quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

OLHANDO AS ONDAS DO MAR


"E logo ordenou Jesus que os seus discípulos entrassem no barco e fossem adiante para a outra banda, enquanto despedia a multi­dão. E, despedida a multidão, subiu ao monte para orar à parte. E, chegada já a tarde, estava ali só. E o barco estava já no meio do mar, açoitado pelas ondas; porque o vento era contrário; mas, à quarta vigília da noite, dirigiu-se Jesus para eles, caminhando por cima do mar. E os discípulos, vendo-o caminhar sobre o mar, assustaram-se, dizendo: É um fantasma. E gritaram, com medo. Jesus, porém, lhes falou logo, dizendo: Tende bom ânimo, sou eu, não temais. E respondeu-lhe Pedro, e disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas. E ele disse: Vem. E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas para ir ter com Jesus. Mas, sentindo o vento forte, teve medo; e, começando a ir para o fundo, clamou, dizendo: Senhor, salve-me. E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste? E, quando subiram para o barco, acalmou o vento. Então aproximaram-se os que estavam no barco, e adoraram-no, dizendo: És verdadeiramente o Filho de Deus".

Mateus  14:22-33



Esta ocorrência que agora vamos considerar tem muitas carac­terísticas em comum com aquela do capítulo anterior, registrada no oitavo capítulo do Evangelho segundo Lucas, sendo o ponto principal que este incidente, exatamente como o outro, concentra a atenção na natureza e no caráter da fé e na importância de termos uma compreensão correta dela. Mas esta passagem o faz de forma um pouco diferente. No texto anterior, vimos que o problema principal era uma falha em compreender que a fé é uma atividade, é algo que precisa ser colocado em prática. "Onde está a vossa fé?" Os discípulos a tinham, mas não a estavam aplicando ao seu problema específico. Aqui, embora ainda estejamos consi­derando, de modo geral, a questão do verdadeiro caráter da fé, ela é-nos apresentada de um aspecto um tanto diferente.
Todavia, não podemos avançar para nossa consideração prin­cipal, por mais importante que seja, sem observar um assunto preliminar que é absolutamente vital e essencial. Voltando ao inci­dente da tempestade no mar, a primeira coisa que observamos é a pessoa, a personalidade, se preferir assim, do nosso bendito Senhor. Aqui, mais uma vez, Ele Se destaca em toda a plenitude da Sua deidade. Nós O vemos em pessoa caminhando sobre as ondas turbulentas, e O vemos capacitando também o Seu servo, o apóstolo, a fazer o mesmo. Novamente O vemos dando ordens e controlando os elementos. Começamos desta maneira porque não podemos considerar a questão da fé, nem alcançar uma verdadeira compreensão dela, se não tivermos uma visão clara a respeito dEle. Não estamos falando de uma fé qualquer, estamos falando acerca da fé cristã, e uma preliminar essencial a qualquer consideração deste assunto, é que tenhamos uma visão clara acerca da pessoa do nosso bendito Senhor. Não há mensagem cristã à parte daquela que proclama que Jesus de Nazaré é o unigênito Filho de Deus, o Senhor da glória, o Senhor Jesus Cristo; e aqui nós O vemos sobressaindo-Se no esplendor da Sua glória, manifestando e pro­vando ser o Mestre do universo, o Senhor dos elementos. Come çamos com isso porque o propósito único dos Evangelhos é apre­sentá-lO. É também absolutamente vital em qualquer consideração do nosso assunto, demonstrar que a razão de todos os nossos problemas é o nosso fracasso em compreender o que Ele é.
Contudo, é igualmente claro que o propósito especial de re­gistrar este incidente é chamar a atenção para o que aconteceu com Pedro. Vemos o Senhor em toda parte nos Evangelhos, em Sua glória e em Sua deidade, porém cada incidente por sua vez salienta algo peculiar, alguma coisa especial; e claramente o aspecto especial aqui é o incidente na medida em que afeta particularmente o apóstolo Pedro.
Pedro começa muito bem — magnificamente até. Então entra em dificuldades, e acaba pessimamente. Essa é a cena. Pedro, que a princípio parecia cheio de fé, termina como um infeliz malogro, clamando em desespero. Quão rapidamente tudo aconteceu! Dizem que uma das características singulares deste mar, é o aparecimento repentino de tempestades. Pode estar calmo num momento, e no próximo aparece um temporal violento. Isso aconteceu com o mar nessa ocasião, e também aconteceu com Pedro — uma mudança súbita de toda a situação.
Do modo como vejo este incidente, a coisa essencial é observar cuidadosamente o que aconteceu, e o que deve ser enfatizado é que a grande diferença entre o milagre de acalmar a tempestade e este incidente aqui, é que lá, a tempestade veio como mais um fator para perturbar os discípulos — o Senhor adormeceu, e então veio a tempestade — porém aqui neste incidente, no que diz res­peito a Pedro, não é esse o caso em absoluto. Nenhuma novidade, não há nada de novo. A tempestade já havia começado, já rugia antes que o Senhor Se aproximasse dos discípulos ou do barco. O barco, como sabemos, estava no meio do mar, agitado pe­las ondas, e o Senhor estava orando sozinho na encosta do monte. Esse é o ponto que devemos destacar — que aqui os discí­pulos estavam no barco sem o Senhor, e a tempestade estava rugindo, e então repentinamente Ele aparece e temos este incidente.
O que precisamos lembrar é que Pedro não tinha nenhum elemento novo com o qual tivesse que lutar depois de sair do barco. Ele não saiu do barco e pisou em águas serenas e depois é que veio a tempestade; a tempestade já estava lá antes do Senhor aparecer perto do barco. Considero este um ponto muito importante. Não havia nenhum elemento novo como da outra ocasião, contudo Pedro encontrou dificuldades e ficou infeliz, assustado e desespe­rado. A pergunta é: por quê? E a resposta é que o problema estava inteiramente em Pedro. Nosso Senhor nos dá um diagnóstico muito preciso: era "pouca fé". "Homem de pouca fé, por que duvidaste?" É a "pouca fé" abrindo as portas à dúvida. Temos aqui, então, uma série de lições importantes que podemos aprender, e se as aprendermos e captarmos, elas nos pouparão de muitos ataques de depressão espiritual.
Antes de tudo, devo chamar a atenção para o que sou obri­gado a descrever como a mentalidade de Pedro, ou, se preferirem, o temperamento de Pedro. Muitas vezes já tivemos de enfatizar o fato de que, quando somos convertidos e salvos e nos tornamos cristãos, nosso temperamento não muda; ele permanece exatamente o mesmo que era antes. Não nos tornamos outras pessoas; continuamos a ser nós mesmos. Todos podemos dizer: "Vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim", e embora acrescentemos: "e a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus", contudo esse "eu" é sempre o mesmo. Sempre seremos nós mesmos, e ainda que nos tornemos cristãos, continuamos a ser quem éramos. Cada um tem seu temperamento distinto, suas características próprias; e como resultado, todos temos nossos problemas específicos e par­ticulares. Há certos problemas que são fundamentais e comuns a todos nós, e mesmo nossos problemas particulares estão sujeitos à categoria geral de pecado e dos resultados da queda, mas nos chegam de formas diferentes e variadas. Todos estamos familiari­zados com esse fato. Todos os membros da Igreja não são iguais, ou os membros de qualquer grupo, por menor que seja; todos temos certas coisas a respeito das quais precisamos ser particular e excepcionalmente cuidadosos. Outras pessoas nem se deixam perturbar por essas coisas. Ah, sim, mas elas têm outras áreas com as quais precisam tomar cuidado. A pessoa explosiva precisa vigiar seu temperamento com cuidado, e a pessoa fleumática e letárgica precisa ser cuidadosa porque sua mentalidade é tão frouxa que tende a não se manifestar quando devia fazê-lo. Em outras pala­vras, todos temos nossas áreas específicas de dificuldades, e em geral elas surgem do temperamento específico que Deus nos deu. Na verdade, posso ir ainda mais longe, neste contexto, e dizer que provavelmente a coisa que mais precisamos vigiar é o nosso ponto forte. Todos temos a tendência de falhar, em última análise, no nosso ponto mais forte!
Ora, eu creio que isso era uma realidade no caso de Pedro. A grande característica de Pedro era a sua energia, sua capacidade de decisões rápidas, sua personalidade ativa. Ele era entusiasta e impulsivo, e era isso que constantemente lhe causava problemas. É muito bom ter uma natureza dinâmica. Alguns dos maiores ho­mens que o mundo já conheceu, se os entendo corretamente pela leitura das suas biografias, alcançaram proeminência principalmente por sua energia; não por sua capacidade intelectual, nem por sua sabedoria, mas por sua absoluta energia. Observem isso ao ler as biografias de muitos dos chamados grandes homens. Energia é uma grande qualidade, e geralmente é acompanhada por uma capa­cidade de decisão. No entanto, era justamente isso que estava constantemente causando problemas a Pedro. Muitas vezes leva a uma vida cristã instável, uma vida cristã em que falta equilíbrio. Que perfeita ilustração temos disso aqui! Observem Pedro quando ele reconhece o Senhor no começo deste incidente. Ali está ele no barco, em meio à tempestade. Ele tem fé suficiente para dizer ao Senhor: "Se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas", e sai do barco. Que coisa magnífica! Sim, mas olhem para ele alguns minutos mais tarde, clamando amedrontado. Isso sempre foi característico em Pedro. Quando o Senhor estava falando sobre Sua morte, e como Ele iria ser abandonado, Pedro não hesitou em dizer: "Ainda que todos se escandalizem em ti, eu não me escan­dalizarei"; mas não demorou para ele negar que conhecia o Senhor, com pragas e juramentos! É isso que eu chamo de "mentalidade de Pedro" — instável, o tipo de pessoa que está no topo da mon­tanha ou no mais profundo vale, ou cheio de entusiasmo e vibra­ção, fazendo-nos sentir que não estamos fazendo coisa alguma, ou então totalmente desencorajado, ameaçando abandonar completa­mente a vida cristã. Vocês conhecem esse tipo de pessoa.
A que se deve isso, qual é a causa dessa alternação entre êxtase supremo e miserável fracasso? A resposta é que se deve ao temperamento. O problema desse tipo de pessoa é que ela tende a agir sem pensar; sua fé não está baseada em suficiente reflexão. O problema é que ela não pondera nas coisas, não deixa as idéias amadurecerem. Este era o problema de Pedro. Nos Evangelhos, ele é sempre o primeiro a se apresentar como voluntário. Tomem por exemplo o incidente no capítulo 21 de João. Os discípulos tinham pescado a noite inteira sem conseguir coisa alguma, e então o Senhor aparece na praia. Ao ouvir as palavras de João, "é o Senhor", Pedro imediatamente cingiu-se com a túnica e pulou na água para ir ter com Ele. Ele sempre era o primeiro, o primeiro em tudo, e esse era o seu problema. Temos uma perfeita ilustração disso mesmo após o Pentecoste, no segundo capítulo da Epístola aos Gálatas. Ele ainda era o mesmo homem impulsivo, e Paulo teve que repreendê-lo pelo fato dele não ter esclarecido a questão da justificação pela fé como deveria ter feito. Ele não tinha des­culpa, porque foi o primeiro homem a admitir os gentios na Igreja Cristã. Vocês se lembram do incidente com Cornélio. Lendo o registro do capítulo 10 de Atos, encontrarão Pedro elevando-se a magníficas alturas. Foi uma coisa extraordinária, um judeu trazer um gentio para a Igreja Cristã. Mas ele voltou atrás em Antioquia, e quando aqueles mensageiros de Tiago chegaram ali, ele dissi­mulou, e Paulo teve que resistir-lhe face a face. Qual era o pro­blema com Pedro? Era o seu velho problema; ele aceitou a posição sem avaliar todas as suas implicações. Esse é invariavelmente o problema com este tipo de pessoa — essa energia, essa capacidade de decisão, essa impulsividade tende a levá-las a fazer coisas intui­tivamente em vez de avaliá-las e compreendê-las e captá-las; e o resultado são essas violentas variações em sua vida espiritual; ora, isso é uma causa muito comum de depressão espiritual e é por isso que estamos tratando dela.
Isso me leva ao segundo ponto que quero enfatizar, e é o ensino deste incidente a respeito de dúvidas: "Homem de pouca fé, por que duvidaste?" Este é um ensino importante — e graças a Deus por ele. A primeira coisa que aprendemos aqui é que nós mesmos às vezes produzimos nossas próprias dúvidas. Ninguém pode negar que este foi o problema de Pedro nesta situação. Ele produziu suas próprias dúvidas ao olhar para as ondas. Ele foi de encontro a dificuldades que não precisavam ter surgido. Não foi como se o Senhor tivesse dito a Pedro: "Pedro, tenha cuidado! Você sabe o que está fazendo?" Não, nenhuma palavra foi dita; Pedro mesmo, ao olhar para as ondas, produziu as dúvidas. Que sejamos muito cuidadosos aqui. Muitas vezes vamos de encontro à depressão, caímos em dúvidas ao nos intrometermos com coisas que deveriam ser evitadas. Estou me referindo a certos tipos de literatura, ou à tolice de nos aventurarmos em certos argumentos que vão além da nossa capacidade intelectual. Isto é muito impor­tante. Há pessoas que são tolas o suficiente para se engajar em discussões sobre ciência, apesar de pouco ou nada saberem a res­peito. Em vez de evitarem isso porque não têm conhecimento sufi­ciente, elas mergulham na discussão, e já conheci pessoas cuja fé foi abalada porque fizeram isso. Em outras palavras, elas deviam ter permanecido firmes na verdade que conheciam, sem tentar se envolver em questões científicas em que não são competentes. Assim, às vezes nos conduzimos à dúvidas, e precisamos ser caute­losos para não procedermos dessa maneira.
A segunda coisa — e eu dou graças a Deus por isso — é que dúvidas não são incompatíveis com a fé. Muitas vezes, em minha experiência pastoral, encontrei pessoas muito infelizes porque não captaram esse princípio. Certas pessoas pensam que, depois de alguém se tornar cristão, ele nunca mais deveria ser assaltado por dúvidas. Mas não é assim; Pedro ainda tinha fé. O Senhor lhe disse: "Homem de pouca fé". Ele não disse: "Pedro, porque você duvidou, você não tem fé". Isso é o que muita gente pensa e diz, por ignorância, e está muito errado. Embora tenham fé, podem ser perturbados por dúvidas, e existem muitos exemplos disso, não só nas Escrituras, mas também na história da Igreja. Na verdade, eu até diria, com o risco de ser mal-interpretado, que se alguém nunca foi perturbado por dúvidas em sua vida cristã, tal pessoa deveria examinar novamente os fundamentos de sua experiência, e se certificar de que não está gozando uma falsa paz, ou descan­sando no que eu chamaria de crença presunçosa. Leiam as vidas de alguns dos maiores santos que já viveram neste mundo e des­cobrirá que eles foram assaltados por dúvidas. O Senhor aqui cer­tamente nos dá a palavra final a respeito — dúvidas não são incompatíveis com a fé. Podem ter dúvidas, e ainda assim ter fé, uma fé fraca.
Para colocá-lo de outro modo, e este seria meu próximo prin­cípio, se as dúvidas nos controlam, isso é uma indicação de que nossa fé é fraca. Foi o que aconteceu com Pedro. Sua fé não tinha se desvanecido, mas porque era fraca, a dúvida o controlou e o subjugou, e ele foi abalado. Se tivéssemos feito a Pedro certas perguntas naquele momento de terror e alarme, ele teria dado respostas ortodoxas cada vez. Se lhe tivéssemos feito perguntas sobre a pessoa do Senhor, tenho certeza que ele teria dado a res­posta correta, mas naquele momento essas dúvidas o controlavam. Sua fé ainda estava presente, porém, de acordo com o ensino do Senhor aqui, quando nossas dúvidas nos controlam, isso é uma indicação de que nossa fé é fraca. Nunca deveríamos permitir que isso acontecesse. Dúvidas vão nos atacar, mas isso não significa que devemos permitir que nos controlem. Jamais devemos per­mitir isso.
Como podemos evitá-lo? O antídoto, é — muita fé. Se é "pouca fé" que permite que os homens sejam controlados por dúvidas, então o antídoto deve ser "muita fé" — ou grande fé. É isso que é enfatizado aqui acima de tudo o mais. Quais são as características dessa grande fé? A primeira é um conhecimento do Senhor Jesus Cristo e do Seu poder, e uma confiança firme e estável nisso. Pedro, como já vimos, começou bem, e isso faz parte da essência da verdadeira fé. Aqui estava um homem com os outros discípulos no barco, e com a tempestade rugindo à sua volta. O mar e o vento eram contrários, e o barco estava sendo jogado pelas ondas, e sua situação estava começando a se tornar desespe­radora. Mas subitamente o Senhor apareceu, e quando eles O viram, disseram: "Isso é um homem andando sobre as águas? É impossível — tem que ser algum tipo de fantasma, é um espírito". Eles gri­taram de medo, e imediatamente Jesus falou, dizendo: "Sou eu, não temais". E então temos essa magnífica expressão da essência da verdadeira fé por parte de Pedro. "Respondeu-lhe Pedro, e disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas". Isso foi uma expressão de verdadeira fé, pois vemos o que significa: significa que Pedro estava na verdade dizendo ao Senhor: "Se Tu realmente és o Senhor, bem, então eu sei que não há nada impossível para Ti. Prova isso, ordenando que eu saia deste barco, neste mar tempestuoso, e ande sobre as águas". Ele cria no Senhor, em Seu poder, em Sua pessoa, em Sua capacidade. E não cria nisso apenas teoricamente. Ele tentou! O texto nos diz: "E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas". Ora essa é a essência da fé — "Senhor, se és tu. . ." É isso que a fé diz: "Se realmente és Tu, então eu sei que podes fazer isso; manda-me fazê-lo". E ele o fez. Aqui novamente está um grande princípio do qual devemos nos apossar com firmeza. A fé cristã começa e termina com um conhecimento do Senhor. Começa com um conhe­cimento do Senhor — não uma emoção, nem um ato da vontade, mas um conhecimento desta bendita Pessoa. Não há nenhum valor numa emoção se ela não for baseada nisso. Cristianismo é Cristo, e a fé cristã significa crer certas coisas a respeito dEle, e conhecê-10, e saber que Ele é o Senhor da glória que desceu até nós, saber algo sobre a encarnação, e o nascimento virginal, saber por que Ele veio, saber o que Ele fez quando veio, saber algo sobre Sua obra expiatória, saber que Ele veio — como Ele mesmo disse — não para chamar os justos, mas os pecadores ao arrependi­mento, saber que Ele diz: "Os sãos não necessitam de médico, mas sim, os que estão doentes"; saber que Ele levou "em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pe­cados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados".
Quando as pessoas me procuram num estado de depressão espiritual, quase invariavelmente descubro que estão deprimidas porque não conhecem esses fatos como deveriam. Dizem: "Sou um pecador tão miserável, você não sabe o que eu fui ou o que eu fiz". Por que me dizem isso? Dizem isso porque nunca enten­deram o que Ele quis dizer ao afirmar: "Não vim chamar os justos, mas sim os pecadores ao arrependimento". O que estão dizendo em auto-condenação é exatamente aquilo que lhes dá o direito de vir a Ele e ter certeza de que Ele os receberá. Onde existe uma falha em aprender e crer nestas coisas, a fé é fraca. Então uma fé forte significa conhecer estas coisas. Tenho que repetir isso cons­tantemente, e estou constantemente escrevendo estas coisas. Tive que escrever uma longa carta a um homem que eu nunca encontrei, a respeito deste assunto. O pobre homem estava extremamente infeliz e em escravidão. Por quê? Porque ele não tinha entendido que Cristo é o Amigo dos publicanos e pecadores, e que Ele veio para morrer por tais pessoas. Ele não tinha compreendido a Pessoa, não tinha compreendido a obra dessa bendita Pessoa. Sua fé era fraca, e as dúvidas o assaltaram por causa disso. Há muitos que atravessam a vida num estado de miséria e infelicidade porque não compreendem estas coisas. Se tão somente as entendessem, desco­bririam que sua auto-condenação é em si mesma uma garantia do seu arrependimento e o caminho para sua libertação final.
Em outras palavras, o grande antídoto para a depressão espi­ritual é o conhecimento da doutrina bíblica, da doutrina cristã. Não ter emoções despertadas em reuniões, mas saber os princípios da fé, conhecer e entender as doutrinas. Esse é o caminho bíblico, esse é o caminho de Cristo e é também o caminho dos apóstolos. O antídoto para a depressão é ter um conhecimento dEle, e acharão isso em Sua Palavra. Precisam se esforçar para aprendê-la. É tra­balho difícil, mas precisam estudá-la e se dedicarem a ela. A tragé­dia  de hoje, parece-me, é que as pessoas dependem demais de reuniões para a sua felicidade. Este tem sido orna problema há muitos anos na Igreja, e é por isso que muitos são tão infelizes. Seu conhecimento da verdade é falho. Isso, vão lembrar, foi o que o Senhor disse a certas pessoas que subitamente tinham crido nEle. Ele disse: "Se vós permanecerdes na minha palavra, verda­deiramente sereis meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (João 8:31-32). Libertará de dúvidas ou temores, da depressão, das coisas que abatem vocês. É a verdade que liberta — a verdade a respeito dEle, da Sua pessoa, da Sua obra, dos Seus ofícios, Cristo como Ele é.
Apressemo-nos para a segunda coisa. Tendo começado com a primeira, como Pedro começou, de forma tão correta, não esque­çamos a segunda, como Pedro infelizmente esqueceu, isto é, rejei­temos reflexões posteriores. "Ah, mas", alguém diz, "é uma boa coisa, pensar duas vezes". Não com a fé cristã; isso é insensatez. Dúvidas são coisas muito insensatas, e é bom que enxerguemos quão tolas e ridículas elas são. Então, da próxima vez que formos tentados, vamos nos lembrar de Pedro, que nunca deveria ter olhado para as ondas. Por que não? Por esta razão: ele já tinha resolvido a questão antes de sair do barco! Agora percebem porque, previamente, enfatizei o importante detalhe de que a tempestade já estava rugindo antes que o Senhor Se aproximasse do barco. Teria sido completamente diferente se Pedro tivesse pisado num mar calmo, e depois a tempestade viesse. Então ele teria tido uma desculpa. Mas não foi assim, pois quando Pedro disse ao Senhor: "Se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas", ele já tinha resolvido a questão das ondas. Ele já tinha lutado com elas enquanto estava no barco. Sabia que o barco estava jogando, então, quando disse aquilo, na verdade estava dizendo ao Senhor: "Não me importa o que o mar está fazendo". Ele já tinha resol­vido, essa questão, então saiu do barco e andou sobre as águas. Não havia nada de novo a respeito das ondas, nenhum fator novo. Ele não foi confrontado por nenhuma situação nova. O Senhor Jesus Cristo estava capacitando-o a andar sobre as águas turbu­lentas. Bem, por que então olhar para elas? Que razão havia para fazer isso? Nenhuma. Era ridículo, era insensato.
Esse sempre é o problema com uma fé fraca, ela volta a for­mular perguntas que já tinham sido resolvidas e respondidas. Se já creram no Senhor Jesus Cristo, devem, de alguma forma, ter se defrontado e lidado com dificuldades, ou não teria chegado à fé. Por que, então, voltar atrás? É pura insensatez. Não somente é uma questão de incredulidade, mas também uma questão de con­duta e comportamento. Por que sentar-se e encarar novamente difi­culdades que você já encontrou e resolveu antes de descer do barco? Quero repetir que este aspecto negativo da fé é muito importante. Depois de crer nEle, devem fechar a porta para certas coisas e recusaram-se a olhar para elas. Se já trataram delas, não voltem atrás, considerando-as novamente. Quantas vezes já tive de repetir isso nestes estudos! Quantas vezes nossos problemas se devem ao fato de que voltamos atrás. Pedro nunca deveria ter olhado para aquelas ondas. Não havia desculpa para ele, não havia nada novo a ser considerado. É a essência da fé recusar reflexões posteriores. Rejeitem-nas, não tenham nada a ver com elas. Digam-lhes: "Eu já cuidei de vocês!"
Isso me leva ao próximo princípio. A característica seguinte da fé é que ela persiste firmemente em olhar para Cristo e para Ele somente. Quero dividir isso, dando-lhes dois ou três princípios simples. A fé diz: "O que Cristo começou, Ele pode continuar. O início da obra foi um milagre, então, se Ele pode iniciar uma obra miraculosa, Ele pode mantê-la; o que Ele já começou, Ele pode continuar". "Tendo por certo isto mesmo", diz Paulo, "que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo" (Filipenses 1:6). Sim, diz Toplady,
A obra que Sua bondade começou, Seu braço de poder há de completar.
Esse é um argumento irrespondível.
Segundo, jamais devemos duvidar enquanto olharmos para Ele e formos iluminados acerca dEle. Sem Ele não temos qualquer esperança. Não importa quanto tempo tenhamos sido cristãos, de­pendemos dEle para cada passo. Sem Ele nada podemos fazer. Somente podemos conquistar nossas dúvidas se olharmos firme­mente para Ele, e não para elas. A única resposta apropriada para as dúvidas é olhar para Jesus. E quanto mais O conhecemos, e a Sua glória, mais ridículas elas se tornarão. Então mantenhamos nosso olhar firmemente em Jesus. Ninguém pode viver dependendo de uma fé inicial — isso parece ser o que Pedro estava tentando fazer. Ele começou com muita fé, e então, em vez de continuar pela fé, ele tentou prosseguir baseado naquela fé inicial. Mas, é claro, ninguém pode viver de uma fé inicial. Não tentem viver na dependência da sua conversão. Vocês estarão acabados antes de perceber! Não podem viver na dependência de uma experiência extática; precisam continuar olhando para Ele dia após dia. "Anda­mos pela fé", e vivemos pela fé no Senhor Jesus Cristo. Vocês vão precisar dEle tanto no seu leito de morte como precisaram na hora da sua conversão; precisam dEle em todos os momentos. A Bíblia está repleta de exemplos disso. Uma das ilustrações mais perfeitas é o fato de que os filhos de Israel tinham que colher o maná todos os dias, exceto no sábado. Esse é o método do Senhor. Ele não nos dá o suficiente para um mês. Precisamos de um supri­mento novo cada dia, então comecem o dia com Ele e mantenham-se em contato com Ele durante o dia. Esse foi o erro fatal de Pedro; ele desviou os olhos do Senhor. É a "batalha da fé"; vocês estão andando sobre águas turbulentas e a única maneira de pros­seguir é manter os olhos nEle.
Posso oferecer uma palavra final de conforto? Encontra-se neste incidente, e é o fato de que Ele nunca deixará vocês se afogarem! Pedro clamou em terror e alarme, "Senhor, salva-me!" — e imediatamente Jesus estendeu a mão é o segurou e disse: "Homem de pouca fé, por que duvidaste?" "E, quando subiram para o barco, acalmou o vento". Graças a Deus por essa conso­lação! Ele nunca nos deixará afundar, porque pertencemos a Ele. Podemos falhar, podemos sentir que estamos a ponto de submergir de uma vez por todas. Nunca! "Ninguém as arrebatará da minha mão". "Porque estou certo", diz Paulo, "de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus nosso Senhor" (Romanos 8:38-39). Nunca. Meus amigos, quando pensarem que estão perdidos, Sua mão estará ali, para sustentá-los. Olhem para Ele e digam com John Newton:
Seu amor no passado Proibe-me de pensar Que Ele me deixará Em tribulação, a sucumbir. Cada doce Ebenezer Que trago à lembrança Confirma o Seu deleite De ajudar-me até o fim.
Clamem quando estiverem desesperados. Não abram mão disso — se estiverem sobressaltados, clamem, e Ele os ouvirá e sustentará.
Mas não termino com isso. Devo terminar dizendo que, de certa forma, a grande lição de todo este incidente é que Ele pode evitar que caiamos. Nunca precisaremos gritar desta forma, se mantivermos os olhos nEle. Crendo nEle, nunca vamos cair, mas prosseguiremos firmes. Se Pedro tivesse olhado para Ele, teria continuado andando sobre o mar, e nunca teria se apavorado. Ele é tão grande, Ele é o Senhor do universo, e não só pode. andar sobre as águas, mas também capacitar Pedro a andar sobre elas. Nada é impossível para Ele. "Para Deus nada é impossível", e Ele é Deus. Então a fé olha para Ele e diz com Charles Wesley:
Fé, poderosa fé, a promessa vê, E somente a ela contempla, Ri das impossibilidades, E proclama: será feito!
Isso é fé. "Fé, poderosa fé, a promessa vê (nEle), e somente a ela contempla", e nada mais. Ri-se das impossibilidades — aque­las ondas turbulentas — e clama: "Será feito!" "Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irre­preensíveis, com alegria, perante a sua glória, ao único Deus, Salvador nosso, por Jesus Cristo, nosso Senhor, seja glória e majes­tade, domínio e poder, antes de todos os séculos, agora, e para todo o sempre. Amém" (Judas 24-25).

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A TOCHA DA EVANGELIZAÇÃO LEVADA PELOS PURITANOS A mensagem da Evangelização Puritana


Dr Joel R. Beeke 
Autor de Paixão pela Pureza, PES. 



A preocupação evangelística puritana

Quais os métodos que os puritanos usaram para comunicar a sua mensagem? Qual a disposição interior do evangelista puritano?
Ao analisarmos a mensagem da evangelização puritana, procuraremos cobrir pelo menos quatro características e, assim fazendo, procuraremos contrastar a evangelização puritano com a evangelização moderna.
Antes disso, quero, de forma sumária, definir o que entendo por puritano. Estou usando a palavra "puritano" no sentido geral da palavra, que inclui aqueles piedosos ministros e teólogos ingleses do século XVI e XVII, que estavam preocupados com uma vida pura de acordo com as doutrinas da graça soberana de Deus. Eles estavam preocupados com as seguintes áreas:
1. Com a manutenção do ensino das Escrituras e do pensamento reformado sadio.
2. Com a necessidade de desenvolver um padrão pessoal de piedade, conforme as prescrições das Escrituras, que flui do correto entendimento de doutrina, e que dá ênfase à conversão pessoal e se manifesta numa religião experimental resultante do poder transformador do Espírito Santo.
3.  Com a necessidade de uma vida eclesiástica baseada nas Escrituras, onde o Deus triúno é adorado conforme as determinações de Sua Palavra.
Quando me refiro à evangelização puritana estou focalizando a proclamação que era efetivada pelos puritanos de todo o conselho de Deus como revelado em Sua Palavra. Percebe-se que a palavra Escritura está presente e inferida nos três itens. Por isso queremos considerar quatro características bem abrangentes da pregação puritana. Dentro de cada característica veremos o contraste com a evangelização moderna.

Característica da pregação puritana - contraste com a evangelização moderna

Em primeiro lugar, os puritanos, por serem profundamente embasados nas Escrituras Sagradas, apresentavam sermões extensamente baseados nas Escrituras. Para o puritano, o sermão nunca estava só ligado às Escrituras, mas ele saía e crescia de dentro da Palavra de Deus. Para o pregador puritano o texto não estava no sermão, mas o sermão estava no texto. Por isso, um velho membro de uma igreja puritana poderia dizer: "Ouvir um sermão, para mim, é como estar dentro da Bíblia".

Se você abrir um livro de sermões puritanos, encontrará de dez a quinze versículos citados em cada página, além de encontrar dez a doze referências textuais. Os pastores puritanos sabiam como usar suas Bíblias. Eles viviam e respiravam os textos da Palavra de Deus. Eles tinham centenas e até milhares de textos das Escrituras memorizados e sabiam como citá-los para os problemas da alma ou para qualquer outro problema pessoal. Eles usavam as Escrituras de forma sábia, não passando por elas de forma superficial, porém trazendo o texto e fazendo-o permanecer de acordo com a doutrina que estava sendo enfocada. Os sermões evangelísticos de hoje muitas vezes são perturbadores, não porque não citem as Escrituras, mas porque o fazem de modo repetitivo, superficial. Quando alguém saía da igreja, após um sermão puritano, nunca esquecia o texto que fora usado, pois aquele texto lhe fora colocado inteiramente aberto, tendo sido levado até o seu coração.

Hoje, na evangelização moderna, temos toda razão para ficarmos perturbados quando testemunhamos que há uma seleção muito pequena dos textos bíblicos utilizados, além de textos que são tirados do seu contexto bíblico. Nós pregadores sabemos que podemos citar uma porção de textos sem estarmos sendo bíblicos nestas citações. Uma seqüência de textos intercalados por anedotas não faz, de maneira alguma, com que um sermão seja bíblico em si.

Os puritanos acreditavam fortemente em Sola Scriptura. Você pode procurar nos seus escritos e sermões, qualquer história ou referência pessoal e não as encontrará. Pelo fato de pensarem que o púlpito era um lugar de grande importância, este não podia ser degenerado com uma pregação egocêntrica. Eles sabiam que só uma coisa pode salvar pecadores: o Espírito Santo ligando-Se à semente incorruptível da Palavra de Deus. Por isso a tarefa deles era exatamente expor a Palavra de Deus incorruptível, orando para que o Espírito a aplicasse aos corações dos ouvintes. Se estamos convencidos de que conhecemos bem as nossas Bíblias e abrirmos um livro puritano, logo ficaremos muito humilhados. Eles foram gigantes espirituais nas Escrituras e nós somos anões, pigmeus perante eles. Por isso é muito importante lermos os puritanos. Eles são nossos mentores para nos ensinar como usar a Bíblia de uma forma pastoral, evangelística e na nossa pregação. Você sem dúvida seria um evangelista mais sábio e útil se buscasse mais as Escrituras como faziam os puritanos. Ame a Palavra de Deus de maneira mais calorosa. Pesquise a Palavra de Deus em suas devoções pessoais. Busque a bênção de pensar biblicamente, de falar biblicamente, viver biblicamente e perceberá que sua palavra contém uma autoridade divina. Você não precisará persuadir as pessoas pela sua personalidade ou por você mesmo, mas a Palavra de Deus é que vai persuadi-las. A Palavra quando exposta, passo a passo, abre as Escrituras perante nós. Esse é o primeiro ponto da pregação puritana. Eram profundamente bíblicos.

Em segundo lugar, o pregador puritano era doutrinador. A mensagem puritana não pedia desculpas por apresentar doutrina. O puritano não temia pregar todo o conselho de Deus para o povo. Os puritanos achavam que você não podia contar uma história qualquer, sem que esta tivesse doutrina. Doutrina é simplesmente a apresentação das verdades de Deus trazidas das Escrituras numa forma que pode ser entendida e que se relaciona com as nossas vidas. Não diluíam suas mensagens com anedotas, humor, histórias triviais e levianas durante a pregação. Eram profundamente sérios, verdadeiros e austeros no púlpito, pois sabiam que ao chegar ali estariam lidando com verdades eternas e almas eternas. Sentiam a realidade solene do seu chamado divino. Pregavam a verdade de Deus como um homem que está morrendo para homens que estão morrendo.
Vejamos alguns exemplos:

1. Quando pregavam a doutrina do pecado tinham a coragem de chamar pecado de pecado mesmo. Eles pregavam o pecado como uma rebelião moral contra Deus, uma rebelião que traz um sentimento de culpa e, se não houver arrependimento e perdão, a conseqüência será a condenação eterna certamente. Pregavam a respeito de pecados específicos; pecados de omissão e pecados de comissão; pecados por palavras e ações; falavam do quanto foi horroroso o nosso pecado original em Adão e Eva; falavam à congregação que eles tinham um referencial muito ruim e um coração mal por natureza; que o homem natural não pode amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo; ensinavam de forma "aberta" que uma reforma, apenas externa na nossa vida, não é suficiente para salvação eterna; a reforma interna produzida pelo Espírito Santo é absolutamente necessária e por isso pregavam como aquela regeneração podia ser experimentada e então vivida.

2. Outro exemplo se vê na sua pregação. Pregavam de uma maneira muito forte a doutrina de Deus. A evangelização deles era construída em cima de forte base teísta; pregavam Deus no Seu ser majestoso e em todos os Seus atributos gloriosos. Não só deixavam Deus ser Deus, mas declaravam que Deus é Deus. Os puritanos colocavam Deus em uma posição bem elevada - como deve ser. Quando se aproximavam de Deus em oração não falavam com Ele como quem fala com o vizinho pela janela, ou como um vizinho que pode ajustar seus atributos de acordo com suas necessidades e desejos pessoais. O puritano sempre exaltou a majestade de Deus e, quando se aproximava de Deus, você podia perceber aquele sentimento profundo de reverência. O Deus que o puritano pregava era o Deus da Bíblia. Talvez um dos versículos mais importantes, na Bíblia, para um puritano, seria exatamente Gênesis 1:1 - "No princípio, Deus". E de Deus que emanam e se desdobram todas as coisas neste mundo. Todas as coisas são preparadas, iniciadas,projetadas e feitas para a glória de Deus!

3. A evangelização puritano também proclamava de forma completa e plena a doutrina de Jesus Cristo. Pregavam o Cristo integral para o homem integral. Recusavam-se em separar os benefícios que advêm de Cristo, da própria Pessoa de Cristo. Um dos grandes puritanos, Joseph Alleine, em seu clássico livro originalmente intitulado, An Alarm to the Unconverted (Publicado no Brasil pela PES, como Um Guia Seguro para o Céu), disse que o ser de Cristo integral é aceito por aquele que é realmente convertido. Os verdadeiros convertidos não aceitam apenas as recompensas de Cristo, mas a própria obra de Cristo. Não amam apenas os benefícios de Cristo, e sim também o "fardo" de Cristo ("...tomai sobre vós o meu jugo..."). Amam não só tomar os mandamentos, mas também, a cruz de Cristo. Por outro lado, o falso convertido recebe Cristo pela "metade". Ele quer os privilégios de Cristo, porém não quer se inclinar diante do senhorio de Cristo. Ele divide os ofícios de Cristo e os benefícios de Cristo. Esse é o problema dos "crentes" de hoje.

Freqüentemente Jesus tem sido apresentado na evangelização de hoje como alguém que está aí para satisfazer todas as necessidades e desejos dos homens. Na pregação de hoje, Jesus é apresentado como alguém que não exige que o homem ofereça o seu coração completo e a sua vida completa. Quando os puritanos pregavam, instavam com os pecadores a se voltarem para Jesus e avisavam que eles precisavam avaliar o preço de seguir a Jesus, e o preço era perder a sua vida; morrer diariamente por amor a Cristo, negar-se a si mesmo, tomar a cruz e segui-lO. Os puritanos tinham horror àquilo que hoje é chamada "a graça barata", porque, na verdade, essa não é uma graça verdadeira. Graça barata significa que eu aceito Jesus na minha própria força; Ele reforma um pouco a minha vida por fora, porém eu continuo agindo com os princípios egocêntricos no meu ser interior. A graça barata me leva a pensar que, por um lado, eu tenho a Jesus, que estou a caminho para o céu, mas, por outro lado me permite continuar vivendo uma vida mundana. Na verdade, eu estou mesmo no meu caminho para o inferno. Os puritanos apresentavam Jesus como um Salvador completo para um pecador completo. Um puritano disse: "O pregador que é o seu melhor amigo, é aquele que vai dizer mais verdades sobre você mesmo". Eles não estavam preocupados em causar dano ao amor próprio dos ouvintes das suas congregações. Eles estavam mais preocupados com Cristo do que com os ouvintes. Estavam preocupados com a Trindade. O cristão encontra o seu amor próprio a medida que ele ama ao Pai que o criou, ao Filho que o restaurou através da cruz, e no amor ao Espírito Santo que mora nele e que faz com que sua alma e seu corpo sejam templo do Espírito Santo.

4. A doutrina puritana expandia e explanava com detalhes a doutrina da santificação. A vida inteira do crente era para ser colocada aos pés de Deus. Ele tinha que trilhar a vereda do Rei no caminho da justiça. Ele precisava conhecer a vida de uma forma experimental. Precisava conhecer essas "irmãs siamesas" que são, a vida e a experiência. Quando o ministro prega sobre santificação, você precisa saber o que está sendo requerido de sua parte. Você não pode entender estas coisas sem doutrina e isso nos traz à terceira característica da pregação dos puritanos.

Em terceiro lugar, destacamos que a pregação puritana era experimentalmente prática. A ausência de uma pregação experimental e prática é uma das grandes falhas no culto e na evangelização de hoje. O que significa uma pregação experimental? A palavra experimental vem da palavra experiência. Em termos de cristianismo, a religião experimental significa que a Palavra de Deus e suas doutrinas precisam ser recebidas não apenas na mente (os puritanos chamavam isso de conhecimento na cabeça, apenas), mas também precisam ser experimentadas e vividas no coração. Isso eles chamavam de "conhecimento do coração". Eles baseavam este tipo de ensinamento, por exemplo, em Provérbios 4:23: "Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida".

Para os puritanos os pensamentos precisam fluir das Escrituras e as experiências do coração, fluem do ensino da doutrina e das Escrituras. Dessa forma, experiência não é alguma coisa mística, separada da Bíblia. Isso eles rejeitavam totalmente! Ao mesmo tempo, eles também rejeitavam completamente o tipo de religião que se satisfaz com o conhecimento apenas na cabeça, que é só racional. Estas doutrinas sobre as quais falamos resumidamente, a doutrina de Deus, de Cristo e do pecado, para os puritanos deviam ser tão reais quanto as cadeiras em que sentamos. Estas doutrinas precisam ser transformadas numa realidade que queime dentro de minha alma. Elas precisam influenciar toda a minha vida, todo o meu estilo de vida. Dessa forma, os puritanos acreditavam em viver, na prática, o que eles experimentavam. Sempre eles traziam suas experiências às Escrituras para terem a certeza de que estavam sendo totalmente bíblicos - até nas suas experiências. Para os puritanos doutrina seria algo vazio se não fosse acompanhada pela experiência. Toda experiência verdadeira leva a uma experiência pessoal com Cristo. Por isso é necessária a pregação da Pessoa de Cristo e esta pregação será honrada pelo Espírito Santo, porque Ele toma estas coisas e as aplica aos pecadores.

Os puritanos, na sua pregação, incluíam o que chamavam de "marcas de um auto exame". Estas marcas de exame eram os sinais que distinguiam a Igreja do mundo. Distinguiam os verdadeiros crentes daqueles que eram crentes nominais ou apenas por professarem a fé. Os puritanos faziam distinção entre fé salvadora e fé temporária. Muitos livros têm sido escritos a respeito deste assunto. O mais famoso deles foi escrito por Jonathan Edwards: Afeições Religiosas. Também o livro de João Bunyan, O Peregrino, contém tais marcas. O que nós hoje, desesperadamente precisamos, é de uma volta a este estilo de evangelização reformado-puritano que sempre está pesquisando e sondando o coração. Os puritanos nunca diziam de uma forma "leviana" que os pecados do povo estavam perdoados, mas pregavam de forma profunda o que realmente o pecado é e como ele tem afetado as pessoas. Eles procuravam tirar do pecador todo o seu sentimento de justiça própria para, então, levá-lo ao Senhor Jesus Cristo.

Alguém disse que a religião da América, hoje, tem 2.000 km de comprimento por 3.500 Km de largura (essas são as dimensões do país), mas com uma profundidade de mais ou menos 12 centímetros, apenas! O problema, em todos os lugares no mundo, hoje, é que a evangelização freqüentemente começa num lugar errado. Poderíamos dizer muitas coisas sobre as diferenças entre a evangelização moderna e a puritana, em relação à experiência do povo de Deus. Pois bem, quero apenas destacar um ponto e este é a resposta a uma pergunta: quando olhamos atrás para a história da Igreja, e também na história bíblica, observando as épocas de avivamento verdadeiro, não produzido pelo homem, qual era o elemento evidente naquela época que hoje está claramente ausente? Respondemos sem hesitação que é a ausência de profunda convicção de pecado. Este é um grande problema nos nossos dias.


Convicção de pecado

Hoje há muito pouca convicção de pecado entre os não salvos. A maioria dos chamados "cristãos" contemporâneos, vive de maneira tão descuidada em sua vida, que é muito difícil alguém diferenciá -los de homens não convertidos. O problema é que freqüentemente o pecado não é pregado como pecado para as pessoas; o horror do pecado não é enfatizado às pessoas. Isso nos leva a uma pergunta ainda mais profunda: por que as épocas de avivamento realizado pelo Espírito Santo foram períodos de profunda convicção de pecado? A resposta é que o Espírito Santo, como Jesus nos diz, vem para convencer do pecado, da justiça e do juízo. Assim, o convencimento do pecado é o caminho pelo qual Deus age para abrir espaço no coração do pecador. Quando o homem vê a realidade de Deus e a realidade do pecado contra Deus, ele se humilha até o pó. Só então, ele vai apreciar o que aquele Deus-homem, Jesus Cristo, fez por nós pecadores. Foi o que aconteceu com Isaías quando ele chegou à presença de Deus: "Ai de mim porque sou um homem de lábios impuros..." O mesmo aconteceu com Jó ao chegar à presença de Deus. Por cerca de quarenta capítulos no livro de Jó ele estava mais ou menos se defendendo, estava lutando para entender o que Deus havia feito com ele. Mas ao se sentir na presença de Deus, o Senhor Se tornou tão grande e Jó tornou-se tão pequeno, que perdeu todas as suas defesas. Então Jó falou: "Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem. Por isso me abomino, e me arrependo no pó e na cinza" (Jó 42:5-6). Ele já havia ouvido falar de Deus antes, porém agora ele "viu a Deus", pela fé e perdeu tudo que estava do seu lado e se lançou como um pobre pecador, tão  somente na misericórdia de Deus. É isso que está faltando na evangelização moderna. Não se vêem pecadores chegando até a cruz e clamando como aquele publicano que disse em sua oração: "Ó Deus, tem misericórdia de mim pecador".

Vocês vêem o que é realmente o pecado, e quem é Deus? Se assim acontecer seremos levados à cruz e, quando experimentarmos pela fé a beleza e plenitude de Cristo na cruz, não precisaremos de nenhuma explicação da parte de Deus por aquilo que Ele está fazendo em nossa vida. Nós nos inclinamos diante dEle e dizemos que seja feita a Sua vontade. Deus nunca explicou a Jó por que Ele fez tudo aquilo com sua vida. Entretanto, veio de Deus o poder para que Jó fosse justo aos Seus olhos.

Avivamento

Isso nos leva a outra questão. Se a falta de convicção de pecado é um problema tão sério, como pode esse tipo de convicção ser restaurado à Igreja hoje? Novamente aqui a história da Igreja nos dá uma resposta muito clara. O Espírito Santo encontra um homem caído, quebrantado; este homem chega diante da cruz e encontra a plenitude da salvação em Cristo Jesus, e o Espírito envia esse tipo de homem para pregar o pecado e a conversão aos outros. Em outras palavras, Deus está levantando homens que sejam santos, que sejam humildes, homens de oração para usá-los; homens que odeiam o pecado e que amem a Deus; homens que estejam tremendamente convictos da necessidade da salvação de almas; homens que estejam orando sempre por um avivamento bíblico, um avivamento do Espírito Santo. Deus usa este tipo de homem para trazer avivamento. Lembrem-se que o avivamento começa com uma convicção experimental de pecado.

Arrependimento

Isso nos leva a outra questão. Quando Deus Se agrada em levantar esse tipo de homem, será que alguma coisa específica em sua pregação tem conexão com a convicção de pecado? Creio que a resposta é sim! É esse tipo de homem, que de forma incisiva, se dirige à convicção da consciência, de uma forma bem aguçada. Eles mostram aos pecadores de forma clara a necessidade de arrependimento e o Espírito Santo Se agrada em honrar e abençoar a Sua Palavra quando este homem prega de forma convincente. O que aconteceu com João Batista quando ele começou a pregar com convicção? Os homens começaram a fugir da ira vindoura. O que aconteceu quando Pedro pregou com profunda convicção no dia de Pentecoste? O Espírito Santo desceu sobre os que ouviam a sua palavra.

Evangelização moderna

Por isso minha tese é: a evangelização moderna está se levantando como um obstáculo frontal, com raras exceções, à verdadeira convicção de pecado, ao arrependimento e ao verdadeiro avivamento. A evangelização moderna tem uma visão superficial de pecado; fala tão pouco de um assunto que a Bíblia tanto menciona. Por que a evangelização moderna fala tão pouco a respeito do pecado? A evangelização moderna tem medo de falar às pessoas as verdades a respeito delas mesmas; tem medo de perdê-las. Ensina que nós não devemos ofender as pessoas, e sim, sempre conquistá -las. A razão humana diz que não vamos ganhar as pessoas se lhes falarmos do pecado. A evangelização moderna não nega que o homem esteja morto nos seus delitos e pecados; não nega que a Bíblia diz em Romanos 8:7, que a mente carnal está em inimizade contra Deus; não nega que está escrito em 1 Coríntios, capítulo 2, que o homem natural não aceita, não compreende as coisas de Deus, mas a evangelização moderna diz que textos assim são apenas afirmações doutrinárias. Diz que esses textos são relevantes para os crentes, todavia não seriam relevantes para os não salvos. Dizem: "Como podemos ganhar as pessoas se dissermos que elas não podem se salvar a si próprias?" Concluem, assim, que qualquer ensino que retira da mente dos ouvintes a capacidade de responder imediatamente ao evangelho, na verdade é alguma coisa que impede a evangelização.

Dessa forma fazem do cristianismo alguma coisa bem simples e fácil. Dizem: "aceite a Jesus hoje, é simples, não precisa se preocupar com seus pecados, Ele já lhe perdoou. " Mas eles não somam aí o que é que significa realmente ser perdoado e quais os frutos de uma vida verdadeiramente perdoada. Por isso, a evangelização moderna produz cristãos muito superficiais, com uma religiosidade de apenas "12 centímetros" de profundidade. O pastor batista, Erroll Hulse, trabalhou certa vez em uma cruzada evangelística de massa com o Dr. Billy Graham e logo após, teve de escrever um livro intitulado, O Dilema do Pastor, onde esclarece que menos de cinco por cento dos que vinham à frente, no apelo, mostravam frutos subseqüentes em suas vidas. Se formos comparar por um momento, tudo isso, com o ministério do puritano Richard Baxter, que teve 600 pessoas convertidas na pequenina cidade de Kidderminster onde foi pastor, fazendo-o dizer no fim de sua vida que ele não sabia de nenhum que tivesse caído ao longo do caminho, perceberemos que há uma grande diferença. Há uma diferença entre uma pregação superficial a respeito de Jesus e que ignora o pecado, e uma pregação que diz ao pecador que ele não vai saber valorizar a Jesus enquanto não souber claramente o que é pecado. A evangelização moderna põe toda a pressão em cima da vontade do pecador e o pecador precisa tomar uma decisão imediata. Um ato de decisão feito pelo homem usurpa o papel do Espírito Santo em salvar pecadores.

Evangelização puritana

A evangelização puritana tem uma mensagem bem mais ampla sobre o que é o evangelho. O dever da fé é enfatizado, mas outros deveres também são ressaltados. Os evangelistas puritanos vão dizer aos seus ouvintes, não salvos, que eles precisam se arrepender, precisam parar de fazer o mal, precisam ser santos como Deus é santo, precisam amar a Deus de todo o coração e precisam entrar pela porta estreita. Tudo isso é enfatizado na evangelização puritana. Noutras palavras,a evangelização puritana apresenta a Bíblia como um todo para confrontar o incrédulo. Contudo, sejamos cuidadosos aqui. Eles não pregavam que o incrédulo tinha capacidade de fazer estas coisas, mas pregavam a seus ouvintes as exigências das Escrituras, sabendo que o Espírito Santo é quem faz tudo isso para mostrar aos pecadores que eles não podem cumpri-las por sua própria força.

O alvo do puritano era levar a alma não sal va a uma encruzilhada, quando duas estradas se cruzam. Uma dessas estradas poderia ser chamada a estrada da necessidade e o pecador realmente convencido diria: "Eu preciso ser salvo, salvação é minha necessidade!" A outra estrada poderia ser chamada a estrada da impossibilidade. O pecador diria: "Eu não posso ser salvo; eu não consigo ser santo como Deus é santo; não posso ir a Jesus e me dobrar diante dEle por minha própria força". Qual era o alvo do puritano? Era o de levar o pecador a esta encruzilhada e ao chegar lá descobrir que precisa ser salvo mas não pode. Dessa forma ele vai clamar ao Deus todo-poderoso: "Faze por mim ó Senhor, o que eu não posso fazer por mim mesmo!". É isso que Paulo faz nos capítulos 1,2 e 3 de Romanos; o mesmo fez João Batista quando pregava assim: "Arrependei-vos porque o reino de Deus está próximo". João Batista não começou dizendo: "Eis o Cordeiro de Deus...", porém começou dizendo "arrependei-vos". Quando Jesus começou Seu ministério pastoral, Ele não disse "tome uma decisão por mim", mas também começou dizendo "arrependei-vos porque o reino de Deus é chegado". Como foi que Jesus evangelizou Nicodemus?Ele disse: "você precisa nascer de novo". Como Jesus evangelizou o jovem rico? Ele disse: "Guarde os mandamentos". Por que Jesus lhe disse isso? Ele sabia que o jovem não podia guardar todos os mandamentos no seu coração. Jesus estava colocando como alvo a convicção de pecado.

Os puritanos não faziam na sua evangelização nada que os apóstolos e o próprio Senhor Jesus não fizesse. Eles pregavam a lei para que os pecadores se sentissem culpados perante Deus e aí pregavam Cristo, não um Cristo de 12 centímetros de profundidade, e sim, Cristo completo na Sua altitude, na Sua amplitude e na Sua profundidade. Pregavam Cristo destacando Seus ofícios, Seus nomes e Seus títulos. Pregavam Sua natureza e Sua Pessoa,pregavam-no plenamente. Isso nos leva a uma conclusão: o que nós estamos precisando desesperadamente é de uma evangelização centralizada em Deus; uma evangelização centralizada na mensagem; centralizada na Bíblia; não uma evangelização feita pelo homem, mas uma evangelização onde o Espírito Santo está agindo na Palavra e por meio dela. Para este fim você e eu, como evangelistas, nós mesmos fomos restaurados para um relacionamento mais vital e íntimo com Deus por Jesus Cristo. O que nós precisamos desesperadamente é de carregadores da tocha, homens e mulheres que estejam em chamas por Deus. Não de homens que estejam em fogo por ensinos não bíblicos, mas de homens inflamados pelo ensino da Palavra de Deus - sim, de homens cheios daquele temor filial a Deus. Você já percebeu que todas as vezes que Paulo fala a pastores e presbíteros para dar-lhes algum conselho ele sempre diz, "Tem cuidado de ti mesmo e depois do rebanho"?

Conclusão

Querido irmão, se você não odiar o pecado, se você não amar a Deus, se não estiver cheio do poder de Cristo, não deve ficar surpreso de seu ministério ser tão infrutífero. Se as pessoas perceberem que viver religiosamente não é viver a realidade da nossa vida, elas vão ser levadas a desobedecer as nossas mensagens. Um dos nossos grandes problemas hoje é que a nossa própria casa não está em ordem. Que Deus nos leve a conhecê-lo de uma forma íntima e pessoal, seguindo-0 de forma incondicional e pregando todo o conselho de Deus.
Queridos amigos, o tempo está curto, muito cedo vamos pregar nosso último sermão, fazer a nossa última oração, participar da nossa última conferência, e a única coisa que realmente vai contar é a seguinte: conhecemos realmente a Deus e a Jesus Cristo a quem Ele levou assunto aos céus? Que Deus nos faça portadores da tocha da evangelização puritana em nossa geração.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

PERVERSÃO MORAL




Ai daqueles que ao mal chamam bem e ao bem, mal, dos que transformam as trevas em luz e a luz em trevas; que mudam o amargo 
em doce e o doce em amargo
(Isaías 5:20)


É da essência do entendimento desta mensagemtanto do capítulo todo quanto do v. 20 em particularque nós entendemos que era uma mensagem para o período em que foi dada. O profeta, deixe-me lembrar-lhe, foi levantado por Deus para dirigir-se aos seus contemporâneos, à nação de Judá, em tempos particularmente sérios. Esta nação existira por muitos anos. Criada por Abraão, agora, no século VIII antes de Cristo, as coisas estavam começando a ir mal, perigosamente erradas. A nação estava face a face com a calamidade, e Deus levantara um profeta para avisar ao povo que, se não se arrependessem, não se voltassem para Deus, não teriam nada além de ruína.
Mas como vimos, estamos vivendo em uma era e em uma geração que corresponde muito exatamente à que está descrita aqui. Além disto, de acordo com o ensino da Bíblia, homens e mulheres, desde que caíram e desobedeceram a Deus, têm sempre sido pecadores em todas as eras e em todas as gerações. Maseste é o princípio – existem épocas e tempos quando eles se tornam excepcionalmente pecadores, ou quando seu pecado fica particularmente evidente.
Não se pode ler a Bíbliaum livro de história e ao mesmo tempo de grandes ensinamentossem notar que existe um extraordinário tipo de periodicidade a esse respeito. Você encontrará eras em que os israelitas estavam certamente vivendo uma vida não perfeita, mas ainda assim comparativamente bem. Existem, porém, outros pecados relevantes quando, como vimos, eles pecaram violentamente, com tirantes de carroças, e a situação se tornou desesperadora. Em outras palavras: às vezes o pecado parecia levar a um terrível clímax; e àquele clímax, invariavelmente, seguia-se a calamidade.
Ao dizer isto estou fazendo uma simples observação histórica. Nota-se esse tipo de curva no gráfico da história da humanidade, quando se lêem o Velho e o Novo Testamentos, e exatamente o mesmo é encontrado quando se segue a subseqüente história da humanidade. Tome, por exemplo, o relato que a Bíblia faz da destruição do mundo pelo Dilúvio. Isto é o que ela nos diz. O filho de Adão e Eva, Caim, começou a pecar; sua descendência continuou do mesmo modo, e, assim, o pecado foi aumentando. Ele alcançou um ponto tal, tornando-se tão feio e repulsivo que Deus falou à raça humana: "Meu Espírito não contenderá com o homem" (Gênesis 6:3). Então, ele levantou um homem, Noé, para avisar à humanidade que, se eles não se arrependessem, seu mundo seria destruído. Aquela geração era formada pelos que pecavam com toda a vontade, desafiando Deus com uma arrogância incomparável. A isto se seguiu a calamidade do Dilúvio.
Outro exemplo tem relação com a Torre de Babel. Ali, outra vez o pecado da humanidade alcançou tais proporções que Deus desceu e confundiu suas línguas, destruindo a Torre que eles estavam tentando erigir. Novamente, isto levou a uma situação desastrosa. E aqui, nesta parte do livro de Isaías que estamos considerando, temos outro exemplo notável da mesma coisa. Aqui, estava Judá pecando do modo que Isaías descreve, levando a uma orgia final, e, novamente, seguido de calamidade. Os caldeus e os babilônios se levantaram, reuniram seus exércitos, vieram e saquearam a cidade de Jerusalém, levando a maioria dos judeus como escravos para a Babilônia. Esse terrível período de pecado, mais uma vez, levou a uma tremenda calamidade.
Vê-se exatamente a mesma coisa no tempo de Jesus Cristo. Os judeus novamente começaram a pecar de um modo excepcional. Apesar dos avisos de João Batista, e dos avisos do próprio Filho de Deus, eles não deram ouvidos. Não obstante a subseqüente pregação dos apóstolos, continuaram, desesperadamente, em pecado, e, mais uma vez, isso levou exatamente ao mesmo resultado. No ano 70 A.D. o exército romano cercou a cidade de Jerusalém, conquistou-a e saqueou-a, arrasando-a até os alicerces, e os judeus, como nação, foram espalhados entre as outras nações.
Essas são ilustrações deste princípio claramente ensinado na Bíblia, de que, embora homens e mulheres sejam sempre pecadores, existem tempos em que o pecado excede a si próprio. A situação enlouquece, e as pessoas pecam de uma forma tão desesperada, desafiando Deus em uma arrogância tão blasfema, que isto as leva a um período que chega a ser indescritível em seu horror. A Bíblia nos ensina que, nesses tempos, Deus retira seu poder, permitindo que os seres humanos se afundem em sua iniqüidade, e então os visita com punição na forma de um terrível desastre. Ele, porém, nunca faz isto sem, antes, avisar. Ele sempre envia seus profetas, seus mensageiros para falarem ao povo individual e coletivamente.
Nesses tempos, nada é mais proeminente no comportamento da raça humana do que o elemento revelado neste versículo que estamos examinando: o elemento da perversão moral: "Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal; dos que transformam as trevas em luz e a luz em trevas; dos que mudam o amargo em doce e o doce em amargo!" Em todos esses períodos na história da humanidade, quando o pecado toma conta, esta é, invariavelmente, a característica mais pronunciada. E ela se apresenta diante de nós forçosamente aqui, neste versículo. E é assim, infelizmente, porque este é o elemento mais proeminente na vida do mundo moderno para o qual estou chamando a sua atenção.
À luz do que é demonstrado tão claramente pela história, existe alguma coisa que requeira nossa consideração tão urgente? Alguma coisa mais imporia diante disto? Ao lado disto, que significado tem a maior conferência entre homens de Estado? Se isso é verdadeiro, então estamos numa posição desesperada. Se a lei da história é verdadeira, a menos que nos arrependamos e nos voltemos para Deus, só há um final: calamidade. Então, vamos examinar o ensino das Escrituras com relação a este assunto.
Em primeiro lugar, devemos considerar as características desta situação. O princípio é sempre o mesmo, mas quero colocá-lo particularmente na sua expressão moderna. Pecado é sempre pecado, mas existem graus de pecado. Ele pode aparecer em diferentes formas e aparências. Algumas vezes, homens e mulheres pecam e ficam envergonhados. Esta é uma situação de pecado. Mas existem outras ocasiões, como já vimos no nosso estudo prévio, quando as pessoas não mais sentem vergonha; elas pecam abertamente; elas orgulham-se do pecado e, até mesmo, gabam-se dele. Esta é uma condição diferente.
Existe, porém, algo além disto. Épocas há, nas quais as pessoas não parecem ter absolutamente nenhum senso de moral. Isto é válido não apenas de uma forma geral mas, também, individual. Todos conhecemos indivíduos que pecaram e estão envergonhados. Espero que todos experimentemos essa vergonha. Também conhecemos aqueles que pecaram e não estão envergonhados. E podemos, até, conhecer indivíduos que perderam por completo seu senso de moral, que não parecem saber a diferença entre o certo e o errado. Eles são amorais, imorais.
Mas existe algo ainda pior que isso – e é o que está descrito neste versículo –,  a saber: a condição de perversão. Porque ser pervertido é pior que ser imoral. Ser imoral é, de alguma forma, ser negativo, mas os pervertidos foram além da imoralidade e estão em uma posição na qual revertem moralidade e colocam mal por bem, e bem por mal; trevas por luz e luz por trevas; amargo por doce e doce por amargo. Esta é uma posição na qual eles derrubaram todos os padrões. É uma reversão positiva, deliberada, do que antes era mais ou menos universalmente aceito.
Isto é algo que pode ser visto em indivíduos, em nações, em grupos de pessoas e às vezes na vida de toda a comunidade mundial, como tenho demonstrado pelas Escrituras. Neste estado, homens e mulheres viram tudo de pernas para o ar, andam de cabeça para baixo e se gloriam no fato de que estão agindo desta maneira. Aquela era a situação do povo vivendo em Jerusalém quando Isaías se dirigiu a eles nesta profecia e lhes avisou que, a menos que se arrependessem, não poderiam esperar nada além de um desastre.
Isto não é igualmente válido para hoje? Esta não é uma das mais óbvias características destes anos nos quais estamos vivendo? Não é este elemento de perversão a maior e mais relevante característica do nosso tempo, este virar de cabeça para baixo, a inversão de tudo que era comumente aceito e reconhecido? Isto pode ser ilustrado em quase todos os campos; é uma situação muito persuasiva. Você a encontra em todas as artes onde o belo é freqüentemente desprezado, forma e linha não são reconhecidos e o feio é entronizado.
Mas esta perversão de padrões é muito mais séria, claro, quando se chega ao campo moral. Hoje, a grande palavra sobre a qual as pessoas se gabam é "a nova moralidade". Esta está sendo ensinada abertamente. Em dezembro de 1962, o professor Carstairs apresentou suas famosas palestras: a série Reith, na qual atacou diretamente a moral tradicional e pronunciou o que foi, então, chamado de "a nova moralidade", advogando experiências sexuais antes do casamento e também experiências extramaritais. E essa liberdade-libertinagem não se limita ao professor Carstairs. Existem, também, outros que não hesitam em escrever livros e artigos e aparecer nos programas de televisão, introduzindo esta nova moralidade que nos diz que o que até aqui foi visto como pecado não é pecado. Na verdade, eles concordam em que é errado condenar essas coisas, por serem uma forma de auto-expressão...
Somos, assim, confrontados não apenas por um ataque à religião mas, também, à moralidade num todo. E o ataque é direto e diário! Na verdade, vai além disto. Existem aqueles que ainda atacam a mente do homem. Esta é a essência da posição de D. H. Laurence. Ele disse que todo o problema com a raça humana é que ela pensa muito e o cérebro se desenvolveu demais. Assim, o segredo do sucesso e da felicidade na vida é deixar que a parte inferior governe e tome o controle; é o "de volta à natureza". É um ataque à mente e a tudo por cujo meio exercemos discriminação e controle. Na verdade, para resumir, é em, última análise, a ridicularização do controle, da disciplina e da decência. É um apelo para que façamos tudo o que quisermos fazer, e dispensemos qualquer idéia de decência, ordem e respeito.
Deixe-me dar um exemplo. Aconteceu de eu ler a manchete de um jornal que me levou a ler a crítica de uma peça que estreara em Londres. Isto é o que um crítico muito conhecido disse: "Há uma década, este tipo de choramingo de espuma de sabão deve haver parecido na televisão bravo e realista. Suas homilías sobre a infidelidade e a santidade da família têm tons de moralidade de classe média, e parecem, ao mesmo tempo, antiquadas e puritanas." Veja onde chegamos! Aparentemente, esta era uma peça que há dez anos teria sido considerada corajosa e chocante. Hoje, porém, qualquer tentativa, mesmo singela, de defender a moralidade ou fazer referência aos equívocos da infidelidade, e à santidade da família, como uma unidade da sociedade, é algo rejeitado com grande desprezo, como "moralidade de classe média, que parece, ao mesmo tempo antiquada e puritana".
Em um certo sentido, é uma perda de tempo ler essas críticas; em outro sentido, não é. Eu leio a crítica de filmes e dramas e é isso o que observo. Se houver qualquer elemento de decência em um filme ou em uma peça, ele é dispensado e ridicularizado. A única coisa louvada é o pervertido, o que apresenta o anormal e feio, ou que contenha algo mais ou menos repulsivo. Este parece ser o padrão universal, e, se houver algum elemento de romance ou de beleza, é para ser ridicularizado.
Esta é a situação que nos está confrontando, e você deve haver notado algo mais. Você já notou a tendência atual de ser mais simpático em relação ao criminoso do que à pessoa que sofre em suas mãos? As pessoas fazem abaixo-assinados a seu favor, dizendo que precisam receber uma segunda oportunidade, e que não deve ser tratado tão duramente.
O mesmo se aplica aos pervertidos. Nós quase chegamos ao estágio em que não ser pervertido é anormal. O pervertido é glorificado. Não há nada tão maravilhoso como o amor dos pervertidos!
Tudo pode ser resumido em uma frase que tem sido o slogan desta geração: Mal, seja o meu bem. "Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal..." Isto é precisamente o que está acontecendo em tantos países, em círculos culturais e educativos, entre intelectuais e aqueles que se proclamam líderes da sociedade. Não é uma repetição exata dos dias de Isaías? Ou, quem sabe? até muito pior.
Qual é o argumento que os devotos dessa perversão apresentam para defendê-la? Eu, obviamente, não posso lidar com isto adequadamente. Estou tentando dar uma olhadela na situação. Uma das grandes correntes de justificativa para tudo isto diz que de qualquer forma isto não é hipocrisia. Hipocrisia é vista como a pior coisa concebível; e esta é a resposta a ela: perversão!
Ninguém, claramente, quer defender a hipocrisia. Não há nada que possa ser dito, enfim, em sua defesa; mas o derradeiro provedor de máximas, o francês Conde de la Rochefoucauld, disse uma verdade sobre ela: "A hipocrisia é a homenagem paga pelo vício à virtude", e esta é uma afirmativa muito profunda. Em outras palavras: um hipócrita é alguém que sabe que está errado e tenta esconder seu erro, fingindo que não o praticou. Ele reconhece a moralidade e ele mesmo, de alguma forma, paga tributo a ela. Ele não é um pervertido. Isto é o que se pode dizer da hipocrisia. Desta forma, existe sempre esperança para o hipócrita; ele é uma pessoa que distorce as coisas, mas, pelo menos, sabe que está errado.
O segundo elemento na justificativa da nova moralidade, ou a argumentação apresentada para defendê-la, é que é certo questionar a existência de qualquer padrão moral externo, objetivo, universal. Até agora a humanidade em geral tem crido que exista tal padrão. Às vezes, eles o chamam de "lei natural", e ela tem sido mais ou menos reconhecida em todas as sociedades, cristãs ou não. Vivemos, porém, numa era em que isto está sendo seriamente questionado. Ouvimos de alguns filósofos do momento que não existe essa coisa como um padrão de moral externo: cada homem tem o seu. O que eu acho certo é moral para mim, e, se faço algo que você julgue errado, isto não imporia: devo agir de acordo com meu próprio padrão e interior. E assim é. Cada homem se torna lei para si próprio e faz o que bem entende e o que cisma que vai fazer, e o que acredita ser certo.
Um outro ponto muito grave é que essas pessoas estão questionando toda a categoria do natural, ou do normal. A Bíblia faz uma grande questão deste ponto. Por exemplo: lê-se em II Timóteo 3:3: "sem afeição natural". Do mesmo modo, tem-se esta afirmativa crucial no capítulo 1 de Romanos, onde Paulo, em seu grande indiciamento da era em que viveu, e de outras eras, usa este tipo de linguagem: "De igual modo, também os homens, deixando a relação natural com a mulher, arderam em seu desejo uns pelos outros, praticando torpezas, homens com homens, e recebendo em si mesmos a paga da sua aberração" (v. 27), e assim por diante. O mesmo, diz ele, acontece com as mulheres. Mas o termo que ele usa é "natural".
Hoje, isto está sendo posto em dúvida. Dizem-nos que não devemos usar este termo. Eles nos perguntam: "Que você quer dizer com 'natural', e 'normal'?" E acrescentam: "Que para você significa 'natural'?" Mas se outro homem é diferente, então é natural para ele. Em última análise: não há diferença entre os sexos e não existe essa coisa como "natural". E, assim, este comportamento é justificado mediante o questionamento das diferenças naturais entre homem e mulher, e o desejo natural da mulher pelo homem e do homem pela mulher. Na verdade, tudo está sendo negado, e o que se diz é que pode ser "natural para um homem desejar outro homem, e uma mulher desejar outra mulher". Todos os padrões se foram porque a categoria do natural não é mais reconhecida.
E, é claro, acima de tudo as pessoas dizem que não existe essa coisa como pecado, e isto porque não existe Deus. Se não existe nenhum cânon moral universal, então não há pecado. Na verdade, não existe crime. Nas cortes, cresce o número de pleitos por "responsabilidade reduzida" ou "responsabilidade diminuída". Que isso significa? Um médico aparece na corte e diz: "Este homem fez isto – já admitiu –, mas eu estou aqui para declarar que ele não podia deixar de havê-lo feito porque ele é do jeito que é; é constituído de uma forma tal – física e biologicamente – que não pôde evitá-lo." Assim, não há pecado nem crime; tudo passa a ser uma questão de tratamento médico. Todos os padrões se foram para sempre. Eu entendo, óbvio, que existem casos registrados nos quais o pleito de "responsabilidade diminuída" seja válido, mas eu estou protestando contra a tendência de universalizar o excepcional.
Então, positivamente, a justificação do malfeitor toma a forma de culto de auto-expressão. Dizem-nos o seguinte: "Você tem esses poderes dentro de você, então certamente você deve usá-los. Eles não devem ser reprimidos e restringidos. Por que você acha que os recebeu? Por que eles se encontram em você? Libere-se! Expresse-se!"
Então, vem o argumento do amor contra a castidade. O problema no passado, dizem, é que a castidade é vista como uma coisa maior que o amor. Mas o amor é o que realmente importa; a castidade vem em segundo lugar. Se houver amor, não faz diferença se um homem ama um homem ou uma mulher sexualmente. Não temos que nos preocupar com moralidade e castidade. A única coisa que interessa é o amor. Desta maneira, tem-se toda a confusão, toda a promiscuidade e as perversões de hoje.
Meu problema é mostrar o equívoco de tudo isto de uma forma breve. O Senhor coloca a questão da seguinte forma:
Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração e com toda a tua alma, de todo o teu entendimento, e com toda a tua força: este é o primeiro mandamento. E o segundo é este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo (Marcos, 12:30,31).
 Se você olha por este lado, não vai querer justificar tudo que faz dizendo: "Ah, eu amo''. Você reconhecerá que pode haver cobiça, e que você não deve magoar a outra pessoa. Você reconhecerá que a outra pessoa é alguém aos olhos de Deus, que Deus está acima de ambos e que vocês não são animais mas seres responsáveis diante do Deus Todo-Poderoso, que espera que vocês vivam uma vida mais elevada e nobre. Você entenderá que sendo assim deve disciplinar-se e controlar-se, e que você expressa seu amor ao considerar seu vizinho como você próprio, levando-o em consideração, e nem sempre colocando seu desejo de autogratificação em primeiro lugar.
Consideramos até aqui os argumentos que se apresentam em favor da nova moralidade, e vimos que são todos falsos. Desta forma, eles não fornecem a explicação para a conduta moderna.
Não, a resposta é muito simples para aqueles que conhecem sua Bíblia. A primeira coisa que a Bíblia tem a dizer é que não há nada novo sobre a "nova moralidade". Ela é tão velha quanto o período antes do Dilúvio. Tão velha quanto Sodoma e Gomorra – daí alguns termos usados hoje. Ainda assim o homem do século XX se gaba de seus avanços. Uma nova moralidade? Ela é tão velha quanto o pecado! A Bíblia conhece tudo sobre ela, e pode ensinar-lhe mais sobre ela do que a maioria dos livros modernos. Tudo está definido e analisado ali. Não só isso – e para mim isso é o mais impressionante –, mas a Bíblia na verdade profetiza que este tipo de coisa vai acontecer, que ocorrerá de tempos em tempos.
Outra vez, para aqueles que conhecem sua Bíblia não há nada extraordinário sobre a situação presente. Eu não estou nem um pouco surpreso com o fato de os homens e mulheres do século XX, com toda a sua sofisticação, estarem-se comportando do jeito que estão. A Bíblia afirma que isto aconteceria. Você já leu, em Lucas 17, a profecia de Jesus Cristo sobre os últimos dias? "Como foi nos dias de Noé, assim também será (...) Como foi nos dias de Ló (...) assim também será (...)" (Lucas 17:26-30). Tudo está predito. Seja lá o que você fizer, se você for um seguidor da assim chamada nova moralidade, você não estará fazendo nada novo; sua moralidade é muito velha. Na verdade, como alguém já disse: "A nova moralidade não é nada além da velha moralidade tentando se aperfeiçoar em termos filosóficos".
Mas a Bíblia pode dizer-lhe por que ela ressurge e por que as pessoas se comportam deste modo. E isso é que é importante. Por que estamos sendo afligidos por tudo isso em nossos dias? Por que nos defrontamos dia a dia com este horror? Aqui estão as respostas bíblicas. A principal explicação é que o pecado não pode nunca satisfazer, nunca. Ele finge, apenas. Ele diz: "Só uma vez..." Mas você nunca pára em uma vez. O pecado nunca satisfaz, e as pessoas ficam assim cansadas de seus pecados em particular, e querem mais. Quando se cansam do espectro completo dos pecados conhecidos, inventam outros diferentes, e torcem e pervertem.
A perversão é sempre uma prova da falha do pecado em se satisfazer. É um tipo de exaustão. Conheci um caso muito trágico de um médico que se tornou viciado em drogas. Eu me lembro de haver perguntado ao coitado, que foi meu colega de classe: "Como você entrou nessa?" E ele me disse que seu problema sempre fora o fato de ser um alto consumidor de álcool, mas chegara a um ponto tal que a bebida não mais fazia efeito. Contudo ele necessitava experimentar sempre aquela sensação. Então, com a falha da bebida começou com as drogas. É por essa razão que existem milhares de miseráveis e infelizes viciados neste país. O pecado sempre pressiona para algo além, e quando os caminhos normais do pecado não mais satisfazem as pessoas se voltam para o anormal. É apenas a manifestação da falha do pecado em satisfazer verdadeiramente.
Mas existe uma segunda razão. Você já notou o aspecto contraditório e pouco inteligente dessas perversões? Aqui temos homens e mulheres, por um lado se gabando de seus grandes avanços, de seu conhecimento, desprezando seus ancestrais de 100 ou 200 anos passados, e ainda mais os de mil ou 2 mil anos antes. Aqui está a moderna sociedade do alto de seu conhecimento, sofisticação e desenvolvimento – quão maravilhosamente deixou todas as prévias gerações para trás! Dizem que as pessoas são inteligentes demais para serem cristãs!
Mas agora olhe para eles por um outro lado, onde D.H. Lawrence denuncia o super desenvolvimento de uma parte do cérebro, e diz que eles pensam demais e que o caminho para ser feliz neste mundo é parar de pensar e ir em frente.
Não apenas isso, mas apesar de todo o orgulho quanto ao seu grande desenvolvimento, para onde vai a sociedade em termos de música e artes? Está voltando à selva, retornando aos desenhos nas paredes das cavernas. Isso são fatos. As duas coisas, porém, não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Se a melhor música é a música do analfabeto e sem educação, onde está a sofisticação? Ser sofisticado hoje é voltar ao primitivo, às origens, ao elementar. E o mesmo é óbvio em todos os outros aspectos. Isto é surpreendente, posto que não é inteligente. Este é o elemento contraditório que é sempre encontrado no pecado: ao mesmo tempo em que as pessoas estão-se gloriando de estar à frente de todos os outros, na realidade, estão de volta ao começo.
Mas há algo ainda mais profundo sobre tudo isso. Olhando do ponto de vista psicológico, creio que tudo isto é resultado de uma consciência sem paz. É o fato de as pessoas estarem tentando sufocar a consciência, fazer frente a ela. É medo e infelicidade; é não-paz.
Um outro fator, e para mim o mais importante de todos, é que tudo o que estamos testemunhando é, em última análise, decorrência de uma falha em entender a verdadeira natureza do homem e da mulher, a natureza e o sentido da vida, seu fim e propósito.
Não estou dizendo tudo isto por mera crítica. Sou um pregador do Evangelho, e estou interessado nisso porque desejo que as pessoas sejam salvas e livres de tudo que é mau, e recebam a verdadeira felicidade em Cristo. Estou apresentando estes argumentos com a finalidade de ajudar. Creio que a principal causa da tremenda perversão moderna é a frustração e o vazio. Em um certo sentido, não condeno as pessoas. Vivemos neste século assustador, depois de havermos passado por duas guerras mundiais, e as nações ainda estão empilhando armamentos. Então, os jovens são tentados a perguntar: "Que é a vida? Que é viver? Quem sou eu? Sou eu apenas bucha de canhão? Estou aqui apenas para ser explodido por uma bomba? Eu quero experimentar; quero descobrir. Talvez eu não esteja aqui por muito tempo. Por isto quero aproveitar o máximo da vida enquanto estou aqui..."
Os homens e as mulheres modernos estão perdidos; não se conhecem; não sabem que são seres feitos à imagem de Deus; não sabem como usar a mente e o cérebro; não percebem que são diferentes dos animais. Ignoram que não foram feitos para serem criaturas cobiçosas, e, sim, para refletir algo do próprio Deus eterno. Esta é a causa do problema – as pessoas desconhecem isto, razão por que se comporiam dessa maneira –, o que é um insulto a si mesmas.
Então, acima de tudo isto, eis uma demonstração sensacional do que a Bíblia quer dizer quando fala sobre o poder do pecado: o fato de que o pecado é algo que prende e escraviza pessoas, fazendo delas seus servos. Porque o diabo, o inferno e o pecado são muito poderosos. Que coisa malévola é o pecado! Deixe que ele se desenvolva e você verá até onde o levará, não meramente ao pecado e à vergonha, mas ao pecado e à ausência de vergonha, à total falta de conceito moral. Segue-se a perversão: luz, trevas, trevas, luz; amargo, doce, doce, amargo; e toda a falsidade e as conseqüências que se seguem.
Ao mesmo tempo, o estado do nosso mundo atual mostra que o problema real com o ser humano está no coração. Nosso Senhor disse tudo: "Esta é a condenação, que a luz veio ao mundo e os homens amaram as trevas mais do que a luz, porque as suas obras eram más" (João 3:19). Se você é um seguidor da nova moralidade, isso não acontece por causa da sua cabeça, e sim do seu coração. Eu já mostrei que você não é governado por sua cabeça. Se isso fosse verdade você não se estaria contradizendo a si mesmo, como faz. Seu problema está no coração – você gosta do pecado, é cobiçoso, tem um coração mau. Esta é a verdadeira explicação para tudo isso.
Deixe-me fazer-lhe uma pergunta. Qual é o fim para o qual tudo isso invariavelmente leva? Já demos resposta a essa pergunta. Leva ao dilúvio, à destruição de Sodoma e Gomorra, ao saque de Jerusalém e ao povo de Israel levado como escravos para a Babilônia. Leva ao ano 70 A.C, e à dispersão dos judeus entre as nações. Sempre levou e sempre levará.
Tome a história secular. Vimos que isso mesmo foi a causa do declínio e da queda do grande Império Romano. Roma caiu porque apodreceu em seu coração. Um abscesso se formou e os cidadãos de Roma se tornaram imorais e pervertidos. Roma decaiu a partir do centro, e os góticos e vândalos vieram e a conquistaram como resultado direto. E esta foi a causa do declínio e queda, desde então, da maioria de outros impérios. As autoridades que escrevem sobre isto dizem que as sociedades antigas perderam sua força e poder quando os padrões morais relaxaram. É sempre a mesma coisa. Uma vez que o povo perde sua compreensão moral de si mesmos e da vida, toda a sua força, politicamente, militarmente e em todos os outros aspectos, se vai. Eles relaxam em seus banhos, cometem suas fornicações e adultérios e permitem que seus impérios se arruínem.
Mais uma vez, recordo as palavras solenes do Filho de Deus: "Como foi nos dias de Noé, assim será (...)" (Lucas 17:26). Antes de que venha o julgamento final, diz ele, é assim que eles estarão vivendo; estar-se-ão se divertindo e dando-se em casamento, comendo e bebendo, comprando e vendendo. Eles o fizeram antes do Dilúvio, e antes de Sodoma, e farão uma vez mais antes do fim. É isto que faz com que nossa situação atual seja tão alarmantemente séria. Embora o homem moderno não creia em Deus, e não acredite em padrões morais; ainda que ele não creia em nada, exceto nele mesmo e em seus próprios desejos, isso não afeta a situação em nada. Deus ainda está no céu ; Ele ainda é Todo-Poderoso e continua a ser o "Juiz Eterno". Deus ainda trará a história a uma conclusão com um julgamento e a destruição eterna de todo mal e erro. O diabo e todos que pertencem a ele serão lançados no lago da perdição sem fim.
"Nos últimos dias", diz Paulo, "tempos difíceis virão. Os homens serão egoístas, gananciosos, jactanciosos, soberbos, blasfemos, desobedientes aos pais (...)." Você vê pelos jornais isto acontecendo todos os dias; o Novo Testamento está bem atualizado: "...ingratos, iníquos, sem afeto, implacáveis, mentirosos, incontinentes" – não podendo controlar-se. Eles afirmam: "Eu não posso evitar, sou um animal..." E diz mais o apóstolo: "...inimigos do bem, atrevidos, enfatuados". Ou seja: eles debocham da moralidade (II Timóteo 3:1-3).
Sim, ali estava acontecendo no primeiro século A.C. Eles desprezavam essa "moralidade de classe média": tão puritana, tão certinha e arrumada. Cuspiram nela; riram dela. Homens e mulheres que são fiéis no casamento, que crêem na família, que se restringem a si próprios: quão puritanos! Que piada! Que atraso! Que fora de moda! Imagine ainda se crer nisso! Sim, eles desprezam aqueles que fazem o bem, são "traidores, enfatuados, atrevidos, mais amigos dos prazeres do que de Deus" (II Timóteo 3:3,4). Estas são as condições que sempre prenunciam calamidade e desastre, sofrimento e dor. É, pois, no nome de Deus que peço a vocês que considerem essas coisas à luz deste pronunciamento, e à luz do que Deus fez invariavelmente no passado.
Então, aqui está o diagnóstico bíblico. Existe alguma esperança para esse povo? Existe uma mensagem para este mundo do jeito que está? Existe algo a se dizer a esses "novos moralistas", aqueles que exultam e se gloriam na perversão e ridicularizam a moralidade e a santidade? Graças a Deus tenho um glorioso Evangelho para eles. Já houve, antes, no mundo pessoas como essas, como já vimos. O apóstolo Paulo escreve aos cristãos na Galácia: "Não se deixem enganar, de Deus não se zomba" (Gálatas 6:7). E à igreja em Corinto ele diz que certas pessoas nunca terão uma herança no reino de Deus. Quem são elas? Ele dá uma lista terrível: "Não se deixe enganar: nem fornicadores, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas (...) nem os bêbados, nem os mentirosos (...) herdarão o Reino de Deus" (I Coríntios 6:9,10). Eles estarão de fora. Nada impuro pode entrar no reino de Deus, porque "Deus é luz, e nele não há trevas algumas" (I João 1:5). Não há impureza no céu. Tudo ao redor de Deus é gloriosamente puro, limpo, saudável, lindo e verdadeiro. E homens e mulheres nessa situação de impureza não têm herança no reino de Deus.
O problema, então, está no coração das pessoas. Pode-se fazer algo por elas? Bem, elas não conseguem fazê-lo por si mesmas, porque não se pode mudar o próprio coração. "Pode o etíope mudar a sua cor, ou o leopardo suas manchas?" (Jeremias 13:23) Não podem. Você não pode dar-se um coração limpo; você não pode renovar a sua natureza.
A mensagem da santa Bíblia, porém, é a de que Deus pode. Nosso Senhor disse a Nicodemos: "Em verdade em verdade te digo, a menos que o homem nasça de novo, ele não pode ver o reino de Deus" (João 3:3). O que homens e mulheres precisam é de um novo coração, uma nova natureza que irá amar a luz e odiar as trevas. Eles necessitam de uma nova natureza que irá apreciar o que é doce e não o que é amargo; uma natureza que tudo o que quer é amar o bem e odiar o mal.
E não é este o problema de todos nós? É a nossa natureza que está errada. Nós somos errados dentro de nós. "A boca fala do que o coração está cheio" (Lucas 6:45). Eu sou guiado por meu coração e levado a pecar; o problema todo está aí. Por causa da minha natureza, preciso de um coração novo, uma nova aparência, um novo desejo. Como conseguir isso? Bem, eu não posso produzi-los, mas posso suplicar como Davi no Salmo 51: "Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova em mim um espírito reto" (v. 10). Davi disse isto depois de haver cometido adultério e assassínio. Ele se confessou repelente e impuro: "Tu desejas a verdade no íntimo" (v. 6). Pois foi justamente aí que ele errou. Senhor, faze de mim algo que eu não sou. "Purifica-me com hissope e eu serei limpo; lava-me, e ficarei mais branco que a neve" (v. 7).
Graças a Deus, a mensagem ainda é esta. Eu não me desespero com os homens e mulheres modernos e sua assim chamada nova moralidade e perversões. O Evangelho é "o poder de Deus para Salvação" (Romanos 1:16). O apóstolo Paulo pregou na cidade portuária de Corinto para a ralé, para a sordidez, o centro do mal, que era aquele lugar. Ele pregou ali e o poder de Deus foi demonstrado na vida de homens e mulheres. "Mas fostes lavados, fostes santificados, fostes justificados no nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito de nosso Deus" (I Coríntios 6:11). E graças a Deus isto ainda acontece.

Seu sangue pode tornar o imundo limpo, seu sangue disponível a mim.

Charles Wesley