoas quando proferem blasfêmias e negam a fé que deveriam pregar? Por que permite ele que se façam tantas coisas erradas até mesmo em seu nome?
Também, por que Deus não respondeu às orações de seu povo fiel? Vimos orando pelo reavivamento durante trinta ou quarenta anos. Nossas orações têm sido sinceras e urgentes. Temos deplorado o estado das coisas e temos clamado a Deus por causa dessa situação. Mas ainda assim parece que nada acontece. A seme­lhança do profeta Habacuque, muitos pergun­tam: "Até quando clamarei eu, e tu não me escutarás? gritar-te-ei: Violência! e não salvarás?"
Este, porém, não é o único problema da Igreja como um todo; é também a questão com a qual se defrontam muitas pessoas. Há os que, duran­te muitos anos, vêm orando a favor de alguém que lhes é caro, e Deus parece não responder-lhes. Raciocinam consigo mesmos nestes termos: "É, por certo, da vontade de Deus que alguém se torne cristão. Bem, venho orando a favor de um amigo por muitos anos e parece que nada acontece. Por quê? Por que está Deus tão silente?" Muitas vezes as pessoas se impacientam com a demora. Por que Deus não responde às nossas orações? Como podemos entender que um Deus santo permita que sua própria Igreja seja o que é hoje?


B. Suas providências inesperadas
A segunda coisa que descobrimos é que Deus, às vezes, dá respostas inesperadas às nossas orações. Isto, mais do que qualquer outra coisa, foi o que deixou Habacuque perplexo. Por um longo tem­po Deus parece não responder. Então, quando responde, o que diz é mais misterioso até do que sua aparente falha em ouvir as orações. Na mente de Habacuque estava perfeitamente claro que Deus tinha de castigar a nação e depois enviar um grande reavivamento. Mas quando Deus disse: "Estou respondendo à sua oração suscitando o exército caldeu para marchar contra suas cidades e destruí-las", o profeta não conse­guia acreditar no que ouvia. Mas foi o que Deus lhe disse, e o que realmente ocorreu.
João Newton escreveu um poema no qual descreve uma experiência pessoal semelhante. Ele desejava algo melhor em sua vida espiritual. Clamou por um conhecimento mais profundo de Deus. Esperava uma visão maravilhosa de Deus rompendo os céus e descendo com chuvas de bênçãos. Em vez disto, Newton teve uma expe­riência na qual, durante meses, Deus parecia tê-lo entregue a Satanás. Foi tentado e provado além de sua compreensão. Mas afinal chegou a enten­der e viu que aquele era o modo de Deus responder-lhe. Deus havia permitido que o poe­ta descesse às profundezas a fim de ensinar-lhe a depender inteiramente dele. Havendo Newton aprendido a lição, o Senhor tirou-o daquela provação.
Todos nós temos a tendência de prescrever as respostas às nossas orações. Pensamos que Deus pode manifestar-se somente de uma forma. Mas a Bíblia ensina que Deus às vezes responde às nossas orações permitindo que as coisas piorem muito antes que possam melhorar. Ele pode, às vezes, fazer o contrário do que prevemos. Ele pode esmagar-nos, colocando-nos frente a frente com um exército caldeu. Mas é um princípio fundamental na vida e caminhar da fé que, quando tratamos com Deus, devemos estar sem­pre preparados para o inesperado. Gostaria de saber o que nossos pais teriam pensado há quarenta anos se pudessem prever o estado atual da Igreja Cristã. Eles já se sentiam infelizes com o andamento da época. Já estavam realizan­do reuniões de despertamento e buscando a Deus. Se pudessem ver a Igreja de nossos dias, não creriam no que viam. Jamais poderiam ter imaginado que a igreja se afundasse tanto espiri­tualmente. Mas Deus permitiu que isto aconte­cesse. Tem sido uma resposta imprevista. Deve­mos apegar-nos à esperança de que ele tem permitido que as coisas piorem antes que, final­mente, melhorem.

C. Seus instrumentos incomuns
O terceiro aspecto surpreendente dos cami­nhos de Deus é que ele às vezes usa instrumentos estranhos para corrigir sua Igreja e seu povo. Os caldeus, dentre todos os povos, são os que Deus vai suscitar para castigar a Israel! Não se podia imaginar tal coisa. Mas aqui também está um fato evidente em toda a Bíblia. Deus, se assim o quiser, pode usar até mesmo os ímpios caldeus. No curso da história ele tem usado toda sorte de instrumentos estranhos e inesperados para a realização de seus propósitos. Este é um fato pertinente aos nossos dias, pois parece que, segundo a Bíblia, muito do que acontece no mundo agora deve ser examinado nesta luz. Talvez possamos ir além e dizer positivamente que o comunismo, temido por tantos cristãos em nosso tempo, não passa de um instrumento que Deus está usando para lidar com seu próprio povo.
A importância de tudo isto reside no fato que, se não virmos as coisas do modo certo, nossas orações serão erroneamente concebidas e erro­neamente dirigidas. Temos de admitir o verda­deiro estado da Igreja e reconhecer sua iniqüida­de. Devemos entender a possibilidade de que as forças que hoje mais se opõem à Igreja Cristã talvez estejam sendo usadas por Deus para seu próprio propósito. O ensino claro do profeta é que Deus pode usar instrumentos muito estra­nhos, e às vezes o último instrumento que teríamos esperado.


II. Os caminhos de Deus às vezes são mal interpretados

A. Por pessoas religiosas descuidadas
Os caminhos de Deus muitas vezes são estra­nhos e desconcertantes, e a surpresa em face do que ele faz é sentida por muitos. É, antes de tudo, uma questão que causa grande surpresa às pessoas religiosas mais descuidadas. Em Habacuque 1:5, Deus se refere aos ímpios em Israel, aqueles que se haviam tornado descuidados e frouxos. "Vede entre as nações, olhai, maravilhai-vos, e desvanecei, porque realizo em vossos dias obra tal, que vós não crereis, quando vos for contada." A atitude deles era: "Vejam o que esse profeta anda dizendo: que Deus vai usar os caldeus. Como se Deus pudesse fazer tal coisa' Não há perigo; não lhe dêem ouvidos. Os profetas são sempre alarmistas, e nos ameaçam com o mal. Que idéia essa de que Deus há de suscitar um povo como os caldeus para castigar a Israel! Isso é impossível!" A dificuldade de Israel é que o povo não acreditava nos profetas. Mas Deus tratou o povo exatamente como disse que faria.
A atitude que encontramos em Israel é tão antiga quanto à que o povo tinha na época do Dilúvio. Por meio de Noé, Deus advertiu o mundo antigo, do juízo, dizendo: "Não conten­derá o meu Espírito para sempre com o ho­mem". Os homens porém, zombaram dizendo que tal coisa era monstruosa e não poderia acontecer. Deu-se o mesmo com Sodoma e Gomorra. As pessoas despreocupadas nunca poderiam crer que suas cidades seriam destruí­das. Diziam que Deus interviria antes que tal acontecesse, e continuaram em seus caminhos indolentes na esperança de que Deus as livraria sem muita dificuldade para elas. No tempo de Habacuque a atitude era a mesma. Mas aconte­ceu que Deus suscitou os caldeus, e Israel foi atacado e conquistado. A nação foi devastada e levada para o cativeiro.
Encontramos o exemplo mais patente deste princípio no capítulo 13 de Atos, onde o apostolo Paulo cita o quinto versículo do primeiro capítulo de Habacuque aplicando-o aos seus contemporâneos. O que, em realidade, ele de­clara é: "Não, vós não credes, como não creram vossos pais. Visto que Israel não reconheceu o Seu Messias, e até o crucificou, e agora se recusa a crer no evangelho por ele anunciado, Deus vai, afinal, atuar em juízo. Ele vai suscitar o poder romano para saquear e destruir vosso templo, e vós sereis desterrados entre as nações. Sei que não credes nisto, porque o profeta Habacuque já o profetizou, e continuais a ignorar sua mensa­gem." O ano 70 d. C. chegou, inexoravelmente. As legiões romanas cercaram Jerusalém e a destruíram, e os judeus foram espalhados entre as nações, onde permanecem até hoje. É verda­de que os religiosos descuidados nunca crêem nos profetas. Sempre dizem: "Deus nunca fará tais coisas!" Quero, porém, lembrar-lhe que Deus o faz. Ele pode estar usando o comunismo em nosso tempo para castigar seu próprio povo e ensinar-lhe uma lição. Não ousamos, pois, continuar a ser complacentes e indolentes, di­zendo estar fora de cogitação que Deus possa usar tal instrumento. Não devemos permitir ser induzidos ao estado dos que habitam comoda­mente em Sião e não lêem os sinais dos tempos.

B. Pelo mundo
Em segundo lugar, os caminhos de Deus são surpreendentes para o mundo. "Então passam como passa o vento, e seguem; fazem-se culpa­dos esses, cujo poder é o seu deus" (Habacuque 1:11). Os caldeus falharam completamente em compreender que Deus os estava usando, atribuíram todo o êxito alcançado ao seu próprio deus. Pensavam que deviam o sucesso às suas proezas militares, e se vangloriavam do fato Mas Deus logo ia demonstrar-lhes que as coisas não eram assim, e que como ele os havia suscitado, do mesmo modo podia abatê-los. O mundo, mais até do que o próprio povo de Deus, deixa de entender os caminhos divinos. As arrogantes potências, que Deus tem usado para os seus próprios desígnios em várias épocas da história, sempre se orgulharam de suas realizações. O orgulho do mundo moderno pelo progresso científico e pelos sistemas políticos é típico desta situação. Visto como os inimigos da fé cristã vêem a Igreja enlanguescendo-se e eles em ascendência, atribuem esse êxito "ao seu próprio deus". Não compreendem o verdadeiro significado da história. Grandes potências têm-se levantado e conquistado por algum tempo, mas sempre se embriagam com seu próprio sucesso. E, de súbito, chega a sua vez de serem abatidas. O verdadeiro significado da história nunca lhes passa pela cabeça.

C. Pelo próprio profeta
Finalmente, os caminhos de Deus eram desconcertantes até para o próprio profeta. Porém sua reação foi muito diferente da do povo. Ele só queria saber como isto se reconciliaria com a santidade de Deus. Ele exclama: "Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? gritar-te-ei: Violência! e não salvarás? Por que me mostras a iniqüidade,  e me fazes ver a opressão?  Pois a destruição e a violência estão diante de mim; há contendas, e o litígio se suscita."

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Deve ser suficiente estabelecer os seguintes princípios bíblicos gerais por meio de uma res­posta a este problema da história:
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I. A história está sob controle divino
"Pois eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa." Deus controla não somente a Israel, mas também seus próprios inimigos, os caldeus. Toda nação da terra está sob a mão divina, porque não há poder neste mundo que, em última instância, não seja por ele controlado. As coisas não são o que aparentam. Parecia que a astuta façanha militar dos caldeus é que os levara a uma posição de ascendência. Mas não foi assim, de maneira alguma, porque Deus é que os suscitara. Deus é o Senhor da história. Ele está sentado nos céus, e as nações são para ele "como gafanhotos, como um pingo que cai dum balde, e como um grão de pó na balança". A Bíblia afirma que Deus está acima de tudo. Ele começou o processo histórico, controla-o, e pôr-lhe-á um fim. Jamais devemos perder de vista este fato decisivo.

II. A história segue um plano divino
As coisas não acontecem por acaso. Os aconte­cimentos não são simplesmente acidentais, por­que há um plano definido da história e tudo foi pré-organizado desde o começo. Deus que "vê o fim desde o princípio" tem um propósito em tudo, e conhece os "tempos ou épocas". Ele sabe quando deve ou não abençoar a Israel. Tudo está em suas mãos. Foi quando veio "a plenitude do tempo" que Deus enviou seu Filho. Ele permitiu que primeiro viessem os grandes filósofos, com sua clarificação do pensamento. Depois surgi­ram os romanos, famosos pelo governo ordena­do, construindo estradas e espalhando seu ma­ravilhoso sistema legal por todo o mundo. Só depois de ter planejado tudo foi que Deus enviou o seu Filho.
Há um propósito na história, e o que acontece em pleno século vinte não é acidental. Lembrando-nos de que a Igreja está no centro do plano de Deus, não nos esqueçamos jamais do orgulho e da arrogância da Igreja no século dezenove. Ei-la reclinando-se na auto-satisfação, desfrutando de seus assim chamados sermões cultos e ministé­rio erudito, sentindo-se um bocadinho envergo­nhada de mencionar coisas tais como conversão e obra do Espírito Santo. Observe o homem próspero da era vitoriana gozando confortavelmente sua adoração. Note sua fé na ciência e sua prontidão em colocar a filosofia no lugar da revelação. Com que constância ele nega o verdadeiro espírito do Novo Testamento! Sim, a igreja necessitava de castigo, e não é muito difícil entender o século vinte quando consideramos a história do século dezenove. Há, deveras, um plano em todas essas coisas.


III. A história segue um horário divino
Deus não se detém para consultar-nos, e tudo ocorre segundo "o conselho da sua vontade”. Deus tem o seu tempo; ele tem seu próprio caminho; ele age e trabalha conseqüentemente.


IV. A história está ligada ao reino divino
A chave da história do mundo é o reino de Deus. A história das demais nações menciona­das rio Antigo Testamento só tem importância quando se relaciona com o destino de Israel. E, em última instância, a história hodierna só tem importância em relação com a história da Igreja Cristã. O que realmente importa no mundo é o reino de Deus. Desde o princípio, desde a queda do homem, Deus vem trabalhando no estabele­cimento de um novo reino no mundo. E o seu próprio reino, e ele está chamando as gentes do mundo para esse reino; e tudo o que acontece no mundo relaciona-se com o reino que ainda está em processo de formação, mas que atingirá sua consumação perfeita. Outros acontecimentos só têm importância em relação com esse evento. Os problemas de nossos dias só devem ser entendi­dos à sua luz. O que Deus permite na Igreja e no mundo hoje está relacionado com seu grande propósito para a Igreja e para o reino.
Não nos desconcertemos, portanto, quando virmos coisas surpreendentes acontecendo no mundo. Antes, perguntemo-nos: "Que relação tem este acontecimento com o reino de Deus?" Ou, se estiverem acontecendo a você coisas estranhas, não se queixe, mas diga: "Que é que Deus está querendo me ensinar com isso? Que há em mim que necessita de correção? Onde errei e por que está Deus permitindo que essas coisas aconteçam?" Não temos por que desnortear-nos e duvidar do amor ou da justiça divina. Se Deus não fosse bondoso bastante e respondesse de imediato a algumas de nossas orações a nosso modo, seríamos cristãos muito pobres Felizmente, às vezes Deus demora para respon­der a fim de eliminar o egoísmo ou coisas que não deveriam fazer parte de nossa vida. Ele está interessado em nós, e tenciona adaptar-nos para uma posição mais plena em seu reino. Devemos portanto, julgar todo acontecimento à luz do grande, eterno e glorioso propósito de Deus.


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

DEUS LUTA COM JACÓ

Silas Roberto Nogueira

(De uma série de mensagens em Gênesis)

Texto: Gênesis 32

Jacó está retornando à sua terra natal após vinte anos e terá que enfrentar as consequências das suas antigas escolhas. O momento crucial na vida de Jacó não está no seu encontro com Esaú, mas no seu encontro com Deus. Depois deste encontro transformador, Jacó estará apto a encontrar seu irmão Esaú. Vejamos algumas lições deste trecho das Escrituras.

A PROVIDÊNCIA DE DEUS, Gn 32.1,2
Do mesmo modo como os anjos apareceram a Jacó por ocasião de sua viagem para o exílio, aqui também o Senhor envia graciosamente seus anjos para certificá-lo da protetora presença divina em face da ameaçadora presença de Esaú. Os anjos (“anjos de Deus” – hb. mal’ak ‘elohin, lit. mensageiros de Deus) a Bíblia não nos oferece uma definição do que são os anjos, contudo revela a sua natureza e função – “espíritos ministradores” (Hb 1:14). Os anjos são “espíritos”, isto é, seres espirituais e morais (2 Pe 2:4), isto é, há anjos bons e maus (geralmente denominados “demônios” ou “espíritos maus”). Os anjos bons atuam como ministros da parte de Deus “para o serviço” a favor dos que “hão de herdar a salvação”. O termo “Maanaim” – lit. significa “acampamento, exército ou dois campos” – o que parece é que Jacó visualizou, por um lado, o exército do Senhor e, por outro, o ajuntamento indefeso que lavava consigo (v.5). O relato aqui nos remete à cena de Eliseu, 2 Rs 6:8-23. Há uma diferença entre os anjos referidos aqui e Aquele que entra em luta corporal com Jacó, mais tarde. Esse último, embora também chamado “anjo” (Os. 12.4) é identificado como Deus, v.30 e Os. 12.3. Como nenhum anjo da Bíblia é identificado como sendo Deus a não ser o “anjo de Jeová”, parece que aqui este é o caso. O “anjo de Jeová” é uma manifestação de Cristo pré-encarnado.           
                                                                                                                                                                                                                                  
Embora os anjos de Deus tenham aparecido a Jacó como uma prova da proteção divina, ele se sentia inseguro quanto ao que poderia ocorrer no seu encontro com Esaú. Jacó ainda não aprendera a confiar totalmente em Deus.

A ESTRATÉGIA DE JACÓ, vv.3-8
Ao pensar no encontro com Esaú, o pânico se apoderou de Jacó e trouxe-lhe à memória recordações do que havia feito a seu irmão. Outra vez o velho manipulador vem à tona. Jacó estabelece uma estratégia para proteger-se de Esaú. Carlos Osvaldo comenta “a reação de Jacó à aparente ameaça de vingança por parte de Esaú revela uma fé ainda fraca e atormentada pela tendência de recorrer ao suborno e ao engano para alcançar seus objetivos”.

Primeiro Jacó envia mensageiros com um discurso pronto, v. 3-5. Ao anunciar a Esaú tudo o que possuía, Jacó intencionava persuadir Esaú de que o Senhor o tinha abençoado de modo inteiramente à parte daquela bênção que ele havia, tão sutilmente, tomado do irmão mais velho. É como se dissesse que a usurpação não lhe valera de nada.

Em segundo lugar Jacó usa de uma linguagem cortês, note – “meu senhor Esaú”, v.4,5. Ao enviar mensageiros, Jacó esperava “achar favor” (LXX, gr charis) aos olhos de Esaú, v.5. Contudo, ao retornarem os mensageiros sem uma resposta por parte de Esaú e ainda dizendo que ele vem ao encontro de Jacó com um pequeno exército (v. 6) é para ele um forte indicativo que não obteve aquilo que esperava v.7. O texto diz que Jacó ficou tomado de medo e muito consternado. O hebraico descreve Jacó como alguém que está excessivamente amedrontado e angustiado. Na sua oração Jacó revela o seu temor de que seu irmão viesse a mata-lo e aos seus (v.11). Mais tarde, em Betel, Jacó refere-se a esse momento como tempo de “angústia”, mas usa outro termo que quer dizer “adversidade” ou “tribulação”, 35.3.  . Assim, se a primeira estratégia falha, Jacó, sempre cheio de recursos emprega outra estratégia. O plano “b” é posto em prática.

Em terceiro lugar ele divide aqueles que estão com ele em dois bandos, v. 7. Pensava Jacó que se Esaú desse sobre eles, mataria o primeiro grupo e quando chegasse ao segundo, sua ira já estaria aplacada e assim, não os mataria ou que eles tivessem tempo de fugir enquanto o primeiro grupo era dizimado, v.8. No primeiro grupo, ao que parece estavam, além de alguns animais, os servos, no segundo, os membros de sua família, v.22. O grupo em que estava a sua família estava dividido assim: primeiro, as servas imediatamente seguidas por seus filhos, depois Lia e seus filhos e por último, Raquel e José, 33.2. Essa disposição deixa evidente o favoritismo de Jacó por Raquel e José.

Em quarto lugar, Jacó ora, vv.9-12. A oração de Jacó é uma oração pactual, reivindicando a proteção de Deu à luz de Sua ordem para que voltasse a Canaã. Uma análise dos vv.9-12 revela elementos de uma verdadeira oração:
·         Jacó reconhece a iniciativa divina nas manifestações de graça para com seu pai e para consigo mesmo, v. 9;
·         Jacó reconhece o seu próprio demérito diante de Deus e Deus como a fonte de todo o bem e do dom perfeito, v.10;
·         Jacó reconhece que é necessitado de proteção divina, v.11;
·         Jacó expressa sua fé na promessa de Deus, v.12.

Em quinto lugar, Jacó apesar de ter orado, apela ao suborno, v. 13-21. O presente era extravagante, pois 550 animais estavam sendo separados em três rebanhos para serem doados a Esaú.  A intenção de Jacó é expressa nas palavras “vou aplacá-lo com o presente mandado à minha frente; depois o verei face a face, talvez me aceite” (v.20). Sua mente aguçada considera as alternativas, avalia as chances e procura uma saída. Jacó ainda não aprendeu a depender totalmente de Deus para sua salvação.

O GRANDE MOMENTO – O CONFRONTO COM DEUS
Este é o grande momento na vida de Jacó, o confronto com Deus no vau de Jaboque. Depois desse confronto, Jacó não será mais o mesmo. Este confronto ilustra também o encontro de cada um de nós com Deus.

1.       O Confronto solitário, v. 24.
Comenta J. D. MacMillan a frase introdutória “Jacó, porém ficou só” “é um imediato e impressivo lembrete de que, na história das experiências espirituais pessoais da graça de Deus, há lugares e áreas nos quais somos levados à solidão”. O tipo de solidão aqui parece ser a solidão da alma, como fruto do pecado. O pecado causa separação em três áreas específicas da vida humana:
(a)    Separa o homem de Deus, Is 59:2
(b)   Separa o homem do homem, Gn 28:5 (Exílio de Jacó por causa do ódio de Esaú)
(c)    Separa o homem de si mesmo, Sl 86.11 (o termo “dispõe-me” no original hebraico tem o sentido unir partes que estavam separadas, lit. “une o meu coração para temer o teu nome”). O encontro com Deus promove a cura da personalidade partida, fracionada.
De repente a solidão é quebrada, Deus irrompe na história.

Assim como Deus irrompeu na história do patriarca, irrompe na nossa história.

2.       O Confronto é íntimo, v. 24b
Jacó estava só e de repente estava a sós com Deus. Deus entra em cena e de modo bastante definido. Deus está aqui na pessoa do Anjo da Aliança, uma teofania, um aparecimento do Cristo pré-encarnado na forma de homem. Note que o texto não diz “Jacó ficou só e lutou com um varão”, mas está bem claro que o ataque partiu do homem: “e um homem pôs-se a lutar com ele...”.  O embate partiu do varão, partiu de Deus. Está claro que não foi uma visão, mas um confronto literal, físico. O termo hebraico usado para “lutava” implica em contato físico íntimo, um abraço apertado como fazem os lutadores de luta romana. O termo hebraico traduzido por “lutou” em Oséias 12:4 indica que o varão dominava Jacó no embate.

Assim como o encontro de Jacó e Deus foi íntimo, nosso encontro com Cristo é pessoal, individual.

3.       O Confronto é acirrado, v. 25a
Jacó era um homem forte, vigoroso (29:2,10; Os 12:3). O Anjo do Senhor ajustou-se à força de Jacó (Sl 103:14 - “ele conhece a nossa estrutura”) e isso tornou o embate acirrado. O Anjo do Senhor poderia ter vencido facilmente o embate, contudo o Senhor queria que Jacó se lhe rendesse de modo voluntário, corporal e espiritualmente. Jacó combateu com todas as suas forças, até que o Anjo tocou-lhe de modo que o submeteu.

Assim como Jacó lutou bravamente, nós igualmente lutamos até que sejamos subjugados pelo grande Mestre.

4.       O Confronto é transformador, v.25b
O confronto de Jacó com o Anjo do Senhor foi transformador. Jacó nunca mais foi o mesmo, pois houve um toque sobrenatural. 

  •      Um toque suave. Seria necessário um toque tremendamente violento para provocar o deslocamento da coxa de um homem capaz num embate. É improvável que isso tenha ocorrido aqui. O termo hebraico traduzido por “tocou-lhe” indica que não houve violência. Em Isaías 6:7 o mesmo termo aparece, onde a brasa “tocou” os lábios do profeta e indica um toque suave, de dedo, não de punho. O toque a que Jacó foi submetido, portanto, foi sobrenatural. Assim como Deus tocou de modo suave, porém sobrenatural em Jacó, toca em nós.


  •      Um toque humilhante. Todo lutador tem orgulho de sua habilidade física, de sua destreza. A derrota é sempre humilhante. Jacó foi tocado no lugar de sua força, na sua autoconfiança, na sua autossuficiência. Mediante um golpe sobrenatural Jacó fica impossibilitado de prosseguir a luta. Assim como Deus soube onde tocar em Jacó, sabe o nosso ponto fraco e não deixará de explorá-lo de modo a submeter-nos.


O texto diz que ao amanhecer, quando Jacó ia ao encontro a Esaú –“mancava de uma perna” (v.31). Jacó levava consigo a marca da experiência pela qual havia passado um novo nome (v.28), a bênção de Deus (v.29) e o senso de ter visto Deus face a face e ter a sua vida preservada (v.30).  
Porventura, seria diferente conosco? Entraria Deus num embate por nossa alma e sairíamos do mesmo modo? Veríamos nós a Deus e continuaríamos os mesmos?


Até esse momento, o encontro mais importante para Jacó era com Esaú. Ele estava cheio de medo, temores. A única coisa que ocupava a sua mente era a sua vida e a vida de seus familiares. No entanto, quando estava lutando com Deus, a única coisa que preenche a sua mente é o seu oponente. Esse encontro entre Jacó e Deus foi transformador. Depois dele não há mais medo, Jacó mesmo vai à frente dos seus familiares ao encontro de Esaú (33:3a). Age com humildade (33:8, 5 “teu servo”, 8). Age com liberalidade (33: 10-11). Mas, acima de tudo não vê mais as pessoas como meio de obter vantagens, mas como indivíduos que possuem em si a imagem de Deus (ainda que desfigurada), 33:8.
Vejo nesse encontro de Jacó de Deus uma figura da regeneração. A regeneração é um ato de Deus, assim como foi um toque de Deus em Jacó. A regeneração é um encontro transformador. A regeneração muda a nossa vida de uma vez para sempre. A regeneração afeta o modo como vemos não somente as pessoas, mas sobre tudo o próprio Deus. Ninguém sai ileso de um encontro dom Deus.


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

VEJO OS HOMENS COMO ÁRVORES QUE ANDAM

D. M. Lloyd-Jones



"E chegou a Betsaida; e trouxeram-lhe um cego, e rogaram-lhe que lhe tocasse. E, tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia; e, cuspindo-lhe nos olhos, e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe se via alguma coisa. E, levantando ele os olhos, disse: Vejo os homens; pois os vejo como árvores que andam. Depois tornou a pôr-lhe as mãos nos olhos, e ele, olhando firmemente, ficou restabelecido, e já via ao longe e distintamente a todos. E mandou-o para sua casa, dizendo: Não entres na aldeia".
Marcos 8:22-26





Quero chamar sua atenção para este incidente, como parte de nossas considerações sobre o tema que estamos examinando e que denominei "depressão espiritual".
Estamos considerando este assunto, não somente porque é um fato triste e trágico que um cristão possa se sentir deprimido e miserável, mas também por causa da situação geral da Igreja atualmente. Não hesito em afirmar, novamente, que uma das razões por que a Igreja Cristã exerce tão pouca influência no mundo moderno, é que tantos cristãos estão nesta condição. Se todos os cristãos começassem a agir e a viver conforme o Novo Testamento ensina, a Igreja não enfrentaria problemas para evangelizar. A questão se resolveria por si mesma. É porque estamos falhando como cristãos em nossa vida diária, comportamento e testemunho, que a Igreja exerce tão pouca influência e tão poucos são atraídos a Deus através do Senhor Jesus Cristo. Portanto, por esse motivo tão premente, é imprescindível que tratemos desta questão.
Já fizemos uma análise geral do problema, e no capítulo ante­rior consideramos um aspecto específico dele. Vimos que há alguns cristãos nesta condição porque nunca realmente entenderam com clareza a grande doutrina básica da justificação pela fé. Na ver­dade, essa foi a causa de todo o problema antes da Reforma protestante. A Reforma trouxe paz, felicidade e alegria à vida da Igreja, de uma forma que ela não tinha conhecido desde os pri­meiros séculos, e tudo aconteceu porque a doutrina básica da justificação pela fé foi redescoberta. Ela fez Martinho Lutero se regozijar e cantar, e ele por sua vez foi usado para levar outros a discernir esta grande verdade. Ela produziu essa grande alegria na Igreja; e, se por um lado hesitamos em declarar que aqueles que não entenderam esta questão com clareza não sejam cristãos, por outro lado, é um fato que no momento que a enten­dem, imediatamente deixam de ser cristãos miseráveis e se tornam cristãos radiantes.
Vamos passar agora para o passo seguinte, e quero conside­rá-lo à luz deste extraordinário incidente na vida e no ministério do nosso bendito Senhor, registrado em Marcos 8:22-26. Obser­varão imediatamente que estamos tratando de um caso completa­mente diferente; e este quadro ilustra isso de forma bastante clara. Em vários aspectos é o mais extraordinário de todos os milagres realizados por nosso Senhor e Salvador. Lembram-se dos detalhes do que Ele fez por esse homem cego? Ele o tomou pela mão, levou-o para fora da aldeia, cuspiu nos seus olhos, impôs as mãos sobre ele, e então perguntou ao homem se podia ver alguma coisa. O homem disse: "Sim, vejo. Vejo os homens como árvores andando". Então o Senhor pôs as mãos novamente sobre os olhos do homem e desta vez a sua vista foi restaurada, e ele "viu distintamente".
Isto, obviamente, é algo de significação muito profunda. O que aconteceu neste caso não foi acidental. Temos outros exemplos em que o Senhor curou pessoas cegas, e é evidente que Ele poderia ter curado este homem instantaneamente, dizendo apenas: "Recebe a vista". Nosso Senhor tinha esse poder; nada era impossível para Ele. Já tinha feito isso antes, e podia fazê-lo novamente. Então, o que Ele fez aqui foi feito deliberadamente e com um propósito. Nada que o Senhor Jesus fez foi feito a esmo ou acidentalmente. Todas as Suas ações eram deliberadas e quando Ele mudava Seu método, sempre tinha uma razão muito boa para fazer isso. Não havia nada particularmente difícil neste caso; a variação no trata­mento não era causada por isso. Era devida ao plano determinado pelo próprio Senhor, de operar o milagre desta forma a fim de ensinar uma lição e comunicar uma certa mensagem. Em outras palavras, todos os milagres do Senhor foram mais do que simples eventos — de certa forma, eles também foram parábolas. Isso não quer dizer que não cremos nos incidentes em si como sendo fatos reais na história. Estou simplesmente declarando que um milagre é também uma parábola, e se isso é verdade a respeito de todos os milagres, é especialmente verdade a respeito deste aqui. De fato, pois o Senhor obviamente mudou o método aqui a fim de ensinar uma lição vital e importante.
Eu concordo com aqueles que sugerem que talvez a lição principal aqui tivesse em vista particularmente os discípulos. Lem­bram-se do que aconteceu antes? Eles se esqueceram de levar pão no barco, e por isso tinham apenas um consigo. Começaram então a se preocupar com isso, e ficaram perturbados. Nosso Senhor ao falar com eles no barco, disse: "Guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes"; e eles arrazoavam entre si, dizendo: É porque não temos pão". Visto que Ele mencionou a palavra "fermento", pensaram que ele estava falando de pão! Eram literalistas, faltava-lhes entendimento espiritual, e por isso a pala­vra "fermento" fez com que pensassem apenas em pão e no fato de terem se esquecido de levar um suprimento. Por essa razão estavam perturbados e apreensivos, e o Senhor lhes fez uma série de perguntas penetrantes, terminando com esta: "Não compreen­destes ainda?" É como se dissesse: "Aqui estou eu, pregando a vocês e lhes ensinando, e parece que ainda não entendem. Estão perturbados porque têm somente um pão, e no entanto testemu­nharam dois milagres, os quais provam que com apenas alguns pães e peixes eu posso alimentar milhares de pessoas; como é que ainda não entendem?" Eu creio que Ele tratou do homem cego daquela maneira a fim de lhes dar uma imagem deles mesmos. Ele adorou esta técnica registrada aqui, para que os discípulos pudessem se ver a si mesmos, como realmente eram.
Mas há um sentido mais profundo aqui; é uma lição perma­nente para o povo de Deus. É uma mensagem terrível. Estou ansioso para chamar sua atenção para isso porque há muitas pessoas que são como este homem, e há muitas pessoas que parecem ainda estar no primeiro estágio que este homem atravessou, no processo de ser curado. Nosso Senhor cuspiu nos seus olhos e perguntou: "Pode ver alguma coisa?" E ele respondeu: "Vejo os homens, como árvores andando". Entendem a sua situação? É difícil des­crever este homem. Não podemos mais dizer que ele é cego. Não podemos dizer que ainda é cego, porque pode ver; mas hesitamos em dizer que ele pode ver, porque vê os homens como árvores andando. Então — ele é cego, ou não é? Quase sentimos que a única coisa que se pode dizer, é que ele ao mesmo tempo é cego, e não é. Ele não é uma coisa nem outra.
Ora, essa é precisamente a condição que estou ansioso por abordar aqui. Eu me preocupo com aqueles cristãos que se sentem inquietos e infelizes e miseráveis por causa desta falta de clareza. É quase impossível defini-los. Vocês às vezes falam com uma pessoa assim, e pensam: "Este homem é um cristão". E então o encontram novamente, e ficam em dúvida, e pensam: "Certamente ele não pode ser cristão, se fala dessa maneira ou age dessa forma". Cada vez que se encontram com esse homem, a impressão que têm dele é diferente; e nunca têm certeza se ele realmente é um cristão ou não. Vocês não se satisfazem em dizer que ele vê, ou  que não vê. Além disso,  o problema é que não só os outros pensam isso a respeito de pessoas desse tipo, mas muitas vezes elas sentem isso a respeito de si mesmas. Eu digo isso a favor delas, pois se sentem infelizes porque não têm certeza a respeito da sua própria situação. Às vezes, depois de assistir a um culto, elas dizem: "Sim, eu sou um cristão; eu creio nisso". Então alguma coisa acontece, e passam a pensar: "Não posso ser um cristão. Se eu fosse cristão, não teria tais pensamentos, ou não sentiria o desejo de fazer as coisas que faço". Por isso sentem-se tão perplexas a respeito de si mesmas, como os outros cristãos que as observam. Ora sentem que são cristãos, ora sentem que não são. Parecem saber o suficiente a respeito do cristianismo para não sentirem prazer nas coisas do mundo; mas não sabem o bastante para se sentirem felizes consigo mesmos. Não são "nem quentes, nem frios". Eles vêem, e ao mesmo tempo não vêem. E acho que concordarão comigo que estou descrevendo a situação de um grande número de pessoas. É uma situação dolorosa, e minha mensagem, como podem imaginar, é que ninguém deve viver nessa situação, nem deve permanecer nela.
Vamos seguir o ensino do nosso Senhor. A melhor maneira de fazer isso é colocar o caso dessas pessoas numa forma diferente. Tenho falado até aqui de modo geral. Quero agora entrar em alguns aspectos específicos para ajudar essas pessoas a se verem a si mesmas, e também para ajudar a todos nós a discernir esta condição. O que é que essas pessoas podem ver? Elas vêem algu­ma coisa. Este homem disse: "Sim, eu vejo, vejo homens, mas alguma coisa está errada, porque os vejo como árvores andando".
O que essas pessoas vêem? Muitas vezes elas sabem que alguma coisa está errada. Sentem-se infelizes consigo mesmas. Alguma coisa aconteceu com elas que lhes deu um sentimento de insatisfação a respeito de si mesmas. Houve uma época em que se sentiam perfeitamente felizes com as coisas como eram. Levavam a sua vida como queriam, e pensavam que não havia nada de errado com isso. Mas não são mais assim. Alguma coisa lhes aconteceu, que lhes deu uma percepção completamente dife­rente do tipo de vida que estava vivendo. Não preciso entrar em detalhes; basta que pensem em pessoas que estão vivendo este tipo de vida, pessoas que devoram mexericos de jornal, e conside­ram maravilhosa e invejável a vida da alta sociedade, e sentem que "aquilo, sim, é que é vida". Mas estas pessoas não são mais assim. Começaram a perceber o vazio, a inutilidade, a completa falsidade  daquilo   tudo,  e  sentem-se  profundamente   insatisfeitas com esse tipo de vida. Percebem que, mesmo à parte de tudo o mais, não é uma escolha inteligente, que é um tipo de vida completamente vazia. Tornam-se infelizes com sua situação, dizen­do que não podem continuar assim. Há muitas pessoas nessa situa­ção, e muitas delas passam por esse estágio. É um estágio em que o homem vê que tudo o mais está errado, embora ainda não tenha visto que o cristianismo está certo. E isso muitas vezes o leva ao cinismo, e até mesmo ao desespero.
Tenho visto muitos exemplos dramáticos disso. Lembro muito bem o caso de um homem que era um cirurgião extraordinário em Londres, de muita proeminência. Subitamente, para assombro de lodos que o conheciam, ele anunciou que tinha desistido de tudo c se tornara um médico de navio. O que aconteceu com esse homem foi o seguinte: ele era muito famoso em sua profissão, e tinha ambições perfeitamente legítimas com respeito a certas honras cm sua profissão. Mas desapontamentos a esse respeito de repente lhe abriram os olhos para toda a situação, e ele concluiu que não havia satisfação duradoura na vida que estava levando. Ele perce­beu tudo isso, mas não se voltou para Cristo. Simplesmente tornou-se cínico, e deixou tudo. E tem havido outros exemplos notáveis de homens que abriram mão de tudo e foram para algum lugar isolado onde encontraram uma certa medida de paz e felicidade, sem se tornarem cristãos. Essa é uma possibilidade.
Mas eles podem até mesmo ir além, e perceber as qualidades superiores da vida cristã, como estão expressas no Sermão do Monte. Dizem: "Não há dúvida que a vida cristã é única vida real; se tão somente todos vivessem assim!" Talvez tenham lido as biografias dos santos e reconhecido que esses homens tinham algo maravilhoso em suas vidas. Houve um tempo em que não tinham qualquer interesse nisso, mas agora passaram a compreen­der que a vida descrita no Sermão do Monte é a única que vale a pena viver; e também, lendo I Coríntios, capítulo 13, dizem: "Se apenas todos vivêssemos assim, este mundo seria um paraíso". Eles passaram a perceber isso com muita clareza.
E podem até mesmo ter ido mais além, concordando que Jesus Cristo é a única esperança, que Ele é, de algum modo, o Salvador. Notem como expressei isto: que Jesus Cristo é, "de algum modo", o Salvador. Chegaram a ver que Ele poderia aju­dá-los, e que o cristianismo é a única esperança para o mundo, e de algum modo percebem e sabem que essa Pessoa — Jesus — pode ajudá-los. Houve um tempo em que não estavam interessados, quando O puseram de lado, sem qualquer consideração mais séria; mas isso mudou. Compreendendo o vazio deste mundo, e vendo o tipo de vida vivida por certos cristãos, e sabendo que Jesus Cristo é a razão dessa diferença, percebem que de algum modo Ele deve ser o Salvador. Por isso estão interessados nEle, e querem saber mais a Seu respeito. Até aí eles vêem claramente.
Podemos dizer ainda mais sobre eles, isto é, ao contrário das pessoas de que falamos no capítulo anterior, estes indivíduos perceberam que não podem salvar a si mesmos. O problema do homem que não tem uma compreensão clara da justificação pela fé é que ele ainda está tentando se justificar; mas estes indivíduos sabem que não podem fazer isso. Tentaram muitas vezes, e estão insatisfeitos; e, vendo a verdadeira natureza da qualidade de vida cristã, compreendem que o homem não pode alcançar esse ideal. Compreendem que não podem salvar a si mesmos.
"Certamente", alguém dirá, "você foi longe demais, você lhes dá crédito demais!" Não! Eu estou simplesmente descrevendo o que essas pessoas podem ver, da mesma forma que aquele homem cego, quando Jesus lhe perguntou: "Podes ver?" respondeu: "Sim". Ele certamente podia ver, podia ver homens. E essas pessoas che­garam a ver alguma coisa, talvez até mesmo chegaram a ver todas estas coisas que estou descrevendo aqui.
Todavia, preciso dizer também que ainda estão confusas, que ainda não podem ver com clareza. Podem apenas ver homens "como árvores andando". Em que aspecto isto é verdade sobre elas? O problema aqui é saber o que deixar de fora; mas eu vou tentar selecionar o que considero as três coisas mais impor­tantes.
A primeira coisa é que essas pessoas não têm uma compreen­são clara de certos princípios. É por isso que tomei o cuidado de dizer que compreenderam que Cristo é "de algum modo" o Salvador. Mas elas não compreendem de que forma Ele é o Sal­vador. Não têm uma compreensão clara, por exemplo, da morte de Cristo, e sua absoluta necessidade. Não têm certeza sobre a doutrina do novo nascimento. Se falarmos com elas a respeito destas coisas, vamos descobrir que estão cheias de confusão e perplexidade. Essas pessoas dizem que não vêem, e estão certas! Elas não vêem, elas não entendem por que Cristo teve que morrer, e não vêem a necessidade do novo nascimento. Já temos visto esse tipo de gente; pessoas que estão descontentes com sua vida, e louvam a vida cristã; estão sempre prontas a falar sobre Cristo como Salvador, mas ainda "não podem ver" certas verdades. O resultado é que se sentem perturbadas, infelizes e miseráveis.
A segunda coisa que não vêem claramente é que seu coração não é totalmente envolvido. Ainda que possam ver muitas coisas, sua felicidade realmente não está no cristianismo nem na posição cristã. Por alguma razão, não encontram alegria verdadeira na fé cristã. Precisam constantemente trazer isso à memória, e às vezes tentam forçar essa atitude em si mesmos. Não são felizes; sua alegria — se é que têm alguma — ainda parece provir de outras fontes. Seu coração não é completamente envolvido. E eu men­ciono estas coisas aqui porque espero poder tratar delas detalha­damente mais adiante. No momento estou dando uma visão resu­mida da condição geral.
A terceira coisa a respeito das pessoas que estamos discutindo, c que sua vontade está dividida. São rebeldes, e não conseguem entender por que é que um homem, só porque se declara cristão, (em que fazer certas coisas e deixar de fazer outras. Acham que isso é ser tacanho. Por outro lado, condenam sua vida passada e aceitam a vida cristã de forma geral. Reconhecem Cristo como Salvador; todavia, quando se trata de aplicar Seus ensinos, ficam confusas e não conseguem discernir a questão com clareza. Estão sempre argumentando, sempre perguntando se é certo fazer isto ou aquilo. Há uma ausência de tranquilidade na esfera da vontade. Não estou apresentando uma caricatura dessas pessoas. Estou ciando uma descrição muito literal, exata e detalhada delas. Muitos de nós passamos por este estágio, e sabemos disso por experiência própria; e, como o Senhor adotou este método no caso do homem cego, Ele parece fazer coisa similar na conversão. Há pessoas que vêem as coisas claramente de uma vez; mas há outras que passam por estágios. Estamos tratando aqui daquelas que atravessam este estágio específico, e é assim que eu descreveria sua condição.
Quero aqui passar para o ponto seguinte. Por que, quando o Senhor Jesus estava ensinando, Ele apresentou aquela série de perguntas aos discípulos, e então demonstrou tudo desta forma dramática, através deste incidente? Ou, para expressá-lo de uma forma diferente, quais são as causas desta condição? Por que deveria alguém passar por esta situação indefinida, cristão e não cristão, como se fosse "sim e não" ao mesmo tempo? Não há dúvida que às vezes a responsabilidade é inteiramente do evange­lista usado para despertá-los. Os evangelistas muitas vezes são a causa do problema. Na sua ansiedade de ver resultados, muitas vezes causam este problema.
Mas  nem sempre  é  culpa do  evangelista;   com frequência a culpa é da própria pessoa, e vou mencionar algumas das maio­res razões por que "acaba nesta situação. Primeiro, em geral essas pessoas protestam  contra  definições  muito precisas e limitadas. Elas não gostam de nada que seja muito claro e absoluto. Não precisamos entrar nas razões específicas disso. Eu acho que elas se opõem à clareza de pensamento e definição por causa de suas exigências. O tipo mais confortável de religião é sempre uma reli­gião vaga, nebulosa e incerta, cheia de fórmulas e rituais. Não me surpreende que o catolicismo romano atraia certas pessoas. Quanto mais vaga e indefinida a sua religião, mais confortável ela será. Não há coisa mais incômoda do que verdades bíblicas que exigem decisões. Por isso, essas pessoas dizem: "Você está sendo muito rígido, está sendo muito legalista. Não, não, eu não gosto disso. Eu creio no cristianismo,  mas você está  sendo muito rígido e tacanho em seus princípios. Vocês conhecem esse tipo de pessoa. Mas, se começarem com a teoria que o cristianismo não é definido, não se surpreendam se acabarem como este homem, vendo "homens, como  árvores  andando".  Se começarem  sua vida e experiência cristã dizendo que não querem  uma perspectiva exata ou uma definição precisa para sua fé, vocês provavelmente não a terão! A segunda causa, e muitas vezes o grande problema com essas pessoas, é que elas nunca aceitam completamente os ensinos e a autoridade das Escrituras. Suponho que, em última análise, esta é a grande causa do problema. Elas não se submetem totalmente à autoridade da  Bíblia.  Se  tão  somente  nos  aproximássemos  dela como crianças, com uma aceitação sem reservas, permitindo que a Bíblia fale conosco, este problema não existiria. Essas pessoas não fazem isso ;elas misturam suas próprias idéias com verdades espirituais. Naturalmente, elas afirmam que se baseiam nas Escri­turas, porém — e esta é a palavra fatal — imediatamente passam a modificá-las. Aceitam certas idéias bíblicas, mas há outras idéias e filosofias, remanescentes de seu velho estilo de vida, que dese­jam conservar consigo. Misturam idéias naturais com idéias espiri­tuais. Dizem gostar do Sermão do Monte e de I  Coríntios  13; declaram crer em Cristo como Salvador, mas argumentam que não devemos ser muito extremistas nestas questões, que devemos ser moderados. Então começam a modificar as Escrituras. Recusam-se a aceitar sua autoridade em todos os aspectos — na pregação e na vida, na doutrina e na sua visão do mundo. "As circunstâncias mudaram", dizem; "e a vida não é mais o que costumava ser. Estamos vivendo no século vinte!" E mudam a Bíblia aqui e ali, adaptando-a às suas próprias idéias, em vez de aceitarem a doutrina das Escrituras do começo ao fim, reconhecendo a irrelevância dessa conversa sobre o século vinte. A Bíblia é a Palavra de Deus, ela é eterna, e porque ela é a Palavra de Deus, devemos nos submeter a ela, e confiar que o Senhor use Seus próprios métodos à Sua própria maneira.
Uma outra causa deste problema é que quase invariavel­mente suas vítimas não estão interessadas em doutrina.. Vocês estão interessados em doutrina? Às vezes essas pessoas são tolas ao ponto de contrastar o que consideram "leitura espiritual das Escrituras" com doutrina. Dizem que não estão interessadas em doutrina, que gostam de exposição bíblica mas não de doutrina. Declaram crer nas doutrinas que estão expostas na Bíblia, e que provém da Bíblia, porém (é incrível, mas é verdade) elas estabelecem este contraste fatal entre exposição bíblica e dou­trina. No entanto, qual é o propósito da Bíblia, senão de apre­sentar doutrina? Qual é o valor da exposição bíblica, se ela não nos levar à verdade? Mas não é difícil entender sua posição. É a doutrina que fere, é a doutrina que define as coisas. É uma coisa apreciar as histórias e se interessar por palavras e nuanças de sentido. Isso não perturba, não focaliza a atenção no pe­cado, nem exige uma decisão. Podemos relaxar e apreciar isso; contudo a doutrina fala conosco e exige uma decisão. Doutrina é verdade, e ela nos examina e nos prova e nos força a uma auto-análise. Então, se começamos com objeções à doutrina como tal, não é de surpreender que não vejamos com clareza! O propósito de todos os credos elaborados pela Igreja Cristã, bem como todas as confissões de fé e doutrina, ou dogmas, foi de capacitar as pessoas a verem com clareza. Foi por isso que foram formulados. Nos primeiros séculos do cristianismo o evangelho foi pregado de geração a geração. Mas algumas pessoas começaram a ensinar coisas erradas. Por exemplo, alguns começaram a dizer que Cristo realmente não veio em forma humana, e sim que era uma aparição espiritual. Uma variedade de idéias começou a sur­gir, levando muitos à confusão e perplexidade. Por isso, a Igreja começou a formular suas doutrinas na forma do Credo dos Após­tolos e outros. Vocês acham que os país da Igreja fizeram essas coisas   simples   porque   gostava   de   fazê-las?   Não.   Eles   tinham em vista um propósito muito mais prático. A verdade deve ser definida e preservada, para que as pessoas não andem em erros. Então, se temos objeções à doutrina, não é da admirar que não vemos as coisas com clareza, ou que nos sentimos infelizes e miseráveis. Não há nada que ajude tanto um homem a ter clareza em sua visão espiritual, como uma compreensão das doutrinas da Bíblia.
A última explicação desta condição que eu mencionarei aqui é o fato que muitas pessoas não captam as doutrinas das Escrituras em sua ordem correta. Este é um ponto importante, e espero poder me aprofundar nele mais adiante. Mas sei disso por experiência pessoal. É importante que tomemos as doutrinas das Escrituras em sua ordem certa. Se tomarmos a doutrina da regeneração antes da doutrina da expiação, teremos problemas. Se estamos interessados no novo nascimento e em termos uma nova vida, antes que tenha­mos uma visão clara de nossa posição diante de Deus, cairemos em erro, e eventualmente nos sentiremos miseráveis. O mesmo se aplica se tomarmos santificação antes da justificação. As doutrinas devem ser tomadas na ordem certa. Em outras palavras, podemos resumir isso tudo, dizendo que a grande causa do problema que estamos considerando é uma recusa em persistir e examinar as coisas até o fim. É o perigo fatal de querer aproveitar algo antes de realmente captá-lo e tomar posse dele. Homens e mulheres que se recusam a. perscrutar as coisas, que não querem aprender nem querem ser ensinados, por várias razões — às vezes em auto-defesa — em geral são as pessoas que se tornam vítimas desta confusão espiritual, esta falta de clareza, este problema de ver e não ver ao mesmo tempo.
Isso nos traz à última pergunta. Qual é a cura deste problema? Por enquanto vou dar princípios, apenas. O primeiro é evidente: acima de tudo evitem declarar prematuramente que sua cegueira foi curada. O homem do nosso texto deve ter sido tentado a fazer isso. Ele tinha sido cego. O Senhor cuspiu em seus olhos e disse: "Podes ver?" O homem respondeu: "Posso". Como ele devia ter se sentido tentado a sair correndo e anunciando a todo mundo: "Posso ver!" De certa forma, ele podia ver, mas sua visão era incompleta e imperfeita, e era vital que não desse testemunho antes de ver claramente. É uma grande tentação, e eu posso entendê-la, mas fazer isso é fatal. Muitos estão fazendo tal coisa atualmente (e são incentivados e encorajados a fazer isso), proclamando que vêem, quando é tão claro para os outros que eles não vêem claramente, e realmente ainda estão muito confusos. E acabam preju­dicando muita gente. Descrevem homens a outros "como árvores andando", e acabam confundindo outras pessoas!
A segunda coisa é o oposto da primeira. A tentação do pri­meiro é correr e proclamar que pode ver, antes de poder enxergar claramente; mas a tentação do segundo é se sentir totalmente sem esperança, e dizer: "Não adianta continuar. Puseste cuspe nos meus olhos, e me tocaste. De certa forma eu vejo, mas vejo homens como se fossem árvores andando". Pessoas assim muitas vezes vêm falar comigo, dizendo que não conseguem ver a verdade com clareza. Em sua confusão ficam desesperadas e perguntam: "Por que não posso ver? Isso tudo não adianta". Param de ler suas Bíblias, param de orar. O diabo já desencorajou muitos com suas mentiras. Não dêem atenção a ele!
Qual, então, é a cura? Qual é o caminho certo? É ser sincero, e -responder a pergunta do Senhor com honestidade e franqueza. Este é o segredo da questão. Jesus Se voltou para o homem, di­zendo: "Podes ver?" E o homem disse, com absoluta franqueza: "Eu vejo, mas vejo homens como se fossem árvores andando". O que salvou este homem foi sua honestidade. A pergunta, então, é: qual é nossa posição? O propósito deste sermão é justamente tratar desta pergunta: qual é nossa posição? O que vemos, real­mente? Vemos as coisas com clareza? Somos felizes? Vemos real­mente? Ou vemos, ou não vemos — e precisamos saber exatamente qual é nossa posição. Conhecemos a Deus? Conhecemos Jesus Cristo? Não somente como nosso Salvador, mas será que O conhe­cemos realmente? Estamos nos regozijando com "alegria indizível e cheia de glória"? Esse é o cristão do Novo Testamento. Podemos ver? Vamos ser francos; vamos enfrentar a questão, e vamos fazê-lo com absoluta honestidade.
E depois? Bem, o último passo é submeter-se a Ele, submeter-se a Ele tão completamente como este homem fez. Ele não fez objeções ao tratamento suplementar, mas regozijou-se com o mesmo, e creio que se o Senhor não tivesse dado aquele passo adicional, o homem teria Lhe pedido que o fizesse. E você, meu amigo, pode fazer o mesmo. Venha à Palavra de Deus. Pare de fazer perguntas. Comece com as promessas, em sua ordem certa. Diga: "Quero a verdade, não importa o preço". Ligue-se a ela, submeta-se a ela, submeta-se totalmente como uma criança e implore que Ele lhe dê visão clara, visão perfeita, e que o faça, uma pessoa completa. E ao fazer isso, é meu privilégio lembrar você que Ele pode fazê-lo.
Sim, e mais, eu lhe prometo, em Seu bendito nome, que Ele vai fazê-lo. Ele nunca deixa nada incompleto. Esse é o ensino. Ouça-o. Este homem foi curado e restaurado, e passou a ver tudo distinta­mente. A posição cristã é uma posição clara. Não fomos destinados a permanecer numa situação de dúvida e apreensão, de incerteza e infelicidade. Você acha que o Filho de Deus veio do céu, viveu entre nós e fez tudo que a Bíblia registra, morreu numa cruz e foi sepultado e ressuscitou; que Ele subiu aos céus e enviou o Espírito Santo, para nos deixar num estado de confusão? É impossível! Ele veio para que pudéssemos ver com clareza, para que pudés­semos conhecer a Deus. Ele veio para nos dar vida eterna, "e a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus ver­dadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste". Se você se sente infeliz a respeito de si mesmo, como resultado deste exame, busque ao Senhor, busque a Sua Palavra, espere nEle, suplique a Ele, apoie-se nEle, ore a Ele com as palavras do hino:

Santo Espírito, luz divina,
Ilumina a minha alma;
Palavra de Deus, luz interior,
Desperta meu espírito, abre meus olhos.

Ele Se comprometeu a fazê-lo, e Ele o fará, e você não mais será um cristão incerto, vendo e não vendo; mas será capaz de dizer: "Eu vejo; vejo nEle tudo que necessito, e mais, e sei que pertenço a Ele".