terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Neoteísmo


Teologia Relacional ou Teísmo Aberto

Silas Roberto Nogueira

(Este artigo foi publicado na Revista Sã  Doutrina, ano 7/2008/n°13)

“Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade que EU SOU DEUS, E NÃO HÁ OUTRO DEUS, NÃO HÁ OUTRO SEMELHANTE A MIM. Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho será firma, e farei toda a minha vontade.”
Isaías 46.9,10 - ACF

Há cerca de duas décadas certos teólogos resolveram redefinir a concepção cristã de Deus. Segundo eles, a concepção “tradicional” de Deus é maculada pela filosofia grega e apresenta uma ideia acerca de Deus que não corresponde à revelação bíblica. O Deus da Bíblia é “outro deus”, dizem que é soberano, mas abriu mão da Sua soberania por amor a Sua criatura e para conceder-lhe livre-arbítrio, ou, como advogam, “liberdade real” ou “significativa”. É onisciente, mas ignora o futuro, pois só pode conhecer o que é conhecível. Como os homens são livres (no sentido indeterminista), suas ações são imprevisíveis, o futuro não existe (isto é, está aberto), portanto, Deus não pode conhecê-lo. Embora Deus seja sábio, Ele se arrisca no relacionamento com seres morais livres. Ele pode até cometer enganos em determinadas circunstâncias, afinal, não pode prever (com absoluta certeza) como as criaturas agirão. Deus é imutável apenas essencialmente, no mais Ele muda, se arrepende de determinadas ações, reage e se adapta às decisões humanas. Deus é amor e exatamente por isso é passível de sofrer conosco, vivendo intensamente a história. Assim, o amor é o Seu mais importante atributo. Tais concepções certamente estão muito distantes do conceito cristão “tradicional” de Deus. Representam um afastamento não somente do conceito de que Deus preordena todas as coisas, como expõe o calvinismo, mas também que Deus sabe todas as coisas antecipadamente, como expõe o arminianismo tradicional. No entanto, o “neoteísmo” ou “teísmo aberto” não é nenhuma “novidade” teológica, é uma colcha feita com os “velhos” retalhos (trapos) do pelagianismo, socianismo, teologia processual (e filosofia, embora neguem peremptoriamente), arminianismo (extremado) com os alinhavos da cultura moderna (pós-moderna). Assim, não há nada de “novo” (neo) aí, é “velhacaria reciclada”. O Deus da Bíblia é soberano e em nenhum lugar é declarado que Ele abriu mão da Sua soberania em benefício da criatura, o que não seria benefício algum, mas a própria perdição da criatura. O Deus da Bíblia é onisciente, ainda que não entendamos perfeitamente a relação entre o Seu conhecimento e a nossa liberdade, o que só indica ignorância da nossa parte, não da Sua. Seu conhecimento do futuro é absoluto, exaustivo, do contrário não nos restaria esperança alguma, visto que não poderia haver certeza de Seu triunfo final. O Deus da Bíblia é onipotente, mas isso não significa que tenha que impedir uma catástrofe quando alguns entendem que deveria fazê-lo. Não é porque Deus não impediu uma tragédia ou catástrofe que Ele não interveio ou que não pode fazê-lo. O Deus da Bíblia não arrisca, Ele não erra, não se engana. Falar em Deus que erra é um contra senso. O Deus da Bíblia é amor, mas esse não é o único atributo dEle. Fazer do amor o mais importante atributo de Deus é um erro, pois nEle há perfeito equilíbrio entre Seus atributos e Ele não exerce um (atributo) em detrimento do outro. O neoteísmo ou “teísmo aberto” distanciou-se dos limites bíblicos e propõe adoração a um “outro deus” sob a capa de outra espiritualidade – e isso é idolatria!

Soli Deo Gloria!

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ACF – Bíblia traduzida por João Ferreira de Almeida Edição Corrigida e Revisada Fiel ao Texto Original da Sociedade Bíblica Trinitariana

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

CASAMENTO MISTO - Uma Ameaça à Família da Aliança


Silas Roberto Nogueira



 



Malaquias 2:10 a 16 (vv.10 a 13)



O v. 10 serve como uma introdução ao assunto que Malaquias pretende tratar. Há uma denúncia aqui sobre a deslealdade generalizada do povo, do sacerdote ao camponês. E Malaquias faz questão de mostrar que isso se dá por causa do fracasso espiritual do povo. Não é uma questão puramente social, isto é, não é uma questão do desenvolvimento de politicas públicas, não era uma questão meramente econômica ou mesmo educacional. O cerne mesmo da questão era o relacionamento com Deus. O puritano Mathew Henry comentou sobre esse versículo o seguinte – aquele que é falso com Deus não será fiel ao seu semelhante. Assim, o que rege a vida de um homem é a sua teologia. Uma prática corrupta é fruto de princípios corruptos.

Malaquias faz então um movimento, deixa o geral e parte para o específico. Lloyd-Jones sempre usava este método e dizia que este era o método bíblico. Nos versículos subsequentes ele tratará das questões familiares, especialmente do casamento misto e do divórcio. O princípio é o mesmo, mas aplicado à vida familiar. O profeta vai ao cerne do problema, a família. Nenhum problema social tem origem fora da família. O que Malaquias diz aqui é que a estabilidade da sociedade depende da estabilidade da família. Mas acima disso, a estabilidade da família depende da estabilidade do nosso relacionamento com Deus. Por isso Thomas Watson declarou “O amor de Deus amarra com tanta força os laços do matrimônio que nem a morte nem o inferno podem desatá-los.”

A estabilidade do nosso relacionamento com Deus se mede em nossa obediência para com a Sua Palavra, especialmente no que se refere à constituição de uma família. E a primeira coisa que devemos saber sobre a constituição de uma família é que não devemos nos unir a um incrédulo. Era exatamente aqui que o povo da aliança estava errando e era contra isso que Malaquias levantava a sua voz. Mas por que o casamento misto é condenado nas Escrituras? Há pelo menos três razões, vejamos:


CASAMENTO MISTO VIOLA A ALIANÇA COM DEUS, v.10b

A primeira coisa que devemos saber é que o casamento misto é uma violação da nossa aliança com Deus. Quando entramos num relacionamento com Deus esse relacionamento é chamado aliança ou pacto. Deus fez aliança com Abraão (Gn 15.18) e quando redimiu seu povo da escravidão o fez por causa da aliança com ele (Ex 6.5) e a implicação disso é que Ele seria o nosso Deus e nós o seu povo peculiar (Ex. 6.7; 19.5). Nessa aliança o povo se obrigava a obedecer a seus termos e um desses termos referia-se ao casamento misto, Ex 34.11-17; Dt 7.3,4. Portanto, ao casar-se com um pagão o judeu estava violando os termos da aliança com Deus. Talvez você diga “ah, mas isso se refere aos crentes do Velho Testamento e nós somos do Novo Testamento, não estamos debaixo da lei, mas da graça e tais proibições não nos dizem respeito!”. O que posso dizer a você é que os crentes do Novo Testamento estão igualmente aliançados com Deus em termos muito parecidos com os crentes do Velho Testamento e o sangue de Cristo selou a nova aliança, uma aliança chamada “superior” (Hb 7.22). Os termos da nova aliança também implicam em obediência e igualmente implicam em casar-se com alguém que partilha a mesma fé, 2 Co 6.14; 1 Co 7.39). Portanto, seja no Velho ou no Novo Testamento, casar-se com incrédulo é violar a aliança com Deus. A desobediência é pecado grave, comparado mesmo à feitiçaria, 1 Sm 15.23. Quando quebramos um mandamento, somos culpados de violar todos os mandamentos e é preciso que saibamos que nenhum desobediente terá parte no Reino de Deus.

Nunca se una a alguém que se recuse unir-se a Cristo. John MacArthur conta que em seu primeiro mês de ministério, estando disposto a cumprir a Palavra de Deus, foi submetido a uma grande prova. Uma jovem, filha de um membro influente de sua igreja decidiu casar-se com um incrédulo e queria que ele celebrasse a união. Ao recusar-se, imediatamente instalou-se uma crise na igreja. Os presbíteros o apoiaram e a família saiu da igreja junto com muitos outros, contudo a Comunidade da Graça continuou firme no propósito de obedecer à Palavra de Deus[1].

Alguns anos antes de Malaquias profetizar, o sacerdote Esdras buscou a Palavra de Deus, mas não somente isso buscou também cumpri-la, Esd. 7.10. Não seremos abençoados por Deus se somente buscarmos a Palavra de Deus, nós seremos verdadeiramente abençoados se a cumprirmos. Um cristão comprometido com a Palavra de Deus quer honrar a Deus e a maneira de fazermos isso é cumprimos com fidelidade a Sua Palavra. Será que temos essa disposição em nós?  


CASAMENTO MISTO VIOLA A SANTIDADE DO POVO DE DEUS, v.11

A segunda coisa que devemos saber é que o casamento misto é descrito em termos bastante fortes – é uma deslealdade e uma abominação. O primeiro termo implica em infidelidade, traição. O segundo em algo que provoca náusea ou nojo. Casamento misto é necrofilia espiritual. O casamento misto é um ataque frontal contra a santidade do povo de Deus, uma traição e pelo caráter que assume é algo nojento, algo que deveríamos repudiar. Precisamos entender que há uma razão para isso,

  • O casamento misto é a tentativa de reconciliar coisas irreconciliáveis, 2 Co 6.14-18. A tentativa de reconciliar Cristo e Belial é blasfema. Note que Paulo caminha as instâncias da sociedade, comunhão, harmonia, parceria, acordo e a resposta correta que se deve dar a todas elas é um retumbante não!


  • O casamento misto é a mais íntima comunhão com as obras das trevas, Ef 5.11. Calvino havia comentado que “prender-se a jugo desigual com os incrédulos significa nada menos que manter comunhão com as obras infrutíferas das trevas, e estender-lhes a destra como emblema de companheirismo”.


  • O casamento misto é a porta de entrada para a idolatria, Dt 7.3,4. Os casamentos mistos foram a principal causa da decadência espiritual para Israel, Nm 25. Esdras (9.1,2) e Neemias (10.30; 13.23-27) combateram os casamentos mistos, lembrando-se do exemplo de Salomão. 


Quando Paulo trata do jugo desigual usa uma analogia agrícola do VT que proibia colocar sob o mesmo jugo dois animais de natureza diferentes, Dt 22.10. John Macarthur comenta “que se esses dois animais trabalhassem juntos não conseguiriam abrir um sulco em linha reta. Seus temperamentos, instintos naturais e características físicas tornavam isso impossível.” É uma lição tirada da vida comum, e deve ser aplicada à vida espiritual.

O casamento misto não honra a Deus. Sendo Deus nosso Pai não deveríamos honrá-Lo?


CASAMENTO MISTO SUJEITA O MEMBRO AO JUÍZO DE DEUS, v.12

Em terceiro lugar o que precisamos entender é que o casamento misto sujeita o membro ao juízo de Deus. Esse juízo é sem exceção note – “seja quem for”.  A desobediência traz o juízo, pois Deus nunca premia os rebeldes. O casamento misto significa uma auto exclusão, visto que uma pessoa entra num casamento por livre vontade. Agindo desse modo se sujeita ao castigo por parte de Deus. É como embarcar num navio que de antemão se sabe que vai afundar, mais cedo ou mais tarde.

Se você soubesse em uma companhia área nove em cada dez aviões caem, teria coragem de embarcar num deles para uma viagem de longa distância?

Caros irmãos, por que nós nos colocaríamos sob o juízo de Deus?



Para terminar quero citar a Confissão de Fé de Westminster, XXIV, artigo III:

A todos os que são capazes de dar um consentimento ajuizado, é lícito casar; mas é dever dos cristãos casar somente no Senhor; portanto, os que professam a verdadeira religião reformada não devem casar-se com infiéis, papistas ou outros idólatras; nem devem os piedosos prender-se desigualmente pelo jugo do casamento aos que são notoriamente ímpios em suas vidas ou que mantém heresias perniciosas.

Para os que dizem:

  • Há exceções – sim, mas elas confirmam a regra. Depois, contar com a misericórdia de Deus desse modo é tentá-Lo.

  • “Deu certo para mim” justificam alguns. Bem, sempre costumo dizer que a nossa regra de fé é a Bíblia, não o testemunho pessoal de alguém.




[1] Princípios para uma cosmovisão bíblica, pp.71.72. 
Notas das exposições em Malaquias na Comunidade Batista da Graça, Suzano. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

PAIXÃO PELA GLÓRIA DE DEUS


Silas Roberto Nogueira

Notas do sermão por ocasião da Comemoração da Reforma





Calvino é uma das poucas pessoas na história do cristianismo que é ou muito apreciado ou absolutamente desprezado. Calvino nunca foi uma unanimidade e certamente não o será. A verdade é que pouco esforço fazia para ser agradável aos homens, buscava mesmo ser agradável a Deus.

Quem foi João Calvino?

Veja artigo biográfico aqui

Calvino é um reformador de segunda geração. Nasceu em Noyon em 1509, França e morreu em 1564, em Genebra. A princípio seu pai queria que seguisse carreira eclesiástica, depois jurídica, mas Deus tinha outros planos para João. Não sabemos muitos detalhes de sua vida. Sabemos que por volta de 1533 já havia tido um encontro com Cristo e vemo-lo envolvido com a causa da reforma. Fugindo da França, abriga-se em Estrasburgo. Ao saber disso, Farel, outro nome entre os grandes, o busca e sob pena de maldição o leva à Genebra (1536, aos 26 anos) para levar avante a causa da Reforma. Calvino é considerado o cérebro da Reforma, foi pastor, pregador, escritor, missivista e aquele que fez de um lugar obscuro como era Genebra “a mais perfeita escola de Cristo”. 

A reforma sob Calvino avançou mais?

Joel Beeke diz que Calvino foi além de Lutero pelo menos em quatro áreas:

(a) Sua compreensão da ceia do Senhor.
Lutero desenvolveu a teoria da consubstanciação, Calvino avançou ao conceito de meio de graça, embora memorial.

(b) Sua compreensão do culto
Lutero manteve muito da missa católica; Calvino aboliu do culto todo o que não estava de acordo com as Escrituras.

(c) Sua compreensão da justificação
Lutero avançou da salvação por obras à justificação pela fé, Calvino por sua vez avançou daí para a questão de como deve viver aquele que foi justificado.

(d) Sua compreensão da evangelização do mundo
Calvino começou a olhar como seria possível evangelizar o mundo. Com a bênção de Calvino em 1555 chegou ao Brasil o Pr Jean Jaques Le Balleur (João Bollés), em 21 de março de 1557 ele celebrou a primeira ceia aqui e em 1567 ele foi morto por Anchieta no Rio de Janeiro. 

Quais são os enfoques mais importantes do ministério de Calvino?
Quando falamos o nome de Calvino o que vêm à sua mente? Qual o assunto ou tema teológico que você se lembra? Se for a predestinação, lamento dizer, mas você conhece pouco de Calvino.  Certo estudioso do assunto disse que a predestinação ocupa cerca de 30% da teologia de Calvino. Portanto, a predestinação não é o centro da teologia de Calvino. Mas, se não é esse o assunto central qual seria?


PAIXÃO PELA GLÓRIA DE DEUS

Quando B. B. Warfield referiu-se a Calvino numa certa oportunidade disse: “nenhum homem teve um senso tão profundo de Deus como ele”. Essa é a primeira ênfase do ministério de Calvino. 

a)     Calvino rendeu seu coração a Deus:
Num resumo das Institutas escrito em 1536 Calvino declara: não se pode achar a vida eterna e imortal em parte alguma, exceto em Deus. Segue-se, então, que o principal cuidado e interesse da nossa vida devem consistir em buscar Deus com todo o afeto dos nossos corações, e não pretender encontrar descanso e paz em lugar nenhum, senão unicamente nEle. Essa afirmação de Calvino deve ser colocada num contexto que deixava de acreditar num mundo teocêntrico, mas adotava o antropocentrismo, o florescer do humanismo. Para Calvino Deus é soberano, domina sobre tudo e nada está fora do Seu poder e conhecimento. Buscar conhecer esse Deus produz certeza e firmeza espiritual é algo essencial... é algo que estabelece em nós uma piedade sólida... Calvino foi expulso de Genebra e depois de alguns anos (13 de setembro de 1541) foi chamado de volta e sabia as lutas e sofrimentos que o aguardavam, porém numa carta a Farel escreveu ele: quando me lembro que não pertenço a mim mesmo, ofereço meu coração como um sacrifício ao Senhor.  Calvino era um homem cuja paixão era a glória de Deus, numa oração aos 30 anos disse: "Ó Deus, o alvo a que dei primazia, e para o que diligentemente trabalhei, foi que a glória da tua bondade e da tua justiça (...) pudessem resplandecer claramente, para que a virtude e as bênçãos do teu Cristo (...) sejam plenamente expostas".

b)     Calvino rendeu sua mente a Cristo:
Por ter uma tão elevada concepção de Deus, Calvino desenvolveu uma doutrina do pecado que afirmava a Total Depravação do homem “uma depravação e corrupção hereditária de nossa natureza, difundida em todas as partes da alma, que primeiramente nos torna sujeitos à ira de Deus e depois também produz em nós aquelas obras que a Escritura chama de ‘obras da carne’” (Inst., 2.1.8). Contudo, Deus por sua infinita graça e misericórdia providenciou um Redentor, Cristo Jesus, como diz Calvino “Se Cristo não tivesse trazido ajuda, toda a raça humana pereceria”.  Tendo rendido sua mente a Cristo desenvolveu o conceito da obra tríplice de Cristo como Profeta (Ungido para ser Arauto e testemunha da graça de Deus), Rei (vice-regente de Deus no governo do mundo) e Sacerdote (único Mediador). Reunindo em Si essa três funções Cristo é apresentado como o único que pode salvar, por isso alertava Calvino: “visto que a nossa salvação inteira, em todas as suas várias partes, é compreendida em Cristo, tomemos cuidado para não esperar a mínima partícula dela de qualquer outra fonte”.

c)      Calvino rendeu sua vida ao Espírito:
Calvino via o governo do Espírito Santo nos homens como uma necessidade por causa do pecado: “por causa da insolência e fraqueza que há em nós, temos de ser governados pelo Espírito de Deus, que é a chave mestra que nos abre as portas do Paraíso.” (Sermões em Efésios) Calvino via a obra do Espírito no homem de modo duplo: O Espírito de Deus realiza uma obra dupla em relação à nossa fé. Ele nos ilumina para fazer-nos entender as coisas que, doutro modo, ficariam ocultas para nós e para recebermos as promessas... essa é a primeira parte da obra. A segunda é que o mesmo Espírito se agrada em habitar-nos e dar-nos perseverança.... (Sermões em Efésios). Para Calvino o Espírito Santo é o meio pelo qual Cristo nos une a Si mesmo. Calvino falava do Espírito como renovador e o doador dos dons, dizia ele: devemos rogar a Deus que nos renove e nos fortaleça pelo Seu Espírito Santo; e aumente cada vez mais seus dons em nós...

Meu amado irmão se, porventura quisermos uma reforma temos que entregar nosso coração a Deus, nossa mente a Cristo e nossa vida ao Espírito Santo – em outras palavras, temos que nos render, como Calvino, à atuação do Deus Triúno Soberano. O que precisamos desesperadamente hoje é de um senso mais profundo acerca de Deus.


PAIXÃO PELA SANTIDADE DE DEUS

A concepção de Calvino acerca de Deus era muito elevada, Deus não é somente soberano, Ele é santo. Ora, os eleitos de Deus devem manifestar em suas vidas a santidade de seu Pai.
a)      Fervor em perseguir a santificação: Calvino insistia que os crentes deviam ser fervorosos em perseguir a santificação manifesta em obediência: visto que o Pai nos reconciliou consigo em Cristo, Ele nos ordena que sejamos conformados com Cristo, o nosso modelo. A menos que nos dediquemos, com fervor e oração, em seguir a retidão de Cristo, não somente nos rebelamos infielmente contra nosso Criador, mas também O abjuramos como nosso Salvador. Se Deus é nosso Pai, devemos nos comportar como seus filhos.

Calvino nada sabia do ensino do crente carnal: o apóstolo nega que alguém conheça realmente a Cristo e não tenha aprendido a despojar-se do velho homem, que se corrompe com as concupiscências do engano, e a revestir-se de Cristo. Para Calvino, tanto como para Paulo, deveríamos perseguir a perfeição: a perfeição deve ser o objetivo final... o alvo pelo qual nos empenhamos.

b)     Perfeição absoluta: Mas ao mesmo tempo em que insistia na busca pela perfeição Calvino advertiu contra estabelecermos um padrão muito elevado para outros crentes: não devemos insistir na absoluta perfeição do evangelho em nossos irmãos, por mais que nós mesmos nos esforcemos por essa perfeição. Devemos ser severos contra nós mesmos, mas misericordiosos para com os outros.

c)      A cruz que devemos suportar: Calvino via a cruz como auto renúncia: ninguém nega corretamente a si mesmo, se não se entrega por completo ao Senhor e está disposto a confiar cada detalhe à boa vontade dele. A cruz segundo Calvino era aceitar das mãos de Deus as contradições da vida, o sofrimento. Mas, não é algo que simplesmente vem sobre nós, é algo que tomamos voluntariamente. Quando foi convidado a voltar a Genebra que o havia expulsado sob cusparadas, podia ter se recusado, mas como não julgava a sua vida como sua, aceitou voluntariamente o tremendo desafio. Para Calvino a cruz nos torna humildes (segundo Calvino o sofrimento nos despoja de toda autoconfiança), esperançosos (Calvino cita Paulo, Romanos 5.3,4), obedientes (segundo Calvino Deus por meio do sofrimento nos ensina a obedecer) e disciplinados ( diz Calvino que o Grande Médico sabe como cuidar de todos os seus pacientes) – em outras palavras, o sofrimento produz santificação. No fim da sua vida, orou Calvino: “Senhor, eu retenho a minha língua porque sei que isto vem de ti. Eu estou chorando como um cão. Tu tens me moído e me transformado em pó, mas isto me basta porque compreendo que é a Tua vontade. Quero oferecer-Te meu corpo e minha alma de forma pronta e sincera”

Meu amado irmão, se, eventualmente, quisermos uma reforma ou avivamento temos que fervorosamente buscarmos manifestar o caráter dAquele que confessamos como Pai até mesmo em meio aos sofrimentos da vida.  


PAIXÃO PELA PALAVRA DE DEUS

Calvino tinha uma profunda paixão pela Palavra de Deus. Primeiro ele cria firmemente na autoridade das Escrituras, segundo ele: as Escrituras vieram do céu. Philip Schaff, respeitado historiador da igreja, escreveu que “Calvino possuía a mais profunda reverência pelas Escrituras como a Palavra de Deus vivo e como a única infalível e suficiente regra de fé e obediência”. Segundo, Calvino cria que o que torna o cristianismo singular é o fato de que Deus nos falou: “O princípio que distingue a nossa religião de todas as outras é o conhecimento que possuímos de que Deus nos falou”. Não existe outro Deus que fale a não ser o nosso Deus (Is 46.5-11). Daí o seu alto conceito da exposição da Palavra. A paixão pela Palavra de Deus fez de Calvino um excepcional expositor, vejamos algumas características de sua pregação:

1.      Pregação expositiva: Calvino era acima de tudo um expositor da Palavra. Alister McGrath declara que a autoridade de Calvino não fluía de sua posição política ou posição social, sua influência procedia de sua “considerável autoridade pessoal como pregador”. O que é pregação expositiva? Uma resposta simples é: leitura do texto bíblico, explicação do mesmo e a aplicação àqueles que ouvem, tudo isso sob a unção do Espírito Santo. Era justamente isso que Calvino fazia. Pregava de modo simples, direto e sob a unção de Deus. Ele não ia ao púlpito com suas ideias e argumentos.

2.      Exposição sequencial: o método de Calvino consistia em pregar sistematicamente sobre livros inteiros da Bíblia. Esse método é chamado lectio contínua. Ele expôs todo o livro de Gênesis, Deuteronômio, Jó, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, os profetas , os Evangelhos, Atos, Coríntios, Gálatas, Efésios, 1 e 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo, Tito e Hebreus.

No século passado Dr Lloyd-Jones ficou conhecido por suas exposições magistrais lectio continua em Romanos (13 anos), Efésios (5 anos), Filipenses, 2 Pedro, 1 João, etc. Atualmente John MacArthur e Mark Dever têm se destacado como expositores que seguem essa metodologia.


3.       Exposição direta: Calvino era notoriamente direto e centrado no ensino principal do texto. Não desperdiçava palavras, começava revisando o sermão anterior estabelecia o contexto da passagem que seria abordada e como o texto se enquadrava no argumento de todo o livro. Depois, lia e expunha versículo por versículo.

4.      Exposição apaixonante: Calvino tinha paixão em alcançar os perdidos e seus sermões pretendiam alcançar o coração dos homens, apelando ao pecador para que se arrependesse e cresse em Cristo. Não era incomum antes de finalizar seus sermões apelar aos perdidos.
5.      Exposição que exalta a Deus: Calvino era doxológico em sua conclusão. Seus sermões eram teocêntricos, não deixava o púlpito sem exaltar a Deus e instar que seus ouvintes se rendessem à supremacia dEle.

Meus irmãos, o que temos visto hoje é o completo desprezo pela pregação. E, como dizia Calvino, quando a pregação é desprezada, Deus é desprezado. Reforma acontece quando recobramos o alto conceito da Palavra de Deus, pois é por meio dela que Ele nos tem falado. 


Calvino é um daqueles homens que é mais fácil caluniar do que imitar. Não sofremos de calvinolatria e nem de calvinofobia, pois nenhuma das duas posições é correta. Vemos Calvino como homem, portanto sujeito às mesmas falhas comuns aos homens, mas vemo-lo também como servo de Deus cuja paixão era a Sua glória. Se hoje conseguimos ver mais longe é porque estamos sobre os ombros de um gigante cujo nome é João Calvino.

Contudo, assim como Lutero, Calvino não promoveu uma reforma completa, ele continuou a edificar sobre aquilo que outros começaram. Exatamente como ele fez, cabe-nos fazer.


sábado, 13 de outubro de 2012

Jesus Alegria dos Homens



Gióia Junior


Nesta hora de incerteza. de cansaço e de agonia,
nesta hora em que, de novo, a guerra se prenuncia,
neste momento em que o povo não tem rumo, nem tem guia;
Ó Jesus, agora e sempre Tu és a nossa alegria!

Nesta hora seca e torpe, de vergonha e hipocrisia,
quando os homens apodrecem nos banquetes e na orgia,
nesta hora em que a criança atravessa a noite fria;
Tu és a nossa esperança, Tu és a nossa alegria!

Alegria manifesta, que brotou e se irradia
de uma simples e modesta e sublime estrebaria,
alegria nunca ausente,
alegria onipotente
que palpita para o crente
e faz dele um novo ser;
alegria cristalina,
doce, mística, divina,
que nos toma e nos domina
e nos enche de poder.

Tu és a nossa alegria! Santa alegria, Senhor,
que nos une e nos separa e nos fecunda de amor!
Por isso cantamos hinos, temos prazer no louvor,
até nas horas escuras do afastamento e da dor.


Cantai, ó povos da terra!
Trazei harpas e violinos,
oboés, cítaras, guitarras,
harmônios, címbalos, sinos,
clavicórdios e fanfarras,
coros de virgens e mártires, de meninas e meninos!

Cantai, ó povos da terra!
Trazei avenas e tubas, flautas, flautins,
clarinetas, celos, clarins
e tambores
e metálicas trombetas e puríssimos cantores!

Cantai, ó povos da terra!
Trazei pássaros e fontes, bulícios, rios e ventos,
rochas, árvores enormes, alvos lírios orvalhados, palmas viçosas luzindo,
sons da noite, vozes múltiplas dos animais e das águas,
das pedras e dos abismos, das florestas intocáveis
e dos mundos subterrâneos, sons da madrugada clara:
estalos de galhos verdes. Doces ruídos domésticos: talheres e louças brancas.
Sons de fábricas, ruídos de teares e bigornas, de madeiras e metais,
passos pesados de botas de militares eretos,
passos macios e quentes de rosadas colegiais.

Cantai, ó povos da terra!
Cantai de noite e de dia,
na tarde pesada e morna,
na manhã ágil e fria,
na aflição, ou na ventura,
ao nascer, ou na agonia:
Jesus - Senhor dos senhores,
Tu és a nossa alegria! Tu és a nossa alegria! Tu és a nossa alegria!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ - Defendida



Notas do sétimo sermão da série em Gálatas

Silas Roberto Nogueira 


Gálatas 3.1-14

INTRODUÇÃO
Em nosso estudo anterior vimos como Paulo apresenta o pensamento central desta Epístola, a justificação pela fé. Chegamos agora à secção doutrinária da Epístola, os capítulos 3 e 4. Estes dois capítulos, segundo Merrill C. Tenney constituem-se no “coração da epístola”. Nesses 60 versículos Paulo apresenta uma argumentação teológica vigorosa em favor da tese afirmada anteriormente de que a justificação é pela graça mediante a fé. São seis os argumentos apresentados aqui, abordaremos hoje apernas três deles, os contidos no capítulo 3, a saber: (a) um argumento a partir da experiência pessoal dos gálatas, vv.1-5; (b) argumento escriturístico, isto é, o ensino do Velho Testamento, vv. 6-14; (c) argumento lógico, a partir da aliança, vv. 15-29.  Antes de começarmos a exposição do nosso texto, considerando os argumentos de Paulo acerca da justificação pela fé, quero destacar alguns pontos acerca do perigo que representa afastar-se desta doutrina.
O QUE REPRESENTA ABANDONAR A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ, v. 1
A reprimenda apostólica aos gálatas deixa evidente a importância do artigo para o apóstolo. Não era uma questão periférica, de somenos importância. Qualquer movimento para longe do ensino apostólico deve ser visto como um ato de manifesta loucura.
a)       Consumada insensatez
O afastamento dos gálatas da verdade do evangelho não era somente um ato de traição (1.6), mas um ato de manifesta insensatez. O termo “insensatos” (gr anoetos) usado aqui por Paulo descreve uma ação que é tomada sem sabedoria. Hendriksen lembra que a palavra indica uma atitude do coração e não somente da mente. Diz ele “refere-se não apropriadamente à obtusidade, mas à negligência pecaminosa de uma pessoa em usar o seu poder mental para tirar o melhor proveito mental”. “Os gálatas ao darem ouvidos aos argumentos dos legalistas, não foram propriamente lerdos, e, sim, irrefletidos; não foram ignorantes, e, sim, insensatos; não foram estultos, e, sim, néscios.”
b)      Estar fascinado pelo erro
A tolice dos gálatas em se afastar da verdade do evangelho seguindo os argumentos dos judaizantes é tamanha que Paulo os descreve como pessoas que estão agindo como se estivessem hipnotizadas. O termo “fascinou” referia-se a encantamentos mágicos, algo que se lançava sobre outra pessoa através do olhar. O termo foi tomado por empréstimo das artes mágicas que eram bem conhecidas na região, descrevendo aqueles que ficavam como que hipnotizados, agindo de modo estranho. Paulo compara a situação dos gálatas em impensada aceitação dos argumentos judaizantes de buscar a justificação pelas obras à mesma atitude daqueles que estavam sob o poder dos encantamentos. Algumas versões seguindo o Textus Receptus acrescentam aqui a frase “para não obedecerdes à verdade?”. E esse parece ser mesmo o caso aqui, pois o que eles estão fazendo é uma flagrante desobediência ao ensino apostólico, ao evangelho que lhes havia sido apresentado.
c)       Repudiar o único sacrifício eficaz pelo qual se obtém justificação
Stott declara que a nova atitude dos gálatas representa uma negação do evangelho. O evangelho paulino consistia de Cristo e este crucificado (1 Co.2.2) e foi justamente esta mensagem que lhes foi “exposta”. Em outras palavras, que a morte de Cristo na cruz obteve para nós a justificação diante de Deus, Rm 3.21-25. Rejeitar isso significa desprezar o único sacrifício, a única obra que Deus aceita para a justificação, Cristo crucificado. Paulo apresentou Cristo diante dos olhos dos gálatas e os ensinou a olhar para a cruz de Cristo para a sua justificação, contudo seus olhos foram como que desviados da cruz por um fascínio maligno. Tirar os olhos da cruz constitui-se o maior de todos os erros, não só dos gálatas, mas de todos os que querem ser salvos.
Dito isso, vamos agora considerar o nosso texto, extraindo daí alguns princípios e depois algumas aplicações:
Como mencionei pouco antes a tese do apóstolo Paulo é apresentada nos v.14-16 do capítulo 2. Neste trecho Paulo afirma que a justificação é pela fé, não pelas obras da lei. Agora ele consubstancia a sua tese com três argumentos:
1.       ARGUMENTO DA EXPERIÊNCIA PESSOAL DOS GÁLATAS, v.2-5
Paulo começa a sua argumentação apelando para a experiência dos crentes gálatas. Ele faz algumas perguntas retóricas, perguntas cujas repostas ele já possui e que somente auxiliarão os seus leitores originais a entender melhor a sua argumentação na defesa da justificação pela fé:
a)       A recepção do Espírito pela fé, v.2. Paulo pergunta aos gálatas se eles receberam o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé. O verbo “recebestes” (gr elabete, de lambano) está no aoristo e refere-se a um momento no passado quando da recepção do Espírito Santo, certamente ao início da vida cristã. Calvino entendia o termo Espírito aqui como se referindo à regeneração. De fato o contexto parece mesmo referir-se ao início da vida cristã, pois pouco antes ele fala acerca de sua exposição do evangelho entre eles. O Espírito é quem produz a regeneração (Jo 3) mas isso ocorre em conexão com a pregação da Palavra (1Pe 1.23). A presença do Espírito na vida de uma pessoa é, certamente a prova de que ele é um verdadeiro cristão (Rm 8.9) e igualmente a prova de que ele foi justificado por Deus, Rm 5.1-5. Ora, ninguém recebe o Espírito por obras da Lei, mas pela fé, Ef 1.13. Argumentar contra um fato é perda de tempo – aqui, Paulo demole toda a alegação judaizante da justificação pelas obras. A justificação é pela fé, pois a vida cristã é iniciada mediante a fé.
b)      O aperfeiçoamento no Espírito pela fé, v.3. O argumento de Paulo aqui é que os gálatas começaram a vida cristã pelo Espírito, mas estavam querendo lavá-la a efeito pela força e determinação humana. Há uma forte antítese aqui entre Espírito e carne (presente também em 5.16). Em outras palavras está claro que aquilo que começou pelo Espírito não pode ser levado a efeito pela carne (Rm 8.6,7,8). A vida cristã, dizia Walter Thomas Conner, é vida no Espírito. O aperfeiçoamento do cristão se dá através da energia do Espírito Santo, não da potência da carne, que na verdade é fraca. A justificação pela fé é a fonte da santificação, como já mencionamos anteriormente, abdicar disso é uma loucura.

c)       O sofrer pela fé, v.4. A palavra usada por Paulo aqui dá margem a duas interpretações. Alguns estudiosos pensam que a palavra aqui se refere às experiências que eles tiveram não ao sofrimento, pois a palavra pode ter esse sentido. Hendriksem traduz: “tendes experimentado tantas coisas em vão?” Mas, um segundo grupo de estudiosos entende a palavra com referência ao sofrimento, especialmente aqueles sofrimentos que poderiam acarretar ser cristão nos primeiros dias da igreja. Em Atos 14 alguns sofrimentos são mencionados em conexão com a recepção ao evangelho na Galácia do Norte, certamente o mesmo aconteceu com a Galácia do Sul. Eles sofreram pela fé, contudo se aceitassem os argumentos dos judaizantes, esse sofrimento seria em vão, sem sentido algum. O cristão vive pela fé e sofre pela fé. 
d)      Operações do Espírito pela fé, v.5. Observe que o tempo verbal aqui muda – antes estava no aoristo, agora no presente – “concede”, indicando uma ação contínua. O termo “Espírito” aqui tem sido entendido por muitos estudiosos como se referindo aos dons espirituais. O contexto realmente indica ações extraordinárias por parte do Espírito. A pergunta de Paulo indica de modo inequívoco que essas ações extraordinárias por parte do Espírito ocorrem por causa da pregação da fé. As ações de Deus não ocorreram em decorrência da obediência deles à lei, mas porque creram no evangelho. Isso estabelece que a justificação é pela fé, não por obras.
Os fatos são esses, Paulo apela aquilo que eles experimentaram. Paulo lhes apresentou o evangelho, eles creram, receberam o Espírito, estavam amadurecendo espiritualmente, sofreram pela fé e viram ações sobrenaturais da parte de Deus – tudo isso pela fé, sem as obras da lei. Sendo esses os fatos é ridículo se submeterem às alegações legalistas dos judaizantes.
A nossa própria experiência deveria nos afastar do legalismo que alguns querem impor sobre nós nos dias de hoje.
2.       ARGUMENTO DO ENSINO DO VELHO TESTAMENTO, v.6-14
O segundo argumento de Paulo volta-se para Velho Testamento. Paulo cita neste trecho seis versículos do Velho Testamento e desmantela a argumentação dos judaizantes. Há dois blocos nesta argumentação, o primeiro refere-se a Abraão, v.6-9; o segundo, v.10-14, refere-se à Cristo, a sua obra como base da justificação. O argumento de Paulo pode ser resumido nos seguintes pontos:
(a)     Abraão foi justificado pela fé, v.6,7. O que Paulo afirma aqui, tomando por base o que a Torá afirma sobre Abraão (Gn 15.6), é que tendo sido ele justificado pela fé sem obras constituiu-se o paradigma para todo o cristão. Abraão não foi justificado pela guarda da Lei, pois a lei não existia, nem pela guarda da circuncisão, pois a circuncisão veio anos mais tarde (Gn 17.9 ss) depois que havia crido e isso lhe havia sido imputado como justiça. A verdade é que o ensino de Paulo não é uma novidade, a justificação pela fé tem raízes profundas as quais os judaizantes ignoram. Ora, se Abraão foi justificado pela fé segue-se que buscar a justificação pelas obras da lei é um erro.
(b)    Os crentes serão justificados pela fé, v.8,9. Notemos que Paulo personifica a Palavra de Deus e isso indica sua firme crença de que Deus fala através dela. Observe o termo “previsto” (gr proidousa), ele indica algo mais que prioridade quanto ao tempo. Na verdade indica que assim como Abraão foi justificado pela fé no passado, os crentes o seriam no futuro.  A promessa feita por Deus em Gênesis 12.3 de que todas as nações seriam abençoadas em Abraão refere-se à justificação pela fé. Ser abençoado em Abraão é ser justificado tal qual ele, pela fé somente, v.9. Se os crentes da Galácia entendessem isso, descartariam os argumentos falaciosos dos judaizantes.
(c)     Ninguém será justificado pela Lei, mas somente pela fé, v.10-12.  O ponto que Paulo destaca aqui é que os que buscam a justificação pelas obras da lei estão sob maldição se não a cumprirem de modo perfeito, cf. Deuteronômio 27.26. E, nenhum homem consegue cumpri-la de modo como ela exige ser cumprida. Quando alguém tropeça em um só ponto da lei torna-se culpado de todos, Tg 2.10,11. Logo, não há esperança de justificação sob a lei, pois o seu alto padrão condena a todos. A lei impõe perfeição sob pena de maldição. Sendo assim, Paulo conclui que ninguém será justificado pela lei, mas somente pela fé. O justo viverá pela fé é uma citação de Habacuque 2.4. Paulo ao recorrer novamente ao VT deixa evidente que Deus sempre tencionou que a justificação fosse pela fé, jamais pelas obras.  Finalmente Paulo afirma a antítese entre lei e fé, v.12 citando Levítico 18.5. Aqui reside a diferença entre a lei e o evangelho. A lei diz “faça!” enquanto o evangelho diz “creia!”
(d)    A justificação é pela fé em Cristo, v.13-14. Paulo não emprega nenhuma partícula de transição, abruptamente introduz a doutrina da morte substitutiva de Cristo (“em nosso lugar”) como o único caminho para a justificação. É pela morte de Cristo que obtemos justificação de Deus, Rm 3.21-25. Cristo não se fez maldição por seus próprios pecados, mas pelos nossos, Hb 9.14 (1 Pe 1.19; 3.18). A morte de Cristo é vista como um “resgate”, Cl 2.14. Pela fé no sacrifício vicário de Cristo recebemos a justificação da parte de Deus e o Espírito Santo como selo que atesta essa justificação. Cristo é, pois a única alternativa para a justificação da parte de Deus. Não há outra via, não há outro caminho.

3.       ARGUMENTO LÓGICO, v. 15-29.
O argumento de Paulo aqui segue duas linhas de raciocínio para consubstanciar a sua tese de que a justificação é pela fé. Na primeira ele contrasta a promessa e a lei e estabelece a superioridade da promessa, v.15 a 20. Na segunda ele mostra o papel da lei, v.21-29. Vejamos:
(a)     A superioridade da promessa, v.15-20. Nesses versículos Paulo estabelece a superioridade da justificação pela fé em três linhas:
·         A lei não revoga a promessa, v.15-18. Ora a promessa da justificação pela fé é uma aliança de Deus com Abraão e, portanto irrevogável. Além disso, ela é anterior à lei e por isso a lei não pode ab-rogá-la.
·         A lei não é maior que a promessa, v.19-20. Há três declarações sobre a lei no v.19. Na primeira, Paulo mostra que a lei é como um espelho que mostra o pecado, mas não pode limpá-lo; na segunda declaração, Paulo diz que a lei era temporária – “até”, v.19b; na terceira afirma que ela foi mediada por anjos, v.19c. A promessa da justificação pela fé perdoa o pecado, é atemporal e foi mediada pelo próprio Deus, por isso é superior, v.20.
·         A lei não é contrária á promessa, v.21-22. O argumento paulino aqui é o seguinte, a lei não é contradiz a promessa – “de modo nenhum!”. Se nós pudéssemos ser salvos pela lei, Deus não teria nos dado um meio diferente de escaparmos das garras do pecado, por que a Lei nos mostra que somos pecadores. A única saída, então, é a fé em Cristo. A porta de escape do pecado é crer em Cristo.
(b)     O papel da lei, v.23-29.
Paulo já havia afirmado o caráter provisório da lei, mas agora ele desenvolve o assunto dizendo que:
·         A lei era como tutora, v.23-24. Paulo emprega duas metáforas para referir-se à lei. No v.23 é a lei é apresentada como um guardião, um carcereiro dos pecadores culpados que estão no corredor da morte aguardando o castigo. A fé, por sua vez liberta o encarcerado e o tira de sob juízo. A segunda metáfora é a do “aio” é “paidagogos” de onde a palavra pedagogo. Nos dias do Novo Testamento essa palavra se referia a um escravo que atuava como tutor de um menino até os 16 anos, acompanhando-o, cuidando do seu comportamento. Os aios eram severos, fazendo com que aqueles que estivessem sob seus cuidados ansiassem pela maioridade, v.24. A lei era uma tutora, não salvadora.
·         A lei não tem poder de subordinar os filhos de Deus, v.25-29. Nós nos tornamos filhos de Deus mediante a fé em Cristo, 25-26. E a fé nos coloca numa condição de não subordinados à condenação da lei, visto que fomos justificados pela fé em Cristo. Essa identificação com Cristo é simbolizada pelo batismo que representa um revestimento da justiça de Cristo,v 27. Essa justificação em Cristo, por sua vez é para todos sem distinção de raça ou gênero, v.28. E todos os que creem em Cristo pela fé é que se constituem a verdadeira descendência de Abraão, pois como ele, foram justificados pela fé, 29. 

Conclusão:
O que fica claro para nós aqui é o seguinte:
1.       É uma insensatez abandonar a doutrina da justificação pela fé. Sem ela nada temos que possa nos justificar diante de Deus.
2.       A justificação pela fé não é uma doutrina abstrata, mas tremendamente experiencial. Você sabe se foi justificado se tem o Espírito de Deus em você.
3.       A justificação pela fé não é uma novidade, uma invenção paulina. A justificação pela fé não é uma doutrina inventada por Paulo, mas possui raízes no VT.
4.       A justificação pela fé é a maioridade espiritual. Buscar ser justificado pelas obras da lei é infantilidade, pois a lei não salva, mas condena.