quarta-feira, 28 de março de 2012

O AMOR DE DEUS


A. W. Pink

As Escrituras nos dizem três coisas a respeito da natureza de Deus. Primeira, "Deus é espírito" (João 4:24). No grego não há artigo indefinido. Dizer "Deus é um espírito" é sumamente repreensível, pois O coloca na mesma classificação de outros se­res. Deus é "espírito" no sentido mais elevado. Como é "espíri­to", é incorpóreo, não tem substância visível. Tivesse Deus um corpo tangível, não seria onipresente, estaria limitado a um lugar; sendo "espírito", enche os céus e a terra. Segunda, "Deus é luz" (1 João 1:5), o que é oposto às trevas. Nas Escrituras as "trevas" representam o pecado, o mal, a morte; a "luz" representa a san­tidade, a bondade, a vida. "Deus é luz" significa que Ele é a soma de todas as excelências. Terceira, "Deus é amor" (1 João 4:8). Não é simplesmente que Deus ama, porém que ê amor mes­mo. O amor não é meramente um dos Seus atributos, mas sim Sua própria natureza,
Muitos hoje falam do amor de Deus, mas são completamente alheios ao Deus de amor. Comumente se considera o amor divino como uma espécie de fraqueza amável, uma certa indulgência boazinha; fica reduzido a um sentimento enfermiço, modelado nas emoções humanas. Pois bem, a verdade é que nisto, como em tudo mais, os nossos pensamentos precisam ser formulados e regulados por aquilo que é revelado nas Escrituras Sagradas. Que há ur­gente necessidade disto transparece não só na ignorância que ge­ralmente prevalece, mas também no baixo nível de espiritualidade atual que lamentavelmente se evidencia entre os cristãos profes­sos. Quão pouco amor genuíno a Deus existe! Uma das principais razões disso é que os nossos corações pouco se ocupam com o Seu maravilhoso amor por Seu povo. Quanto melhor conheçamos o Seu amor — sua natureza, sua plenitude, sua bem-aventurança — mais os nossos corações serão impelidos a amá-1O.
1. O amor de Deus é imune de influência alheia. Queremos dizer com isso que não há nada nos objetos do Seu amor que possa colocá-lo em ação, e não há- nada na criatura que possa atraí-lo ou impulsioná-lo. O amor que uma criatura tem por outra deve-se a algo existente nelas; mas o amor de Deus é gratuito espontâneo e não causado por nada nem por ninguém. A única razão pela qual Deus ama alguém acha-se em Sua vontade sobe­rana: "O Senhor não tomou prazer em vós,  nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vos éreis menos em número do que todos os povos: mas porque o Senhor vos amava" {Deuteronômio 7:7-8), Deus amou o Seu povo desde a eternidade e, portanto, a criatura nada tem que possa ser a causa daquilo que se acha em Deus desde a eternidade. Seu amor provém dEle próprio: "... segundo o seu próprio propósito..." (2 Timóteo 1:9).
"Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro" (1 João 4:19). Deus não nos amou porque nós O amávamos, mas nos amou antes de nós termos uma só partícula de amor por Ele. Se Deus nos tivesse amado em resposta ao nosso amor, então o Seu amor não seria espontâneo; mas visto que Ele nos amou quando nós não O amávamos, é claro que o Seu amor não foi influenciado. Para que se honre a Deus, e se firme o coração do Seu Filho, é altamente importante que entendamos com absoluta clareza esta verdade preciosa. O amor de Deus por mim e por todos e cada um dos que são "Seus" não foi movido nem moti­vado por coisa nenhuma em nós. Que havia em mim que atraiu o coração de Deus? Absolutamente nada. Ao contrário, porém, havia tudo para O repelir, tudo na medida para levá-lO a detes­tar-me — sendo eu pecador, depravado, corrupto, sem "nenhum bem" em mim.

"O que existia em mim que merecesse estima
ou desse algum prazer ao Criador?
Fosse assim mesmo, ó Pai, eu sempre cantaria
por veres algo bom em mim, Senhor."

2. É eterno. Necessariamente, Deus é eterno, e Deus é amor; portanto, como Deus não teve princípio, Seu amor também não teve. Mesmo concedendo que esse conceito transcende o alcance das nossas frágeis mentes, contudo, quando não podemos com­preender, podemos inclinar-nos em adoração. Como é claro o tes­temunho de Jeremias 31:3: "... com amor eterno te amei, tam­bém com amorável benignidade te atraí"! Que bem-aventurança saber que o grandioso e santo Deus amava o Seu povo antes do céu e a terra terem sido chamados à existência, que Ele pusera o Seu coração neles desde toda a eternidade! Esta é uma prova clara de que o Seu amor é espontâneo, pois Ele os amou eras sem fim, antes de sequer existirem!
A mesma verdade preciosa é exposta em Efésios 1:4-5: "Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em caridade; e nos predestinou..." (ou, na versão empregada pelo autor, "Havendo-nos predestinado em amor"). Que de louvores isto deveria evocar de cada um dos Seus filhos! Que tranqüilidade para o coração saber que, uma vez que o amor de Deus por mim não teve começo, certamente não terá fim! Se é certo que "de eter­nidade a eternidade" Ele é Deus, e é "amor", então é igualmente certo que "de eternidade a eternidade" Ele ama a Seu povo.
3. É soberano. Isso também é evidente em si mesmo. Deus é soberano, não deve obrigação a ninguém; Ele é Sua própria lei e age sempre de acordo com a Sua vontade dominadora. Assim, pois, se Deus é soberano e é amor, infere-se necessariamente que o Seu amor é soberano. Porque Deus é Deus, faz o que Lhe agrada; porque é amor, ama a quem Lhe apraz. Eis a Sua pró­pria afirmação expressa: "... amei Jacó e aborreci Esaú" (Ro­manos 9:13). Em Jacó não havia mais razão do que em Esaú para ser objeto do amor divino. Ambos tinham os mesmos pais e, gêmeos que eram, nasceram na mesma hora. Contudo, Deus amou um e aborreceu o outro. Por que? Porque assim Lhe aprouve.
A soberania do amor de Deus infere-se necessariamente do fato de que nada do que há na criatura o influencia. Portanto, afirmar que a causa do Seu amor está em Deus é outro modo de dizer que Ele ama a quem Lhe apraz. Por um momento, su­ponha o oposto. Suponha que o amor de Deus fosse governado por outra coisa que a Sua vontade, caso em que Ele amaria se­guindo alguma norma e, amando por alguma norma, Ele estaria subordinado a uma lei do amor e, então, longe de ser livre, Deus seria governado por uma lei. "Em amor nos predestinou para fi­lhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo" — o quê? Alguma virtude que previu neles? Não. O que, então? — "...  segundo o beneplácito de sua vontade" (Efésios  1:4-5).
4. É infinito. Em Deus tudo é infinito. Sua essência enche os céus e a terra. Sua sabedoria não sofre nenhuma limitação, porquanto Ele conhece todas as coisas, do passado, do presente e do futuro. Seu poder é ilimitado, pois não há nada difícil demais para Ele. Assim, o Seu amor é sem limite. Há nele uma profun­didade que ninguém consegue sondar; há nele uma altitude que ninguém consegue escalar; há nele uma largura e um compri­mento que desdenhosamente desafiam a medição feita por todo e qualquer padrão humano. É declarado belamente em Efésios 2:4: "Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou". A palavra "muito" aqui faz paralelo com a expressão "... Deus amou... de tal maneira..." (João 3:16), Diz-nos que o amor de Deus é tão transcendental que não pode ser avaliado.
"Nenhuma língua pode expressar plenamente a infinidade do amor de Deus, e nenhum intelecto pode compreendê-lo: "... ex­cede todo o entendimento..." (Efésios 5:19). As idéias mais am­plas que nossa mente finita possa conceber acerca do amor divino, estão infinitamente abaixo da sua verdadeira natureza. O céu não se acha tão distante da terra como a bondade de Deus está além das mais elevadas concepções que somos capazes de formular dela. A bondade divina é um oceano que se avoluma e se torna mais alto do que todas as montanhas de oposição nos que são objetos dela. E uma fonte da qual dimana todo o bem necessário aos que a ela estão ligados" (John Brine, 1743).
5. E imutável. Como em Deus "... não há mudança nem sombra de variação" (Tiago 1:17), assim o Seu amor não conhe­ce mudança nem diminuição. O verme Jacó dá-nos enfático exem­plo disto: "Amei Jacó", declarou Jeová, e, a despeito de toda a sua incredulidade e obstinação, Ele nunca deixou de amá-lo. João 13:1 oferece-nos outra bela ilustração. Precisamente naquele noite um dos apóstolos diria "... mostra-nos o Pai. .."; outro O ne­garia soltando maldições; todos se escandalizariam por causa dEle e O abandonariam. Todavia, "... como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até ao fim". O amor di­vino não se rende às vicissitudes. O amor divino é "... forte como a morte ... as muitas águas não poderiam apagar este amor..." (Cantares de Salomão 8:6-7). Nada nos pode separar dele: Romanos 8:35-39.

"Seu amor não se mede e não conhece fim,
nada pode mudá-lo, nem seu curso.
Eternamente o mesmo, sem cessar dimana
do manancial eterno."

6.   É santo. O amor de Deus não é regulado por capricho, paixão ou sentimento, mas por princípio. Exatamente como a Sua graça reina, não às suas expensas, mas "pela justiça" (Romanos 5:21), assim o Seu amor nunca entra em conflito com a Sua san­tidade. Que "Deus é luz" (1 João 1:5) se menciona antes de di­zer-se que "Deus é amor" (1 João 4:8). O amor de Deus não é mera fraqueza boazinha, nem brandura efeminada. As Escritu­ras declaram: "... o Senhor corrige o que ama, e açoita a qual­quer que recebe por filho" (Hebreus 12:6). Deus não tolerará o pecado, mesmo em Seu povo. O Seu amor é puro, e não se mis­tura com nenhum sentimentalismo piegas.
7.   É pleno de graça. O amor e o favor de Deus são inseparáveis. Esta verdade é exposta claramente em Romanos 8:32-39. O que é esse amor, do qual,nada nos pode -separar, percebe-se facilmente pelo propósito e alcance do contexto imediato: é aque­la boa vontade ou beneplácito e graça de Deus que O determinou a dar Seu Filho pelos pecadores. Esse amor foi o poder impulsivo da encarnação de Cristo: "... Deus amou o mundo de tal ma­neira que deu o seu Filho unigênito..." (João 3:16). Cristo morreu, não para fazer com que Deus nos amasse, mas porque Ele amava o Seu povo. O Calvário é a suprema demonstração do amor divino. Leitor cristão, sempre que você for tentado a duvi­dar do amor de Deus, volte ao Calvário.
Há aqui, pois, farta causa para confiança e paciência sob a aflição debaixo da mão de Deus. Cristo era amado pelo Pai, po­rém Ele não foi eximido de pobreza, humilhação e perseguição. Cristo teve fome e sede. Assim, quando Cristo permitiu que os homens cuspissem nEle e O golpeassem, isso não foi incompatível com o amor de Deus por Ele. Portanto, que nenhum cristão ques­tione o amor de Deus quando passar por aflições e provações. Deus não enriqueceu a Cristo na terra com prosperidade temporal, pois Ele não tinha "... onde reclinar a cabeça" (Mateus 8:20). Mas Deus Lhe deu o Espírito sem medida {João 3:34). Aprenda o cristão, pois, que as bênçãos espirituais são os principais dons do amor divino. Que bênção saber que, ao passo que o mundo nos odeia, Deus nos ama!

quinta-feira, 22 de março de 2012

A SUPREMACIA DE DEUS


Arthur W. Pink
Uma ler uma breve biografia de Pink aqui

Numa de suas cartas a Erasmo, disse Lutero: "As tuas idéias sobre Deus são demasiado humanas". Provavelmente o renomado erudito se ofendeu com aquela censura, ainda mais que vinha do filho de um mineiro; não obstante, foi mais que merecida.
Nós também, embora não ocupando nenhuma posição entre os líderes religiosos desta era degenerada, proferimos a mesma acusação contra a maioria dos pregadores dos nossos dias, e con­tra aqueles que, em vez de examinarem pessoalmente as Escri­turas, preguiçosamente aceitam o ensino de outros. Atualmente se sustentam, em quase toda parte, os mais desonrosos e degra­dantes conceitos do governo e do reino do Todo-poderoso.  Para incontáveis milhares, mesmo entre cristãos professos, o Deus das Escrituras é completamente desconhecido.
Na antigüidade, Deus queixou-se a um Israel apóstata: "... pensavas que (eu) era como tu..." (Salmo 50:21). Semelhan­te a essa terá que ser a Sua acusação contra uma cristandade após­tata. Os homens imaginam que o que move a Deus são os senti­mentos, e não os princípios. Supõe que a Sua onipotência é uma ociosa ficção, a tal ponto que Satanás desbarata os Seus desígnios por todos os lados. Acham que, se Ele formulou algum plano ou propósito, deve ser como o deles, constantemente sujeito a mu­dança. Declaram abertamente que, seja qual for o poder que Ele possui, terá que ser restringido, para que não invada a cidadela do "lívre-arbítrio" humano, e o reduza a uma "máquina”. Re­baixam a toda eficaz expiação, a qual de fato redimiu a todos aqueles pelos quais foi feita, fazendo dela um mero "remédio" que as almas enfermas pelo pecado podem usar se se sentem dis­postas a fazê-lo; e enfraquecem a invencível obra do Espírito Santos, reduzindo-a a um "oferecimento" do evangelho que os pecadores podem aceitar ou rejeitar a seu bel-prazer.
O Deus deste século vinte não se assemelha mais ao Soberano Supremo das Escrituras Sagradas do que a bruxuleante e fosca chama de uma vela se assemelha à glória do sol do meio-dia. O Deus de que se fala atualmente no púlpito comum, comentado na escola dominical em geral, mencionado na maior parte da lite­ratura religiosa da atualidade e pregado em muitas das conferên­cias bíblicas, assim chamadas, é uma ficção engendrada pelo ho­mem, uma invenção do sentimentalismo piegas. Os idolatras do lado de fora da cristandade fazem "deuses" de madeira e de pedra, enquanto que os milhões de idolatras que existem dentro da cris­tandade fabricam um Deus extraído de suas mentes carnais. Na realidade, não passam de ateus, pois não existe alternativa possí­vel senão a de um Deus absolutamente supremo, ou nenhum deus. Um Deus cuja vontade é impedida, cujos desígnios são frustra­dos, cujo propósito é derrotado, nada tem que se lhe permita chamar Deidade, e, longe de ser digno objeto de culto, só merece desprezo.
A distância infinita que separa do todo-poderoso Criador as mais poderosas criaturas é um argumento em favor da supremacia do Deus vivo e verdadeiro. Ele é o Oleiro, elas são em Suas mãos apenas o barro que pode ser modelado para formar vasos de honra, ou pode ser esmiuçado (Salmo 2:9), como Lhe apraz. Se todos os habitantes do céu e todos os moradores da terra se juntassem numa rebelião contra Ele, não Lhe causariam perturba­ção e isso teria ainda menor efeito sobre o Seu trono eterno e inexpugnável do que o efeito da espuma das ondas do Mediter­râneo sobre o alto rochedo de Gibraltar. Tão pueril e impotente .é a criatura para afetar o Altíssimo, que as próprias Escrituras nos dizem que quando os príncipes gentílicos se unirem com Israel apóstata para desafiar a Jeová e Seu Ungido, "aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles" (Salmo 2:4).
Muitas passagens das Escrituras afirmam clara e positivamen­te a absoluta e universal supremacia de Deus. "Tua é, Senhor, a magnificência, e o poder, e a honra, e a vitória, e a majestade; porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra; teu é Senhor, o reino, e tu te exaltaste sobre todos corno chefe ... e tu dominas sobre tudo..." (1 Crônicas 29:11-12). Observe-se, diz "dominas" agora, e não diz "dominarás no milênio". "Ah! Senhor, Deus de nossos pais, porventura não és tu Deus nos céus? Pois tu és Dominador sobre todos os reinos das gentes, e na tua mão há força e poder, e não há quem te possa resistir" (nem o pró­prio diabo) (2 Crônicas 20:6). Perante Ele, presidentes e papas, reis e imperadores, são menos que gafanhotos. "Mas, se ele está contra alguém, quem então o desviará? O que a sua alma quiser isso fará" (Jó 23:13). Ah, meu leitor, o Deus das Escrituras não é um falso monarca, nem um mero soberano imaginário, mas Rei dos reis e Senhor dos senhores. "Sei que tudo podes, e nenhum dos teus pensamentos pode ser impedido (Jó 42:2, ou, segundo outro tradutor, "nenhum dos teus propósitos pode ser frustrado". Tudo que designou fazer, Ele o faz. Realiza tudo quanto decretou. "Mas o nosso Deus está nos céus: faz tudo o que lhe apraz" (Salmo 115:3). Por que? Porque "não há sabedoria nem inteligência, nem conselho contra o Senhor” (Provérbios 21:30).
As Escrituras retratam vividamente a supremacia de Deus sobre as obras de Suas mãos. Toda matéria inanimada e todas as criaturas irracionais executam as ordens do seu Criador. Por Sua vontade dividiu-se o Mar Vermelho e suas águas se levantaram e ficaram eretas como paredes (Êxodo 14); e a terra abriu suas fauces e os rebeldes carregados de culpa foram tragados vivos pelo abismo (Números 14). À Sua ordem o sol se deteve (Josué 10), e, noutra ocasião, voltou atrás dez graus do relógio de Acaz (Isaías 38:8). Para exemplificar Sua supremacia, mandou corvos levarem alimento a Elias (1  Reis  17), fez o ferro flutuar (2 Reis 6:5), manteve mansos os leões quando Daniel foi lançado na cova des­sas feras, fez que o fogo não queimasse os três hebreus que foram arrojados às chamas da fornalha. Assim, "Tudo o que o Senhor quis, ele o fez nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos" (Salmo 135:6).
O perfeito domínio de Deus sobre a  vontade dos homens também demonstra a Sua supremacia, Pondere o leitor cuidadosa­mente sobre Êxodo 34:24, Exigia-se que todos os varões de Israel saíssem de casa e fossem a Jerusalém, três vezes por ano. Viviam entre gente hostil, que os odiava por se terem apropriado das suas terras. Então, o que é que impedia aos cananeus aproveitarem a oportunidade e, durante a ausência dos homens, matarem as mu­lheres e as crianças e se apossarem de suas fazendas? Se a mão do Onipotente não estivesse até mesmo sobre a vontade dos ímpios, como poderia Ele ter feito esta promessa, de que ninguém sequer cobiçaria suas terras? Ah, "Como ribeiros de águas, assim é o coração do rei na mão do Senhor; a tudo quanto quer o inclina" (Provérbios 21:1). Mas, poder-se-ia objetar, não lemos uma e outra vez nas Escrituras sobre como os homens desafiavam a Deus, re­sistiam à Sua vontade, transgrediam os Seus mandamentos, me­nosprezavam as Suas advertências e faziam ouvidos moucos a todas as Suas exortações? Certamente que sim; B isto anula tudo que dissemos acima? Se anula, então é evidente que a Bíblia se contradiz, Mas isso não pode ser. A objeção se refere simples­mente à iniqüidade do homem em rebelião contra a Palavra de Deus, escrita ao passo que mencionamos acima o que Deus se propôs em Si mesmo. A regra de conduta que Ele nos dá para seguirmos não é cumprida perfeitamente por nenhum de nós; os Seus "conselhos" eternos são realizados nos mínimos detalhes.
O Novo Testamento afirma com igual clareza e firmeza a absoluta e  universal  supremacia   de  Deus.   Ali se nos  diz que Deus "...  faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade" (Efésios 1:11). A palavra grega traduzida por "faz" significa "fazer eficazmente".  Por esta razão, lemos:   "Porque  dele por ele, e para ele, são todas as coisas; glória pois a ele eternamente. Amém" (Romanos 11:56). Os homens podem jactar-se: de que são agentes livres, com vontade própria, e de que têm liberdade de fazer o que querem, mas as Escrituras dizem aos que se jactam:  ".... vós que dizeis: hoje, ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos... em   lugar  do  que devíeis dizer:  Se o  Senhor quiser   (Tiago, 5:13-15),
Há aqui, pois, um lugar de repouso para o coração. A nossa vida não é, nem produto do destino cego, nem resultado do acaso caprichoso, mas todas as suas minudências foram prescritas desde toda a eternidade e agora são ordenadas por Deus que vive e reina. Nem um fio de cabelo de nossa cabeça pode ser tocado, sem a Sua permissão. "O coração do homem considera o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos" (Provérbios 16:9). Que segurança, que poder, que consolo isso deveria dar ao cristão real! "Os meus tempos estão nas tuas mãos..." (Salmo 31:15). Portanto digo a mim mesmo: "Descansa no Senhor, e espera nele..." (Salmo 37:7).

segunda-feira, 12 de março de 2012

O Tirante da carroça


D. M. Lloyd-Jones 

Ai dos que puxam para si a iniqüidade com cordas de injustiça e o pecado, como com tirantes de carroça, dos que dizem: Apresse-se Deus, faça logo a sua obra, para que a vejamos; aproxime-se, manifeste-se o conselho do Santo de Israel, para que o conheçamos.  (Isaías 5:18,19)

Examinamos os primeiros dois "ais" pronunciados por Isaías, e agora vamos examinar o terceiro. O primeiro foi o materialismo do qual o povo de Israel era culpado, e o segundo foi a mania de prazer. Agora chegamos ao terceiro, apresentados nestes dois versículos extraordinários.
Estamos interessados neste tópico, não porque sejamos historiadores, nem porque tenhamos apenas um interesse por antiguidades, e tempo livre suficiente para ler a história do povo de Israel como lemos as histórias da Grécia ou de Roma; nem mesmo porque ler história seja uma coisa fascinante e elucidadora. Esta não é em absoluto a nossa posição. Estamos interessados porque vivemos num mundo cheio de dificuldades e problemas, um mundo estranhamente similar ao do povo de Israel, quando o profeta Isaías se dirigiu a eles.
Esta é a minha única motivação para chamar a atenção para este texto. Na verdade, minha proposta fundamental é a de que, desde quando o homem e a mulher se rebelaram contra Deus e caíram, o mundo tem estado neste estado, e sempre precisa da mesma mensagem. E aqui temos a mensagem de Deus para este mundo em que nos encontramos, assim como para cada um de nós como indivíduos.
Quais são nossos problemas? Por que estamos perpetuamente em estado de crise, semana após semana? Assim que resolvemos um problema, começa outro: é sempre confusão, discórdia, infelicidade. Isto não acontece internacionalmente, mas também dentro de uma nação, a vida é cheia de problemas e dissabores, cheia de dificuldades. E sabemos disto, em nossa vida pessoal. Mas será que era para ser assim? Qual a causa de tudo isto? Aonde isso tudo nos levará? Qual o fim de tudo? Seria a história, como Henry Ford I a descreveu: "absurda"? Nãosentido ou significado nela? Ou podemos enxergar um propósito? Essas são questões cruciais.
Ainda mais urgente, porém, é saber se alguma coisa pode ser feita a respeito. Existe alguma esperança para nós em algum lugar? Ainda estamos colocando nossa nos oficiais do Estado? É isso o que nos pedem quando as eleições chegam. Estão sempre nos pedindo que o façamos... Eu não quero falar contra os políticos, é preciso haver governo e políticos que governem. Mas eu não acho que existam muitas pessoas em qualquer país que realmente coloquem sua nas ações de algum homem ou alguma mulher de qualquer partido.
Então, nãoesperança? Existe alguma coisa que possamos fazer para que nos desembaracemos de tudo isto e vivamos uma vida digna de ser chamada vida? Estou chamando sua atenção para isso porque essas questões podem ser respondidas pela Bíblia, e, em particular, por este capítulo.
Ou deixe-me enfocar de uma forma totalmente diferente. Nós, que somos cristãos e pertencemos a igrejas, participamos de algo chamado Santa Ceia. Comparecemos a uma mesa sobre a qual estão vinho e um pão dividido em pedaços. Participamos dos dois. Por que fazemos isto? Dizemos: "Celebramos a morte do Senhor até que Ele venha" (I Coríntios 11:26). O Senhor Jesus Cristo ordenou que seus seguidores fizessem isto. "Façam isto" – Ele disse – "em memória de mim." Mas espere : quem Ele era? Que significa isto? Por que deveríamos lembrar-nos dEle? Por que trazer à mente esta morte na cruz?
A resposta é a de que este "Jesus de Nazaré" é o eterno Filho de Deus. A afirmativa bíblica diz que Deus enviou seu filho único a este mundo; que a pessoa eterna se humilhou e tomou a natureza humana e viveu a vida como homem e morreu de forma cruel em uma cruz sobre um monte chamado Calvário. Mas por que devemos lembrar isso? Por que ele veio do céu para a Terra sofrer esta morte? Seus discípulos tentaram impedi-lo; eles disseram: Nãopara Jerusalém. Herodes está-se preparando para matá-lo. Mas "Ele tomou resolutamente o caminho de Jerusalém" (Lucas 9:51). Nada poderia pará-lo; Ele foi deliberadamente. Por quê?
Só existe uma resposta para esta pergunta. Era necessário por causa do pecado, porque o pecado havia reduzido homens e mulheres a um tal estado e condição que nada poderia libertá-los, nada, com exceção da vinda do Filho de Deus ao mundo e sua morre na cruz. "Eu não me envergonho do Evangelho de Cristo" – escreveu o apóstolo Paulo – "...porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê; primeiramente para o judeu e também para o grego'' (Romanos 1 : 16).
Em outras palavras: você não pode concluir nada além disto, a partir da Santa Ceia. Não existe outro ponto ou propósito na crença de que Jesus é o Filho de Deus e que Ele tinha que morrer na cruz, a menos que entendamos a verdade sobre nós mesmos como homens e mulheres em pecado. Em pecado! E por que esta condição – na qual estamos pela própria natureza, e que manifestamos constantemente na nossa vida diária – está visualizada tão perfeitamente neste capítulo em que apresento esta mensagem? Por que a cruz? Por causa disto.
Vimos duas manifestações do pecado. Vimos que é um terrível poder que detém homens e mulheres e os controla, tornando-os escravos em total dependência. Agora, vejamos nos versículos 18 e 19 a terceira manifestação.
"Ai dos que puxam para si a iniqüidade, arrastando-a com cordas de mentira, e o pecado com tirantes de carroças, dos que dizem: Apresse-se Deus, faça logo a sua obra, para que a vejamos; aproxime-se, manifeste-se o conselho do Santo de Israel, para que o conheçamos!"
Vamos retirar os princípios que estão ensinados aqui.
Note, inicialmente, o deliberado elemento da vontade no pecado. "Ai dos que puxam para si a iniqüidade", eles se apegam a ela. Esta é uma afirmativa muito interessante, e quero demonstrar sua relevância para o presente tempo no qual vivemos. Mostrarei mais tarde que há um tipo de periodicidade na manifestação do pecado. Mas talvez nada seja mais óbvio sobre ela do que este elemento da vontade, este elemento deliberado: "...arrastando-a com cordas de mentira".
Quando diz isto, Isaías não está querendo dizer que se trata de uma simples queda acidental no pecado. Não significa meramente que, enquanto iam inocentemente, uma súbita tentação sobreveio e, antes de que soubessem onde estavam, eles haviam caído. Isto acontece, e é repreensível e será punido, mas é ainda pior. O problema com o povo de Israel nesta conjuntura particular não foi o de que eles estivessem caindo quase inadvertidamente no pecado por causa da fraqueza da carne, do poder do pecado e da sutileza da tentação: era algo muito pior. Eles desviavam-se para o pecado, motivavam-se para ele, preparando-se para pecar e indo, deliberadamente, em sua busca.
Isto é algo com que a Bíblia lida em vários lugares. O apóstolo Paulo diz: "Não façam provisão para a carne" (Romanos 13:14). Por quê? Porque a carne já é suficientemente má da forma que é. A "carne", referindo-se à natureza humana, é tão poderosa que você não precisa de ajudá-la, diz Paulo. Não a alimente. Não lhe dê nenhum tipo de munição ou qualquer tipo de alimento.
É claro que todos sabemos quão verdadeiro isto é. Enfrentamos uma luta constante contra "o mundo, a carne e o diabo". Já nascemos num mundo assim. Não importa o que façamos, o pecado está ali sempre à espera de oportunidades, sempre pronto para atacar. E ele não só nos ataca mas nos toma muitas vezes por inteiro e nos atira ao chão. As pessoas, porém no tempo de Isaías estavam na realidade se apegando ao pecado; elas o queriam; elas se desviavam de seus caminhos a fim de encontrá-lo e produzi-lo; elas o encorajavam. Esta é a acusação que é feita contra elas neste ponto em particular: que elas se estavam predispondo deliberadamente para pecar. Elas estavam fazendo provisão para a carne.
A expressão "puxar para si", que Isaías usa aqui, é muito interessante. Carrega o elemento de deliberação que estou tentando enfatizar. Ou seja: estavam fazendo isto apesar de certas coisas. Elas tinham que "puxar"; em outras palavras: tinham que reter e, desta forma, aplicar uma energia. Elas tinham que sobrepujar certas resistências.
Quais eram essas resistências? Bem, o povo de Israel tinha que sobrepujar o ensino que haviam recebido como povo de Deus. Este era o povo ao qual Deus dera os Dez Mandamentos por intermédio de seu servo Moisés. Eles não eram ignorantes; não estavam vivendo nas trevas do paganismo; não eram néscios. Haviam recebido um ensino incomparável sobre como homens e mulheres deveriam viver: "Não matarás; não roubarás; não cometerás adultério", e assim por diante (Êxodo 20). Apesar, porém, de todo esse ensino ético, não obstante o fato de que Deus mesmo os havia instruído, eles estavam contestando, desviando-se para fazer exatamente aquilo que haviam sido ensinados a não fazer. Estavam desafiando o grande ensino moral do qual eram os herdeiros.
Mas Isaías 5 é também uma extraordinária e impressionante descrição da vida no mundo de hoje. Não vemos exatamente isso acontecendo diante de nossos olhos? Costumava haver um certo padrão de moralidade, mas isto já está sendo hoje ridicularizado, e, até, desprezado, como sendo "vitoriano" e outras coisas. A grande herança de retidão moral, o ensino moral que herdamos como cidadãos britânicos ou de outros países estão sendo postos de lado, e homens e mulheres estão resistindo a tudo que esteja no centro de suas constituições e vida nacional. Apesar desta herança, estamos-nos apegando à iniqüidade.
O povo de Israel, porém, estava não apenas indo contra a resistência oferecida por seu singular ensino moral, como, ao mesmo tempo, desafiando a resistência no campo de sua própria consciência. Queiram as pessoas ou não, existe em cada homem e em cada mulher este monitor interior: a consciência. O apóstolo Paulo, mais uma vez, diz que as pessoas que nunca tiveram a lei, como dada por Moisés ao povo de Israel, "mostram o trabalho da lei escrito em seu coração" (Rom. 2:15). E é por isto que "acusam ou desculpam-se uns aos outros", e a si mesmos. Todo o mundo tem um senso de moralidade ou retidão moral, de bem e mal, certo e errado, e, quando somos tentados, então esse monitor diz: Não! Pare! Mediante seu servo Isaías, Deus estava acusando o povo de Jerusalém de colocar de lado sua consciência, de deliberadamente reprimi-la e se apegarem à iniqüidade. Em I Timóteo 4:2, o apóstolo Paulo escreve sobre pessoas que tiveram a consciência "...como que cauterizada com ferro quente". Elas resistiram tanto à consciência que a mesma está como morta e não mais fala.
Este é um ponto muito importante. Vivemos em uma era, em uma geração na qual homens e mulheres estão deliberadamente pecando, deliberadamente debochando de tudo que seja moral, bom; limpo, puro e edificante; deliberadamente se programando para pecar. Apegando-se ao pecado, apesar de toda a herança moral que receberam.
O segundo elemento de pecado que aparece aqui é seu engano, ou a falta de valor da vida de pecado. Isaías usa esta expressão: "Ai daqueles que puxam para si a iniqüidade, arrastando-a com as cordas da mentira." Cordas que nada valem! Mais uma vez, aqui está uma forma ilustrativa de se colocar um ponto em que a Bíblia apresenta do início ao fim. Isaías está expondo e ridicularizando o vazio e o vácuo dos argumentos com os quais as pessoas sempre tentam justificar o tipo de vida que estão vivendo. De acordo com a Bíblia, o pecado sempre usa argumentos falsos e mentirosos. O pecado é sutil e inteligente, e consegue sucesso porque as pessoas são facilmente enganáveis.
Esta é a explicação de toda a história da raça humana. Ou não é? Lá atrás no terceiro capítulo do livro de Gênesis, lemos um relato da tentação de Eva por Satanás e de como, por sua vez, ela persuadiu Adão a desobedecer a Deus. E a coisa que se destaca sobre a tentação, como o apóstolo Paulo relembra aos Coríntios, é a sua sutileza: como o Diabo com sua sutileza "seduziu" Eva (II Coríntios 11:3). Ele se apresentou com argumentos enganosos, que foram aceitos. O pecado sempre atrai com cordas que, na verdade, não valem nada.
Mas, como eu disse, este é um grande ponto apresentado pela Bíblia, sempre se referindo ao pecado. O autor da carta aos Hebreus avisa a seus leitores: "ninguém se endureça pelo engano do pecado" (Hebreus 3:13). Não há nada no mundo mais enganoso do que o pecado. É exatamente por isto que o mundo está do jeito que está. É por isto que somos tão tolos. É por isto que não aprendemos com a história. É por isto que, apesar de lermos biografias, elas não nos ajudam. Vemos a queda de alguém por causa desta ou daquela ação, e logo estamos fazemos a mesma coisa. É o engano do pecado! "Cordas de mentira!"
Deixe-me resumir tudo com uma ilustração perfeita, no mais vívido quadro já pintado, sobre este aspecto particular da questão, ou seja, a parábola de nosso Senhor sobre o Filho Pródigo: um jovem que "atraiu a iniqüidade para si com as cordas da mentira" (Lucas 15:11-32). Ali estava ele criado junto com seu irmão na casa de seu pai. Ele não poderia haver tido uma casa melhor ou um pai melhor; e não poderia haver crescido em circunstâncias e condições melhores. Além disto, suas perspectivas eram excelentes. Ele tinha tudo que um homem poderia desejar. Deixou, porém, tudo e partiu para um país distante onde tinha certeza de que poderia viver uma vida maravilhosa. Eventualmente, ele não apenas se transformou num miserável, como na verdade já estava passando fome, tendo até mesmo que comer as bolotas com as quais os porcos eram alimentados. Até isto já estava faltando, e ele estava muito mal. O que possivelmente poderia tê-lo arrastado de uma situação a outra? Só existe uma resposta: o filho pródigo buscou a iniqüidade para si mesmo, com as cordas da mentira.
Que isso significa? Bem, observe o raciocínio errôneo. O pecado é muito esperto; ele sempre apresenta suas razões, seus argumentos. O pecado nos conhece muito bem; ele sabe que gostamos de pensar em nós mesmos como pessoas altamente inteligentes. Então, ele não apenas nos diz: faça isso, mas nos dá as razões para que façamos, e elas pareçam maravilhosas. Mas o ponto crucial é que, na realidade, elas são falsas; são vagas e tolas. O raciocínio é sempre falso. Os argumentos estão sempre errados.
Veja o caso de Eva, como aparece registrado em Gênesis 3. "Deus não disse...?" – perguntou o tentador. O próprio tom de voz que ele usou deveria haver posto Eva em guarda. Quando alguém vem até você dizendo: "Será que Deus disse?...", você deve logo desconfiar. Ninguém deve falar assim de Deus. O Diabo, porém, veio e falou: "Deus não disse que você não deveria fazer certas coisas no Jardim?"
Eva respondeu, e o Diabo disse: "É claro que você sabe porque Ele disse isto... Deus sabe perfeitamente que, no momento em que vocês comerem daquela árvore, vocês se tornarão deuses. Foi por isto que Ele deu a ordem para que não comessem. Ele não quer que vocês se tornem como deuses; Ele quer mantê-los como subordinados, como vassalos. Ele disse que não comam porque ele sabe que, no momento em que vocês fizerem isto seus olhos serão abertos, e vocês entenderão tudo, da mesma forma que Ele. Vocês serão iguais a Ele, e não mais subservientes. Vocês reinarão. Serão deuses. Comam a fruta!"
Foi o mesmo argumento no caso do Filho Pródigo. "Esta vida aqui em casa" – ele disse – não está com nada. É isso que é viver? Eu ouvi falar que naquele país estrangeiro eles vivem de verdade. Mas aqui, ah! existem perspectivas, é claro, mas de uma vida de sujeição ao meu pai e ao meu irmão que é mais velho que eu. Eu não tenho oportunidades. Não tenho liberdade. Eu desejo vida. Quero espaço para viver. Eu quero o que é meu !" Assim o filho pródigo raciocinou consigo mesmo, instigado pelo Diabo.
Isto é típico da argumentação do pecado. Ele vem até nós e diz: "Se você quiser ser alguém, pare de ler a Bíblia, pare de ir à igreja, comece a fazer isto e aquilo... : é só assim que você vai deixar a sua marca. Você não é mais uma criança, um bebê: prove que é um adulto! Mostre o que há em você. Apareça!" Não são estes os argumentos? "Cordas da mentira"!
Ou pode vira nós como "a coisa a fazer". Que argumento! Temos que fazer o que todo mundo está fazendo. "Se você quiser progredir" – diz novamente o pecado – "tem que fazer isto ou aquilo."
E outras vezes ele vem e diz: "Não há nenhum mal nisto... Por que você diz que há? Por que não fazer? Isto é apenas radicalismo! Você está atrasado no tempo. Seja moderno!"
Estes são os argumentos do pecado, e todos falsos. É assim que as pessoas se apegam ao pecado. Essas são as razões que elas dão: "Vai ser maravilhoso! Vai ser ótimo! Vai ser o máximo! É assim que se faz..." O pecado nunca nos diz uma palavra do que vamos perder.
Assim, ele não é apenas falso em seus argumentos e raciocínio, mas também nas suas promessas. Ele nos oferece tudo, mas que nos dá? Aqui está a promessa diabólica, no Jardim do Éden: "Vocês serão como deuses" (Gênesis 3:5). Mas foi assim mesmo? Passados alguns momentos eles estavam tremendo e se escondendo atrás das árvores, aterrorizados e alarmados. O problema se instalou, o caos começou, e continua desde então. "Com as cordas da mentira", prometendo o mundo inteiro, mas não dando nada; prometendo felicidade, mas nos levando à desgraça e à tristeza.
Quão triste é uma vida de pecado! Você já não sabe disto? Leia os jornais e verá. A vida de pecado e vício é terrível, acima de tudo o que se pode definir. Ela não traz felicidade; antes, é uma vida arruinada e sórdida. Em vez de nos dar as coisas que promete, o pecado rouba-nos tudo o que há de melhor em nós – a pureza e a honestidade, e um conceito nobre de humanidade. Ele nos rouba nosso conhecimento de Deus e a possibilidade de relacionamento com Ele. O pecado oferece tudo e não dá, absolutamente, nada. Ele nos retira as coisas mais preciosas e, eventualmente, deixa-nos com os porcos e as bolotas.
Não parece tão mau em termos de aparência externa, mas, por dentro, na alma, no domínio do espírito, não é nada mais que péssimo. Ele nos subtrai tudo e nos deixa sem nada: de mãos vazias. Tudo por que vivemos nos é impossível levar conosco na morte. E aí estamos nós, exaustos, acabados, sem nada. O pecado sempre funciona assim: "puxa para si a iniqüidade com as cordas da mentira".
A próxima afirmativa é, de certo modo, ainda mais chocante. "Ai daqueles que puxam para si a iniqüidade com as cordas da mentira, e o pecado com tirantes de carroças." Vemos aqui um grande contraste. Eu me pergunto quantas pessoas ainda sabem o que é um "tirante" de carroça. Se você sempre viveu na cidade, provavelmente não sabe, mas eu sou velho o suficiente para lembrar os dias quando carruagens e carroças eram puxadas por cavalos, antes de que o motor de combustão interna se tornasse de uso comum. Tirantes de carroças! Compridas e fortes cordas com as quais se amarrava o cavalo à carroça, ou, até mais de um cavalo. Não havia nada mais grosso e resistente que uma corda de carroça. Se você quisesse algo muito forte para puxá-la com sua tremenda carga – de feno ou outra coisa que estivesse ali – usaria um tirante. De acordo com Isaías, esse era o problema com a nação de Israel: ela pecava com uma corda de carroça.
Que isso significa? Ele está-se referindo, claro, à força do pecado, ao elemento óbvio do pecado. Ele está mostrando que eles estavam pecando com toda a sua força, gloriando-se nele, entregando-se a ele. Não era, repito, o caso de um povo caindo inadvertidamente no pecado, enredado sem perceber. Não, eles se lançaram, os olhos inflamados, e pecaram com toda a vontade. Não pouparam nada, "com tirantes de carroças". Este é o modo de Isaías descrever o pecado sem restrições, pecado sem inibições, aberto e bom som.
Existe, claro, um argumento a esta altura: as pessoas não gostam de hipocrisia. Certo. Concordo com isto. Condene o hipócrita se quiser. Há, porém, algo a ser dito até para o hipócrita: ele certamente é melhor do que o tipo de pessoa que peca com tirantes de carroça, porque isso não é apenas pecar, mas ostentar o pecado, o que é ir além. É pecar de tal modo que, como Jeremias expressa: "...e nem sabem ficar envergonhados" (Jeremias 6:15). Há uma completa ausência de vergonha; eles são óbvios, e eles se gabam dele; não conseguem satisfazer-se, e o fazem com toda a força e vontade.
Não vivemos em uma era que carrega esta culpa? Veja como tudo se organiza hoje. Veja a falta de decoro em tantas coisas. Olhe para a tela de sua televisão e verá o pecado desavergonhado. Nada é poupado. Eles expõem tudo e pecam com toda a energia do seu ser e toda a inteligência de que possam dispor; pecam com tirantes de carroça. Eles até parecem estar rivalizando e competindo uns com os outros em relação à profundidade a que conseguem descer. Não há decência, vergonha ou tristeza pelo pecado; tentativa alguma de disfarçá-lo. Está tudo exposto. O profeta Isaías descreve o século XX tão precisamente quanto descreveu a condição do povo de Israel.
Mas vamos ao último ponto, o desafio, a arrogância, a blasfêmia, o elemento insano do pecado. Ouça: "Ai deles (...) que dizem, apresse-se ele." Lembre-se que eles estavam falando sobre Deus. "...e faça depressa a sua obra." Já vimos, antes, uma referência a esta obra. Diz-se deste povo: "Eles não vêem a obra do Senhor, nem consideram a operação de suas mãos" (v. 12). Consideramos isto no v. 2, mas aqui eles vão além: não apenas pensam na obra de Deus, mas a desafiam. Eles se levantam e dizem: "Apresse-se ele e faça depressa a sua obra, para que a vejamos; aproxime-se, manifeste-se o conselho do Santo de Israel, para que o conheçamos!"
Esta é uma situação terrível. Você percebe a blasfêmia? Eles tomam o nome de Deus em vão! Com efeito, dizem ao profeta: Você está sempre falando do Santo de Israel. Então, que ele se aproxime e faça o que tem que fazer: seu Santo de Israel! Eles se referem a Deus com sarcasmo, com deboche, com amargura e desprezo. É assim que falam do Senhor Deus Todo-Poderoso! Não apenas tomam seu nome em vão, mas fazem referências debochadas à sua obra. O profeta os faz relembrar como Deus os ameaçou, o que disse que iria fazer quando homens e mulheres vivessem aquele tipo de vida. E eles dizem: "Apresse-se ele então...Você está-nos transmitindo a Palavra de Deus. Então, deixe que ele execute a sua palavra." São referências desrespeitosas sobre a Palavra de Deus, seu ensino moral, suas ameaças, seus julgamentos, sua revelação de si mesmo, e seu propósito santo.
Mas a mais terrível de todas as coisas – e é aí que o pecado se revela em pura loucura e insanidade – é o desafio ao poder de Deus, e a incitação para que Deus faça o pior. "O Santo de Israel" – dizem eles – "...você está dizendo que Ele é o Juiz do mundo, que vai punir o mundo e julgá-lo com justiça. Muito bem, por que Ele está hesitando? Por que está esperando? Por que não faz logo? O seu Santo de Israel, onde está Ele?"
Deixe-me apresentar tudo isto numa forma mais atual, pois esta – é o que me parece – é a condição de muitas pessoas. Deus, sua lei e seu Evangelho têm sido ridicularizados. Deus, para muitos, é nada mais do que um termo com o qual eles amaldiçoam ou expressam algum tipo de juramento. Eles usam o nome de Deus em suas conversas comuns e o fazem com deboche. Eles não crêem em seu Livro; não crêem, em hipótese alguma, que ele exista. São pessoas sem Deus, que já O baniram de seus pensamentos; eles O tratam e a tudo que se refere a Deus com extremo desprezo e escárnio. Ele é a piada das pessoas inteligentes. Sóbrios ou embriagados, não faz diferença, eles blasfemam seu nome. Você vê isso mesmo nas conversas. Houve uma época em que as pessoas não faziam isso. Sabemos que certas pessoas não conseguem falar sem xingar, blasfemar ou usar juras. Nós as ouvíamos, mas não repetíamos suas palavras. Agora, porém, esses adjetivos e epítetos são usados publicamente, e a blasfêmia e tudo isto está-se tornando, cada dia mais, desavergonhado e arrogante entre nós.
Mas não apenas isto. Eles desafiam Deus em conjunto. Eles se levantam diante dEle e dizem, como aquelas pessoas diziam: "Se existe um Deus, então deixe que Ele faça alguma coisa. Vocês pregadores dizem que Deus vai julgar o mundo e puni-lo, mas eu tenho vivido uma vida de desafio a Ele e nada me tem acontecido. Se Ele é Deus, por que não mostra? Se tem poder, por que não o revela? Quero vê-Lo fazer o pior"...
Era isso que o povo de Israel estava dizendo. É o tipo de conversa que você encontra registrada na segunda epístola de Pedro. Pedro profetizou que nos últimos tempos eles se levantariam e diriam a mesma coisa outra vez: "Onde está a promessa da sua volta?" (II Pedro, 3:4) Vocês cristãos, vocês que crêem na Bíblia, vocês dizem que crêem em Deus e que Deus irá julgar o mundo, mas onde está a promessa da sua volta? Vocês dizem que Ele vai enviar seu Filho outra vez ao mundo para julgá-lo com retidão e destruir o mal e estabelecer seu glorioso reino, mas onde está Ele? Os séculos estão passando e não há sinal de sua volta. É bobagem, é fantasia, conto-de-fadas. Não é verdade. Deus não existe e não vai acontecer nada.Vamos pecar e viver como quisermos."
Este é o argumento, e é assim que a humanidade se tem comportado em certos períodos terríveis na história da raça humana. Eles têm-se levantado e desafiado Deus para que faça o pior.
"Nós não temos medo de Deus! Vocês têm medo. Sua religião é uma questão de medo. Vocês não são homens de verdade. Vocês não são nada mais do que almas encolhidas de medo. Por que não tentam ser fortes, se levantam e dizem: 'Não existe Deus; ele não pode fazer nada?' O mundo todo está nas mãos dos homens e mulheres, e não há nada a temer. Expresse-se, viva sua própria vida, aproveite e tenha sua porção de prazer."
Este é o argumento muito proeminente nos dias de hoje. Tem sido gritado sobre nós pela mídia.
Mas existem terríveis avisos contra este tipo de coisa nas Escrituras. Havia certas pessoas, quando Jesus estava aqui neste mundo, que diziam coisas similares: Pilatos fora avisado pela esposa que não se envolvesse na condenação do Senhor Jesus Cristo. Ela disse: "Eu tive um sonho sobre este homem. Não faça nada!" E Pilatos fez o que pôde para libertá-lo. Contudo, os judeus não permitiram. Eles disseram: "Não! Levem este homem. Crucifiquem-no. Dêem-nos Barrabás." Então:
Quando Pilatos viu que não conseguia, mas que um tumulto se formava, tomou água e lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Eu sou inocente do sangue deste justo: A responsabilidade é vossa. Então, o povo respondeu e disse: O seu sangue seja sobre nós e nossos filhos" (Mateus 27:24,25).
"Não estamos com medo", foi o que eles disseram. "Vós, Governador romano Pilatos, pareceis estar com medo; lavais vossas mãos e dizeis: a responsabilidade é vossa. Está bem, nós certamente estamos prontos a tomar a responsabilidade; não temos medo. Seu sangue seja sobre nós, e sobre nossos filhos. Que venha o pior."
Eles disseram as mesmas coisas que Isaías acusou seus contemporâneos de dizerem.
Foi o que disseram por volta do ano 33 A.D, e, então, no ano 70 A.D., quando os exércitos romanos cercaram Jerusalém e a saquearam, mataram esses mesmos judeus que haviam dito: "Seu sangue seja sobre nós." E veio sobre eles, sua cidade foi arrasada até o chão e eles foram expulsos da Palestina, espalhados entre as nações, onde a vasta maioria ainda está. O sangue de Cristo tem vindo sobre os judeus através dos séculos. Eles pediram, e assim sucedeu.
No tempo de Isaías, o povo de Israel também sofreu. Isaías havia avisado, mas eles não ouviram. E, então, veio o dia em que o exército caldeu cercou a cidade e ela foi destruída. Eles haviam dito: Se Deus pode fazer alguma coisa, que faça. E Ele fez.
Minha mensagem é a de que Deus é ainda o mesmo. Está tudo no terceiro capítulo da segunda epístola de Pedro. Os zombadores se levantam e dizem: "Onde está a promessa de sua volta? Porque, desde que os pais dormiram, todas as coisas continuam como eram no começo da Criação." Aqui está a resposta:
Há, contudo, tina coisa, amados, que não deveis esquecer: é que para o Senhor um dia é como mil anos, e mil anos como um dia. O Senhor não tarda a cumprir a sua promessa, como pensam alguns, entendendo que há demora; o que ele está é usando de paciência convosco, porque não quer que ninguém se perca, mas que todos venham a converter-se. O Dia do Senhor chegará como ladrão, e então os céus se desfarão com estrondo, os elementos, devorados pelas chamas, se dissolverão e a Terra, juntamente com suas obras, será consumida. (II Pedro 3:8-10)

Está chegando! Deus agirá!
Mas lembre-se: Ele não age imediatamente; para o Senhor, mil anos são como um dia, e um dia como mil anos. Sobre esta presente geração, e sobre todas as outras gerações que blasfemaram e ridicularizaram sua palavra e suas leis, seu poder será manifesto, e eles verão sua obra e sentirão seu poder: "Os céus se desfarão com estrondo (...) E todo mal e pecado serão lançados num lago de destruição e perdição." Oh, que blasfêmia! Quanta arrogância e loucura de homens e mulheres em pecado! É por isso que o mundo está do jeito em que se encontra.
Pode-se fazer alguma coisa por essas pessoas, que aí estão, que se apegam à iniqüidade com toda a força? Existe esperança? Bem, graças a Deus que existe. Existe apenas uma esperança, e é que o poder de Deus é maior que o poder do pecado, do Diabo e do inferno. O pecado e o Diabo nos envolvem e fazem com que nos apeguemos à iniqüidade com tirantes de carroça. Homens e mulheres não podem livrar-se. O poder de Deus, porém, pode.
Ouça como Deus fala pelo profeta Oséias: "Eu te atraí com cordas humanas, com laços de amor (...)" (Oséias 11:4) Aqui está a única esperança, o poder de atração de Deus, que é maior que o poder de atração do pecado. O pecado atrai com cordas de carroça; Deus atrai com laços de amor e cordas humanas! "Ninguém pode vir a mim, exceto aqueles a quem o Pai me enviar" (João 6:44). Esta é, na verdade, nossa única esperança.
Qual é a esperança? É a de que Deus é capaz de nos retirar das trevas para sua maravilhosa luz! Isto é o Evangelho. "O poder de Deus para salvação de todo o que crê" (Romanos 1:16). Ele pode atrair-nos para Ele próprio. Ele o faz em Cristo, que disse: "Eu, quando for levantado da Terra, atrairei todos os homens a mim" (João 12:32). Estas são as abençoadas boas notícias para este mundo mau, onde o pecado nos está atraindo cada vez mais poderosamente. Mas Deus é ainda mais poderoso: ao morrer na cruz e dar seu corpo para ser partido e seu sangue para ser derramado, Cristo estava liberando um poder suficientemente grande para tornar o imundo, limpo. "Cristo crucificado (...) o poder de Deus, e a sabedoria de Deus" (I Coríntios 1:23,24). Aí está. Ele "atrai". E, se ele não nos atraísse, estaríamos todos condenados, carregados para o inferno pelo pecado com tirantes de carroças.
E, à luz deste poder de atração da cruz de Cristo, podemos dizer o que diz o profeta Isaías no capítulo 12: "Deste modo, com alegria retiraremos água dos poços da salvação" (Isaías 12:3).
Você, que está apegado ao pecado, beba dos poços da salvação abertos no monte Calvário. Se você gastou o tempo da sua vida apegado à iniqüidade com as cordas da mentira e com tirantes de carroças, eu digo agora: "Chegue-se a Deus e ele se chegará a você" (Tiago 4:8).