quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A VERDADE DO EVANGELHO


Sermão n° 5

Silas Roberto Nogueira

Gálatas 2.11-21

INTRODUÇÃO
Nós continuamos no argumento do apóstolo Paulo sobre o evangelho que pregava, mas aqui ele narra um evento considerado um dos mais tensos e dramáticos do Novo Testamento, o seu conflito franco e aberto com Pedro. Wendell Phillips em uma reunião antiescravagista em 1852 declarou: “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. Certamente isso vale para a vida espiritual. Não fosse a vigilância de Paulo a liberdade cristã estaria seriamente comprometida pela atitude do apóstolo Pedro, Barnabé e outros.

O cenário mudou de Jerusalém, a capital do judaísmo, para Antioquia da Síria, centro da missão gentia, onde pela primeira vez os crentes foram chamados cristãos. Há um interessante contraste aqui – quando Paulo visitou Jerusalém os apóstolos estenderam-lhe a destra da comunhão (v.1-10), mas quando Pedro visitou Antioquia, Paulo se lhe opôs face a face (v.11-16).  Isso aconteceu, não porque Pedro tivesse negado o evangelho em sua doutrina, pois Paulo esforçou-se para mostrar que há uma unidade quanto ao evangelho (1-10), mas porque Pedro ofendeu o evangelho com a sua conduta, pois essa conduta foi contradição da verdade do evangelho.  Vamos analisar os versículos e depois extrair algumas aplicações, vejamos:

1.       ATITUDE DE PEDRO, v.12,13
A visita de Pedro a Antioquia da Síria não está relatada em Atos, mas podemos conjecturar que se deu antes do Concílio de Jerusalém. O silêncio certamente indica que o conflito fora resolvido a contento, sem que houvesse mágoa de qualquer uma das partes. A atitude de Pedro, como diz Paulo foi condenável pelo seguinte:
a)       Pedro comia com os gentios, v.12a
Nos dias dos apóstolos as igrejas realizavam uma celebração de comunhão, a festa ágape, quando também realizavam a Ceia do Senhor. Pedro quando de sua visita a Antioquia esteve presente em tais reuniões e manteve comunhão com os gentios, sentou-se à mesa com eles, não fazendo a costumeira separação judaica de não manter comunhão com os gentios. O tempo imperfeito do verbo “comia” indica ação habitual no passado, “comia regularmente com os gentios”. Pedro, um cristão judeu desfrutava da fraternidade dos cristãos gentios. O comportamento de Pedro aqui segue a verdade do evangelho, mas não continuou assim...
b)      Pedro se afasta dos gentios, v.12b
Quando alguns irmãos da parte de Tiago chegaram à Antioquia, muito provavelmente sem a autorização de Tiago (At 15.1,5,24), Pedro mudou a sua conduta para com os gentios. Paulo diz que Pedro “afastou-se e, por fim, veio a apartar-se”. Não foi uma separação radical, mas paulatina que culminou na separação total. Pedro, pressionado pelo partido judaico, abandonou a mesa dos gentios.
c)       Porque Pedro agiu deste modo, v. 12c. Paulo afirma que Pedro agiu deste modo porque estava “temendo os da circuncisão”. Podemos observar que essa atitude de Pedro apresenta duas atitudes trágicas: (1) o medo fez de Pedro um hipócrita, v.13. A palavra usada para “dissimulação” é “hipocrisia”, tem o sentido de fingimento. A hipocrisia é uma contradição da verdade, especialmente da verdade do evangelho; (2) Pedro influenciou outros a dissimulação, v.13. Paulo diz que a atitude de Pedro, como um líder reconhecido levou outros à dissimulação, entre eles Barnabé, líder da igreja de Antioquia, At 13.1. John Stott conclui: “Pedro e os outros agiram com falta de sinceridade, não por convicção pessoal. Seu afastamento da mesa dos crentes gentios não foi incitado por algum princípio teológico, mas por medo covarde de um pequeno grupo.”

Respeito humano pode por tudo a perder. Pedro, com medo de desagradar os judeus, não somente ofendeu aos gentios, mas comprometeu próprio evangelho.
2.       ATITUDE DE PAULO, v.11,14
A reação de Paulo foi imediata – “quando...vi”. A recusa de Pedro em estar à mesa com os gentios depois da chegada da delegação de Jerusalém deve ter causado profundo impacto nos crentes de Antioquia. Se Paulo recebeu alguma reclamação ou notou por si só a atitude de Pedro, não sabemos, mas o fato é que tão logo viu a cena, interveio.  
a)       Paulo resistiu a Pedro de modo franco e aberto, v.11. A palavra “resisti” tem o sentido de opor-se a. Não é uma oposição motivada por sentimentos baixos, mas tendo em vista a doutrina. Devemos observar que Paulo não fez campanha contra Pedro em sua ausência, mas diante dele, face a face. Calvino diz que Paulo ao repreender Pedro o faz de modo oficial, em pé de igualdade, com base no direito do oficio apostólico. Ainda completa o mestre de Genebra: “sem grosseria, sem ousadia indevida, mas no exercício do poder que lhe fora outorgado por Deus...”.
Esse texto é um franco ataque à ideia da primazia de Pedro na igreja, como alguns defendem bem como uma franca defesa do apostolado paulino.
b)      Paulo repreendeu Pedro publicamente, v.14. O que Paulo fez foi resistir à dissimulação de Pedro de modo público. Ação disciplinadora de Paulo não foi destemperada, mas comedida e na justa medida da afronta, pois Pedro tornara-se “repreensível”. O particípio usado aqui está na voz passiva e literalmente quer dizer “ser condenado”. Pedro condenou-se a si mesmo com suas ações contraditórias. Paulo condena a atitude de Pedro, observando que a mesma representa um desvio da verdade do evangelho. Ele não se intimida pela posição de Pedro como “coluna” da igreja (v.9) e nem mesmo se intimidou por fazê-lo publicamente.
c)       Paulo disciplina Pedro por causa da dicotomia entre doutrina e vida, v.14. A razão pela qual Paulo agiu deste modo é simples – a atitude de Pedro representava um desvio da verdade do evangelho. A frase “procediam corretamente” indica que o modo de agir de Pedro e dos demais não condizia com a doutrina do evangelho. Donald Guthrie comenta que Pedro e os judeus estavam olhando numa direção e andando em outra. Tanto é assim que Pedro procede contra aquilo mesmo que Deus lhe havia ensinado em Cesaréia (At 10), isto é, que sob o evangelho não há restrições raciais (At 10.9-16; cf 11.1-18). Pedro não deixou de crer nessa verdade, somente não a colocou em prática e nesse sentido não andou conforme a verdade do evangelho.
Uma colisão frontal como essa seria evitada a todo custo nos dias de hoje. Contudo, quando a verdade do evangelho é comprometida por causa da conduta de um crente, seja ele quem for, o recurso é a disciplina.
3.       A VERDADE DO EVANGELHO, v.14b
Como diz Stott “o princípio teológico que estava em jogo não era assunto sem importância.” Lutero comenta que Paulo “não estava lidando com um assunto superficial, mas com o artigo principal de toda a doutrina cristã...”. Este é o artigo pelo qual a igreja fica em pé ou cai. Qual é então a verdade do evangelho?
a)       A verdade do evangelho é a justificação: A verdade do evangelho é a de que “nós, pecadores, culpados e sob julgamento de Deus, podemos ser perdoados e aceitos pela sua plena graça, pelo seu favor livre e imerecido, com base na morte de seu Filho e não através de quaisquer obras ou méritos nossos”[1]. Em outras palavras, a verdade do evangelho consiste na doutrina da justificação pela graça e fé somente.
b)      Em que a conduta de Pedro feria a verdade do evangelho: no fato de que os judaizantes buscavam a justificação pela guarda dos preceitos mosaicos, entre eles, a circuncisão, e Pedro ao assentir com isso descuidadamente contradizia o evangelho da justificação pela graça e fé somente, v.15,16.

Warren Wiersbe observou que a reprimenda de Paulo a Pedro foi doutrinária e pelo menos cinco doutrinas são referidas: (1) A unidade da Igreja, v.14; (2) A justificação pela fé, vv.15,16; (3) A liberdade da lei, v.17,18; (4) O próprio evangelho, v.19,20; (5) A graça de Deus, v.21.

Embora as consequências deste conflito não sejam tratadas aqui, parece que isso precipitou o futuro Concílio de Jerusalém em Atos 15.

Conclusão
O que podemos aprender com o conflito entre Paulo e Pedro? Diferente de alguns conflitos indecorosos de colisão de personalidades dos dias de hoje, Paulo estava defendendo a verdade do evangelho. A verdade do evangelho consiste na justificação pela graça e fé somente, à parte das obras. Quando a verdade do evangelho é atacada precisamos defendê-la, sem temores humanos.

Aplicações:
1.       Nossa conduta deve condizer com a nossa doutrina, com a verdade do evangelho.
2.       Devemos nos opor aos que negam a verdade do evangelho


notas da série dos sermões em Gálatas
Comunidade Batista da Graça, Suzano



[1] STOTT, p.53