quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

OLHANDO AS ONDAS DO MAR


"E logo ordenou Jesus que os seus discípulos entrassem no barco e fossem adiante para a outra banda, enquanto despedia a multi­dão. E, despedida a multidão, subiu ao monte para orar à parte. E, chegada já a tarde, estava ali só. E o barco estava já no meio do mar, açoitado pelas ondas; porque o vento era contrário; mas, à quarta vigília da noite, dirigiu-se Jesus para eles, caminhando por cima do mar. E os discípulos, vendo-o caminhar sobre o mar, assustaram-se, dizendo: É um fantasma. E gritaram, com medo. Jesus, porém, lhes falou logo, dizendo: Tende bom ânimo, sou eu, não temais. E respondeu-lhe Pedro, e disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas. E ele disse: Vem. E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas para ir ter com Jesus. Mas, sentindo o vento forte, teve medo; e, começando a ir para o fundo, clamou, dizendo: Senhor, salve-me. E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste? E, quando subiram para o barco, acalmou o vento. Então aproximaram-se os que estavam no barco, e adoraram-no, dizendo: És verdadeiramente o Filho de Deus".

Mateus  14:22-33



Esta ocorrência que agora vamos considerar tem muitas carac­terísticas em comum com aquela do capítulo anterior, registrada no oitavo capítulo do Evangelho segundo Lucas, sendo o ponto principal que este incidente, exatamente como o outro, concentra a atenção na natureza e no caráter da fé e na importância de termos uma compreensão correta dela. Mas esta passagem o faz de forma um pouco diferente. No texto anterior, vimos que o problema principal era uma falha em compreender que a fé é uma atividade, é algo que precisa ser colocado em prática. "Onde está a vossa fé?" Os discípulos a tinham, mas não a estavam aplicando ao seu problema específico. Aqui, embora ainda estejamos consi­derando, de modo geral, a questão do verdadeiro caráter da fé, ela é-nos apresentada de um aspecto um tanto diferente.
Todavia, não podemos avançar para nossa consideração prin­cipal, por mais importante que seja, sem observar um assunto preliminar que é absolutamente vital e essencial. Voltando ao inci­dente da tempestade no mar, a primeira coisa que observamos é a pessoa, a personalidade, se preferir assim, do nosso bendito Senhor. Aqui, mais uma vez, Ele Se destaca em toda a plenitude da Sua deidade. Nós O vemos em pessoa caminhando sobre as ondas turbulentas, e O vemos capacitando também o Seu servo, o apóstolo, a fazer o mesmo. Novamente O vemos dando ordens e controlando os elementos. Começamos desta maneira porque não podemos considerar a questão da fé, nem alcançar uma verdadeira compreensão dela, se não tivermos uma visão clara a respeito dEle. Não estamos falando de uma fé qualquer, estamos falando acerca da fé cristã, e uma preliminar essencial a qualquer consideração deste assunto, é que tenhamos uma visão clara acerca da pessoa do nosso bendito Senhor. Não há mensagem cristã à parte daquela que proclama que Jesus de Nazaré é o unigênito Filho de Deus, o Senhor da glória, o Senhor Jesus Cristo; e aqui nós O vemos sobressaindo-Se no esplendor da Sua glória, manifestando e pro­vando ser o Mestre do universo, o Senhor dos elementos. Come çamos com isso porque o propósito único dos Evangelhos é apre­sentá-lO. É também absolutamente vital em qualquer consideração do nosso assunto, demonstrar que a razão de todos os nossos problemas é o nosso fracasso em compreender o que Ele é.
Contudo, é igualmente claro que o propósito especial de re­gistrar este incidente é chamar a atenção para o que aconteceu com Pedro. Vemos o Senhor em toda parte nos Evangelhos, em Sua glória e em Sua deidade, porém cada incidente por sua vez salienta algo peculiar, alguma coisa especial; e claramente o aspecto especial aqui é o incidente na medida em que afeta particularmente o apóstolo Pedro.
Pedro começa muito bem — magnificamente até. Então entra em dificuldades, e acaba pessimamente. Essa é a cena. Pedro, que a princípio parecia cheio de fé, termina como um infeliz malogro, clamando em desespero. Quão rapidamente tudo aconteceu! Dizem que uma das características singulares deste mar, é o aparecimento repentino de tempestades. Pode estar calmo num momento, e no próximo aparece um temporal violento. Isso aconteceu com o mar nessa ocasião, e também aconteceu com Pedro — uma mudança súbita de toda a situação.
Do modo como vejo este incidente, a coisa essencial é observar cuidadosamente o que aconteceu, e o que deve ser enfatizado é que a grande diferença entre o milagre de acalmar a tempestade e este incidente aqui, é que lá, a tempestade veio como mais um fator para perturbar os discípulos — o Senhor adormeceu, e então veio a tempestade — porém aqui neste incidente, no que diz res­peito a Pedro, não é esse o caso em absoluto. Nenhuma novidade, não há nada de novo. A tempestade já havia começado, já rugia antes que o Senhor Se aproximasse dos discípulos ou do barco. O barco, como sabemos, estava no meio do mar, agitado pe­las ondas, e o Senhor estava orando sozinho na encosta do monte. Esse é o ponto que devemos destacar — que aqui os discí­pulos estavam no barco sem o Senhor, e a tempestade estava rugindo, e então repentinamente Ele aparece e temos este incidente.
O que precisamos lembrar é que Pedro não tinha nenhum elemento novo com o qual tivesse que lutar depois de sair do barco. Ele não saiu do barco e pisou em águas serenas e depois é que veio a tempestade; a tempestade já estava lá antes do Senhor aparecer perto do barco. Considero este um ponto muito importante. Não havia nenhum elemento novo como da outra ocasião, contudo Pedro encontrou dificuldades e ficou infeliz, assustado e desespe­rado. A pergunta é: por quê? E a resposta é que o problema estava inteiramente em Pedro. Nosso Senhor nos dá um diagnóstico muito preciso: era "pouca fé". "Homem de pouca fé, por que duvidaste?" É a "pouca fé" abrindo as portas à dúvida. Temos aqui, então, uma série de lições importantes que podemos aprender, e se as aprendermos e captarmos, elas nos pouparão de muitos ataques de depressão espiritual.
Antes de tudo, devo chamar a atenção para o que sou obri­gado a descrever como a mentalidade de Pedro, ou, se preferirem, o temperamento de Pedro. Muitas vezes já tivemos de enfatizar o fato de que, quando somos convertidos e salvos e nos tornamos cristãos, nosso temperamento não muda; ele permanece exatamente o mesmo que era antes. Não nos tornamos outras pessoas; continuamos a ser nós mesmos. Todos podemos dizer: "Vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim", e embora acrescentemos: "e a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus", contudo esse "eu" é sempre o mesmo. Sempre seremos nós mesmos, e ainda que nos tornemos cristãos, continuamos a ser quem éramos. Cada um tem seu temperamento distinto, suas características próprias; e como resultado, todos temos nossos problemas específicos e par­ticulares. Há certos problemas que são fundamentais e comuns a todos nós, e mesmo nossos problemas particulares estão sujeitos à categoria geral de pecado e dos resultados da queda, mas nos chegam de formas diferentes e variadas. Todos estamos familiari­zados com esse fato. Todos os membros da Igreja não são iguais, ou os membros de qualquer grupo, por menor que seja; todos temos certas coisas a respeito das quais precisamos ser particular e excepcionalmente cuidadosos. Outras pessoas nem se deixam perturbar por essas coisas. Ah, sim, mas elas têm outras áreas com as quais precisam tomar cuidado. A pessoa explosiva precisa vigiar seu temperamento com cuidado, e a pessoa fleumática e letárgica precisa ser cuidadosa porque sua mentalidade é tão frouxa que tende a não se manifestar quando devia fazê-lo. Em outras pala­vras, todos temos nossas áreas específicas de dificuldades, e em geral elas surgem do temperamento específico que Deus nos deu. Na verdade, posso ir ainda mais longe, neste contexto, e dizer que provavelmente a coisa que mais precisamos vigiar é o nosso ponto forte. Todos temos a tendência de falhar, em última análise, no nosso ponto mais forte!
Ora, eu creio que isso era uma realidade no caso de Pedro. A grande característica de Pedro era a sua energia, sua capacidade de decisões rápidas, sua personalidade ativa. Ele era entusiasta e impulsivo, e era isso que constantemente lhe causava problemas. É muito bom ter uma natureza dinâmica. Alguns dos maiores ho­mens que o mundo já conheceu, se os entendo corretamente pela leitura das suas biografias, alcançaram proeminência principalmente por sua energia; não por sua capacidade intelectual, nem por sua sabedoria, mas por sua absoluta energia. Observem isso ao ler as biografias de muitos dos chamados grandes homens. Energia é uma grande qualidade, e geralmente é acompanhada por uma capa­cidade de decisão. No entanto, era justamente isso que estava constantemente causando problemas a Pedro. Muitas vezes leva a uma vida cristã instável, uma vida cristã em que falta equilíbrio. Que perfeita ilustração temos disso aqui! Observem Pedro quando ele reconhece o Senhor no começo deste incidente. Ali está ele no barco, em meio à tempestade. Ele tem fé suficiente para dizer ao Senhor: "Se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas", e sai do barco. Que coisa magnífica! Sim, mas olhem para ele alguns minutos mais tarde, clamando amedrontado. Isso sempre foi característico em Pedro. Quando o Senhor estava falando sobre Sua morte, e como Ele iria ser abandonado, Pedro não hesitou em dizer: "Ainda que todos se escandalizem em ti, eu não me escan­dalizarei"; mas não demorou para ele negar que conhecia o Senhor, com pragas e juramentos! É isso que eu chamo de "mentalidade de Pedro" — instável, o tipo de pessoa que está no topo da mon­tanha ou no mais profundo vale, ou cheio de entusiasmo e vibra­ção, fazendo-nos sentir que não estamos fazendo coisa alguma, ou então totalmente desencorajado, ameaçando abandonar completa­mente a vida cristã. Vocês conhecem esse tipo de pessoa.
A que se deve isso, qual é a causa dessa alternação entre êxtase supremo e miserável fracasso? A resposta é que se deve ao temperamento. O problema desse tipo de pessoa é que ela tende a agir sem pensar; sua fé não está baseada em suficiente reflexão. O problema é que ela não pondera nas coisas, não deixa as idéias amadurecerem. Este era o problema de Pedro. Nos Evangelhos, ele é sempre o primeiro a se apresentar como voluntário. Tomem por exemplo o incidente no capítulo 21 de João. Os discípulos tinham pescado a noite inteira sem conseguir coisa alguma, e então o Senhor aparece na praia. Ao ouvir as palavras de João, "é o Senhor", Pedro imediatamente cingiu-se com a túnica e pulou na água para ir ter com Ele. Ele sempre era o primeiro, o primeiro em tudo, e esse era o seu problema. Temos uma perfeita ilustração disso mesmo após o Pentecoste, no segundo capítulo da Epístola aos Gálatas. Ele ainda era o mesmo homem impulsivo, e Paulo teve que repreendê-lo pelo fato dele não ter esclarecido a questão da justificação pela fé como deveria ter feito. Ele não tinha des­culpa, porque foi o primeiro homem a admitir os gentios na Igreja Cristã. Vocês se lembram do incidente com Cornélio. Lendo o registro do capítulo 10 de Atos, encontrarão Pedro elevando-se a magníficas alturas. Foi uma coisa extraordinária, um judeu trazer um gentio para a Igreja Cristã. Mas ele voltou atrás em Antioquia, e quando aqueles mensageiros de Tiago chegaram ali, ele dissi­mulou, e Paulo teve que resistir-lhe face a face. Qual era o pro­blema com Pedro? Era o seu velho problema; ele aceitou a posição sem avaliar todas as suas implicações. Esse é invariavelmente o problema com este tipo de pessoa — essa energia, essa capacidade de decisão, essa impulsividade tende a levá-las a fazer coisas intui­tivamente em vez de avaliá-las e compreendê-las e captá-las; e o resultado são essas violentas variações em sua vida espiritual; ora, isso é uma causa muito comum de depressão espiritual e é por isso que estamos tratando dela.
Isso me leva ao segundo ponto que quero enfatizar, e é o ensino deste incidente a respeito de dúvidas: "Homem de pouca fé, por que duvidaste?" Este é um ensino importante — e graças a Deus por ele. A primeira coisa que aprendemos aqui é que nós mesmos às vezes produzimos nossas próprias dúvidas. Ninguém pode negar que este foi o problema de Pedro nesta situação. Ele produziu suas próprias dúvidas ao olhar para as ondas. Ele foi de encontro a dificuldades que não precisavam ter surgido. Não foi como se o Senhor tivesse dito a Pedro: "Pedro, tenha cuidado! Você sabe o que está fazendo?" Não, nenhuma palavra foi dita; Pedro mesmo, ao olhar para as ondas, produziu as dúvidas. Que sejamos muito cuidadosos aqui. Muitas vezes vamos de encontro à depressão, caímos em dúvidas ao nos intrometermos com coisas que deveriam ser evitadas. Estou me referindo a certos tipos de literatura, ou à tolice de nos aventurarmos em certos argumentos que vão além da nossa capacidade intelectual. Isto é muito impor­tante. Há pessoas que são tolas o suficiente para se engajar em discussões sobre ciência, apesar de pouco ou nada saberem a res­peito. Em vez de evitarem isso porque não têm conhecimento sufi­ciente, elas mergulham na discussão, e já conheci pessoas cuja fé foi abalada porque fizeram isso. Em outras palavras, elas deviam ter permanecido firmes na verdade que conheciam, sem tentar se envolver em questões científicas em que não são competentes. Assim, às vezes nos conduzimos à dúvidas, e precisamos ser caute­losos para não procedermos dessa maneira.
A segunda coisa — e eu dou graças a Deus por isso — é que dúvidas não são incompatíveis com a fé. Muitas vezes, em minha experiência pastoral, encontrei pessoas muito infelizes porque não captaram esse princípio. Certas pessoas pensam que, depois de alguém se tornar cristão, ele nunca mais deveria ser assaltado por dúvidas. Mas não é assim; Pedro ainda tinha fé. O Senhor lhe disse: "Homem de pouca fé". Ele não disse: "Pedro, porque você duvidou, você não tem fé". Isso é o que muita gente pensa e diz, por ignorância, e está muito errado. Embora tenham fé, podem ser perturbados por dúvidas, e existem muitos exemplos disso, não só nas Escrituras, mas também na história da Igreja. Na verdade, eu até diria, com o risco de ser mal-interpretado, que se alguém nunca foi perturbado por dúvidas em sua vida cristã, tal pessoa deveria examinar novamente os fundamentos de sua experiência, e se certificar de que não está gozando uma falsa paz, ou descan­sando no que eu chamaria de crença presunçosa. Leiam as vidas de alguns dos maiores santos que já viveram neste mundo e des­cobrirá que eles foram assaltados por dúvidas. O Senhor aqui cer­tamente nos dá a palavra final a respeito — dúvidas não são incompatíveis com a fé. Podem ter dúvidas, e ainda assim ter fé, uma fé fraca.
Para colocá-lo de outro modo, e este seria meu próximo prin­cípio, se as dúvidas nos controlam, isso é uma indicação de que nossa fé é fraca. Foi o que aconteceu com Pedro. Sua fé não tinha se desvanecido, mas porque era fraca, a dúvida o controlou e o subjugou, e ele foi abalado. Se tivéssemos feito a Pedro certas perguntas naquele momento de terror e alarme, ele teria dado respostas ortodoxas cada vez. Se lhe tivéssemos feito perguntas sobre a pessoa do Senhor, tenho certeza que ele teria dado a res­posta correta, mas naquele momento essas dúvidas o controlavam. Sua fé ainda estava presente, porém, de acordo com o ensino do Senhor aqui, quando nossas dúvidas nos controlam, isso é uma indicação de que nossa fé é fraca. Nunca deveríamos permitir que isso acontecesse. Dúvidas vão nos atacar, mas isso não significa que devemos permitir que nos controlem. Jamais devemos per­mitir isso.
Como podemos evitá-lo? O antídoto, é — muita fé. Se é "pouca fé" que permite que os homens sejam controlados por dúvidas, então o antídoto deve ser "muita fé" — ou grande fé. É isso que é enfatizado aqui acima de tudo o mais. Quais são as características dessa grande fé? A primeira é um conhecimento do Senhor Jesus Cristo e do Seu poder, e uma confiança firme e estável nisso. Pedro, como já vimos, começou bem, e isso faz parte da essência da verdadeira fé. Aqui estava um homem com os outros discípulos no barco, e com a tempestade rugindo à sua volta. O mar e o vento eram contrários, e o barco estava sendo jogado pelas ondas, e sua situação estava começando a se tornar desespe­radora. Mas subitamente o Senhor apareceu, e quando eles O viram, disseram: "Isso é um homem andando sobre as águas? É impossível — tem que ser algum tipo de fantasma, é um espírito". Eles gri­taram de medo, e imediatamente Jesus falou, dizendo: "Sou eu, não temais". E então temos essa magnífica expressão da essência da verdadeira fé por parte de Pedro. "Respondeu-lhe Pedro, e disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas". Isso foi uma expressão de verdadeira fé, pois vemos o que significa: significa que Pedro estava na verdade dizendo ao Senhor: "Se Tu realmente és o Senhor, bem, então eu sei que não há nada impossível para Ti. Prova isso, ordenando que eu saia deste barco, neste mar tempestuoso, e ande sobre as águas". Ele cria no Senhor, em Seu poder, em Sua pessoa, em Sua capacidade. E não cria nisso apenas teoricamente. Ele tentou! O texto nos diz: "E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas". Ora essa é a essência da fé — "Senhor, se és tu. . ." É isso que a fé diz: "Se realmente és Tu, então eu sei que podes fazer isso; manda-me fazê-lo". E ele o fez. Aqui novamente está um grande princípio do qual devemos nos apossar com firmeza. A fé cristã começa e termina com um conhecimento do Senhor. Começa com um conhe­cimento do Senhor — não uma emoção, nem um ato da vontade, mas um conhecimento desta bendita Pessoa. Não há nenhum valor numa emoção se ela não for baseada nisso. Cristianismo é Cristo, e a fé cristã significa crer certas coisas a respeito dEle, e conhecê-10, e saber que Ele é o Senhor da glória que desceu até nós, saber algo sobre a encarnação, e o nascimento virginal, saber por que Ele veio, saber o que Ele fez quando veio, saber algo sobre Sua obra expiatória, saber que Ele veio — como Ele mesmo disse — não para chamar os justos, mas os pecadores ao arrependi­mento, saber que Ele diz: "Os sãos não necessitam de médico, mas sim, os que estão doentes"; saber que Ele levou "em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pe­cados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados".
Quando as pessoas me procuram num estado de depressão espiritual, quase invariavelmente descubro que estão deprimidas porque não conhecem esses fatos como deveriam. Dizem: "Sou um pecador tão miserável, você não sabe o que eu fui ou o que eu fiz". Por que me dizem isso? Dizem isso porque nunca enten­deram o que Ele quis dizer ao afirmar: "Não vim chamar os justos, mas sim os pecadores ao arrependimento". O que estão dizendo em auto-condenação é exatamente aquilo que lhes dá o direito de vir a Ele e ter certeza de que Ele os receberá. Onde existe uma falha em aprender e crer nestas coisas, a fé é fraca. Então uma fé forte significa conhecer estas coisas. Tenho que repetir isso cons­tantemente, e estou constantemente escrevendo estas coisas. Tive que escrever uma longa carta a um homem que eu nunca encontrei, a respeito deste assunto. O pobre homem estava extremamente infeliz e em escravidão. Por quê? Porque ele não tinha entendido que Cristo é o Amigo dos publicanos e pecadores, e que Ele veio para morrer por tais pessoas. Ele não tinha compreendido a Pessoa, não tinha compreendido a obra dessa bendita Pessoa. Sua fé era fraca, e as dúvidas o assaltaram por causa disso. Há muitos que atravessam a vida num estado de miséria e infelicidade porque não compreendem estas coisas. Se tão somente as entendessem, desco­bririam que sua auto-condenação é em si mesma uma garantia do seu arrependimento e o caminho para sua libertação final.
Em outras palavras, o grande antídoto para a depressão espi­ritual é o conhecimento da doutrina bíblica, da doutrina cristã. Não ter emoções despertadas em reuniões, mas saber os princípios da fé, conhecer e entender as doutrinas. Esse é o caminho bíblico, esse é o caminho de Cristo e é também o caminho dos apóstolos. O antídoto para a depressão é ter um conhecimento dEle, e acharão isso em Sua Palavra. Precisam se esforçar para aprendê-la. É tra­balho difícil, mas precisam estudá-la e se dedicarem a ela. A tragé­dia  de hoje, parece-me, é que as pessoas dependem demais de reuniões para a sua felicidade. Este tem sido orna problema há muitos anos na Igreja, e é por isso que muitos são tão infelizes. Seu conhecimento da verdade é falho. Isso, vão lembrar, foi o que o Senhor disse a certas pessoas que subitamente tinham crido nEle. Ele disse: "Se vós permanecerdes na minha palavra, verda­deiramente sereis meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (João 8:31-32). Libertará de dúvidas ou temores, da depressão, das coisas que abatem vocês. É a verdade que liberta — a verdade a respeito dEle, da Sua pessoa, da Sua obra, dos Seus ofícios, Cristo como Ele é.
Apressemo-nos para a segunda coisa. Tendo começado com a primeira, como Pedro começou, de forma tão correta, não esque­çamos a segunda, como Pedro infelizmente esqueceu, isto é, rejei­temos reflexões posteriores. "Ah, mas", alguém diz, "é uma boa coisa, pensar duas vezes". Não com a fé cristã; isso é insensatez. Dúvidas são coisas muito insensatas, e é bom que enxerguemos quão tolas e ridículas elas são. Então, da próxima vez que formos tentados, vamos nos lembrar de Pedro, que nunca deveria ter olhado para as ondas. Por que não? Por esta razão: ele já tinha resolvido a questão antes de sair do barco! Agora percebem porque, previamente, enfatizei o importante detalhe de que a tempestade já estava rugindo antes que o Senhor Se aproximasse do barco. Teria sido completamente diferente se Pedro tivesse pisado num mar calmo, e depois a tempestade viesse. Então ele teria tido uma desculpa. Mas não foi assim, pois quando Pedro disse ao Senhor: "Se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas", ele já tinha resolvido a questão das ondas. Ele já tinha lutado com elas enquanto estava no barco. Sabia que o barco estava jogando, então, quando disse aquilo, na verdade estava dizendo ao Senhor: "Não me importa o que o mar está fazendo". Ele já tinha resol­vido, essa questão, então saiu do barco e andou sobre as águas. Não havia nada de novo a respeito das ondas, nenhum fator novo. Ele não foi confrontado por nenhuma situação nova. O Senhor Jesus Cristo estava capacitando-o a andar sobre as águas turbu­lentas. Bem, por que então olhar para elas? Que razão havia para fazer isso? Nenhuma. Era ridículo, era insensato.
Esse sempre é o problema com uma fé fraca, ela volta a for­mular perguntas que já tinham sido resolvidas e respondidas. Se já creram no Senhor Jesus Cristo, devem, de alguma forma, ter se defrontado e lidado com dificuldades, ou não teria chegado à fé. Por que, então, voltar atrás? É pura insensatez. Não somente é uma questão de incredulidade, mas também uma questão de con­duta e comportamento. Por que sentar-se e encarar novamente difi­culdades que você já encontrou e resolveu antes de descer do barco? Quero repetir que este aspecto negativo da fé é muito importante. Depois de crer nEle, devem fechar a porta para certas coisas e recusaram-se a olhar para elas. Se já trataram delas, não voltem atrás, considerando-as novamente. Quantas vezes já tive de repetir isso nestes estudos! Quantas vezes nossos problemas se devem ao fato de que voltamos atrás. Pedro nunca deveria ter olhado para aquelas ondas. Não havia desculpa para ele, não havia nada novo a ser considerado. É a essência da fé recusar reflexões posteriores. Rejeitem-nas, não tenham nada a ver com elas. Digam-lhes: "Eu já cuidei de vocês!"
Isso me leva ao próximo princípio. A característica seguinte da fé é que ela persiste firmemente em olhar para Cristo e para Ele somente. Quero dividir isso, dando-lhes dois ou três princípios simples. A fé diz: "O que Cristo começou, Ele pode continuar. O início da obra foi um milagre, então, se Ele pode iniciar uma obra miraculosa, Ele pode mantê-la; o que Ele já começou, Ele pode continuar". "Tendo por certo isto mesmo", diz Paulo, "que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo" (Filipenses 1:6). Sim, diz Toplady,
A obra que Sua bondade começou, Seu braço de poder há de completar.
Esse é um argumento irrespondível.
Segundo, jamais devemos duvidar enquanto olharmos para Ele e formos iluminados acerca dEle. Sem Ele não temos qualquer esperança. Não importa quanto tempo tenhamos sido cristãos, de­pendemos dEle para cada passo. Sem Ele nada podemos fazer. Somente podemos conquistar nossas dúvidas se olharmos firme­mente para Ele, e não para elas. A única resposta apropriada para as dúvidas é olhar para Jesus. E quanto mais O conhecemos, e a Sua glória, mais ridículas elas se tornarão. Então mantenhamos nosso olhar firmemente em Jesus. Ninguém pode viver dependendo de uma fé inicial — isso parece ser o que Pedro estava tentando fazer. Ele começou com muita fé, e então, em vez de continuar pela fé, ele tentou prosseguir baseado naquela fé inicial. Mas, é claro, ninguém pode viver de uma fé inicial. Não tentem viver na dependência da sua conversão. Vocês estarão acabados antes de perceber! Não podem viver na dependência de uma experiência extática; precisam continuar olhando para Ele dia após dia. "Anda­mos pela fé", e vivemos pela fé no Senhor Jesus Cristo. Vocês vão precisar dEle tanto no seu leito de morte como precisaram na hora da sua conversão; precisam dEle em todos os momentos. A Bíblia está repleta de exemplos disso. Uma das ilustrações mais perfeitas é o fato de que os filhos de Israel tinham que colher o maná todos os dias, exceto no sábado. Esse é o método do Senhor. Ele não nos dá o suficiente para um mês. Precisamos de um supri­mento novo cada dia, então comecem o dia com Ele e mantenham-se em contato com Ele durante o dia. Esse foi o erro fatal de Pedro; ele desviou os olhos do Senhor. É a "batalha da fé"; vocês estão andando sobre águas turbulentas e a única maneira de pros­seguir é manter os olhos nEle.
Posso oferecer uma palavra final de conforto? Encontra-se neste incidente, e é o fato de que Ele nunca deixará vocês se afogarem! Pedro clamou em terror e alarme, "Senhor, salva-me!" — e imediatamente Jesus estendeu a mão é o segurou e disse: "Homem de pouca fé, por que duvidaste?" "E, quando subiram para o barco, acalmou o vento". Graças a Deus por essa conso­lação! Ele nunca nos deixará afundar, porque pertencemos a Ele. Podemos falhar, podemos sentir que estamos a ponto de submergir de uma vez por todas. Nunca! "Ninguém as arrebatará da minha mão". "Porque estou certo", diz Paulo, "de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus nosso Senhor" (Romanos 8:38-39). Nunca. Meus amigos, quando pensarem que estão perdidos, Sua mão estará ali, para sustentá-los. Olhem para Ele e digam com John Newton:
Seu amor no passado Proibe-me de pensar Que Ele me deixará Em tribulação, a sucumbir. Cada doce Ebenezer Que trago à lembrança Confirma o Seu deleite De ajudar-me até o fim.
Clamem quando estiverem desesperados. Não abram mão disso — se estiverem sobressaltados, clamem, e Ele os ouvirá e sustentará.
Mas não termino com isso. Devo terminar dizendo que, de certa forma, a grande lição de todo este incidente é que Ele pode evitar que caiamos. Nunca precisaremos gritar desta forma, se mantivermos os olhos nEle. Crendo nEle, nunca vamos cair, mas prosseguiremos firmes. Se Pedro tivesse olhado para Ele, teria continuado andando sobre o mar, e nunca teria se apavorado. Ele é tão grande, Ele é o Senhor do universo, e não só pode. andar sobre as águas, mas também capacitar Pedro a andar sobre elas. Nada é impossível para Ele. "Para Deus nada é impossível", e Ele é Deus. Então a fé olha para Ele e diz com Charles Wesley:
Fé, poderosa fé, a promessa vê, E somente a ela contempla, Ri das impossibilidades, E proclama: será feito!
Isso é fé. "Fé, poderosa fé, a promessa vê (nEle), e somente a ela contempla", e nada mais. Ri-se das impossibilidades — aque­las ondas turbulentas — e clama: "Será feito!" "Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irre­preensíveis, com alegria, perante a sua glória, ao único Deus, Salvador nosso, por Jesus Cristo, nosso Senhor, seja glória e majes­tade, domínio e poder, antes de todos os séculos, agora, e para todo o sempre. Amém" (Judas 24-25).

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