segunda-feira, 17 de setembro de 2012

MEDO DO FUTURO


D. M. Lloyd-Jones 



"Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação".
II Timóteo 1:7
Com estas palavras, somos dirigidos a uma outra causa da condição que descrevemos, em termos gerais, como depressão espi­ritual. Quase não há fim para os meios em que esta condição, esta doença da alma, pode nos atacar. Demonstramos como o nosso adversário, o diabo, é sutil, e pode até mesmo transformar-se num anjo de luz, e isso é verdade; mas é igualmente verdadeiro afirmar que ele é implacável. Com isso quero dizer que ele não desiste. Ele não se importa com que métodos emprega, desde que possa nos abater e desacreditar a obra de Deus; e ele não está preocupado em ser consistente. Ele não hesita em variar o seu sistema, os seus processos, ele não hesita em contradizer o que nos disse anterior­mente; ele tem somente uma preocupação e um objetivo, e é o de trazer descrédito ao nome e à obra de Deus, e especialmente, é claro, à grande obra de Deus em nossa redenção por meio de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Quando Deus no princípio criou este mundo, é nos dito que "viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom". Ele estava satisfeito com tudo; tudo era perfeito. E foi por causa disso que o diabo, em sua inveja e malícia, determinou estragar e arrui­nar essa obra e concentrar seus esforços especialmente na obra suprema de Deus — a criação do homem. Se ele tão somente pu­desse derrubar o homem, então a obra-prima da criação seria arruinada. Então ele se concentrou, como bem lembramos, na mulher, e a enganou, e ela por sua vez enganou seu marido; e assim o homem caiu. Todavia a história da humanidade não termina neste ponto. Deus propôs e planejou um grande meio de redenção. Esta é, sem dúvida nenhuma, a extraordinária glória de Deus. A redenção é uma obra maior até do que a criação, especial­mente quando consideramos a maneira como Deus a realizou, a saber, enviou Seu Filho unigênito a este mundo, na maravilha e no milagre da encarnação; mas acima de tudo, entregou-0 à morte na cruz. Esta é a coisa suprema — que o homem pecaminoso e caído possa ser redimido e restaurado, e finalmente toda a criação tambem. Obviamente, então, a preocupação suprema do adversá­rio, o diabo, nosso oponente, é tentar de uma forma ou de outra trazer descrédito e desonra a esta obra de Deus. E para isso, ele tem como objeto especial de ataque os herdeiros da salvação, os cristãos, e não há nada que sirva aos seus propósitos tanto quanto nos deprimir e abater, e dar a impressão que essa exaltada salvação c apenas um fruto da imaginação, e que nós que cremos nela temos crido em "fábulas astutamente inventadas". E que melhor modo de fazer isso do que nos levar a uma condição em que damos a impressão de estar sempre deprimidos, abatidos e miseráveis?
Vimos como o diabo procura nos deprimir, fazendo com que concentremos nossa atenção no passado, de modo que, remoendo o passado, fiquemos abatidos. Entretanto, se isso falha, podemos estar certos de que ele mudará completamente a sua estratégia, fazendo com que passemos a olhar para o futuro. Isto é exata­mente o que ele faz, e é do que trata este versículo que estamos considerando agora. Vamos examinar o caso daqueles que estão sofrendo de depressão espiritual porque têm medo do futuro — eles temem o futuro.
Esta, novamente, é uma condição muito comum, e é realmente extraordinário notar a maneira em que o inimigo muitas vezes consegue causar a mesma condição fundamental nas mesmas pes­soas, através desses métodos diametralmente opostos. Quando a gente consegue corrigir a atitude dessas pessoas a respeito do passado, elas imediatamente começam a falar sobre o futuro, e como resultado estão sempre deprimidas no presente. Eles recebe­ram satisfação a respeito do perdão dos pecados — sim, até mesmo daquele pecado particular, que era tão excepcional. Foram cienti­ficados que, embora tenham desperdiçado anos, Ele pode "resti­tuir os anos consumidos pelo gafanhoto". E então dizem: "Ah, sim, mas. . .", e começam a falar sobre seu temor a respeito do futuro e do que está por acontecer.
As Escrituras estão cheias de ensinamentos a respeito disso, mas creio que estou certo ao dizer que o supremo exemplo desta condição é, sem dúvida, o jovem Timóteo, a quem Paulo escreveu esta epístola, bem como a anterior. Foi indubitavelmente seu pro­blema peculiar, e com certeza o apóstolo escreveu ambas estas cartas por causa disso. Ele dependia muito de Paulo devido seus temores a respeito das dificuldades e perigos por vir, e o objetivo das duas epístolas foi corrigir a atitude de Timóteo quanto a esse problema de enfrentar o futuro. Ora, não devemos gastar todo nosso tempo com Timóteo — eu o cito apenas como um exemplo de alguém que estava espiritualmente deprimido por causa do seu medo do futuro.
Quais são as causas dessa condição? Por que é que as pessoas temem o futuro? Quais são as razões que dão para esse temor? Quais são os aspectos particulares dessa dificuldade, e quais são os problemas que tende a produzir, e sobre os quais suas vítimas estão sempre falando? Bem, não há qualquer dúvida de que, antes de tudo o mais, devemos mencionar o temperamento — a formação da pessoa. Todos nascemos diferentes. Não há duas pessoas exata­mente iguais. Temos nossas características particulares, nossas vir­tudes, nossos defeitos, nossas fraquezas e nossas imperfeições. A pessoa humana tem um equilíbrio muito sutil e delicado. Funda­mentalmente todos temos as mesmas características gerais, mas as proporções relativas variam tremendamente de caso para caso, assim como nossos temperamentos variam e diferem. É muito im­portante que mantenhamos isso em mente. "Mas, ah", alguém dirá, "somos cristãos agora, e quando uma pessoa se torna cristã, todas essas diferenças são apagadas". Ora, essa é a falácia essencial a respeito de toda esta questão. Não há mudança mais profunda no universo do que a mudança descrita como regeneração; porém regeneração — a obra de Deus na alma, em que Ele planta a vida divina e espiritual dentro de nós — não muda o temperamento de um homem. Seu temperamento ainda permanece o mesmo. O fato de você ter se tornado cristão não significa que deixou de viver consigo mesmo. Você terá que viver consigo mesmo enquanto estiver vivo, e sempre será você mesmo, e não outra pessoa. Paulo era essencialmente o mesmo homem depois de ser salvo e convertido que era antes. Ele não se tornou outra pessoa. Pedro ainda era Pedro, João ainda era João, em temperamento e em suas características essenciais. É nisso que vemos a glória da vida cristã. É como a variedade na natureza e na criação. Olhem para as flores. Não há duas idênticas. É na variedade dentro da unidade fundamental que Deus demonstra as maravilhas dos Seus caminhos. E é exatamente o mesmo na Igreja Cristã. Todos somos diferentes, nossos temperamentos são diferentes, todos somos nós mesmos. Essa é uma das grandes glórias da Igreja. Deus distribui Seus dons através do Espírito Santo de diversas maneiras, ainda que nossa personalidade essencial continue exatamente a mesma que era antes de nossa conversão. Por personalidade quero dizer nosso temperamento, a forma peculiar em que fazemos as coisas. Fazemos as mesmas coisas, mas de forma diferente. Como cristãos lodos devemos fazer as mesmas coisas essenciais, mas a forma como as fazemos é diferente. Pensem na diferença com que dife­rentes pregadores pregam o mesmo evangelho e a mesma vida cristã; sua maneira de apresentação é diferente, e deve ser dife­rente. E Deus usa essas diferenças para espalhar o evangelho. Ele pode usar um homem para fazer com que a mensagem apele a um certo tipo de pessoa, enquanto que outro pregador não pode­ria ser usado daquela maneira. Apresentações diferentes apelam para tipos diferentes de pessoas, e está certo, e Deus usa a todos.
Então, antes de tudo colocamos o temperamento; e há pes­soas que, por temperamento, são nervosas, apreensivas, temerosas. Paulo mesmo era, eu creio, um exemplo disso. Ele era um homem nervoso, sem auto-confiança, no sentido natural. Ele foi a Corin­to "em fraqueza e temor e grande tremor". Era por natureza um homem timorato — "por fora combates, temores por dentro". Assim era ele por natureza. E isso também era verdade a respeito de Timóteo, e há pessoas que nascem assim. Existem outras pessoas que são auto-confiantes e seguras. Não têm medo de nada; enfrentam qualquer coisa; levantam-se em qualquer lugar. Nem conhecem o significado de "nervos". Esses dois tipos de pessoas são cristãos, e contudo quanto a isso são diferentes, vital e fundamentalmente diferentes. Há alguns cristãos que somente com grande dificuldade podem ser persuadidos a falar em públi­co, e há outros que são exatamente o oposto. Essa questão do temperamento é, portanto, muito importante em nossa conside­ração sobre as causas dessa forma particular de ansiedade e depressão.
Há também outras coisas que emergem quando consideramos o caso de pessoas que temem o futuro. Vocês podem perceber que elas estão sempre preocupadas com a natureza da tarefa que desa­fia  o  cristão.  Têm   um  conceito  muito  alto  da causa  cristã   (a julgar pelas coisas que dizem), e têm uma idéia exaltada da vida cristã. Essas pessoas entendem que não é fácil ser um cristão, que não é apenas uma questão de se converter e então nadar num mar de rosas o resto da vida. Não, elas o vêem como uma alta missão, uma batalha de fé; estão conscientes do caráter superior dessa vida; sabem que significa seguir a Cristo. Elas lêem o Novo Testamento,  e  sendo  invariavelmente pessoas   inteligentes,  estão conscientes da grandeza da tarefa e da chamada. Mas isso, por sua vez, tende a deprimi-las, porque também têm perfeita cons­ciência de sua pequenez. Em outras palavras, têm medo de falhar. Elas temem fracassar para com a causa. Dizem: "Gosto do evan­gelho. Creio que meus pecados foram perdoados. Quero ser um cristão, mas tenho tanto medo de falhar. Tudo está bem enquanto estou em reuniões ou na companhia de pessoas cristãs, mas tenho que viver, e conheço minhas fraquezas; estou consciente da gran­deza da tarefa, e conheço as dificuldades".  Elas têm medo do fracasso; não querem desapontar a Deus e ao Senhor Jesus Cristo e Sua Igreja na Terra. Quem são eles, para viver a vida cristã? A grandeza da tarefa e sua profunda consciência de suas próprias deficiências e necessidades as oprimem. Ou pode ser que simples­mente sofram de um tipo geral de medo do futuro, sem que nada possam definir em particular. Se lhes perguntam se elas têm medo de alguma coisa em especial, elas não sabem, mas têm esse medo indefinido, essa apreensão com respeito ao futuro, de coisas que podem  acontecer, de coisas que elas  talvez  tenham que  sofrer. Tive que tratar com pessoas assim muitas vezes.  Lembro-me de uma senhora que me disse: "Bem, sim, eu creio, mas não sei se posso me chamar de cristã". Quando eu disse: "Por que não?" sua resposta foi alguma coisa assim:   "Tenho lido sobre pessoas no passado, e pessoas no presente que têm sido perseguidas por amor a Cristo, e tenho tentado imaginar a mim mesma enfrentando tal oposição". Ela era mãe de um menino de três anos naquela época, e  disse:  "Sabe, se chegasse num ponto em que eu tivesse  que escolher entre negar minha fé ou abrir mão deste menino, eu não sei o que faria, não sei se seria forte o suficiente;   duvido que tivesse a coragem de colocar Cristo em primeiro lugar a qualquer preço, ou talvez sofrer e morrer se necessário". E por isso ela achava que não tinha o direito de se considerar cristã. Ora, ela nunca   tinha   enfrentado,   e   talvez  nunca   tivesse   que  enfrentar um teste assim, mas estava consciente da possibilidade, e isso a deprimia. Tal depressão espiritual é causada por medo do futuro — muitas vezes temores imaginários.
Não devemos nos deter muito nestas descrições ,ainda que pudéssemos multiplicar os casos. O que é extraordinário, é que isso pode se apossar de nós de tal forma que nos paralize completa­mente no presente; tais pessoas muitas vezes correm o risco de ficarem tão absorvida se envolvidas, nesses temores que se tornam totalmente incapacitadas no presente. Não há dúvida de que esse era o problema de Timóteo. Paulo estava na prisão, e Timóteo começava a se perguntar o que iria acontecer com ele. E se Paulo fosse executado? Como poderia ele, Timóteo, enfrentar sozinho as dificuldades que estavam surgindo na Igreja, e a perseguição que estava começando a se manifestar, na qual o próprio Timóteo talvez acabasse envolvido? Paulo teve que ser bastante firme com ele; dizendo que Timóteo não devia se envergonhar dele ou dos seus sofrimentos — "Portanto não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes participa das aflições do evangelho, segundo o poder de Deus". Medo do futuro era, indubitavelmente, a essência do problema de Timóteo.
A pergunta que se nos apresenta é: como devemos enfrentar esse problema? Como deve ser tratado? Mais uma vez não posso pensar num método melhor do que adotar o processo empregado com o problema anterior. Há certas considerações gerais prelimi­nares a serem feitas, antes de abordarmos os ensinamentos especí­ficos das Escrituras. Por isso, gostaria de apresentar certas propo­sições. A primeira coisa, novamente, é descobrir e saber exata­mente onde está a linha divisória entre prudência legítima quanto ao futuro, e antecipação paralisante. Devemos pensar sobre o futuro, e é muito tola a pessoa que não pensa nele. Mas o que as Escrituras nos exortam constantemente é que não devemos nos preocupar sobre o futuro. "Não vos inquieteis pelo dia de amanhã" significa "não sejam culpados de ansiedade quanto ao amanhã". Não significa que não devemos tomar providências quanto ao futuro; se fosse assim, o fazendeiro não sairia a arar e preparar a terra e semear. Ele está olhando para o futuro, mas ele não passa o tempo todo se preocupando com os resultados do seu trabalho. Não, ele pensa nisso dentro dos limites da razão, e depois descansa. Aqui, novamente, a questão é onde estabelecer o limite. Pensar está certo até um determinado ponto, mas se passarmos desse ponto, isso se transforma em ansiedade e preocupação, que paralisa e incapacita. Em outras palavras, ainda que esteja certo pensarmos sobre o futuro, está errado ser controlado por ele. O problema com as pessoas que são prisioneiras desses temores é que elas são controladas pelo futuro, são  dominadas por pensamentos a respeito dele, constantemente torcendo as mãos em  desespero,  sem  fazer nada,  deprimidas  pelos  seus  temores. Na  verdade,   são  completamente  governadas   e  controladas  pelo futuro desconhecido, e  isso sempre é errado.  Pensar a respeito está certo, mas ser controlado pelo futuro está errado. Ora, essa é uma proposição fundamental, e o mundo já descobriu isso. O mundo nos diz que não devemos cruzar a ponte antes de chegar a ela. Transfiram isso para seu ensino cristão, pois o mundo está certo nisso, e o cristão deve aceitar essa sabedoria. Não cruzem a ponte antes de chegar a ela. De fato, muitas declarações bíblicas em torno desse assunto se tornaram proverbiais — "não vos inquie­teis com o dia de amanhã", "basta a cada dia o seu mal". Certa­mente o Novo Testamento aborda esse conceito e o coloca em termos espirituais. Mas é verdadeiro até o último nível — "basta a cada dia o seu mal". Isso nada mais é que bom senso. Como vimos   antes,   é   uma   perda   de  tempo   preocuparmo-nos   com   o passado que não pode mais ser mudado; mas é igualmente erra­do preocuparmo-nos com o futuro, que no momento é obscuro. "Um passo de cada vez". Vivamos o presente ao máximo, e não permitamos que o futuro hipoteque o nosso presente, nem permi­tamos que o passado o faça.
Passemos agora ao que o apóstolo diz. Ele eleva a argumen­tação a um nível  mais alto, dando-nos ensinamentos específicos de caráter duplo. Primeiramente é uma reprimenda, e em segundo lugar é um lembrete. E ambos são absolutamente vitais e essen­ciais. A primeira coisa que ele faz é repreender Timóteo. Dirige-se a ele dizendo: "Porque Deus não nos deu o espírito de temor". Isso é uma reprimenda. Timóteo era culpado de um espírito de temor,   estava   escravizado   a   ele;   por   isso   Paulo  o   repreende: "Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação". O princípio, a doutrina aqui, é que nosso problema   básico,   se   sofremos   desta   manifestação   particular   da depressão espiritual, é nossa falha em compreender o que Deus nos deu, e está dando, ao nos conceder o dom do Espírito Santo. Esse realmente era o problema de Timóteo, e é o problema de todos os cristãos tais como ele. É a falha em compreender o que Deus fez por nós, e o que Ele ainda está fazendo por nós.  De fato, podemos empregar palavras que o Senhor usou certa vez numa circunstância um pouco diferente. Ao responder a Tiago e João, que queriam chamar fogo do céu para consumir certos samari­tanos, Ele disse: "Vós não sabeis de que espírito sois". E isso é o que Paulo está dizendo a Timóteo. Jesus o usou de forma negativa, aqui está de forma positiva. O apóstolo está exortando Timóteo a avivar o dom de Deus.
Nossos temores decorrem da falha de não nos avivarmos — falhamos em pensar, e em assumir controle de nós mesmos. Co­meçamos a olhar para o futuro, e então a imaginar coisas e  a dizer: "O que será que vai acontecer?" E daí nossa imaginação se descontrola. Acabamos dominados por isso, e não paramos a fim de nos lembrar de quem somos e o que somos, nossos temores nos controlam, e ficamos abatidos.  Agora a primeira coisa que precisamos fazer é assumir controle de nós mesmos, erguer-nos, avivar-nos,  dominar-nos,  e  falar conosco  mesmos.  Como  diz  o apóstolo, precisamos nos lembrar de certas coisas. E eu creio que a coisa principal que Paulo está dizendo a Timóteo é: "Timóteo, você parece estar pensando a respeito de si mesmo e a respeito da vida e de tudo que você precisa fazer, como se ainda fosse uma pessoa comum. Contudo, Timóteo, você não é uma pessoa comum! Você é um cristão, você nasceu de novo, o Espírito de Deus está em você. Mas você está enfrentando todas essas coisas como se ainda fosse o que era antes — uma pessoa comum". E não é este o problema com todos nós em relação a isso? Ainda que verdadeiramente sejamos cristãos, que creiamos na verdade, que   tenhamos   nascido   de   novo,   que   sejamos   filhos   de   Deus, caímos nessa situação em que começamos a pensar como se ne­nhuma dessas coisas tivesse nos acontecido. Como o homem do mundo, o homem que nunca foi  regenerado, permitimos  que  o futuro  nos  assalte  e  nos  domine,  e  comparamos  nossa  própria fraqueza e falta de poder com a grandeza da missão e a tremenda tarefa diante de nós. E ficamos abatidos, como se ainda vivêssemos na esfera do homem  natural.  Mas a coisa a fazer,  Paulo diz a Timóteo, é lembrar-se que, como cristãos, temos recebido o dom do Espírito Santo de  Deus, e por causa disso, precisamos  com­preender que toda a nossa perspectiva de vida e do futuro deve ser essencialmente diferente. Precisamos pensar no sofrimento de forma diferente, e encarar todas as coisas de um modo novo. E a forma  que   devemos   enfrentar  isso   tudo,  é   lembrar-nos   que   o Espírito Santo está em nós. O futuro está aí, a missão está diante de nós, a perseguição está aí, a oposição está aí, o inimigo está aí. Vejo tudo isso. Devo também admitir que sou fraco, que me falta o poder necessário, que me falta a tendência. Mas em vez de  parar  aí,  devo  prosseguir dizendo:   "Sim,  eu  sei tudo  isso, mas. . ." E no momento que eu uso essa palavra "mas", estou fazendo o que o apóstolo quer que eu faça. Digo: "Mas — mas o Espírito de Deus está; em mim; Deus me deu o Seu Espírito Santo". No momento em que eu digo isso, a perspectiva muda completamente. Em outras palavras, precisamos aprender a dizer que o que importa em  qualquer uma dessas  questões, não é o que é verdade a meu respeito, mas o que é verdade a respeito dEle. Timóteo era fraco por natureza, o inimigo era poderoso, e a tarefa era grande. Está certo, mas ele não devia pensar apenas em si mesmo, ou na situação em termos de si mesmo — "Porque Deus não nos deu o espírito de temor. Ele nos deu o Espírito de poder".   Então,  não  pensem  em   sua  própria  fraqueza;   pensem no poder do Espírito de Deus. É quando começamos a fazer isso que equilibramos nossa  doutrina  e vemos  a  situação toda cla­ramente.
Já me esforcei muito para enfatizar que nossos temperamen­tos são diferentes, e quero enfatizá-lo de novo. No entanto, neste ponto eu diria que, embora nossos temperamentos sejam diferen­tes, eles não deviam fazer qualquer diferença face a face com a tarefa. Aqui está o milagre da redenção.  Deus nos  deu nossos temperamentos. Mais uma vez, todos temos temperamentos dife­rentes, e isso também é de Deus. Sim, mas nunca deveria acon­tecer conosco, como cristãos, o sermos controlados por nossos tem­peramentos. Devemos ser controlados pelo Espírito Santo. A coisa deve ser colocada nessa ordem. Aqui estão forças e capacidades, e aqui estão nossos temperamentos específicos que as usam, mas o ponto vital é que, como cristãos, devemos  ser controlados pelo Espírito Santo. É uma tragédia quando o cristão permite que o seu temperamento o controle. O homem natural sempre é contro­lado por seu temperamento, ele não pode evitar isso; mas a dife­rença que a regeneração faz, é que agora há um controle superior até ao temperamento. No momento em que o Espírito Santo entra numa pessoa, Ele controla tudo, inclusive o temperamento, capa­citando-a então a operar através do seu temperamento. Esse é o milagre da redenção. O temperamento permanece, porém não está mais no controle. O Espírito Santo está no controle.
Vamos agora examinar isso em detalhe. "Deus não nos deu o espírito de temor". Que espírito, então, Ele nos deu? Notem: "Deus não nos deu o espírito de temor, mas de poder. . ." Isso é o que Ele coloca em primeiro lugar, e com razão. Temos uma tarefa, e conhecemos nossa própria fraqueza. Sim, mas há um poder até para os fracos, e significa poder no sentido mais amplo que se possa imaginar. Vocês estão com medo de não serem capa­zes de viver a vida cristã? A resposta é: "Operai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar". O temor e o tremor permanecem. Isso faz parte dos seus temperamentos, mas vocês são capacitados a trabalhar através do poder "que opera em vós tanto o querer como o efetuar". Então, não se tornam pessoas que não sentem medo ou não são mais sujeitas ao temor. Ainda têm que operar a sua salvação com temor e tremor, mas há poder apesar disso. É o poder de Deus operando em vocês "tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade". Mas isso se refere não só à questão de viver a vida cristã, e batalhar contra tentações e pecados; também significa poder para resistir, poder para prosseguir, não importa as condições ou circunstâncias, poder para perseverar e ficar firme. E digo mais: significa que a pessoa mais tímida pode receber poder para todas as coisas — até para enfrentar a morte. Isso foi evidente nos apóstolos; pode ser visto num homem como Pedro, que tinha medo da morte, tinha medo de morrer. Ele até negou o Senhor por causa desse medo, dizendo: "Não O co­nheço, nada tenho a ver com Ele". Negou com pragas e jura­mentos o seu bendito Senhor, seu maior benfeitor, para salvar sua vida. Mas olhem para ele depois, no livro de Atos dos Apósto­los. O Espírito de poder tinha entrado nele, e agora ele está pronto a morrer, pronto a enfrentar as autoridades, pronto a enfrentar qualquer pessoa. Essa é uma das coisas mais gloriosas nos longos anais da história da Igreja, e ainda está acontecendo. Nunca me canso de dizer a cristãos que leiam as histórias dos mártires, dos pais da Igreja, dos reformadores, dos puritanos e outros. Leiam essas histórias e não encontrarão apenas homens fortes e corajosos, mas também mulheres e jovens fracos, e até mesmo crianças morrendo gloriosamente por amor a Cristo. Não podiam fazê-lo por si mesmos, mas receberam o espírito de poder. Ora, isso é o que Paulo quer dizer aqui. Ele diz a Timóteo: "Não fale assim. Você está falando como um homem natural. Está falan­do  como  se  você  mesmo,  com  seu próprio  poder,  tivesse  que enfrentar isso tudo. Mas Deus lhe deu o espírito de poder. Vá em frente. Ele vai estar com você. Você nem vai mais se conhecer; vai ficar assombrado consigo mesmo. E ainda que possa significar ter que enfrentar a morte, irá regozijar-se por ter sido considerado digno de sofrer vergonha e até mesmo à morte por amor do Seu glorioso nome". Poder! Ele foi dado. E o que você e eu devemos fazer, quando somos tentados a ficar deprimidos por causa das coisas que estão contra nós, é dizer: "Eu tenho o Espírito Santo, e Ele é o Espírito de poder".
A próxima coisa que ele menciona é "amor". E eu considero isto muito interessante, fascinante mesmo. Eu me pergunto quan­tos teriam colocado amor neste ponto da lista? Por que vocês acham que ele o colocou aqui? O que ele está querendo dizer? "Deus não nos deu o espírito de temor, mas de poder. ..". Sim, eu entendo que preciso de força. Mas amor — por que amor? Certamente não é amor que esta pessoa tímida precisa! Por que ele coloca isso em segundo lugar — o espírito de amor? Aqui temos uma soberba migalha de psicologia, pois, no fim das contas, qual é a causa principal do espírito de temor? A resposta é "o eu". Auto-preocupação, auto-proteção, egoísmo. Vocês já perceberam que a essência deste problema é que estas pessoas medrosas real­mente estão absorvidas demais em si mesmas — "Como posso fazer isso? E se eu falhar?" "Eu" — estão constantemente volta­das para si mesmas, olhando para si mesmas e preocupadas con­sigo mesmas. E é aqui que o espírito de amor entra, porque só há um modo de alguém se libertar de si mesmo. Há somente uma cura para isso. Ninguém pode tratar com seu próprio "eu". Esse foi o erro fatal daqueles pobres homens que se tornaram monges e eremitas. Eles conseguiram se afastar do mundo e das outras pessoas, mas não conseguiam se afastar de si mesmos. O nosso "eu" está dentro de nós e não podemos nos livrar dele; quanto mais nos mortificarmos a nós mesmos, mais a nossa natureza vai atormentar-nos.
Há somente uma maneira de nos libertar — é nos absor­vermos tanto em outra coisa ou outra pessoa, que não tenhamos tempo de pensar em nós mesmos. Graças a Deus, o Espírito Santo torna isso possível. Ele não é apenas o "Espírito de poder", mas também é o "Espírito de amor". Que significa isso? Significa amor a Deus, amor ao grande Deus que nos criou, amor ao grande Deus que planejou um caminho de redenção para nós, miseráveis criaturas — que nada merecemos senão o inferno. Ele nos amou com um amor eterno. Pense nisso, diz Paulo a Timóteo, e quando você se absorver no amor de Deus, vai se esquecer de si mesmo. "O Espírito de amor!" Esse Espírito de amor libertará vocês do auto-interesse, da auto-preocupação, da depressão por causa de si mesmos, porque depressão é resultado do "eu" e da auto-preo­cupação. Ele liberta do "eu" em todas as áreas. Então, falem consigo mesmos a respeito deste eterno, grandioso amor de Deus — o Deus que olhou para nós, apesar do nosso pecado, que planejou o caminho da redenção, e não poupou Seu próprio Filho, mas O entregou por todos nós.
E então? Continuem pensando no amor do Filho, em sua extensão, comprimento, profundidade, altura; conheçam o amol­de Cristo, que excede todo o entendimento. Pensem nEle que desceu das cortes do céu e pôs de lado as insígnias da Sua eterna glória, que nasceu como um bebê, trabalhou como um carpinteiro, e suportou tais contradições dos pecadores contra Si mesmo. Pensem nEle, em cujo santo rosto homens cuspiram, colocaram uma coroa de espinhos em Sua cabeça, e vararam Suas mãos e pés com pregos. Ali está Ele, na cruz. Que está fazendo ali? AH Ele morreu por nós, para que pudéssemos ser perdoados e recon­ciliados com Deus. Pensem no Seu amor, e à medida que come­çarem a entender algo a respeito, vão se esquecer de si mesmos.
E daí, amor aos irmãos. Pensem em outras pessoas, suas necessidades, suas preocupações. Devo prosseguir? Timóteo parece que estava conjecturando: "Eu posso ser morto". Paulo diz: "Pense em outras pessoas; olhe para essas pessoas perecendo em seus pecados. Esqueça de si mesmo". Cultivem amor pelos perdidos, amor pelos irmãos da mesma forma, e amor pela causa maior e mais nobre do mundo, esta bendita, gloriosa causa do evangelho. Ponham isso em prática. Isto é o que o apóstolo quer dizer com "espírito de poder e de amor". Se forem consumidos por este espí­rito de amor, vão se esquecer de si mesmos. Vão dizer que nada importa exceto o Cristo que Se deu a Si mesmo por vocês, e nada é demais para darem a Ele. Como o conde Zinzendorf, vocês terão somente uma paixão, que será: "Ele, e Ele somente!" Q espírito de amor!
E finalmente, "moderação" — "Deus não nos deu o espírito de temor, mas de poder, e de amor, e de moderação". Que signi­fica isso? É o antítodo certo para o espírito de temor — auto-con­trole, disciplina, uma mente equilibrada. Ainda que sejamos tími­dos  e nervosos, o  Espírito que  Deus  nos  deu  é  o   Espírito  de controle, o Espírito de disciplina, o Espírito de Julgamento. Nosso Senhor já disse tudo isso antes mesmo de Paulo pensar nisso. Paulo está apenas repetindo e expondo algo que o Senhor já havia ensinado. Lembrem-se do que Ele disse aos discípulos quando os enviou a pregar. Ele os advertiu que seriam odiados, e persegui­dos, e que talvez chegasse o dia em que tivessem de entregar suas vidas, ou certamente serem levados diante de juízes para defender suas cidas. Contudo, prosseguiu e disse: "Quando vos entregarem, não vos dê cuidado como, ou o que haveis de falar, porque na­quela mesma hora vos será ministrado o que haveis de dizer". Estarão nos tribunais sendo interrogados, e eles farão todo o possí­vel para pegá-los em alguma palavra, mas não se preocupem, diz o Senhor, porque naquela hora lhes será dado o que devem dizer. Não precisam temer, não perderão a calma; não ficarão tão alar­mados ou assustados que não saibam o que dizer; porque "naquela mesma hora vos será ministrado o que haveis de dizer". O espírito de sabedoria e de moderação!
Posso resumir este ponto de forma breve numa só ilustração. É a história de uma jovem nos dias dos "Covenanters", os parti­dários da Reforma na Escócia. Ela ia participar de um culto da Ceia do Senhor realizado pelo grupo num domingo à tarde, e, naturalmente, tais cultos eram absolutamente proibidos. Os solda­dos do rei da Inglaterra estavam à procura, em toda parte, das pessoas que iam se reunir para participar daquele culto da Ceia do Senhor, e quando essa jovem virou uma esquina, defrontou-se face a face com um grupo de soldados, e soube que estava encurra­lada. Por um momento ela imaginou o que deveria dizer, mas imediatamente ao ser interrogada, surpreendeu-se a si mesma, res­pondendo: "Meu Irmão mais velho morreu, e vão ler Seu testa­mento esta tarde, e Ele deixou algo para mim, e quero ouvir a leitura do testamento". E permitiram que ela prosseguisse. "Deus não nos deu o espírito de temor, mas de poder, e de amor, e de moderação" — sabedoria, prudência, entendimento. Ele os fará sábios como as serpentes; serão capazes de fazer declarações abso­lutamente verdadeiras aos seus inimigos, e eles não vão entender, e os deixarão ir. Ah, sim, seu Irmão mais velho tinha morrido. Cristo tinha morrido por ela, e naquele culto Seu testamento seria lido novamente, e ela relembraria mais uma vez o que Ele deixara para ela e o que tinha feito por ela. Como vêem, o mais ignorante e o mais tímido no reino de Cristo vai receber um espírito de moderação e de sabedoria. Não se preocupem, Cristo diz; receberão naquela hora o que devem dizer. Ele lhes mostrará o que fazer, revelará o que devem dizer, e se necessário, Ele lhes impedirá de qualquer reação. Não vivemos por nós mesmos. Não devemos pensar em nós mesmos como pessoas comuns. Não somos pessoas naturais; nós nascemos de novo. Deus nos deu o Seu Espí­rito Santo, e Ele é o Espírito "de poder, e de amor, e de mode­ração". Portanto, àqueles que são particularmente propensos à depressão espiritual devido ao temor do futuro, eu digo em nome de Deus e com as palavras do apóstolo: "Despertem o dom", falem consigo mesmos, relembrando o que é verdade a seu respeito. Em vez de permitirem que o futuro e preocupações a seu respeito os escravizem, falem consigo mesmos, relembrando quem são e o que são, e que o Espírito está em vocês: e, havendo-se lembrado do caráter do Espírito que está em vocês, então serão capazes de prosseguir com firmeza, sem temer coisa alguma, vivendo no pre­sente, prontos para o futuro, com somente um desejo — o de glori­ficar Aquele que deu tudo por vocês.

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