quarta-feira, 22 de agosto de 2012

SEGUIDORES VOLUNTÁRIOS DE UM LÍDER QUE NÃO MUDA



 Sermão entregue por Charles H. Spurgeon, 
Ministro do Tabernáculo Batista de Londes


O teu povo se apresentará voluntariamente no dia do teu poder, com santos ornamentos: como vindo do próprio seio da alva, será o orvalho da tua mocidade. " (Salmos 110:3; ARC).

Achei difícil entender este texto. Estudei muitos livros esperan­do que poderiam ajudar-me a compreendê-lo. Nenhum deles realmente me ajudou. Então, voltei-me para o Santo Espírito de Deus. Creio que Ele me ajudou a entender o significado deste nosso texto díficil.
O Salmo 110 é como um salmo de coração. Cristo é solicitado para assentar-Se à direita de Deus: "Assenta-te à minha mão direita..." (v. 1). O cetro, que mostra que Cristo éum rei, é colocado em Suas mãos. "O Senhor enviará o cetro da tua fortaleza desde Sião" (v.2). Perguntamos: "Se Cristo é um rei, onde está Seu povo?" Um rei deve governar sobre um povo, ou não é rei algum. Sabemos que Cristo é rei. Ele é o Senhor da criação e de tudo que acontece na terra que Ele fez.
Muitas vezes pregamos para pessoas que têm corações duros. Elas não querem Cristo como seu rei. Às vezes, não temos fé para crer que Cristo achará um povo para Si. Perguntamos: "Onde encontraremos súditos para Seu reino?" Nossos receios dissipam--se quando lemos as duas promessas em nosso texto. A primeira é: "O teu povo se apresentará voluntariamente no dia do teu poder, com santos ornamentos: como vindo do próprio seio da alva". A segunda é:"... (Cristo) será o orvalho da tua mocidade". O texto nos diz que Cristo será rei. Diz também que sempre haverá muitas pessoas no reino de Cristo.
A primeira promessa refere-se ao povo de Cristo. A segunda re.fere-se ao próprio Cristo. Ela nos diz que Cristo sempre será um rei forte e poderoso.

1. A promessa é feita a Cristo. "O teu povo se apresentará voluntariamente no dia do teu poder, com santos ornamentos: como vindo do próprio seio da alva...".
(I). A promessa refere-se a um tempo especial. Cristo não atrairá Seu povo dia após dia. Ele trará Seu povo num dia especial. As pessoas serão levadas ao reino de Cristo "no dia do teu poder". Um homem pode pregar muito bem. As pessoas não serão atraídas pelo poder do pregador. As pessoas que ouvem o sermão podem parecer muito interessadas. O inte­resse das pessoas não as levará para dentro do reino de Cristo. O povo virá no dia do poder de Deus. Quando é esse dia? É o dia quando Deus dá Seu poder ao pregador. Os filhos de Deus serão levados ao reino de Cristo quando o pregador tiver o poder de Deus. O poder para fazer o povo entrar no reino pertence a Deus. Não pertence ao pregador.
Às vezes o pregador do evangelho sente que está proferindo as palavras que Deus lhe deu. A Palavra de Deus é poderosa. As pessoas que estão ouvindo sabem que estão ouvindo a Palavra de Deus, não somente as palavras do pregador. Esta Palavra de Deus vem aos corações das pessoas com grande poder. Algumas sentem que a Palavra é como um martelo batendo em seus corações. Outras sentem que a verdade é como uma flecha que penetra diretamente em seus corações. Essas pessoas não são capazes de resistir à Palavra de Deus. É o dia do poder de Deus em seus corações. O pecador arrependido torna-se um súdito voluntário do reino de Deus. Outras pessoas ouvem as mesmas palavras do pregador, entretanto elas não entram em seus corações. Essas pessoas não lamentam seus pecados. Elas não vêm a Cristo como seu Salvador e Rei. Não é o dia do poder de Deus para elas.
(II). O dia do poder de Deus é muito pessoal. O poder vem para cada pessoa individualmente. E como o dia em que o Senhor disse pessoalmente a Zaqueu: "... desce depressa" (Luc. 19:5). O dia em que Deus opera no coração de cada homem é o dia do poder onipotente de Deus. Nesse dia, não desejaremos discutir com Deus. Nesse dia, o povo de Deus virá a Ele com alegria e voluntariamente. No mundo todo não há poder algum que possa ser comparado ao poder que Deus exerce no coração humano. Deus mostra mais poder quando converte um pecador do que quando criou o mundo.
(III). Nós também ansiamos pelo dia em que Jesus Cristo virá para reinar sobre a terra. Naquela ocasião, toda pregação será com poder. Todo filho de Deus será saciado com o conheci­mento de Deus. Esse dia de poder será muito feliz. Orem para que esse dia de poder possa vir. Peçam a Deus para dar poder a Seu povo. Peçam para que Cristo possa vir rapidamente e encontrar Seu povo voluntário. Há outra tradução das palavras "no dia do teu poder". Essa tradução indica que "o dia do poder de Cristo" será um dia de batalha. Os crente às vezes têmmedo de perseguições. Eles acham que quando os dias forem difíceis, os ministros terão receio de pregar o evangelho. Isso não será verdade. Já houve tempos difíceis na história da Igreja. Nesses momentos críticos Deus sempre teve homens para lutar em Suas batalhas. Deus sempre dará Sua força a Seus homens, e eles lutarão. "O teu povo se apresentará volunta­riamente no dia da batalha de Deus". Se usarmos a outra tradução, as palavras são verdadeiras. De fato, são tão verdadeiras quanto as palavras usadas antes.
2. A promessa diz respeito a um povo. "O teu povo se apresen­tará voluntariamente no dia do teu poder...". Cristo sempre terá um povo. Em tempos de densas trevas, Cristo sempre teve uma Igreja, um povo. Tempos mais sombrios poderão vir no futuro, mas Deus ainda terá uma Igreja. Numa passagem do Velho Testamento, Elias disse: "... eu fiquei só, e procuram tirar-me a vida" (1 Reis 19:10). Elias estava errado. Deus lhe disse que havia sete mil crentes verdadeiros escondidos na nação (1 Reis 19:18). Às vezes pode­mos sentir-nos como Elias. Nós também estaremos errados, porque Deus tem Seu povo em todos os lugares. Haverá alguns num lugar e alguns noutro. Devemos sempre tentar encontrar o povo de Deus. Essas pessoas serão voluntárias no dia do poder de Deus.
(I). A atitude do povo de Deus. Ele é um povo voluntário. A Bíblia nos diz que por natureza os homens não são voluntári­os: "... não quereis vir a mim para terdes vida" (João 5:40). O Senhor Jesus também disse: "Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer" (João 6:40). Estas passagens do Novo Testamento concordam com nossa passagem do Velho Testamento. Todas elas dizem que o povo de Deus será voluntário no dia do poder de Deus. Pelo fato de nenhum homem ser voluntário por natureza, tem que haver uma obra da graça de Deus no coração de um homem. Somente quando houver esta obra da graça os homens serão voluntários no dia do poder de Deus. O povo de Deus deve ser um povo voluntário. Podemos dizer quem são os filhos de Deus pelo fato de serem voluntários. Prego a muitas pessoas diversas vezes. Falo a elas sobre o inferno. Aviso-as para fugirem dele. Falo a elas sobre Cristo, imploro-lhes que olhem para Cristo para serem salvas. Mas às pessoas não estão dispostas a olhar para Cristo. Ou o dia do poder de Deus ainda não veio ou elas não são o povo de Deus. Seu povo será voluntário no dia do Seu poder. Naquele dia, as pessoas confiarão suas vidas à graça de Deus; confiarão em Cristo que morreu na cruz para salvá-las.
O que tornou essas pessoas voluntárias? A única resposta é que a graça de Deus transformou sua relutância em voluntariedade. Se a vontade do homem é livre para agir certo ou errado, por que as pessoas não se voltam para Deus? A razão é que a vontade do homem não é livre. A graça de Deus deve vir e agir no coração, Somente então um homem será voluntário no dia do poder de Deus.
O povo de Deus deseja ser salvo. Assim, as pessoas desejam trabalhar para Deus. Elas vão voluntariamente à casa de Deus para adorá-lO. Elas dão generosamente quando há necessidade de dinheiro na igreja. Elas servem a Deus de várias formas, com alegria e espontaneidade, no dia do poder de Deus.
(II). Devemos notar o caráter desse povo. Ele "se apresentará voluntariamente no dia do teu poder". Ele "se apresentará voluntariamente... com santos ornamentos". Este povo volun­tário estará vestido com santidade. Estará vestido com a justiça, a santidade de Cristo. A graça de Cristo lhe é conce­dida. O povo de Cristo não tem santidade em si próprio. A santidade que tem lhe é dada por Deus. Deus transforma pecadores em santos. Somente o povo cristão tem verdadeira santidade. O povo de Cristo é um povo voluntário e santo.
(III). As próximas palavras são difíceis de se entender: "...como vindo do próprio seio da alva...". O que elas significam? Algumas pessoas dizem que estas palavras significam que o povo de Deus será voluntário desde o início da vida. A passagem não significa isso. De onde virá o povo de Deus? Como deve ser trazido? Você já viu gotas de orvalho de manhã bem cedo? Há muitas. São belíssimas. De onde vieram? A resposta da natureza é que vieram "do próprio seio da alva". O povo de Deus virá dessa mesma forma. Virá de maneira muito rápida e misteriosa, como se viesse "do próprio seio da alva", como as gostas de orvalho. As gotas de orvalho são algo misterioso. Ninguém realmente sabe como vêm. O povo de Deus também vem misteriosamente. Um pregador pode não ser eloqüente ou poderoso. Então, como foram as pessoas convertidas quando este homem pregou? Elas vieram " do próprio seio da alva", misteriosamente. Quem fez as gotas de orvalho? Deus fez a gotas de orvalho. Ele não precisa do homem para ajudá-lO. O povo de Deus é salvo da mesma forma. As pessoas são chamadas por Deus e são trazidas por Deus. Elas são abençoadas por Deus. O povo de Deus vem "do próprio seio da alva".
Vocês já notaram quantas gotas de orvalho há na manhã? Há uma grande quantidade ao mesmo tempo. Todavia tudo é feito silenciosamente. Assim também os filhos de Deus virão "do próprio seio da alva". Nenhuma palavra pode realmente explicar o que isto significa. Vocês podem ficar ao ar livre de manhã cedo, quando o sol está começando a raiar. Os campos estarão brilhando com gotas de orvalho. Vocês perguntarão: "De onde vieram todas essas gotas de orvalho?" A resposta é que vieram "do próprio seio da alva"! Quando muitas pessoas são salvas, quando vocês as vêem vindo de maneira misteriosa e silenciosa, podem compará-las ao orvalho da alva. Vocês perguntam: "De onde vieram essas pessoas remidas?" A resposta é que vieram "do próprio seio da alva."
3. Passemos agora à segunda parte de nosso texto. Na primeira parte, uma promessa foi feita a Cristo sobre Seu povo. Nesta segunda parte, outra promessa é feita a Cristo. "... será o orvalho da tua mocidade". O evangelho é vitorioso porque Cristo tem o orvalho de Sua mocidade. Sempre houve líderes entre os homens. Quando esses líderes eram jovens e fortes, inspiravam os homens com coragem. Então esses líderes envelhecem. Quando estão velhos, não podem mais liderar os homens nas batalhas. O mesmo não acontece com Jesus Cristo. Ele ainda tem o orvalho de Sua mocidade. "Jesus Cristo ontem e hoje é o mesmo, e o será para sempre" (Heb. 13:8). Ele nunca envelhecerá. Nosso líder sempre é um Cristo jovem. Cristo era "sobre todos, Deus bendito para todo o sempre" (Rom. 9:5) em Sua mocidade. Cristo foi então revestido do poder onipotente de Deus. Ele é o mesmo agora. Ele sempre terá o orvalho de Sua mocidade.
(I). Cristo também tem o orvalho de Sua mocidade na ques­tão de doutrina. Outras religiões podem começar muito bem. À medida que passam os anos, essas outras religiões muitas vezes findam. A religião cristã é muito diferente. É tão nova agora quanto o era quando começou. É tão poderosa agora quanto o era quando Paulo a pregou em Atenas ou quando Pedro a pregou em Jerusalém. Centenas de anos se passaram, mas o cristianismo não é uma religião velha. Muitas religiões vieram e se foram desde que o cristianismo começou. Pessoas idosas que há muito tempo conhecem e amam a Cristo, consideram-nO tão precioso quanto quando eram jovens. Elas sabem que Cristo ainda tem o orvalho de Sua mocidade.
(II). Encoraja-nos saber que não pregamos uma religião ultra­passada. Pregamos uma religião que ainda conserva o orvalho de sua mocidade. A mesma religião que pôde salvar três mil pessoas no dia de Pentecoste pode salvar a mesma quantidade de pessoas hoje. Prego doutrina antiga, mas ela é tão nova quanto o era quando foi revelada dos céus. Minha espada é velha, mas não está enferrujada. Não há fraqueza alguma em minha espada. O evangelho tem hoje o mesmo poder que tinha quando ele era jovem. Pedro pregou quando o evangelho era jovem. Muitos pregadores o pregam agora, e Deus lhes dá o mesmo poder que deu a Pedro no princípio. Paulo pregou quando o evangelho era jovem. Muitos como Paulo pregam agora. Timóteo defendia a Palavra de Deus. Muitos como Timóteo defendem a Palavra de Deus agora. O Espírito Santo operou por meio de Pedro, Paulo e Timóteo. O Espírito Santo continua agindo por meio daqueles que pregam e ensinam a Palavra de Deus hoje.
(III). O povo de Cristo acha difícil crer que Cristo ainda tem o orvalho de Sua mocidade. Ele acha que os dias de grandes avivamentos, quando muitas pessoas foram convertidas, já passaram. Nossa incredulidade nos faz pensar que nunca mais veremos coisas extraordinárias. Como somos tolos! Cristo ainda tem o orvalho de Sua mocidade. Ele ainda tem o Espírito Santo de forma ilimitada. Ele deu Seu Espírito Santo a milhares de pessoas. Ele sempre dará Seu Espírito Santo àqueles que vêm a Ele em arrependimento e fé.
Por que, então, as pessoas estão cansadas do evangelho se ele ainda tem o orvalho de sua mocidade? Às vezes é porque o evangelho não vem como o orvalho. O evangelho freqüentemente é pregado de uma forma muito apática. Quando é pregado assim, não tem nenhuma utilidade para os filhos de Deus. Quando o evangelho é pregado com frescor e poder, o povo de Deus nunca se cansa dele. Há um permanente orvalho e frescor envolvendo a pregação poderosa.
(IV). Se Cristo tem o orvalho de Sua mocidade, Seus ministros devem pregar Sua palavra com seriedade. A fé inabalável fará com que um homem pregue poderosamente. Graças a Deus ainda há homens que permanecem firmes na obra de Cristo. Eles pregam como os apóstolos. Cristo não está sem Suas testemunhas hoje. Ele tem o orvalho de Sua mocidade. Vira o dia em que aqueles que hoje são desconhecidos aparecerão para falar corajosamente em nome de Cristo. Supliquem a Cristo para que Seu povo possa ser voluntário no dia de Seu poder. Orem para que Cristo sempre mantenha o orvalho de Sua mocidade. Os cristãos devem lutar por Cristo, seu Rei. Ele ainda é novo e jovem. Se vocês são jovens, deixem que o entusiasmo de sua mocidade permaneça em vocês. Se vocês são mais velhos, deixem que o entusiasmo de sua mocidade volte a vocês. Se Cristo tem o orvalho de Sua mocidade, vocês também devem servi-lO com energia vigorosa. Tentem sertão sérios no serviço de Cristo quanto eram quando O conheceram no princípio.
Que Deus possa transformar muitos pecadores em voluntários. Que Ele possa trazer muitos pecadores a Seus pés. Ele prometeu que Seu povo "se apresentará voluntariamente no dia do teu poder."

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A VERDADE DO EVANGELHO


Sermão n° 5

Silas Roberto Nogueira

Gálatas 2.11-21

INTRODUÇÃO
Nós continuamos no argumento do apóstolo Paulo sobre o evangelho que pregava, mas aqui ele narra um evento considerado um dos mais tensos e dramáticos do Novo Testamento, o seu conflito franco e aberto com Pedro. Wendell Phillips em uma reunião antiescravagista em 1852 declarou: “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. Certamente isso vale para a vida espiritual. Não fosse a vigilância de Paulo a liberdade cristã estaria seriamente comprometida pela atitude do apóstolo Pedro, Barnabé e outros.

O cenário mudou de Jerusalém, a capital do judaísmo, para Antioquia da Síria, centro da missão gentia, onde pela primeira vez os crentes foram chamados cristãos. Há um interessante contraste aqui – quando Paulo visitou Jerusalém os apóstolos estenderam-lhe a destra da comunhão (v.1-10), mas quando Pedro visitou Antioquia, Paulo se lhe opôs face a face (v.11-16).  Isso aconteceu, não porque Pedro tivesse negado o evangelho em sua doutrina, pois Paulo esforçou-se para mostrar que há uma unidade quanto ao evangelho (1-10), mas porque Pedro ofendeu o evangelho com a sua conduta, pois essa conduta foi contradição da verdade do evangelho.  Vamos analisar os versículos e depois extrair algumas aplicações, vejamos:

1.       ATITUDE DE PEDRO, v.12,13
A visita de Pedro a Antioquia da Síria não está relatada em Atos, mas podemos conjecturar que se deu antes do Concílio de Jerusalém. O silêncio certamente indica que o conflito fora resolvido a contento, sem que houvesse mágoa de qualquer uma das partes. A atitude de Pedro, como diz Paulo foi condenável pelo seguinte:
a)       Pedro comia com os gentios, v.12a
Nos dias dos apóstolos as igrejas realizavam uma celebração de comunhão, a festa ágape, quando também realizavam a Ceia do Senhor. Pedro quando de sua visita a Antioquia esteve presente em tais reuniões e manteve comunhão com os gentios, sentou-se à mesa com eles, não fazendo a costumeira separação judaica de não manter comunhão com os gentios. O tempo imperfeito do verbo “comia” indica ação habitual no passado, “comia regularmente com os gentios”. Pedro, um cristão judeu desfrutava da fraternidade dos cristãos gentios. O comportamento de Pedro aqui segue a verdade do evangelho, mas não continuou assim...
b)      Pedro se afasta dos gentios, v.12b
Quando alguns irmãos da parte de Tiago chegaram à Antioquia, muito provavelmente sem a autorização de Tiago (At 15.1,5,24), Pedro mudou a sua conduta para com os gentios. Paulo diz que Pedro “afastou-se e, por fim, veio a apartar-se”. Não foi uma separação radical, mas paulatina que culminou na separação total. Pedro, pressionado pelo partido judaico, abandonou a mesa dos gentios.
c)       Porque Pedro agiu deste modo, v. 12c. Paulo afirma que Pedro agiu deste modo porque estava “temendo os da circuncisão”. Podemos observar que essa atitude de Pedro apresenta duas atitudes trágicas: (1) o medo fez de Pedro um hipócrita, v.13. A palavra usada para “dissimulação” é “hipocrisia”, tem o sentido de fingimento. A hipocrisia é uma contradição da verdade, especialmente da verdade do evangelho; (2) Pedro influenciou outros a dissimulação, v.13. Paulo diz que a atitude de Pedro, como um líder reconhecido levou outros à dissimulação, entre eles Barnabé, líder da igreja de Antioquia, At 13.1. John Stott conclui: “Pedro e os outros agiram com falta de sinceridade, não por convicção pessoal. Seu afastamento da mesa dos crentes gentios não foi incitado por algum princípio teológico, mas por medo covarde de um pequeno grupo.”

Respeito humano pode por tudo a perder. Pedro, com medo de desagradar os judeus, não somente ofendeu aos gentios, mas comprometeu próprio evangelho.
2.       ATITUDE DE PAULO, v.11,14
A reação de Paulo foi imediata – “quando...vi”. A recusa de Pedro em estar à mesa com os gentios depois da chegada da delegação de Jerusalém deve ter causado profundo impacto nos crentes de Antioquia. Se Paulo recebeu alguma reclamação ou notou por si só a atitude de Pedro, não sabemos, mas o fato é que tão logo viu a cena, interveio.  
a)       Paulo resistiu a Pedro de modo franco e aberto, v.11. A palavra “resisti” tem o sentido de opor-se a. Não é uma oposição motivada por sentimentos baixos, mas tendo em vista a doutrina. Devemos observar que Paulo não fez campanha contra Pedro em sua ausência, mas diante dele, face a face. Calvino diz que Paulo ao repreender Pedro o faz de modo oficial, em pé de igualdade, com base no direito do oficio apostólico. Ainda completa o mestre de Genebra: “sem grosseria, sem ousadia indevida, mas no exercício do poder que lhe fora outorgado por Deus...”.
Esse texto é um franco ataque à ideia da primazia de Pedro na igreja, como alguns defendem bem como uma franca defesa do apostolado paulino.
b)      Paulo repreendeu Pedro publicamente, v.14. O que Paulo fez foi resistir à dissimulação de Pedro de modo público. Ação disciplinadora de Paulo não foi destemperada, mas comedida e na justa medida da afronta, pois Pedro tornara-se “repreensível”. O particípio usado aqui está na voz passiva e literalmente quer dizer “ser condenado”. Pedro condenou-se a si mesmo com suas ações contraditórias. Paulo condena a atitude de Pedro, observando que a mesma representa um desvio da verdade do evangelho. Ele não se intimida pela posição de Pedro como “coluna” da igreja (v.9) e nem mesmo se intimidou por fazê-lo publicamente.
c)       Paulo disciplina Pedro por causa da dicotomia entre doutrina e vida, v.14. A razão pela qual Paulo agiu deste modo é simples – a atitude de Pedro representava um desvio da verdade do evangelho. A frase “procediam corretamente” indica que o modo de agir de Pedro e dos demais não condizia com a doutrina do evangelho. Donald Guthrie comenta que Pedro e os judeus estavam olhando numa direção e andando em outra. Tanto é assim que Pedro procede contra aquilo mesmo que Deus lhe havia ensinado em Cesaréia (At 10), isto é, que sob o evangelho não há restrições raciais (At 10.9-16; cf 11.1-18). Pedro não deixou de crer nessa verdade, somente não a colocou em prática e nesse sentido não andou conforme a verdade do evangelho.
Uma colisão frontal como essa seria evitada a todo custo nos dias de hoje. Contudo, quando a verdade do evangelho é comprometida por causa da conduta de um crente, seja ele quem for, o recurso é a disciplina.
3.       A VERDADE DO EVANGELHO, v.14b
Como diz Stott “o princípio teológico que estava em jogo não era assunto sem importância.” Lutero comenta que Paulo “não estava lidando com um assunto superficial, mas com o artigo principal de toda a doutrina cristã...”. Este é o artigo pelo qual a igreja fica em pé ou cai. Qual é então a verdade do evangelho?
a)       A verdade do evangelho é a justificação: A verdade do evangelho é a de que “nós, pecadores, culpados e sob julgamento de Deus, podemos ser perdoados e aceitos pela sua plena graça, pelo seu favor livre e imerecido, com base na morte de seu Filho e não através de quaisquer obras ou méritos nossos”[1]. Em outras palavras, a verdade do evangelho consiste na doutrina da justificação pela graça e fé somente.
b)      Em que a conduta de Pedro feria a verdade do evangelho: no fato de que os judaizantes buscavam a justificação pela guarda dos preceitos mosaicos, entre eles, a circuncisão, e Pedro ao assentir com isso descuidadamente contradizia o evangelho da justificação pela graça e fé somente, v.15,16.

Warren Wiersbe observou que a reprimenda de Paulo a Pedro foi doutrinária e pelo menos cinco doutrinas são referidas: (1) A unidade da Igreja, v.14; (2) A justificação pela fé, vv.15,16; (3) A liberdade da lei, v.17,18; (4) O próprio evangelho, v.19,20; (5) A graça de Deus, v.21.

Embora as consequências deste conflito não sejam tratadas aqui, parece que isso precipitou o futuro Concílio de Jerusalém em Atos 15.

Conclusão
O que podemos aprender com o conflito entre Paulo e Pedro? Diferente de alguns conflitos indecorosos de colisão de personalidades dos dias de hoje, Paulo estava defendendo a verdade do evangelho. A verdade do evangelho consiste na justificação pela graça e fé somente, à parte das obras. Quando a verdade do evangelho é atacada precisamos defendê-la, sem temores humanos.

Aplicações:
1.       Nossa conduta deve condizer com a nossa doutrina, com a verdade do evangelho.
2.       Devemos nos opor aos que negam a verdade do evangelho


notas da série dos sermões em Gálatas
Comunidade Batista da Graça, Suzano



[1] STOTT, p.53