segunda-feira, 16 de julho de 2012

D. M. Lloyd-Jones - Resumo Biográfico



(parte 3) 

O coração do evangelho

E
m 1929 quando Lloyd-Jones pregava em Bridgent, South Wales, um ministro local o chamou a atenção ao fato de que a cruz parecia ter pouco lugar em sua pregação e isso provocou uma mudança fundamental em sua pregação. Rapidamente obteve alguns livros sobre a doutrina da expiação de R. W. Dale, P. T. Forsyth e James Denney e lançou-se à sua leitura de modo que causou ansiedade a Sra. Bethan, visto que se recusou até almoçar. [i] Como resultado de ter encontrado o “coração do evangelho e o segredo do significado interior da fé cristã”, sua pregação mudou e com isso o seu impacto.  [ii] Interessante notar que as últimas mensagens de Lloyd-Jones na Capela de Westminister como seu pastor tratavam do tema da morte de Cristo e num deles ele, referindo-se aos sofrimentos de Cristo, diz “por que faço isso? Porque este é o coração e o centro da mensagem cristã”.[iii] A cruz seria tema recorrente em diversas de suas mensagens.


De caminho para a Capela de Westminster
           
P
ara Lloyd-Jones há dois fatos interessantes quanto a sua vinda para a Capela de Westminster, o primeiro foi a sua intuição quanto a isso, seis anos antes. Diz ele “nunca olvidarei a leitura que fiz num jornal, durante o desjejum de certa manhã, no fim de 1932, um pequeno parágrafo, de que o Dr. Campbell Morgan estava voltando da América para juntar-se ao Dr. Hubert Simpson no pastorado da Capela de Westminster a partir do princípio de 1933. Li aquilo casualmente, mas quando o li, tive um estranho e curioso aviso. Era mais do que uma espécie de intuição; chamo-lhe aviso. Era tão definido que eu chamei a atenção da minha esposa e li para ela o parágrafo. Eu disse:”agora, você pode pensar que estou ficando louco, porém, vou lhe dizer aqui e agora que isso tem algo de vital importância ligado a mim. Bem, é claro que a coisa parecia pura demência. Eu nunca tinha estado com o Dr. Campbell Morgan, e nada estava mais longe da minha mente do que a ideia de sair da igreja na qual eu estava exercendo o ministério no sul de Gales. Contudo, quando eu li o parágrafo, foi isso que aconteceu. A minha esposa é testemunha disso. Foi no fim de 1932”.[iv] Aliado a isso esta a maneira como se deu o seu primeiro encontro com Campbell Morgan, que ele considerou decisivo em sua história. Ele participava como palestrante, numa noite fria de meados de 1935, de uma reunião no Albert Hall, Londres, quando um pouco antes do início da reunião o Dr. Campbell Morgan se aproximou dele e disse-lhe: “Digo-lhe na presença do meu Criador que nada nem ninguém me fariam sair numa noite como esta, senão você.” E o Dr. Lloyd-Jones confessa que “já estava nervoso por ter que falar no Albert Hall; e como sobrevivi àquela observação, eu não sei”. Dias depois, Campbell Morgan convidou Lloyd-Jones para pregar na Capela de Westminster no último domingo do ano, pela manhã e à noite.


O segundo fato interessante, de acordo com ele mesmo, é que quando estava na América do Norte, em 1937, para uma série de palestras na Assembléia Geral Presbiteriana e foi pregar na Filadélfia, novamente encontrou-se com Campbell Morgan. Morgan visitava seu filho nos EUA e quando soube que Lloyd-Jones pregaria na região rumou para lá para ouvi-lo. Assim Lloyd-Jones narrou o fato numa palestra no centenário da Capela de Westminster em 6 de julho de 1965: “fomos para a reunião na hora aprazada, e lá estava ele sentado bem em minha frente. Ele era o último homem que eu queria ver!Mas ele fez uma coisa que era muito característica dele e que de alguma forma me reabilitou. Quando eu estava pegando o meu texto, pude ver pelo rabo do olho que ele estava tirando do bolso o relógio. Vi que ele ia cronometrar-me. De um modo ou de outro, isso me ajudou e me incentivou. (Digo de passagem, como creio que eu disse no culto memorial relativo a ele, o Dr. Morgan era o melhor ouvinte que já conheci). Bem, essa acabou sendo uma noite importante para mim, da seguinte maneira: quando terminei de pregar desci do púlpito, ele foi o primeiro a vir falar comigo. Depois, tendo falado comigo, voltou-se para retirar-se do edifício. Varias outras pessoas estavam ali para falar comigo. Enquanto eu conversava com elas, podia vê-lo caminhando por um corredor lateral do edifício. Notei que ele andava, parava, virava para trás e olhava para mim. Depois andava de novo, tornava a para e me olhava. Eu sabia exatamente o que estava acontecendo, e eu estava certo! Ele decidiu ali e naquela hora que eventualmente eu deveria ser o homem a unir-me a ele aqui. Ele só podia pregar uma vez por domingo e pôde ver que a real solução era encontrar um pastor associado”.[v]
     

Em 1 de maio de 1938 Lloyd-Jones anunciou que deixaria o pastorado em Sandfields, o que de fato ocorreu em fins de julho.[vi] Ele já estava convencido, desde 1937, que o seu tempo em Sandfields havia chegado ao fim e assim comunicou a sua demissão. Havia um convite para que Lloyd-Jones assumisse uma posição no Colégio Metodista Calvinista de Bala, Norte de Gales, e essa era uma proposta muito atraente e ele estava disposto a aceitá-la. Contudo, poucos dias depois ele recebeu uma carta de Dr. G. Campbell Morgan (1863-1945) convidando-o para compartilhar o púlpito da Capela de Westminster. Lloyd-Jones aceitou o convite feito por G. Campbell Morgan para partilhar com ele o púlpito e segundo diz: “cada um pregava uma vez aos domingos, alternando manhã e noite cada mês”.[vii] Mas o convite oficial, por assim dizer, só veio em outubro de 1938.[viii]



Havia uma diferença radical entre os dois na pregação e na teologia, entretanto, trabalharam em harmonia. Campbell Morgan, embora evangélico, tinha uma estrutura doutrinária pouco precisa, era arminiano e mais devocional que doutrinário. Lloyd-Jones, ao contrário, estava na mesma tradição de Spurgeon, de Whitefield, dos Puritanos e dos Reformadores.[ix]



Os primeiros anos de Lloyd-Jones como co-pastor de Campbell Morgan não foram fáceis. Isso porque Morgan era grandemente estimado de tal modo que “Lloyd-Jones e sua abordagem dos trabalhos da igreja não foram bem recebidos: “em meus dois primeiros anos, atravessei um inferno” [x], diria ele. Muitos membros da Capela só participavam do culto para ouvir Morgan pregar, recusando-se a ouvir o jovem calvinista. 


[i] Os autores consultados por Lloyd-Jones foram P. T. Forsyth (The Cruciality of the Cross,1909) e James Denney (The Death of Christ, 1903) e R. W. Dale (Expiation, 1875).
[ii] STOTT, J., A Cruz de Cristo, pág. 5 ,Vida.
[iii] LLOYD-JONES, Cristianismo Autêntico, vol 6, p. 339.
[iv] LLOYD-JONES, Discernindo os tempos, p. 253
[v] Idem, p 254
[vi] Cartas, p.43
[vii] Idem,
[viii] Idem, p. 254
[ix] CATHERWOOD, Sir Fred, Dr. D. Martyn Lloyd-Jones, his life and ministry, em http://www.graceonlinelibrary.org/articles/full.asp?id=38||579
[x] COSTA, p. 55

Nenhum comentário:

Postar um comentário