sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Volta difícil


e então eu me fui, 
me fui pra tão longe de mim mesmo
que ficou difícil voltar
Mas não queria mais prosseguir...
Parei no meio do caminho
Entre o que eu era e o que me tornaria
Notei aí que não era o que sempre pensei que fora
Notei também que voltar é difícil
Pois os que me conheceram pelo que não era
Gostam mais do que não sou 
E eu, eu agora gosto do que era
Não do que nunca fui, como antes pensava. 
Mas, decidi voltar a bem de mim mesmo.
Silas

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ


Notas do sexto sermão da Série em Gálatas

Silas Roberto Nogueira

Gálatas 2.15-21

INTRODUÇÃO

Vimos em nosso estudo anterior (vv.11-14) que conduta de Pedro em apartar-se dos gentios por causa dos judaizantes revelou uma desconformidade com “a verdade do evangelho”, qual seja a justificação pela fé. Nos dias atuais pouco se ouve falar sobre o assunto, embora seja um tema de suma importância. Paulo imprimiu o selo apostólico sobre tal artigo como “a verdade do evangelho”. Lutero, séculos mais tarde, consideraria a justificação pela fé como “o artigo principal”, “o mais importante”, “o mais especial” de toda a doutrina cristã. Certa vez declarou Lutero que “se o artigo da justificação for alguma vez perdido, então toda a verdadeira doutrina ficará perdida”. Para Calvino a justificação pela graça mediante a fé era o “ponto principal sobre o qual a religião se sustém” e por isso mesmo devíamos “devotar-lhe maior atenção e cuidado”. Os puritanos entenderam que a doutrina da justificação era muito vulnerável e somente a graça de Deus poderia impedir que ela fosse esquecida. Vale a pena entender a razão pela qual os puritanos pensavam assim, como introdução ao assunto[1]:
·         Os puritanos entendiam a justificação como “um mistério do evangelho”. Seguindo o raciocínio apostólico entendiam que a justificação era uma revelação divina por meio da graça. Como tal é duplamente humilhadora, primeiro humilha o orgulho intelectual, porque jamais poderia ter sido criada ou desenvolvida pela razão religiosa. Depois, humilha o orgulho moral por declarar que todos os homens são impotentes e destituídos de esperança no tocante ao pecado. Assim sendo, o mistério da justificação é ameaçado continuamente pelo orgulho humano.
·         Os puritanos entendiam a justificação como “um mistério coroador” .  O puritano Robert Traill declarou: “todos os grandes fundamentos da verdade cristã têm por centro a justificação.” A suficiência das Escrituras, a Trindade, a encarnação de Cristo e a suficiência de Sua obra expiatória “são todas elas linhas diretas da verdade, que tem por centro essa doutrina da justificação...”. Portanto, quando perdemos a justificação perdemos todas as outras doutrinas, mas o contrário também é verdade. Quando se nega a autoridade das Escrituras, a ira de Deus, a expiação, retira-se a base para se aceitar a justificação pela fé.  Assim sendo, o mistério da justificação é ameaçado continuamente pela teologia herética.
·         Os puritanos entendiam a justificação como “um mistério espiritual”. A implicação disso é que a doutrina da justificação só pode ser apreciada pela consciência iluminada pelo Espírito e que foi convencida do seu pecado. Robert Traill queixou-se que muitos que nunca tiveram os seus corações e consciências “exercitados no tema” tivessem tomado a pena e escrito sobre o assunto. Assim sendo, o mistério da justificação é continuamente ameaçado pela frivolidade espiritual, destemor e falta seriedade e de experiência na aproximação a Deus que alguns homens têm.
·         Os puritanos entendiam a justificação como “um mistério doador de vida”. Para eles a fonte de toda a verdadeira paz, esperança, amor, alegria, santidade e segurança era a justificação. Não é justamente o que afirma Paulo em suas Epístolas, especialmente aqui, que a justificação é a fonte de sua nova vida, 2.20. Assim sendo, o mistério da justificação é continuamente ameaçado pela hostilidade satânica, como o entendia Lutero. O diabo envida todos os esforços para suprimir a verdade do evangelho.
·         Os puritanos entendiam a justificação como “um mistério contestado”. A religião humana é caracterizada pela justificação por meio das obras. A trindade teológica que milita contra o ensino apostólico é o pelagianismo, o arminianismo e o romanismo.  Assim sendo, o mistério da justificação é continuamente ameaçado pela religião natural dos homens.

Precisamos estar atentos, pois como disse Thomas Watson “um erro sobre a justificação é algo perigoso, como um defeito em uma fundação. A justificação dada por Cristo é a fonte e água da vida. Ter veneno doutrinário vazando nessa fonte é algo terrível”.  Passemos ao exame do texto e depois a algumas aplicações:

1.  A NECESSIDADE DA JUSTIFICAÇÃO, v.15,16
v.15,16 – A complexa frase de Paulo aqui com mais de 50 palavras quer simplesmente dizer que não importa se você é judeu ou gentio, a justificação é pela graça de Deus mediante a fé. Calvino está certo em dizer que nesta única proposição está contida toda a controvérsia que deu origem à carta. Faremos bem em observá-lo mais acuradamente:
a)       A necessidade humana da justificação. A maior necessidade do homem não é saúde, prazer, riquezas ou poder, mas a salvação. A maior tragédia humana é estar alienado de Deus e sob sua ira, Rm 1.18. Não há mal maior que o pecado, pois nada separa o homem de Deus senão o pecado. O homem carece urgentemente da justificação, pois não pode lidar com o pecado, não pode salvar-se a si mesmo, não pode deixar a sua condição de condenado, de filho da ira. O patriarca Jó formulou a mais importante pergunta do Velho Testamento: “como pode o homem ser justo para com Deus?” (9.2). O fato é que não pode (Sl 14.1-3). Deixado à mercê de si mesmo o homem certamente perecerá em seus delitos e pecados, Ef 2.2 segs.
b)        Deus tem que suprir a necessidade humana de justificação. É a primeira vez que Paulo usa o termo “justificado”. Paulo toma o termo por empréstimos do mundo jurídico, forense. O sentido do termo é a absolvição da culpa por parte do juiz após julgamento (Dt 25.1). O termo usado pelo apóstolo Paulo está na voz passiva, indica que o homem sofre a ação e que Deus é o agente da justificação, Rm 8.33. Teologicamente definimos a justificação como “um ato da livre graça de Deus em que ele perdoa todos os nossos pecados e nos aceita como justos em sua presença, mas apenas por meio da retidão de Cristo imputada a nós e recebida somente pela fé.[2] A justificação é algo que Deus faz por nós, não em nós. A justificação não afeta nossa condição, mas nossa posição.
c)       A justificação é pela graça. Se a justificação não pode ser obtida mediante as obras, logo que fica estabelecido o fato de que ela é algo que Deus concede aos homens, portanto a justificação é pela graça, Rm 3.24.  
d)       A justificação é mediante a fé. Paulo estabelece um importante contraste – obras da lei versus fé em Cristo. Paulo estabelece como a verdade do evangelho que a justificação é mediante a fé em Cristo, pois as obras da lei não podem obter a homem nenhum a justiça que Deus exige ou requer. Não somos salvos pela fé, mas pela graça mediante a fé, Ef 2.8,9. A fé não é a causa meritória, mas a causa instrumental da justificação. Nós nos apropriamos da justificação pela fé.
e)       A justificação é por meio de Cristo. Ele obteve a justificação para nós. Deus não aceita nenhuma obra senão a perfeita obra de Cristo. Cristo entregou-se pelos nossos pecados, 1.4; 3.13,14

2.  A SUFICIÊNCIA DA JUSTIFICAÇÃO, v. 17,18
v. 17,18. O versículo 17 é particularmente difícil de interpretar.  Paulo propõe aqui uma pergunta retórica para chamar à razão os crentes da galácia. Argumento de Paulo é – se cremos em Cristo para nossa justificação mediante a fé sem as obras da lei estamos livres da condenação da lei, pois Cristo não nos levaria a pecar contra Deus. No ver.18 o argumento de Paulo é se nós, que buscamos a justificação em Cristo pela fé, nos voltarmos para as obras da lei como meio de justificação aí sim estamos pecando. O que podemos observar aqui?
a)       A justificação pela graça mediante a fé não é uma ocasião à indolência, v. 17 É bem possível que alguns judeus estivessem acusando Paulo de que a sua doutrina da justificação pela graça mediante a fé servia como uma ocasião ao pecado, à quebra da lei. Paulo responde dizendo que se isso fosse verdade Cristo seria um ministro do pecado, o que é uma blasfêmia. Cristo veio para destruir o pecado (1 Jo 3.8), não para estabelece-lo. A justificação não é uma porta aberta ao pecado, mas uma avenida para a santificação, 1 Co 6.11.
b)       A justificação pela graça mediante a fé em Cristo é completa, suficiente, v.17. Paulo afirma a suficiência da obra de Cristo em justificar aqueles que nEle creem à parte das obras. O argumento dos judaizantes era que a obra de Cristo não era suficiente para a salvação (At 15.1,5) e exigiam a obediência aos ritos judaicos. Paulo, entretanto, refuta esse raciocínio dizendo que sujeitar-se a tais prescrições é que se constituía pecado. Se Cristo não é suficiente para salvar-nos nada poderia sê-lo.

3. AS CONSEQUÊNCIAS DA JUSTIFICAÇÃO, v 19-21
v.19-21. No v. 19 Paulo argumenta que assim como Cristo pagou os seus pecados na cruz do calvário, ele estando em Cristo está morto para a lei. Isto é, ela não tem poder sobre ele, visto que ele está morto com Cristo. No v.20 Paulo confessa-se uma nova criatura em Cristo, não mais sujeita à condenação do pecado, pois Cristo entregou-se por Ele. No v.21 Paulo afirma que a atitude de Pedro é como uma anulação do que Cristo fez por ele. Os que buscam salvar as suas vidas na base do mérito pessoal estão descartando a graça de Deus oferecida em Cristo, como se o seu sacrifício tivesse sido em vão. O que podemos observar aqui:
a)       A justificação é a fonte de uma nova vida, v.19. Regeneração e justificação são coisas diferentes. A primeira é um ato de Deus em nós, a segunda é o julgamento de Deus a nosso respeito. A nova vida mencionada aqui não é a regeneração, mas a vida sob o controle de Deus. O que Paulo diz aqui é que se ele está morto a lei não tem poder sobre ele, pois a lei só tem poder enquanto uma pessoa está viva, Rm 7.1. Paulo ilustrou o que diz aqui com uma analogia do casamento, Rm 7.2-11. Assim como a morte dissolve o vínculo entre marido e mulher, assim a morte do crente com Cristo rompe o jugo da lei. Deste modo o crente está livre para unir-se com Cristo e viver uma nova vida. 
b)      A justificação é a fonte de uma nova vida santa, v. 20. A justificação capacita-nos a nos relacionarmos com Deus, pois remove a condenação que pesava sobre nós. Mas justificação não é santificação. A justificação é um ato, a santificação é um processo. Na justificação o pecado é perdoado, na santificação o pecado deve ser mortificado. O que Paulo quer dizer aqui é que a sua vida era animada pelo poder de Deus no seu homem interior. Calvino diz que Cristo vive em nós de duas maneiras: (1) uma consiste em governar-nos por meio do Seu Espírito Santo dirigindo-nos em todas as nossas ações e (2) a outra consiste em fazer-nos partícipes da sua justiça de modo a sermos aceitos por Deus.  
c)       A justificação é a fonte de uma nova vida confiando na graça, v. 21. Um cristão deve viver sempre confiando na graça divina.  Uma vida baseada nos esforços pessoais é um flagrante desprezo da graça divina.
Conclusão
Quais as lições que aprendemos aqui?
·         Justificação é a nossa maior necessidade
·         Justificação é obra de Deus
·         Justificação é pela graça mediante a fé em Cristo
A pergunta é: você já recebeu a justificação de Deus?



[1] PACKER, J. I., Entre os gigantes de Deus, p.162 segs.
[2] Pergunta 33 do Breve Catecismo de Westminster.