quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A INVEJA


Por 
Silas Roberto Nogueira

1 Samuel 18.1-16

Nós estamos estudando sobre Os Sete Pecados Capitais. Só para lembrar, a lista dos Sete Pecados Capitais não está na Bíblia. Essa lista se originou com Evágrio do Ponto (346-399) um monge que abandonou a vida na cidade indo viver no deserto do Egito, onde traçou as principais doenças do corpo e as correlacionou com os oito pecados capitais. Mais tarde Gregório Magno tomou conhecimento da lista de Evágrio e fez algumas pequenas adaptações, juntou vaidade e orgulho, dando à lista sua forma final. Tais pecados são chamados Capitais (caput – cabeça) porque são considerados as matrizes de outros pecados, isto é, dão origem a outros pecados. Mas, você pode perguntar: por que falar disso? E eu posso oferecer duas razões básicas: 


(1) Os Sete Pecados Capitais são assunto recorrente na arte (pintura com Hieronymus Bosch), literatura (Milton, em o Paraíso; Dante na Divina Comédia), cinema (Seven – os crimes capitais), televisão (novela da Rede Globo – Os Sete Pecados, escrita por Walcyr Carrasco; nos comerciais, etc.), filosofia (ética), nos negócios (Marc Lewis, que escreveu Pecar para vencer) e na teologia (que desde Evágrio discute o assunto); 


(2) A sociedade contemporânea vê os vícios como virtudes. A sociedade moderna resignifica o pecado, extraindo a sua fealdade e periculosidade. Um exemplo disso tem sido o consultor Marc Lewis que escreveu um livro Sin to Win (Pecar para vencer) no qual defende a tese de que os sete pecados capitais são na verdade fatores motivadores do sucesso. Diz ele que não devemos temer os Pecados Capitais, mas usá-los de modo positivo, isto é, fazer do pecado algo bom, uma força positiva, motivadora.  Um pouco de pecado não faz mal, mas a verdade é que numa única gota de pecado há mais malignidade que em todos os mares. Na semana passada estudamos o primeiro dos Sete Pecados Capitais, o orgulho. Como disse John Stott, o orgulho é a essência do próprio pecado. Para combatê-lo, precisamos ser humildes. 


Hoje nós abordaremos o segundo dos Pecados Capitais. Esse pecado, dizem, é irmão siamês do primeiro. É bem mais odioso, é verdade. Por isso, é possível que alguém reconheça seu orgulho, mas raramente alguém confessa esse outro pecado, porque até mesmo para os mais vis pecadores, esse pecado é insuportável. Mas, como diz Luiz Fernando Veríssimo, se você é humano já sentiu. Falamos da inveja, o segundo pecado capital. A inveja não é somente querer o que o outro possui, mas é um sentimento de tristeza pelo bem do outro e o desejo que o outro não tenha. É o sentimento que nasce no coração do fracassado que deseja penalizar o outro pelo seu sucesso. A inveja é um mal que enfraquece a alma, Pv. 14.30. É uma característica do ímpio (Rm 1.29), quando presente num cristão, indica mentalidade carnal (1 Co 3.1-3; Gl 5.20,21,26). A espiritualidade cristã denuncia a inveja como aquilo que: 

·         destrói a vida daquele que por ela é dominado;
·         a inveja gera transtornos e perdas à vida daqueles que são seus alvos;
·         a inveja inviabiliza relacionamentos sadios;
·         a inveja busca sabotar o projeto de Deus de gerar em nós a imagem de seu Filho.  

Segundo Os Guinness a inveja possui cinco características universais, as quais pretendo identificar na vida de um personagem bíblico que personifica de modo sem igual o invejoso, Saul.

1.       A INVEJA É UM PECADO POR PROXIMIDADE, v.6
Estamos propensos a invejar aqueles que estão próximos de nós. Não é necessário intimidade, mas a mínima proximidade. Assim, a inveja surge entre familiares, amigos e colegas de trabalho ou escola e vizinhos. Após a vitória contra Golias, Davi torna-se, por ordem de Saul, um comandante das suas tropas (v.5). Davi tornara-se um homem popular, benquisto por todos. E justamente por isso nasce a inveja no coração de Saul. Note o “porém” no v.6 que estabelece um contraste entre o que vinha sendo narrado e o que a partir de agora começa a ser descrito. Marca precisamente o momento em que a inveja se manifesta em Saul. O sucesso daqueles que nos cercam geralmente é o fator desencadeador da inveja em nós.

A história registra o exemplo de Múcio, cidadão romano, notável pela inveja. Notando que Múcio estava triste, declarou Públio: “ou sobreveio a Múcio um grande mal, ou veio a outro um grande bem”.


2.       A INVEJA É ALTAMENTE SUBJETIVA, v. 7-8
A inveja está nos olhos de quem vê. Interessante que o termo latino invídia tem o sentido de olhar de perto com intenção má. Não é o que vemos de modo objetivo que provoca a inveja, mas sim a percepção subjetiva, o que a pessoa vê. Não houve ofensa da parte de Davi, o texto deixa evidente que ele agia com prudência (v.5) estando sob as ordens de Saul. A música não era uma composição de Davi, ele nem mesmo cantava. Contudo, Saul estava tão tomado de indignação que não atentou para o fato de que os números da poesia eram mais decorativos que reais (v.8). A poesia hebraica daqueles dias costumava intensificar um ou mais termos da primeira metade de um verso na segunda metade, portanto o que se celebra é a vitória de ambos. Mas Saul estava furioso e extremamente desgostoso para poder perceber isso. De fato, vê Davi como um potencial substituto, um usurpador (v.8). Todo o potencial de Davi é interpretado como uma ameaça para Saul. Mas tudo isso está bem guardado dentro de Saul.

Por isso Dante na Divina Comédia ilustrou o invejoso no Purgatório como alguém cujo castigo era ter os olhos costurados com fios de náilon para que não pudesse olhar e invejar ninguém.

3.       A INVEJA NÃO DIMINUI COM O TEMPO, v.9-11,29
A tentação de ter inveja não diminui com o tempo. Aliás, diga-se de passagem, o pecado não é coisa que abandonamos com a maturidade, como coisa da infância. O v. 9 diz que daquele dia em diante Saul não via Davi “com bons olhos”.  Algumas versões interpretam o olhar de Saul como aquele olhar que contém “suspeita” (ARC), a NVI e Almeida Sec. 21 traduzem “passou a olhar a Davi com inveja”. O hebraico tem uma palavra que quer dizer aquele olhar semicerrado, que fita alguém de modo desconfiado. Saul passa a manter Davi sob vigilância. A vida de Saul é tomada como refém dos atos de Davi. A fermentação da inveja é rápida e contínua. A inveja abre as portas para o ódio, que tem seu clímax no assassinato. Sob a influência de um espírito maligno, Saul tem uma experiência extática e arremessa uma lança contra Davi no intuito de mata-lo, v.10,11. Mais tarde, Saul tenta contra a vida de Davi mais uma vez, mas agindo com sutileza, contudo, percebendo que Davi escapara, ele o temeu mais e “continuamente foi seu inimigo”. A inveja é um sentimento que aumenta na proporção do sucesso do outro, e esse sucesso pode ser simplesmente estar vivo.

Por isso, uma segunda metáfora usada para a inveja é o fogo. Interessante que o termo hebraico para inveja originalmente era usado para uma queimadura, depois para referir-se aquela coloração produzida no rosto por uma profunda emoção, o ardor que a inveja provoca.

4.       A INVEJA É INSACIÁVEL, v.12-17
A inveja pode ser insignificante, mas é sempre insaciável. A inveja não pode ser saciada com a obtenção daquilo que pertence ao outro, mas somente com o fim do outro. Não é uma questão de possuir o que o outro possui, mas não permitir que o outro possua. Saul temia a Davi por que Deus estava com ele (v.12). Uma das ações de Saul foi afastar-se de Davi (v.13ª). A inveja polui os relacionamentos. A pessoa que invejamos se torna insuportável para nós. A segunda ação de Saul foi rebaixar Davi (v.13b). A intenção de Saul é desmoralizar Davi. Mas a inveja não pode ser saciada com o afastamento ou rebaixamento da pessoa, Saul entende que a única maneira de se livrar do que sente é se livrando daquele que é objeto dos seus vis sentimentos. A terceira ação de Saul é querer que Davi morresse, contudo não pelas suas mãos (v.17). Então o plano é coloca-lo à frente da batalha para que morra, pelas mãos de outros. Quando Davi invejou Urias, agiu da mesma maneira. Depois, que morresse buscando o dote para casar-se com Mical (v.25).

A peça ficcional de Peter Shaffer fala da inveja que Antonio Salieri sentia de Mozart.. Quem não viu a peça pode assistir o filme Amadeus e perceber como Salieri é tomado pela inveja e do que é capaz para destruir Mozart.
  
5.       A INVEJA É AUTODESTRUTIVA, v 28,29
O problema da inveja é que ela é autodestrutiva. O que o invejo não pode ter, ninguém pode, nem ele mesmo. A inveja é um sentimento que corrói a pessoa por dentro provocando outros males da alma, Tg 3.16. A inveja implode o invejoso. A inveja produz uma série de sentimentos que fazem com que a pessoa adoeça, consumindo-a por dentro (Pv. 14.30; Jó 5.2)

·         Indignação ou raiva, 18,8
·         Desgosto extremo, 18.8b (que leva à depressão)
·         Desconfiança que torna sua vida refém dos atos do outro, 18.9
·         Medo, 18.12,19. Sentimento paralisante que diminui aquele que sente
·    Insegurança, 18.15. Uma palavra que se traduz geralmente por “estrangeiro”, mas que significa “receio” (ARC) ou “insegurança”, “hesitação” em relação ao outro.

A sabedoria judaica conta a parábola de um rei que encontrou dois homens e decidiu conceder a um deles um pedido. Disse o rei: Um de vocês pode me pedir algo e eu concederei, e cuidarei que o outro receba duas vezes mais. Ocorre que um desses homens era avarento e o outro, invejoso. Então, instalou-se o dilema. O invejoso não quis ser o primeiro a pedir, pois invejava seu companheiro que receberia porção dobrada.  O avarento não quis ser o primeiro, por que queria tudo o que alguém eventualmente pudesse receber. Por fim, o avarento persuadiu o invejoso a pedir primeiro. Então, o invejoso pediu ao rei que arrancasse um dos seus olhos, sabendo que dessa maneira, seu companheiro teria os dois olhos arrancados.  Isso nos mostra que o

CONCLUSÃO
A inveja é um vício que possui certa progressão na alma humana.
1)      Primeiro nível. Incapacidade de identificar e celebrar suas próprias habilidades e virtudes. Problema é a baixa-estima, gerando insegurança, tristeza e depressão.

2)     Segundo nível. Incapacidade de apreciar e celebrar as habilidades e virtudes dos outros. Problema que gera a raiva com o sucesso do outro, crítica e sabotagem sutil e a realização pessoa atrelada ao fracasso do outro, alvo da inveja.

3) Terceiro nível. Perda de identidade, sua vida refém do outro. Problema que gera agressividade para com os outros, críticas abertas, explícita e atitudes agressivas e agenda controlada pelos atos do outro.

É difícil combater a inveja. Como disse certa vez William Gurnall “é tão difícil conservar separados nosso coração e a inveja quanto impedir dois seres que se amam de se encontrarem”. O que pode combater a inveja? O lamento (Mt 5.4). O termo usado para choro aqui é forte, implica na solidariedade e simpatia. Devemos sofrer com os que sofrem, alegrar-nos com os que se alegram (Rm 12.15). Devemos chorar pelos nosso pecados (Tg 4.9) até que sejamos consolados pelo perdão e pela justificação por meio do sangue de Cristo. Que a inveja não se assenhore de nós. 
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Notas do sermão pregado na Comunidade Batista da Graça, em Suzano 

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