quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A INVEJA


Por 
Silas Roberto Nogueira

1 Samuel 18.1-16

Nós estamos estudando sobre Os Sete Pecados Capitais. Só para lembrar, a lista dos Sete Pecados Capitais não está na Bíblia. Essa lista se originou com Evágrio do Ponto (346-399) um monge que abandonou a vida na cidade indo viver no deserto do Egito, onde traçou as principais doenças do corpo e as correlacionou com os oito pecados capitais. Mais tarde Gregório Magno tomou conhecimento da lista de Evágrio e fez algumas pequenas adaptações, juntou vaidade e orgulho, dando à lista sua forma final. Tais pecados são chamados Capitais (caput – cabeça) porque são considerados as matrizes de outros pecados, isto é, dão origem a outros pecados. Mas, você pode perguntar: por que falar disso? E eu posso oferecer duas razões básicas: 


(1) Os Sete Pecados Capitais são assunto recorrente na arte (pintura com Hieronymus Bosch), literatura (Milton, em o Paraíso; Dante na Divina Comédia), cinema (Seven – os crimes capitais), televisão (novela da Rede Globo – Os Sete Pecados, escrita por Walcyr Carrasco; nos comerciais, etc.), filosofia (ética), nos negócios (Marc Lewis, que escreveu Pecar para vencer) e na teologia (que desde Evágrio discute o assunto); 


(2) A sociedade contemporânea vê os vícios como virtudes. A sociedade moderna resignifica o pecado, extraindo a sua fealdade e periculosidade. Um exemplo disso tem sido o consultor Marc Lewis que escreveu um livro Sin to Win (Pecar para vencer) no qual defende a tese de que os sete pecados capitais são na verdade fatores motivadores do sucesso. Diz ele que não devemos temer os Pecados Capitais, mas usá-los de modo positivo, isto é, fazer do pecado algo bom, uma força positiva, motivadora.  Um pouco de pecado não faz mal, mas a verdade é que numa única gota de pecado há mais malignidade que em todos os mares. Na semana passada estudamos o primeiro dos Sete Pecados Capitais, o orgulho. Como disse John Stott, o orgulho é a essência do próprio pecado. Para combatê-lo, precisamos ser humildes. 


Hoje nós abordaremos o segundo dos Pecados Capitais. Esse pecado, dizem, é irmão siamês do primeiro. É bem mais odioso, é verdade. Por isso, é possível que alguém reconheça seu orgulho, mas raramente alguém confessa esse outro pecado, porque até mesmo para os mais vis pecadores, esse pecado é insuportável. Mas, como diz Luiz Fernando Veríssimo, se você é humano já sentiu. Falamos da inveja, o segundo pecado capital. A inveja não é somente querer o que o outro possui, mas é um sentimento de tristeza pelo bem do outro e o desejo que o outro não tenha. É o sentimento que nasce no coração do fracassado que deseja penalizar o outro pelo seu sucesso. A inveja é um mal que enfraquece a alma, Pv. 14.30. É uma característica do ímpio (Rm 1.29), quando presente num cristão, indica mentalidade carnal (1 Co 3.1-3; Gl 5.20,21,26). A espiritualidade cristã denuncia a inveja como aquilo que: 

·         destrói a vida daquele que por ela é dominado;
·         a inveja gera transtornos e perdas à vida daqueles que são seus alvos;
·         a inveja inviabiliza relacionamentos sadios;
·         a inveja busca sabotar o projeto de Deus de gerar em nós a imagem de seu Filho.  

Segundo Os Guinness a inveja possui cinco características universais, as quais pretendo identificar na vida de um personagem bíblico que personifica de modo sem igual o invejoso, Saul.

1.       A INVEJA É UM PECADO POR PROXIMIDADE, v.6
Estamos propensos a invejar aqueles que estão próximos de nós. Não é necessário intimidade, mas a mínima proximidade. Assim, a inveja surge entre familiares, amigos e colegas de trabalho ou escola e vizinhos. Após a vitória contra Golias, Davi torna-se, por ordem de Saul, um comandante das suas tropas (v.5). Davi tornara-se um homem popular, benquisto por todos. E justamente por isso nasce a inveja no coração de Saul. Note o “porém” no v.6 que estabelece um contraste entre o que vinha sendo narrado e o que a partir de agora começa a ser descrito. Marca precisamente o momento em que a inveja se manifesta em Saul. O sucesso daqueles que nos cercam geralmente é o fator desencadeador da inveja em nós.

A história registra o exemplo de Múcio, cidadão romano, notável pela inveja. Notando que Múcio estava triste, declarou Públio: “ou sobreveio a Múcio um grande mal, ou veio a outro um grande bem”.


2.       A INVEJA É ALTAMENTE SUBJETIVA, v. 7-8
A inveja está nos olhos de quem vê. Interessante que o termo latino invídia tem o sentido de olhar de perto com intenção má. Não é o que vemos de modo objetivo que provoca a inveja, mas sim a percepção subjetiva, o que a pessoa vê. Não houve ofensa da parte de Davi, o texto deixa evidente que ele agia com prudência (v.5) estando sob as ordens de Saul. A música não era uma composição de Davi, ele nem mesmo cantava. Contudo, Saul estava tão tomado de indignação que não atentou para o fato de que os números da poesia eram mais decorativos que reais (v.8). A poesia hebraica daqueles dias costumava intensificar um ou mais termos da primeira metade de um verso na segunda metade, portanto o que se celebra é a vitória de ambos. Mas Saul estava furioso e extremamente desgostoso para poder perceber isso. De fato, vê Davi como um potencial substituto, um usurpador (v.8). Todo o potencial de Davi é interpretado como uma ameaça para Saul. Mas tudo isso está bem guardado dentro de Saul.

Por isso Dante na Divina Comédia ilustrou o invejoso no Purgatório como alguém cujo castigo era ter os olhos costurados com fios de náilon para que não pudesse olhar e invejar ninguém.

3.       A INVEJA NÃO DIMINUI COM O TEMPO, v.9-11,29
A tentação de ter inveja não diminui com o tempo. Aliás, diga-se de passagem, o pecado não é coisa que abandonamos com a maturidade, como coisa da infância. O v. 9 diz que daquele dia em diante Saul não via Davi “com bons olhos”.  Algumas versões interpretam o olhar de Saul como aquele olhar que contém “suspeita” (ARC), a NVI e Almeida Sec. 21 traduzem “passou a olhar a Davi com inveja”. O hebraico tem uma palavra que quer dizer aquele olhar semicerrado, que fita alguém de modo desconfiado. Saul passa a manter Davi sob vigilância. A vida de Saul é tomada como refém dos atos de Davi. A fermentação da inveja é rápida e contínua. A inveja abre as portas para o ódio, que tem seu clímax no assassinato. Sob a influência de um espírito maligno, Saul tem uma experiência extática e arremessa uma lança contra Davi no intuito de mata-lo, v.10,11. Mais tarde, Saul tenta contra a vida de Davi mais uma vez, mas agindo com sutileza, contudo, percebendo que Davi escapara, ele o temeu mais e “continuamente foi seu inimigo”. A inveja é um sentimento que aumenta na proporção do sucesso do outro, e esse sucesso pode ser simplesmente estar vivo.

Por isso, uma segunda metáfora usada para a inveja é o fogo. Interessante que o termo hebraico para inveja originalmente era usado para uma queimadura, depois para referir-se aquela coloração produzida no rosto por uma profunda emoção, o ardor que a inveja provoca.

4.       A INVEJA É INSACIÁVEL, v.12-17
A inveja pode ser insignificante, mas é sempre insaciável. A inveja não pode ser saciada com a obtenção daquilo que pertence ao outro, mas somente com o fim do outro. Não é uma questão de possuir o que o outro possui, mas não permitir que o outro possua. Saul temia a Davi por que Deus estava com ele (v.12). Uma das ações de Saul foi afastar-se de Davi (v.13ª). A inveja polui os relacionamentos. A pessoa que invejamos se torna insuportável para nós. A segunda ação de Saul foi rebaixar Davi (v.13b). A intenção de Saul é desmoralizar Davi. Mas a inveja não pode ser saciada com o afastamento ou rebaixamento da pessoa, Saul entende que a única maneira de se livrar do que sente é se livrando daquele que é objeto dos seus vis sentimentos. A terceira ação de Saul é querer que Davi morresse, contudo não pelas suas mãos (v.17). Então o plano é coloca-lo à frente da batalha para que morra, pelas mãos de outros. Quando Davi invejou Urias, agiu da mesma maneira. Depois, que morresse buscando o dote para casar-se com Mical (v.25).

A peça ficcional de Peter Shaffer fala da inveja que Antonio Salieri sentia de Mozart.. Quem não viu a peça pode assistir o filme Amadeus e perceber como Salieri é tomado pela inveja e do que é capaz para destruir Mozart.
  
5.       A INVEJA É AUTODESTRUTIVA, v 28,29
O problema da inveja é que ela é autodestrutiva. O que o invejo não pode ter, ninguém pode, nem ele mesmo. A inveja é um sentimento que corrói a pessoa por dentro provocando outros males da alma, Tg 3.16. A inveja implode o invejoso. A inveja produz uma série de sentimentos que fazem com que a pessoa adoeça, consumindo-a por dentro (Pv. 14.30; Jó 5.2)

·         Indignação ou raiva, 18,8
·         Desgosto extremo, 18.8b (que leva à depressão)
·         Desconfiança que torna sua vida refém dos atos do outro, 18.9
·         Medo, 18.12,19. Sentimento paralisante que diminui aquele que sente
·    Insegurança, 18.15. Uma palavra que se traduz geralmente por “estrangeiro”, mas que significa “receio” (ARC) ou “insegurança”, “hesitação” em relação ao outro.

A sabedoria judaica conta a parábola de um rei que encontrou dois homens e decidiu conceder a um deles um pedido. Disse o rei: Um de vocês pode me pedir algo e eu concederei, e cuidarei que o outro receba duas vezes mais. Ocorre que um desses homens era avarento e o outro, invejoso. Então, instalou-se o dilema. O invejoso não quis ser o primeiro a pedir, pois invejava seu companheiro que receberia porção dobrada.  O avarento não quis ser o primeiro, por que queria tudo o que alguém eventualmente pudesse receber. Por fim, o avarento persuadiu o invejoso a pedir primeiro. Então, o invejoso pediu ao rei que arrancasse um dos seus olhos, sabendo que dessa maneira, seu companheiro teria os dois olhos arrancados.  Isso nos mostra que o

CONCLUSÃO
A inveja é um vício que possui certa progressão na alma humana.
1)      Primeiro nível. Incapacidade de identificar e celebrar suas próprias habilidades e virtudes. Problema é a baixa-estima, gerando insegurança, tristeza e depressão.

2)     Segundo nível. Incapacidade de apreciar e celebrar as habilidades e virtudes dos outros. Problema que gera a raiva com o sucesso do outro, crítica e sabotagem sutil e a realização pessoa atrelada ao fracasso do outro, alvo da inveja.

3) Terceiro nível. Perda de identidade, sua vida refém do outro. Problema que gera agressividade para com os outros, críticas abertas, explícita e atitudes agressivas e agenda controlada pelos atos do outro.

É difícil combater a inveja. Como disse certa vez William Gurnall “é tão difícil conservar separados nosso coração e a inveja quanto impedir dois seres que se amam de se encontrarem”. O que pode combater a inveja? O lamento (Mt 5.4). O termo usado para choro aqui é forte, implica na solidariedade e simpatia. Devemos sofrer com os que sofrem, alegrar-nos com os que se alegram (Rm 12.15). Devemos chorar pelos nosso pecados (Tg 4.9) até que sejamos consolados pelo perdão e pela justificação por meio do sangue de Cristo. Que a inveja não se assenhore de nós. 
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Notas do sermão pregado na Comunidade Batista da Graça, em Suzano 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

MANIA DE PRAZER


Dr David Martyn Lloyd-Jones 

Ai dos que se levantam pela manhã e seguem a bebedice e continuam até alta noite, até que o vinho os esquenta! Liras e harpas, tamboris e flautas e vinhonos seus banquetes; porém não consideram os feitos do SENHOR, nem olham para as obras das suas mãos. Portanto, o meu povo será levado cativo, por falta de entendimento; os seus nobres terão fome, e a sua multidão se secará de sede. Por isso, a cova aumentou o seu apetite, abriu a sua boca desmesuradamente; para desce a glória de Jerusalém, e o seu tumulto, e o seu ruído, e quem nesse meio folgava. Então, a gente se abate, e o homem se avilta; e os olhos dos altivos são humilhados. Mas o SENHOR dos Exércitos é exaltado em juízo; e Deus, o Santo, é santificado em justiça. Então, os cordeiros pastarão como se no seu pasto; e os nômades se nutrirão dos campos dos ricos abandonados. 
(Isaías 5:11-17).

Vemos aqui o segundo dos 'ais' pronunciados pelo profeta Isaías sobre seus conterrâneos e contemporâneos, o que nos leva a considerar a segunda manifestação do problema básico da raça humana. Por que a ira de Deus permanece sobre o mundo hoje? Por que o mundo está do jeito que está? Bem, a segunda causa do problema é quase tão grande quanto o materialismo. São coisas que andam juntas. São diferentes manifestações do mesmo problema fundamental. A segunda causa é o que descreveremos como 'mania de prazer', imoderação quanto ao prazer! É isso que vamos considerar nesses versículos.
Aqui, elas são apresentadas particularmente em termos de bebida - "bebida forte" – e música. Mas é claro que aquilo com que o profeta e toda a mensagem bíblica estão preocupados não são os prazeres particulares, e, sim, o fato de homens e mulheres serem culpados dessa mania de prazer. Não é a questão da bebida ou da música, ou seja o que for. O importante é que homens e mulheres estão embriagados pelo prazer, e vivem fanática e exclusivamente para ele.
É evidente, porém, que até mesmo os detalhes dados pelo profeta sobre o que acontecia oito séculos antes do nascimento de Cristo ainda são basicamente iguais aos do mundo de hoje. Não é apenas o beber, mas a bebidacada vez mais –, e tudo que a acompanha. Qual é um dos mais populares slogans da era em que vivemos? No que as pessoas que não crêem em Deus, em Cristo e nas Escrituras, acreditam? Como é essa vida maravilhosa que lhes é oferecida? Não é essa tão insensata e frivolamente celebrada – "vinho, mulher e música"? Então, a descrição dada pelo profeta soa curiosamente contemporânea. Ele menciona "banquetes". Isso também é bastante contemporâneo. Comer! Festejar! Dar festas ! O tipo de vida que está aqui resumida em pormenores.
Antes que passemos à análise detalhada do profeta sobre essa perspectiva de vida, podemos notar dois pontos gerais que estão aqui bem na superfície. Você pode ver que Isaías faz um parêntese para enfatizar que isso é verdadeiro para todas as classes da sociedade. Este é um ponto muito importante porque é um princípio bíblico o fato de que todos os homens e mulheres são a mesma coisa para Deus e são culpados dos mesmos pecados. É claro que nós nos dividimos em grandes e pequenos, ricos e pobres, cultos e ignorantes, marxistas e capitalistas, e tudo o mais. Isso, porém, é totalmente irrelevante porque você encontra pessoas em todos esses grupos e partidos fazendo exatamente a mesma coisa.
Veja como o profeta apresenta este ponto. Ele diz: ".,,os seus nobres terão fome e suas multidões secarão de sede". Você pode dividir a sociedade assim, O mundo faz isso: poucos nos altos círculos da sociedade e as massas. Veja outra vez no v. 14: "a glória de Jerusalém", quer dizer: dos grandes homens; os grandes homens da nação são a glória daquela nação – "a sua glória e sua multidão" outra vez a mesma divisão – "e sua pompa, e aquele que se regozija descerão para lá [para o inferno]". Da mesma forma no v. 15 ele se mostra preocupado com isso. "O homem mau será abatido e o poderoso será humilhado." Vale para todos.
A mensagem do Evangelho vale para todos; não reconhece divisões ou distinções. "Não há grego nem judeu (...) bárbaro, cita, escravo ou homem livre" (Colossenses 3:11), conservador, liberal, socialista – não importa. Não importa seu país ou a cor da sua pele: "Todos pecaram"! (Romanos 3:23) Todos são culpados: classes alta, baixa, mau, anônimo ou poderoso.
Este é um ponto tremendo. É por isso que a pessoa que tem uma visão bíblica da vida julga tudo mais superficial. Algumas pessoas dizem: "É isso o que eu acho; o problema são as outras pessoas." São sempre os outros! Mas o problema é de todos. Está em todas as classes, todos os grupos, todos os homens e todas as mulheres. É por isso que tudo o mais se torna irrelevante: todos os diferentes tipos de divisões. A questão não é totalmente por causa do trabalhador, nem totalmente por causa dos empregadores. Os dois lados são culpados de, precisamente, a mesma coisa. Não importa muito se você bebe vodca, uísque, cerveja ou cachaça; o fato é que você ingere bebida alcoólica. É simplesmente isso.
Em segundo lugar – e isso é estarrecedor, o que mais espantou o profeta –, eles estavam-se comportando assim num tempo de terríveis problemas. Deus levantou uma sucessão de profetas para falar a esta nação por causa do seu estado e condição. Eles estavam equivocados politicamente, militarmente, moralmente, e em muitas outras coisas. Sobre o que lhes acontecia, estavam vivendo desse modo. Ele apresenta a situação bem claramente:
Ai dos que se levantam cedo de manhã e seguem a bebida forte e continuam até a madrugada, até que o vinho os inflame! A harpa, a lira, os tamborins e as flautas estão em seus banquetes; porém, não consideram os feitos do Senhor nem as obras. de suas mãos.
Para mim, esta é uma das coisas mais espantosas sobre os homens e mulheres em pecado. Quase todos os dias na primeira página dos jornais populares você encontra exatamente o que o profeta diz aqui. Você já notou? De um lado você lê sobre uma grande crise – problema em algum país, talvez uma ameaça de guerra, algo que pode levar a uma calamidade ou alguma coisa desesperadamente séria –; então, na mesma página, em outra coluna, está impresso algo totalmente trivial ou fútil, infantil e quase ridículo. Mas está lá na primeira página! Por quê? Porque, apesar da crise, apesar das circunstâncias, homens e mulheres ainda estão interessados no prazer.
Você já notou aquela curiosa falta de senso de proporção? Não é novidade, acontecia com o povo de Israel. Não é apenas Nero que se diverte enquanto Roma pega fogo. Isso sucedeu durante a Primeira e a Segunda Grandes Guerras. Apesar de que tudo estivesse aparentemente em perigo, homens e mulheres ainda continuavam a beber, dançar e fazer tudo o mais. Esta é a coisa mais curiosa sobre as pessoas em pecado: elas são tolas a ponto de pensar que podem comportar-se deste modo, em tal tempo, sob tais condições e circunstâncias. Não é assombroso que, com o mundo do jeito que está, com tantos cientistas não-cristãos nos dizendo que ele está em perigo, tanta proeminência seja dada a coisas que correspondem à descrição apresentada aqui da vida em Israel, oito séculos antes do nascimento de Cristo?
Esta, então, é a essência do problema, e esta é a coisa que devemos agora confrontar e juntos analisar. Então, vejamos esta "mania de prazer": não se pode chamá-la de outra coisa. Quais são as suas características? A primeira que está enfatizada, é claro, é que homens e mulheres vivem para o prazer – "... se levantam cedo de manhã e seguem a bebida forte e continuam até a madrugada, até que o vinho os inflame! A característica desta perspectiva é a de que o prazer se torna a coisa suprema na vida; ele se transforma em um fim e objetivo; é a própria vida. A busca do prazer! Um tipo de hedonismo, pan-hedonismo, se você preferir; é mais importante que tudo.
Eu interpreto desta maneira, mas não há nada errado com o prazer. Não pense que o Cristianismo condena o prazer. Para mim, uma das glórias da mensagem cristã é que ela oferece alegria, e dá alegria real. O amuado, sorumbático, casmurro, tristonho, desanimado, de cara-amarrada; o implicante, agressivo, eternamente acusador, sempre mal-humorado não são bons representantes do verdadeiro cristianismo. Pelo contrário: são péssimos! Os cristãos, de acordo com o apóstolo Pedro, podem ser descritos em termos de alegria. Seu relacionamento com o Senhor Jesus Cristo é este: "O qual, apesar de não o termos visto, amamos; no qual, embora agora não o vejamos, cremos, e nos regozijamos com uma alegria indescritível e cheia de glória" (I Pedro 1:8). Cristãos, diz o apóstolo Paulo, são pessoas que "se gloriam nas tribulações" (Romanos 5:3). Quando tudo está indo mal, eles ainda se regozijam. Não há nada errado com felicidade e prazer. Deus proíbe que alguém confunda moralidade com cristianismo! Cristianismo não é uma mensagem que nos urge a, nas palavras de Milton, "desprezar prazeres e viver para o trabalho." Não ! É uma mensagem de liberação, libertação, emancipação, "alegria indescritível e repleta de glória".
Isso, porém, é algo muito diferente da adoração do prazer, de viver para ele. É diferente de dizer que o prazer é o supremo final e objetivo da vida e da existência, e que ele vem. primeiro que qualquer outra coisa. E este era o problema das pessoas no tempo de Isaías; e não é assim também hoje? .
Este é um problema muito sério. Você sabe o que levou o Império Romano ao "declínio e queda"? Não foram os exércitos estrangeiros. Eu sei que foram os góticos e os vândalos e outros que na realidade saquearam Roma e conquistaram o país, mas não foi a sua força e seu heroísmo que levaram à queda de Roma. Foi a podridão interna que já a havia enfraquecido. E como foi isso? Simplesmente a mania de prazer. Os cidadãos de Roma passavam o tempo em seus banhos públicos; eles tinham que ter banheiras douradas, e lá relaxavam tomando sua bebida e ouvindo música. A cultura do ego! Isso derrubou aquele império poderoso, e tem derrubado muitos outros impérios desde então. Muitos grandes impérios se desintegraram como resultado da podridão interna.
Eu me pergunto se não estamos testemunhando um pouco disso nos dias de hoje... A atitude de muita gente com relação ao trabalho é a de que ele é apenas um meio de fazer dinheiro para comprar prazer. Onde está o artesão? Onde estão o interesse real e o prazer de trabalhar? Não, a atitude mudou em todas as classes. Freqüentemente, as pessoas estão na profissão para fazer dinheiro, e não porque estejam interessadas no seu trabalho ou em descobrir algo novo, ajudar a humanidade ou ser altruístas. Tudo se torna, como eu disse antes, uma forma de símbolo de estátuas. E assim o trabalho se transforma em um meio de as pessoas obterem dinheiro para comprar mais e mais prazer.
Pior ainda: o prazer se tornou um negócio! Esta é uma das grandes tragédias da vida moderna. As pessoas falam de "esporte", mas não têm nada a ver com o esporte: é negócio. Homens e mulheres, artistas e atletas, são comprados e vendidos como se fossem escravos. Até mesmo o prazer se tornou um negócio e um meio de fazer dinheiro. E, se não houver apostas, as pessoas não apreciam. Elas não parecem apreciar a coisa em si, apenas o que pode "ser feito" com ela. E, assim, cada vez mais tudo é colocado de lado em prol do prazer; o trabalho é suspenso no meio da semana para que ao jogo de futebol, possam todos assistirem. Não importa o país, desde que tenhamos nosso divertimento.
Você pode, assim, ver quão contemporâneas as Escrituras são. E isso é válido não apenas em relação às nações, mas também a indivíduos. Esta mania de prazer pode tomar conta das pessoas de tal forma que elas passem a negligenciar seu trabalho, suas profissões, e, até mesmo sua reputação. O prazer se transforma num poder tão sufocante que elas se deixam controlar por ele. Já se levantam pela manhã decididas a ir atrás dele, e continuam até à noite. A curtição é o que interessa, não o trabalho honesto, o trabalho real; não a preocupação com viver uma vida completa.
Veja, então, a artificialidade desta vida. O profeta expõe isso aqui, assim como a Bíblia o expõe por todo lado. É preciso que se anuncie, que se escancare esta verdade. A tão falada vida glamourosa não pode ser mais superficial. Ela é o tipo mais frívolo de existência que pode ser concebido. Ela não pode ser mantida sem meios artificiais. É produzida artificialmente, estimulada pela bebida, pela emoção descontrolada, o canto e certos tipos de música. Homens e mulheres que não se sentem felizes, a não ser que estejam sob a influência da bebida, devem ser bem tristonhos. Será que não podem ser felizes quando estão em seu estado natural? São obrigados a ter esses estimulantes para se tornarem sociais, manterem uma conversa animada e interessante, serem simpáticos e alegres, conseguirem, enfim, divertir-se e divertir e atrair outros inclusive... Aparentemente: eles não são felizes. Nada pode medir tão bem a tristeza desta era em que vivemos quanto o modo como a vida é levada adiante à base de estimulantes artificiais. É uma vida puramente artificial.
Mas deixe-me enfatizar outro elemento: a degradação. Você percebe como a vida é mantida? Ela depende principalmente de duas coisas. Primeiro, "bebida forte". E qual é a outra coisa? Bem, é um certo tipo de música, um tipo de ritmo produzido "pela harpa, lira, o tamborim, e flauta".
Isso também é uma coisa muito séria. Esse tipo de vida só é produzido, e se torna possível, à custa das mais elevadas faculdades mentais. As pessoas pensam que o álcool é um estimulante, mas abra qualquer livro de farmacologia e você verá que é um grande depressivo. O que ele faz é deprimir os centros mais elevados. As pessoas sob sua influência parecem brilhantes: por quê? Porque estão um pouco menos controladas. É por isso que, lamentavelmente, elas começam a beber. Elas se sentem um pouco nervosas e apreensivas, tolhidas e reprimidas. Então, buscam a bebida. Ela elimina aqueles elementos que produzem o nervosismo, e assim elas se sentem livres. Mas não é um estímulo, e, sim, um bloqueador das mais elevadas, cuidadosas qualidades e faculdades controladoras do cérebro. Dessa maneira, as pessoas se tornam mais primitivas. Mas é assim que se vive este tipo de vida que resulta da mania de prazer. Você alcança isso se drogando mediante drogas ou álcool.
Esse não é, porém, o único modo; a música também faz isso. Um certo tipo de música, é claro: a música ritmada, que se repete infinitamente até que você começa a se movimentar com ela. Você já notou como as pessoas fazem isso? A música se inicia e elas começam movimentando os pés, depois se põem a balançar o corpo. Este é, exatamente, o mesmo tipo de efeito produzido pelo álcool. Você pode ficar "embriagado" com certos tipos de música quase que do mesmo modo como pode ficar embriagado pelo álcool: pela repetição rítmica e, especialmente, pelos movimentos do corpo. Seus centros elevados são bloqueados e você, gradualmente, entra num tipo de estado de intoxicação. E quando você une os dois – álcool e música – tem o tipo de vida que está descrito aqui pelo profeta, e que se está tornando cada vez mais uma característica da vida neste país. É uma vida de gritaria, abandono, loucura, em que homens e mulheres não mais se controlam nem se comporiam de uma forma decente e humana. E isso é feito deliberadamente. É brilhantemente organizado. Existem pessoas que apostam nesse tipo de coisa, que fazem dinheiro com ela, tornando-a popular. E as pessoas, em geral, são iludidas e se tornam vítimas inocentes.
Finalmente, aparece a palavra "inflamar". "Ai dos que se levantam cedo de manhã e seguem a bebida forte e continuam até a madrugada, até que o vinho os inflame." Este é um modo gráfico e poético de se pintar a questão. O que realmente acontece, é claro, é que, em primeiro lugar os centros elevados do cérebro ficam bloqueados pelo álcool e pela música, e, então, os instintos e paixões, os desejos e luxúrias tomam o controle, e as pessoas ficam cheias de fogo. Elas se tornam "inflamadas". E aí acontecem todas as conseqüências inevitáveis. Homens e mulheres se tornam feras, controlados pelos instintos das partes inferiores de sua natureza corporal.
Aí está o elemento de degradação. A coisa mais impressionante é que, misturado com tudo isso, está o que Isaías no v. 15 chama de "os olhos dos altivos". As pessoas que seguem este tipo de vida pensam que são maravilhosas. Elas se gabam de não ser cristãs. Orgulham-se de sua forma de viver. Observe na televisão e em outros lugares. Não podem cumprimentar ninguém sem que estejam segurando um copo! Sempre estão tomando um drinque. Isso é que é vida: estar "ligada", numa boa! Eles acham maravilhoso. É uma vida de alegria, dizem. Lá vão eles, ao som da música e demonstrando todos os efeitos da bebida.
Vamos parar por aí. Estas são as horríveis características da vida sem Deus.
Quais são as causas? Elas estão registradas de uma forma bem simples no v. 13: "Assim, meu povo foi para o cativeiro, porque eles não têm conhecimento." Isaías já havia mencionado isso no v. 12: "... mas eles não observam a obra do Senhor, nem consideram a operação de suas mãos". Eles vivem assim porque são ignorantes. "Quê!" – exclama alguém – "Você está dizendo que as pessoas não são cristãs porque são ignorantes?..."
É precisamente isso que estou dizendo. Não há obra do diabo mais prima do que seu sucesso em persuadir as pessoas de que é seu conhecimento que as leva a rejeitar o Cristianismo. Mas exatamente o oposto é que é verdadeiro. O diabo as mantém na ignorância porque, enquanto permanecerem nela, elas farão o que ele manda. A partir do momento em que recebem a luz – o Evangelho é chamado de "luz" –, elas passam a enxergar e o abandonam.
Mas elas são ignorantes sobre quê? Deixe-me apresentar algumas das coisas que Isaías nos diz aqui: "Assim, o meu povo foi para o cativeiro, porque não tem conhecimento." Em outras palavras: eles não sabem que são o povo de Deus. Este é o eterno problema do povo de Israel. Eles nunca compreenderam quem são; queriam ser como as outras nações. Eles diziam: Essas outras nações são nações de muita sorte: seus deuses são muito melhores que o nosso; eles podem comer o que quiserem; podem casar-se com quem desejarem; podem fazer o que lhes der na cabeça fazer, durante os sete dias da semana! Nosso Deus nos deu os Dez Mandamentos, e eles são insuportáveis. Eles queriam ser como os outros; então, deram as costas a Deus e aceitaram os outros deuses. Nunca entenderam o privilégio de serem o povo de Deus, um povo único, um povo propriedade especial de Deus, um povo que é como "a menina dos olhos" para Deus, como ele os chama (Deuteronômio 32:10).
E o verdadeiro problema do mundo hoje ainda se deve a isso: as pessoas não conhecem a verdade sobre si mesmas; não têm esse conhecimento. Que são os homens e as mulheres? São apenas máquinas de fazer dinheiro? São animais que devam buscar o prazer? Estão aqui para ficar bêbados, entregarem-se ao sexo, e endoidecerem com música ritmada? Será que você percebe? Será que as pessoas foram criadas para se comportarem como se fossem animais numa fazenda? Seria prazer o "derradeiro fim" para homens e mulheres? Será que eles só estão aqui para gratificar esse lado? Afinal, é só isso?...
Não, não! O problema com o mundo hoje é que ele não conhece o que é o ser humano. São ignorantes sobre sua própria origem, sobre sua natureza e seu destino final dentro do propósito de Deus. "Meu povo!" As pessoas se gloriam hoje no fato de que são animais. Vangloriam-se da evolução como se fosse um grande elogio. Parecem gostar de pensar que não são nada além de macacos extremamente desenvolvidos, animais racionais e nada mais. Elas odeiam a idéia da alma; não crêem em Deus nem na eternidade, Tudo porque são ignorantes sobre sua própria grandeza.
Que mais elas ignoram? Veja o v, 12: "... mas eles não observam a obra do Senhor, nem consideram a operação de suas mãos". Que Isaías quer dizer com isto? Ele diz que elas estão vivendo como se não soubessem nada sobre a obra do Senhor. Também é sobre isso que homens e mulheres modernos não pensam nunca a respeito, porque nem levam em conta. Eles não entendem que Deus é o doador de toda coisa boa e todo dom perfeito. Eles parecem pensar que o Serviço Nacional de Saúde é quem dá a saúde! Mas Deus é quem dá a saúde; Deus é o doador da vida, da força, do alimento e da vestimenta.As pessoas pensam que fazem tudo, e têm orgulho de suas invenções, seus instrumentos, suas criações etc. Se Deus, porém, suprimisse o sol e a chuva, todos morreríamos de inanição.
Os homens e as mulheres não notam a obra de Deus. São ignorantes, só olham para si mesmos. Não estão cientes da bondade, misericórdia e compaixão de Deus. Não percebem que Deus "...faz o sol nascer sobre maus e bons e envia a chuva sobre justos e injustos" (Mateus 5:45). Pensam que controlam tudo. Podem até enfrentar a fome, como já vimos; conseguem enfrentar o desastre, por causa de sua ignorância, porque quebraram as regras de Deus e violaram as leis da natureza.
Que mais as pessoas não percebem? Elas não percebem que Deus tem operado, não apenas na providência e na criação, mas na história também. História! Tente explicar a história deste mundo excluindo Deus! Você não conseguirá. A Bíblia é o melhor livro de história que existe no mundo. É nas suas páginas que você realmente começa a entender a História. Você vê que, por trás de todos os homens, reis, príncipes, homens de Estado, e das guerras, há um propósito de Deus: Deus controla tudo! Mas eles não acreditam nisso. Eles continuam desafiando. Deus, porém, está aí. Eles se metem em problemas, e por quê? Porque se esqueceram de Deus, e olvidaram "as obras das suas mãos".
E então, ainda mais: há o fato de que, se você observar o processo da história, chegará à conclusão de que temos, afinal, um universo moral. Você não pode fazer o que quer neste mundo. Você não pode ser leviano. Você não pode beber bebida forte indefinidamente sem ter que pagar o preço por isso. Deus estabeleceu isso como uma lei. "O caminho dos transgressores é duro" (Provérbios 13:15). O transgressor, porém, não crê nisso. As pessoas que começam a brincar com o pecado não crêem nisso. Mas este é um fato: se você pecar, você sofrerá.
E o mundo inteiro está sofrendo. O mundo é ignorante: Eles "não observam a obra do Senhor, nem consideram a operação de suas mãos". Existe uma idéia de que, se há de fato um Deus, então, no momento em que as pessoas pecarem, Ele irá feri-las. Mas isso não é o que aprendemos da história de Deus na Bíblia. Nas palavras do poeta Longfellow, o que nós aprendemos lá é isto: 'Apesar de as pedras do moinho de Deus triturarem devagar, elas, ainda assim, trituram excessivamente pequeno. O pecado sempre alcança as pessoas. "Tenha certeza de que o pecado te encontrará" (Números, 32:23). Pode demorar muito, mas chegará ao fim. Por que você não aprende? Por que não vê? Por que não observa a obra das mãos de Deus e enxerga o que Ele sempre tem feito?
Isso leva à última coisa – os julgamentos de Deus. A tragédia de Israel era que Deus estava sempre tendo que trazer um julgamento; estava começando a puni-los, mas eles não viam. Qual é este julgamento? "O Senhor dos Exércitos será exaltado em juízo, e Deus, o Santo, será santificado em justiça" (v, 16). A causa do problema é que homens e mulheres não sabem que estão num universo moral, cujo rei é Deus, e que Deus é o Juiz de todo o mundo, e o julgará com justiça. Suas características são justiça, santidade, retidão e verdade. Esses são os parâmetros de Deus, e é assim que Ele queria que homens e mulheres vivessem: não para servir às suas paixões e aos seus desejos e luxúrias; não para viverem no prazer, mas para buscarem justiça, santidade, retidão e verdade. Eles foram criados para viverem como seres humanos e não como animais. Foram criados para serem um reflexo de Deus. É por isso que Deus disse: "Façamos o homem à nossa imagem" (Gênesis 1:26). Deus o fez senhor sobre a Criação, não para que ele se comportasse como um animal, mas para que se sobressaísse na glória da diferença, com uma mente e uma razão, e controle, ordem e dignidade em sua vida. E Deus julgará homens e mulheres de acordo com isso.
Deus revelou isso através dos séculos. Está tudo revelado aqui na história encontrada na Bíblia. Está igualmente claro na história subseqüente, e se há uma época em que está claro é hoje. O julgamento de Deus está sobre este mundo. Eu já disse antes, e repito agora: na minha opinião, as duas guerras mundiais foram nada mais do que o julgamento de Deus sobre o mundo.
Ao redor de 1859 – o ano em que Charles Darwin publicou seu famoso livro A Origem das Espécies – as pessoas começaram a dizer que finalmente podíamos nos livrar de Deus. "O homem é tudo", afirmaram. "O homem é o centro; Deus não é necessário. Empurrem-no para dentro do limbo das coisas esquecidas! O homem pode viver sem Deus e construir um mundo perfeito!" Eles disseram que o mundo estava evoluindo; os poetas cantaram e falaram sobre "O Parlamento do Homem, a Federação do Mundo". O Conhecimento cresce a cada era, e o século XX deveria ser o século de ouro. Os homens e as mulheres, em sua auto-suficiência, não precisam mais de Deus. Se há um século que haja conhecido a manifestação da ira e do desprazer de Deus em sua justiça, santidade e retidão sobre o pecado da humanidade, este é o século XX. Você já observou isso? Você está consciente disso? Você sabia que Deus está falando mediante tudo isso, e nos está advertindo a parar por aqui, antes de que seja tarde demais?
E isso me leva ao meu último subtítulo: o fim de tudo isso. Para onde tudo isso leva? Qual é o fim deste tipo de mania de prazer que venho analisando? Qual o veredicto sobre isso tudo?
Para começar, é um tipo de vida que nunca satisfaz. Se você buscar a vida de prazeres, nunca terá o bastante, nunca. Se tentar encontrar seu prazer e satisfação em bebida alcoólica, sempre terá que tomar mais e mais. Comece a tomar drogas, e logo se tornará um viciado; busque prazer em qualquer forma que signifique falta de controle, abandono de si em prol de estimulantes artificiais, e nunca ficará satisfeito; procure satisfação no sexo, na luxúria e na imoralidade e irá de decadência em decadência, até se prostituir por inteiro; até se tornar imundo e repelente, a ponto de adoecer. A vida sem Deus nunca satisfez a ninguém. Ela é incapaz disto, porque homens e mulheres são muito mais que isto; muito maiores que isto. Eles são feitos para Deus, e essas coisas não podem satisfazer a eles. Nada, além de Deus, consegue trazer satisfação: "Tu nos fizeste para ti, e nossa alma está inquieta até que encontre descanso em ti", como já dizia Agostinho. Esta é a primeira coisa.
Além disso, porém, viver para o prazer sempre implica uma degeneração progressiva; sempre leva a uma perda de poder, perda de refinamento e de consideração pelos outros. A vida se torna mais e mais egoísta quando as pessoas vivem para si próprias e para a busca do próprio prazer. Elas descartam pais, mães, filhos, todo mundo; o prazer torna-se supremo, e tudo o mais é abandonado. Oh, que perda de refinamento! Que perda de castidade e de pureza e nobreza! A mania de prazer sempre leva à perda de todos os poderes mais elevados e das melhores e mais nobres qualidades.
Há algo, porém, ainda pior esperando por aqueles que vivem essa vida: a humilhação. "O homem mau será abatido e o poderoso humilhado, e os olhos dos altivos aviltados" (v. 15). A Bíblia está cheia disto. A história subseqüente está cheia disto. Aqueles que vivem uma vida de prazer e dão as costas a Deus serão humilhados. A pompa será ridicularizada e reduzida a nada, "...e a sua glória, sua multidão e sua pompa, e aquele que se regozija, descerão para lá [inferno]" (v. 14). Olhe para o mundo de hoje com sua pompa e glória, com todo o seu gargalhar e regozijo, e toda a sua aparente felicidade, essa felicidade artificial, esse artifício, essa coisa irreal. Mas ele pensa que é maravilhoso; "vinho, mulheres e música" o brilho da vida noturna, a excitação da luxúria. As grandes cidades: Londres, Paris e Nova Iorque – maravilha! Aqui está a vida! Está mesmo? Tudo terminará por ser rebaixado e humilhado; a pompa, o êxtase, a emoção carnal e a suposta felicidade se tornarão em nada.
Deixe-me usar as próprias palavras do nosso abençoado Senhor, que falou sobre isto. Veja as palavras registradas em Lucas, 6:24,25: "Ai daqueles que são ricos!, pois já receberam seu consolo." Você, que vive para as riquezas, já está tendo tudo que pode conseguir, mas você vai morrer um dia e não poderá levar nada com você; você, então, não terá nada. Você já teve "a sua consolação". "Ai daqueles que estão cheios!" Vocês, festeiros sensuais, comilões e beberrões; como o salmista traduz: homens maus, "cujos olhos estão salientados pela gordura" (Salmos 73:7). "Ai daqueles que estão cheios! porque ficarão famintos. Ai daqueles que riem agora! Porque eles irão chorar e lamentar" (Lucas 6:25). Já vimos algo assim, não é mesmo?
Eu me lembro – e nunca vou esquecer – da primeira semana da Segunda Guerra Mundial, e do terror e infelicidade das pessoas inteligentes quando estourou a guerra e a ameaça de bombardeio. Jamais olvidarei aquele domingo de manhã, o primeiro domingo depois da queda da França, no dia 17 de junho de 1940. Eu estava dirigindo o culto matutino como de costume, quando vi dois homens que nunca vira antes na congregação. Eu os conhecia fazia bastante tempo. Sabia que eram zombadores, homens não religiosos. Perplexos, porém, ante a possibilidade de um colapso geral, eles se humilharam e vieram ouvir a Palavra de Deus. "Ai daqueles que riem agora!" Quão tolos são os homens e mulheres em pecado! Eles não raciocinam, não percebem sua ignorância. Seu riso se tornará em choro! E o fim de tudo isto é o inferno.
Isto está colocado em Isaías como uma imagem gráfica: "Por isso, o inferno aumentou seu apetite, e abriu a sua boca desmesuradamente, e para lá descerá a glória de Jerusalém e a sua multidão, e a sua pompa e quem nesse meio folgava" (v. 14).O final daquele tipo de vida! Não se trata apenas da morte física: é a morte espiritual, o Hades: o sofrimento que há ali; a miséria; é a destruição eterna sem fim. O grande e o pequeno, e sua multidão, o alto e o baixo, o exaltado e todos os outros, para baixo vão todos, com toda a sua pompa, para o nada!
O gabar-se da nobreza, a pompa do poder
e toda a beleza, que toda aquela riqueza poderia oferecer
esperam pela hora inevitável.
Os caminhos da glória levam apenas ao túmulo.
Thomas Gray

Então, que esperança existe para tais pessoas? Está tudo aqui. Temos simplesmente que fazer o oposto do que elas fizeram. Em outras palavras: temos que começar "a observar'. "Mas eles não observam as obras do Senhor, nem consideram a operação de suas mãos" (v, 12).
Você percebe a verdade desta mensagem? Como o carcereiro de Filipos, você pode dizer: "O que devo fazer para ser salvo?" (Atos 16:30) Aqui está a resposta. Pare! Comece a "notar a obra do Senhor"; comece a "considerar o operar de Suas mãos". Pare por um momento. Pare essa frívola roda-viva de prazer, essa vida tola na qual você se envolveu. Pare esta existência que se mantém artificialmente. Pare por um momento e pergunte-se, analise a sua vida, indague-se para onde ela o está levando. Que aconteceu com aqueles que fizeram isso no passado? Onde isso tudo termina? Observe!
Comece a ler os sinais dos tempos. Veja o que está acontecendo ao seu mundo; veja quais são as possibilidades. E ao "notar", comece a "considerar" e a tirar suas conclusões.
Isaías se expressa de um modo maravilhoso no final do texto. Quando todos esses outros forem lançados no inferno, "então os cordeiros comerão lá como se no seu pasto, e os estranhos se nutrirão dos campos dos ricos lá abandonados" (v. 17). Que mensagem! Qual é a saída? É tornar-se como uma ovelha. Não ser arrogante, não ser como o homem do século XX, orgulhoso de sua ciência e conhecimento, levantando-se eretamente sobre os próprios pés, desafiando Deus e os homens; mas, pelo contrário, tornar-se como uma "ovelha". Não mais a aparência arrogante de um intelectual, mas a humildade e a mansidão de uma ovelhinha.
Em outras palavras: o caminho da salvação é o caminho das bem-aventuranças pronunciadas por nosso Senhor e Salvador: "Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o Reino dos Céus (...) Bem-aventurados os humildes (...) Bem-aventurados os misericordiosos (...) Bem-aventurados os que têm sede e fome", não de comida e bebida forte ou de poderio mundial, mas de justiça "..,porque serão saciados" (Mateus 5:3-7). Eles terão uma satisfação permanente e real. "...os cordeiros comerão lá como em seu próprio pasto".
Quando os outros se forem, as ovelhas estarão se alimentando em suas cocheiras até à satisfação completa. Elas terão a satisfação de conhecer Deus como seu Pai, sabendo que não têm nada a temer, na morte, no túmulo e no julgamento que se segue, conscientes de que entrarão na gloriosa herança preparada para elas pelo Senhor Jesus Cristo. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

CORREÇÃO



Dr. David Martyn Lloyd-Jones

(Médico por profissão, pastor por vocação. Pastoreou a Capela de Westminster por mais de três décadas e tornou-se um dos mais conhecidos expositores bíblicos de todos os tempos. O sermão abaixo faz parte do livro Depressão Espiritual, Editora PES. Segundo um ex-membro da Capela de Westminster, o Dr Lloyd-Jones sentiu-se dirigido por Deus a tratar do assunto "depressão" e numa manhã, após seu período devocional, enquanto fazia a barba, subitamente vei-lhe à mente todos os esboços, de modo que todos os sermões presentes no livro foram esboçados num único dia!)



"E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, e não des­maies quando por ele fores repreendido; porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer um que recebe por filho. Se su­portais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos. Além do que tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e nós os reverenciamos: não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, para vivermos? Porque aqueles, na ver­dade, por um pouco de tempo nos corrigiam como bem lhes pare­cia; mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade. E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela".
Hebreus 12:5-11


Uma das causas mais prolíficas deste estado de depressão espiritual é a falha em, compreender que Deus usa muitos métodos no processo da nossa santificação. Ele é nosso Pai, que "nos amou com um amor eterno". Seu grande propósito para nós é nossa santificação — "Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santi­ficação" (I Tessalonicenses 4:3), e "para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em caridade" (Efésios 1:4). A grande preocupação de Deus por nós é, primariamente, não a nossa felici­dade, mas nossa santidade. Em Seu grande amor por nós, Ele está decidido a nos levar a isso, e emprega muitos métodos diferentes para atingir esse fim.
O fato de não compreendermos isso muitas vezes nos leva a tropeçar e, em nosso pecado e insensatez, até mesmo a compreender de maneira completamente errada o modo como Deus nos trata. Como crianças insensatas, achamos que nosso Pai celestial não está sendo amoroso para conosco, e sentimos pena de nós mesmos, achando que Ele está nos tratando com rudeza. Isso, é claro, leva à depressão, e é tudo devido à nossa falha em compreender os gloriosos propósitos de Deus para conosco.
Esta é a questão tratada de maneira tão extraordinária e perfeita no capítulo doze de Hebreus, onde o tema é que Deus às vezes opera santificação na vida de Seus filhos através da corre­ção, e especialmente capacitando-os a compreender o significado da correção. Esse é o tema para o qual quero chamar a sua atenção. Talvez não haja outra área em que vejamos mais claramente o fato de que santificação é uma obra de Deus, do que em conexão com este assunto da correção. "Vejam as coisas que vocês estão sofrendo", diz o autor. "Por que estão sofrendo tudo isso?" A resposta é que eles estão sofrendo estas coisas porque são filhos de Deus. Ele declara que Deus está fazendo isso para o seu bem — "Porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho". E então observemos que, não satisfeito em colo­cá-lo assim, ele o expressa negativamente também, dizendo: "Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos" — vocês não são verdadeiramente membros' da família, não são filhos. Essa é uma declaração muito significativa. Quero expressá-la na forma de um princípio. O que este homem realmente está dizendo é que a salvação toda é obra de Deus, do começo ao fim, e que Deus tem Seus métodos e meios de produzi-la. Uma vez que Deus começa uma obra, Ele a completa: "Aquele que em vós começou a boa obra, a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo". Deus jamais começa uma obra para desistir dela ou deixá-la numa situação incompleta — quando Deus começa Sua obra em Seus filhos, Ele vai completar essa obra. Deus tem um propósito e objetivo final para eles: que passem a eternidade com Ele na glória. Muito do que acontece conosco neste mundo deve ser entendido e explicado à luz desse fato; e é um fato bem definido, de acordo com o argumento do autor, que Deus vai nos trazer a essa condição, e nada vai impedir que isso aconteça.
Ora, Deus tem vários meios de fazer isso. Um deles, é dar-nos instrução através das grandes doutrinas e dos princípios ensinados na Bíblia. Ele nos deu Sua Palavra. Ele inspirou homens a escrever essas palavras pelo Espírito Santo para nossa instrução, a fim de sermos preparados e aperfeiçoados. Mas se nos tornarmos recalci­trantes, se não aprendermos as lições que nos são apresentadas positivamente na Palavra, então Deus, como nosso Pai, tendo em vista o grande objetivo de nos aperfeiçoar e preparar para a glória, adotará outros métodos. E um desses outros métodos que Ele usa, é este método da correção. Pais terrenos que são dignos desse nome — e estamos vivendo em dias de tanta-indulgência e frou­xidão, que mal podemos usar este argumento da forma que o autor de Hebreus o usou — mas pais dignos desse nome fazem isso. Eles corrigem seus filhos para o seu próprio bem; se a criança não está se comportando de maneira apropriada como resultado de instrução positiva, então a correção deve ser aplicada, a disciplina deve ser exercida. É doloroso, mas necessário, e um bom pai não negligencia isso. E este homem diz que Deus é assim, e infinita­mente mais. Se, portanto, não somos obedientes às lições e instru­ções positivas da Palavra de Deus, não devemos nos surpreender se outras coisas começarem a nos acontecer. Não devemos nos sur­preender se tivermos que enfrentar certas coisas que são dolorosas. Tais coisas nos são enviadas deliberadamente por Deus, diz este homem, como parte do processo da santificação. Observem como ele enfatiza isso. Diz que devemos nos examinar a nós mesmos para descobrir se estamos experimentando isso em nossa vida, porque, ele diz de forma muito clara, se não temos experiência desse tipo de tratamento, então é de duvidar que realmente seja­mos filhos. Se nada conhecemos desse processo, não somos filhos, somos ilegítimos, não pertencemos a Deus, pois "o Senhor corrige o que ama". De certa forma, então, podemos dizer que a pessoa que devia se sentir mais infeliz consigo mesma é aquele cristão (ou que professa ser cristão) que não tem consciência desse tipo de experiência em sua vida. Devíamos ficar alarmados com isso. Longe de ficarmos aborrecidos com o processo, devíamos agradecer a Deus por ele, pois Ele está nos dando provas de que somos Seus filhos, e está nos tratando como tal. Está nos corrigindo e disciplinando para nos conformar ao padrão e nos tornar dignos daquele que é nosso Pai.
Isso é algo que está constantemente acontecendo na vida e na experiência dos filhos de Deus. Também é algo ensinado através de todas as Escrituras. Existem exemplos e ilustrações sem fim que poderiam ser citadas. É a grande mensagem do Salmo 73. É a grande mensagem do livro de Jó. E o apóstolo Paulo trata do assunto no quinto capítulo da Epístola aos Romanos, onde fala sobre regozijo em meio às tribulações, etc. Também faz parte do argumento do capítulo oito de Romanos. É encontrado novamente na Primeira Epístola aos Coríntios, no capítulo onze, na secção que trata da Ceia do Senhor. O apóstolo ensina que havia membros da igreja que estavam doentes e enfermos porque não estavam vivendo a vida cristã: "Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes". Na verdade, muitos até mesmo tinham morrido por causa disso: "E (há) muitos que dormem". Então, leiam o pri­meiro capítulo da Segunda Epístola aos Coríntios e encontrarão o apóstolo descrevendo a experiência que tinha acontecido com ele. Ele afirma que aconteceu para que aprendesse a não confiar em si mesmo, e sim no Deus vivo. Outra grande declaração clássica deste ensino pode ser encontrada no capítulo doze da Segunda Epístola aos Coríntios, onde Paulo fala sobre o "espinho na carne" que lhe fora dado; o propósito disso tudo, ele diz, era mantê-lo numa condição espiritual correta, para que não se exaltasse. Foi-lhe dado um espinho na carne, e embora tivesse orado, pedindo a Deus três vezes que o removesse, Deus não fez isso, e ele final­mente aprendeu sua lição. Portanto, aquilo promoveu sua santifi­cação. No primeiro capítulo da Epístola de Tiago, lemos: "Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações". É algo em que devemos nos regozijar. E então encontramos tudo isso resumido na palavra do próprio Senhor ressuscitado, no ter­ceiro capítulo de Apocalipse, no versículo 19: "Eu repreendo e castigo a todos quantos amo".
Encontramos, então, esta grande doutrina através de toda a Bíblia. Na verdade, todo o tratamento de Deus com os filhos de Israel sob a velha dispensação é um grande comentário disso. Ele tratou com eles daquela maneira porque eram Seus filhos. "De todas as famílias da terra a vós somente conheci; portanto, todas as vossas injustiças visitarei sobre vós" (Amos 3:2). Ele os tratou daquela maneira porque eram Seus filhos.
A pergunta óbvia que vem à nossa mente, então, é: o que é correção? O que significa'? Significa treinar. O sentido básico da palavra é esse. É o treinamento ministrado à criança, ou o método de treinar uma criança. Temos a tendência de confundir correção com a palavra castigo. É certo que inclui disciplina, mas também inclui instrução; inclui repreensão, e na verdade pode incluir um considerável grau de castigo; mas o objetivo essencial da correção é treinar e desenvolver a criança para que se torne uma pessoa adulta. Bem, se esse é o sentido de correção, vamos considerar por um momento os meios pelos quais Deus nos corrige.
Como Deus corrige Seus filhos? Ele o faz especialmente atra­vés das circunstâncias — todo tipo de circunstâncias. Nada é mais importante na vida cristã do que compreender que tudo o que nos acontece tem um sentido, se tão somente o buscarmos. Nada nos acontece por acaso — um pardal "não cairá por terra sem a von­tade do nosso Pai", diz o Senhor, e se isso é verdade a respeito do pardal, quanto mais o será a nosso respeito! Nada pode nos acontecer sem o consentimento do nosso Pai. As circunstâncias estão constantemente nos afetando, e seu propósito é operar a nossa santificação — tanto as circunstâncias agradáveis como as desagradáveis. Devemos portanto ser observadores, sempre bus­cando lições e fazendo perguntas.
Quero agora ser mais específico. A Bíblia ensina muito clara­mente que uma circunstância particular que Deus muitas vezes usa no que toca a essa área, é uma perda financeira, ou mudança na posição material da pessoa, perda de bens, perda de possessões ou de dinheiro. Tais coisas são muitas vezes usadas por Deus. Vemos descrições disso no Velho Testamento, e aconteceu muitas vezes na história subsequente do povo de Deus na Igreja, que através de uma perda no sentido material e temporal, Deus ensinou uma lição a alguém que a pessoa não poderia ter aprendido de outra forma.
Então vamos pensar na questão da saúde. Já mencionei a Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo onze. O apóstolo ensina especificamente que havia algumas pessoas que estavam doentes e fracas porque Deus permitira isso para ensiná-las e treiná-las. "Examine-se pois o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto, há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos  que  dormem".  Este  é um método  que Deus empregou muitas vezes, de modo que aqueles que dizem nunca ser a von­tade de Deus que sejamos doentes ou fracos, estão simplesmente negando as Escrituras. Contudo, que ninguém caia na armadilha de dizer:  "Você está afirmando que toda doença é um castigo enviado por Deus?" Claro que não; estou simplesmente dizendo que Deus às vezes usa esse método para corrigir Seus filhos. É "por causa disto" que muitos estão "doentes e fracos";  é uma obra de Deus. Deus permitiu que aquilo lhes acontecesse, ou talvez Deus mandou aquilo às suas vidas, para seu próprio bem. A von­tade de Deus é mais importante que a saúde do corpo da pessoa, e se ela não se submete e se sujeita à instrução positiva da Palavra de Deus, então Ele certamente vai tratar com essa pessoa, e talvez envie uma doença para fazê-la parar e pensar. Gostaria de men­cionar que o grande Dr. Thomas Chalmers sempre dizia que o que realmente o levou a entender o evangelho, sob a direção de Deus, foi uma doença que o confinou a um quarto por quase um ano. Ele tinha sido um pregador brilhante, muito "científico" e "intelectual", mas saiu daquele quarto de doença como um pre­gador do evangelho, e agradeceu a Deus por aquela visitação. Encontramos um paralelo disso na Segunda Epístola de Paulo aos Coríntios, no capítulo primeiro, versículo nove, onde ele nos diz que "já tinha a sentença de morte em si". Então temos também a clássica declaração sobre o espinho na carne no capítulo doze. Deus não removeu aquele espinho porque queria ensinar o após­tolo a dizer: "Quando sou fraco, então sou forte", e se regozijar na enfermidade, em vez de na saúde, para que a glória de Deus fosse promovida. Não há dúvida que Deus permitiu aquilo, talvez até mesmo o tenha causado, a fim de corrigir e treinar Seu servo daquela forma particular.
Da mesma forma, Deus permitiu perseguição. Estes cristãos hebreus estavam sendo perseguidos. Por isso estavam tão infelizes. Seus bens haviam sido roubados, suas casas destruídas, porque eles eram cristãos, e estavam perguntando: "Por que estamos rece­bendo esse tipo de tratamento? Pensamos que, se crêssemos no evangelho, tudo acabaria bem, mas estamos cheios de problemas, enquanto que aqueles que não são cristãos parecem estar se dando muito bem e tendo sucesso em tudo. Por que isso?" E a resposta à pergunta deles esta nesse capítulo doze da carta aos Hebreus.
A doutrina, todavia, vai além, vai ao ponto de afirmar que Deus às vezes emprega a morte dessa forma: "Há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem". É um mistério que nin­guém pode entender, mas é um ensino claro das Escrituras, e por isso digo que precisamos compreender que todas estas coisas têm um significado. Através das circunstâncias, das coisas que aconte­cem em nossa vida e neste mundo, em nossa carreira, em nossos estudos e exames, pela doença ou saúde, por todas essas coisas, Deus está realizando Seu propósito para nós. Se somos filhos de Deus, todas essas coisas têm um significado, e precisamos aprender a examiná-las, para descobrir sua mensagem. E mediante isso será promovida a nossa santificação.
Outra maneira de Deus nos corrigir, e preciso colocá-la numa categoria à parte, é esta: Deus às vezes, sem dúvida, parece afastar Sua presença e esconder Sua face de nós para alcançar esse propó­sito. É evidente que este é o grande tema do livro de Jó. É encon­trado novamente no livro de Oséias, nos capítulos cinco e seis..
Deus até mesmo diz ao povo ali: "Irei, e voltarei para o meu lugar, até que se reconheçam culpados e busquem a minha face". Deus Se afastou, e afastou Sua presença e Suas bênçãos para levá-los ao arrependimento; isso é uma parte da santificação.
Por outro lado, também sabemos que há variações de senti­mentos e emoções na vida cristã. Essa é uma questão que muitas vezes deixa o povo de Deus confuso e perplexo. Todos já tivemos alguma experiência nesse sentido. Descobrimos que, por alguma razão, a experiência que vínhamos tendo de repente chegou ao fim, e dizemos com Jó: "Ah! se eu soubesse que o poderia achar!" Não temos consciência de nada que tenhamos feito de errado, mas Deus parece ter Se retirado, e temos a sensação de que nos aban­donou. Essas "deserções" do Espírito, que parecem acontecer de tempos em tempos, são também parte do método de Deus de disci­plinar e corrigir Seus filhos; são parte de Seu grande processo de nos treinar e preparar para o grande propósito e objetivo que Ele tem para nós.
Isso então me leva à minha próxima pergunta. Por que Deus corrige? Já vimos o que é correção, e vimos como Deus corrige, e agora fazemos a grande pergunta — por que Deus faz isso? Encontramos abundantes respostas a essa pergunta nesta passagem da Sua Palavra. Do versículo cinco ao versículo quinze, neste capí­tulo doze da Epístola aos Hebreus, o assunto é nada mais que uma ampla resposta a isso. É porque Deus nos ama: "Porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho". Essa é a resposta fundamental. É tudo por causa do amor de Deus. É porque Deus nos ama que Ele às vezes parece ser "cruelmente amoroso". Tudo é feito para o nosso bem; essa é a verdade da qual devemos nos apropriar — é sempre para o nosso bem. Agora vamos observar a declaração do versículo sete. A tradução Revista e Corrigida da Bíblia diz: "Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos". Mas a tradução Revista e Atualizada sem dúvida traduz este texto de forma muito melhor. Em vez de "se suportais a correção", o sentido do texto na verdade é este: "É para disci­plina que perseverais (Deus vos trata como a filhos)". Por que vocês estão perseverando? Essa é a pergunta que esses cristãos hebreus estavam fazendo. "Se somos cristãos, por que estamos suportanto?" E a resposta é que estão suportando porque são cristãos, estão aguentando para sua correção, para sua disciplina. Em outras palavras, o propósito de perseverarem, ou suportarem, é o seu crescimento, seu treinamento, seu desenvolvimento;  as coisas que estão suportando são parte da sua correção. O que é correção? É treinamento. Então temos que nos apropriar firme­mente deste fato, que todo sofrimento e provação e infelicidade tem esse grande propósito em vista, ou seja, nossa preparação e treinamento. E o autor repete isso — observem como ele repete esses conceitos — no versículo dez. "Porque aqueles (nossos pais terrenos), na verdade, por um pouco de tempo, nos corrigiam como bem lhes parecia; mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade." Ora, ai está o conceito, expresso da maneira mais clara; definitivamente o ensino é que Deus nos corrige para que possamos ser participantes da Sua santidade, a fim de que sejamos santificados. Tudo é feito, ele diz, "para o nosso proveito", e o proveito é a santificação. Deus nos santifica pela verdade fazendo estas coisas e então, através da Sua Palavra, esclarecendo o que Ele está fazendo.
Se esse é o objetivo geral que Deus tem em vista ao nos corrigir desta maneira, vamos agora examinar algumas das razões particulares que Ele tem para fazer isso. Uma é que há certas imperfeições em nós, em todos nós, que precisam ser corrigidas. Há certos perigos que confrontam a todos nós na vida cristã, contra os quais precisamos ser protegidos. O fato de alguém ser cristão não significa que essa pessoa é perfeita. Não alcançamos imediatamente um estado de perfeição no momento que cremos no Senhor Jesus Cristo. Na verdade, não alcançamos esse estado de perfeição nesta vida; sempre haverá imperfeição enquanto o "velho homem" existir. Em consequência disso, sempre há certas coisas em nossa vida que precisam ser tratadas; e as Escrituras nos mos­tram muito claramente como Deus usa a correção para tratar de alguns desses problemas. Quais são eles? Um deles é orgulho espi­ritual, exaltação espiritual num sentido errado e perigoso. Quero expressá-lo com as clássicas palavras que mostram isso com tanta perfeição, e não necessitam de qualquer exposição. O apóstolo Paulo, no capítulo doze da Segunda Epístola aos Coríntios diz: "Conheço um homem em Cristo. . . e sei que o tal homem (se no corpo, se fora do corpo não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao paraíso; e ouviu palavras inefáveis, de que ao homem não é lícito falar. De um assim me gloriarei eu, mas de mim mesmo não me gloriarei, senão nas minhas fraquezas. Porque, se quiser gloriar-me, não serei néscio, porque direi a verdade; mas deixo isto, para que ninguém cuide de mim mais do que em mim vê ou de mim ouve"; e observem: "E para que me não exaltasse pelas excelências das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensa­geiro de Satanás para me esbofetear, a fim de me não exaltar". Ai está, com perfeição. O apóstolo recebera uma experiência muito rara, extraordinária e notável, tinha sido arrebatado ao terceiro céu, e havia visto e ouvido e sentido coisas maravilhosas, e corria o risco de cair em orgulho espiritual, exaltando-se a si mesmo. E ele nos diz que lhe foi enviado um espinho na carne — enviado a ele deliberadamente — para resguardá-lo. Orgulho espiritual é um perigo terrível, e é um perigo que persiste. Se Deus, em Sua mise­ricórdia e amor, nos conceder uma experiência incomum, isso nos coloca numa posição em que o diabo pode nos explorar e preju­dicar; e com frequência homens que tiveram tais experiências também tiveram que sofrer correção para mantê-los numa posição segura e correta.
Outro perigo é o perigo da auto-confiança. Deus deu dons aos homens, e o perigo é que passemos a confiar em nós mesmos e em nossos dons, passando a sentir, de certa forma, que não precisamos mais de Deus. Orgulho e auto-confiança são um perigo constante. Não são pecados da carne em si, são perigos espirituais, e são, portanto, ainda mais perigosos e sutis.
E então sempre há o perigo de sermos atraídos pelo mundo, suas perspectiva e seus caminhos. Um ponto enfatizado muitas vezes nas Escrituras é que estas coisas são muito sutis. A pessoa não decide, deliberadamente, que vai voltar ao mundo. É algo que acontece quase imperceptivelmente. O mundo e suas atrações estão sempre presentes, e a pessoa cai nelas quase sem saber. Ela então precisa ser corrigida, para que não passe a amar as coisas do mundo. Ainda um outro perigo é o de nos acomodar — o perigo de nos satisfazer com a posição que alcançamos na vida cristã — presunção, auto-satisfação. Não somos modernistas, não cremos em todas essas coisas em que muitos crêem hoje em dia, somos orto­doxos, cessamos de fazer certas coisas que sabemos ser obviamente erradas. Cremos ser perfeitos em nossa fé, e que nossas vidas estão acima de reprovação, e assim nos tornamos presunçosos e satis­feitos conosco mesmos. Acomodamo-nos, e assim paramos de cres­cer. Se nos compararmos com o que éramos dez anos atrás, real­mente não há diferença. Não conhecemos a Deus mais intimamente, não avançamos um passo sequer, não crescemos "na graça e no conhecimento do Senhor". Descansamos num estado de auto-satis­fação. Talvez eu possa resumi-lo dizendo que é o terrível perigo de esquecer Deus, e não buscá-10, não buscar comunhão com Ele.
É o perigo sério de pensar em nós mesmos em termos de expe­riência, em vez de pensar, constantemente, em termos do nosso conhecimento direto e imediato dEle, e de nosso relacionamento com Ele. À medida que prosseguimos na vida cristã, devíamos ser capazes de dizer que conhecemos a Deus melhor do que conhecía­mos, e que O amamos mais do que O amávamos há anos atrás. Quanto mais conhecemos uma pessoa boa, mais amamos essa pessoa. Multipliquem isso pelo infinito, e aí está nosso relaciona­mento com Deus. Conhecemos melhor a Deus, estamos buscando-O mais e mais? Deus sabe, o perigo é o de nos esquecermos dEle porque estamos mais interessados em nós mesmos e nossas expe­riências. E assim Deus, em Seu amor infinito, corrige-nos para nos fazer compreender estas coisas, a fim de nos levar de volta para Si mesmo e nos resguardar destes terríveis perigos que estão cons­tantemente nos ameaçando e nos cercando. Quero relacionar isso com sua experiência. Acaso, podem dizer que agradecem a Deus por coisas que acontecem contra vocês? Esse é um excelente teste da nossa profissão de fé! Vocês conseguem olhar para trás, para certas coisas — que foram desagradáveis, e que os tornaram infe­lizes na época em que aconteceram — e dizer como o salmista no Salmo 119:71: "Foi-me bom ter sido afligido, para que apren­desse os teus estatutos"?
Digo, então, que Deus nos corrige por estas razões particulares. Mas quero agora pô-lo de forma positiva. Ser santificado significa que exibimos certas qualidades positivas. Significa ser o tipo de pessoa que exemplifica as bem-aventuranças e o sermão do monte em sua vida, ser o tipo de pessoa que demonstra o fruto do Espírito — amor, alegria, paz, etc. É isso que significa santificação. Deus, ao nos santificar, está nos trazendo mais e mais a uma con­formidade com essa condição. E é bem evidente que, para nos levar a esse ponto, não é suficiente que recebamos a instrução positiva da Palavra; o elemento de correção também é necessário. A Palavra nos exorta a "olharmos para Jesus". Observem que faz isso logo antes de abordar o assunto da correção. A exortação do autor é: "Corramos com paciência a carreira que nos está pro­posta: olhando para Jesus..." Se fizéssemos isso sempre, nada mais seria necessário; se mantivéssemos sempre os olhos nEle, tentando nos conformar a Ele, tudo estaria bem. Mas não fazemos isso, e portanto a disciplina se torna necessária. E é necessária a fim de produzir certas qualidades em nós. A primeira delas é a humildade. Ela é, em muitos sentidos, a virtude suprema. Humildade, a mais inestimável de todas as jóias, uma das mais gloriosas de todas as manifestações do fruto do Espírito - humildade. Era a suprema característica do próprio Senhor. Ele era manso e hu­milde de coração. "A cana trilhada não quebrará, nem apagará o pavio que fumega". É o último ponto que alcançamos, e Deus sabe que todos precisamos ser humilhados para nos tornarmos humildes. O fracasso pode ser muito' proveitoso para nós nesse sentido. É muito difícil sermos humildes se somos sempre bem sucedidos; então Deus nos corrige através do fracasso, às vezes, para nos humilhar e assim nos manter humildes. Examinem suas vidas e vejam esse tipo de coisa acontecendo.
Vejam em seguida a devoção. O cristão deve ser devoto, deve ter seus olhos fixos nas coisas de cima. Seus interesses devem estar concentrados lá, e não aqui. Mas como é difícil ter essa atitude, e buscar "as coisas lá do alto", e "pensar nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra". Quantas vezes tem sido necessário que Deus nos corrija, para voltar nossos olhos para o alto. Tendemos a nos apegar tanto ao mundo que Deus tem que fazer algo para nos mostrar claramente que as coisas que nos prendem a este mundo são frágeis e podem se desfazer num se­gundo. E assim despertamos subitamente para o fato de que somos apenas peregrinos neste mundo, e fomos feitos para pensar no céu e na eternidade.
Mansidão] Quão difícil é ser manso em nossa atitude para com os outros e em nosso relacionamento com eles — amar os outros, ter empatia para com eles. Há um certo sentido, eu creio, em que é quase impossível sentirmos empatia, se não conhecemos algo da mesma experiência. Sei muito bem, em meu trabalho como pastor, que nunca teria sido capaz de verdadeira compreensão e simpatia para com certas pessoas, se não tivesse passado pelo mesmo tipo de experiência. Deus às vezes precisa tratar conosco com o propósito de nos lembrar a nossa necessidade de paciência. Ele diz, na verdade: "Você sabe que Eu sou paciente com você; seja paciente com essa outra pessoa!"
Estas, então, são algumas das coisas que nos mostram clara­mente a necessidade de correção. Deus, porque nos ama, porque somos Seus filhos, nos corrige para que eventualmente seja pro­duzido em nós o maravilhoso e incomparável "fruto pacífico de justiça".
Até aqui examinamos o assunto em princípio. No capítulo seguinte espero demonstrar como esta passagem aplica todo esse ensino, e como devemos aplicá-lo a nós mesmos. O grande prin­cípio é que Deus nos corrige porque somos Seus filhos. Se, por­tanto, vocês não estão conscientes desse tipo de tratamento em suas vidas, eu os exorto a examinarem-se a si mesmos, certifican­do-se de que realmente são cristãos, porque: "O Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho". Bendito seja Deus, que Se incumbiu da nossa salvação e do nosso aperfei­çoamento, e que, havendo começado a obra, irá completá-la, e que nos ama tanto que, se não aprendermos as lições voluntaria­mente, nos corrigirá para nos trazer à conformidade com a imagem do Seu amado Filho.