segunda-feira, 5 de novembro de 2012

PAIXÃO PELA GLÓRIA DE DEUS


Silas Roberto Nogueira

Notas do sermão por ocasião da Comemoração da Reforma





Calvino é uma das poucas pessoas na história do cristianismo que é ou muito apreciado ou absolutamente desprezado. Calvino nunca foi uma unanimidade e certamente não o será. A verdade é que pouco esforço fazia para ser agradável aos homens, buscava mesmo ser agradável a Deus.

Quem foi João Calvino?

Veja artigo biográfico aqui

Calvino é um reformador de segunda geração. Nasceu em Noyon em 1509, França e morreu em 1564, em Genebra. A princípio seu pai queria que seguisse carreira eclesiástica, depois jurídica, mas Deus tinha outros planos para João. Não sabemos muitos detalhes de sua vida. Sabemos que por volta de 1533 já havia tido um encontro com Cristo e vemo-lo envolvido com a causa da reforma. Fugindo da França, abriga-se em Estrasburgo. Ao saber disso, Farel, outro nome entre os grandes, o busca e sob pena de maldição o leva à Genebra (1536, aos 26 anos) para levar avante a causa da Reforma. Calvino é considerado o cérebro da Reforma, foi pastor, pregador, escritor, missivista e aquele que fez de um lugar obscuro como era Genebra “a mais perfeita escola de Cristo”. 

A reforma sob Calvino avançou mais?

Joel Beeke diz que Calvino foi além de Lutero pelo menos em quatro áreas:

(a) Sua compreensão da ceia do Senhor.
Lutero desenvolveu a teoria da consubstanciação, Calvino avançou ao conceito de meio de graça, embora memorial.

(b) Sua compreensão do culto
Lutero manteve muito da missa católica; Calvino aboliu do culto todo o que não estava de acordo com as Escrituras.

(c) Sua compreensão da justificação
Lutero avançou da salvação por obras à justificação pela fé, Calvino por sua vez avançou daí para a questão de como deve viver aquele que foi justificado.

(d) Sua compreensão da evangelização do mundo
Calvino começou a olhar como seria possível evangelizar o mundo. Com a bênção de Calvino em 1555 chegou ao Brasil o Pr Jean Jaques Le Balleur (João Bollés), em 21 de março de 1557 ele celebrou a primeira ceia aqui e em 1567 ele foi morto por Anchieta no Rio de Janeiro. 

Quais são os enfoques mais importantes do ministério de Calvino?
Quando falamos o nome de Calvino o que vêm à sua mente? Qual o assunto ou tema teológico que você se lembra? Se for a predestinação, lamento dizer, mas você conhece pouco de Calvino.  Certo estudioso do assunto disse que a predestinação ocupa cerca de 30% da teologia de Calvino. Portanto, a predestinação não é o centro da teologia de Calvino. Mas, se não é esse o assunto central qual seria?


PAIXÃO PELA GLÓRIA DE DEUS

Quando B. B. Warfield referiu-se a Calvino numa certa oportunidade disse: “nenhum homem teve um senso tão profundo de Deus como ele”. Essa é a primeira ênfase do ministério de Calvino. 

a)     Calvino rendeu seu coração a Deus:
Num resumo das Institutas escrito em 1536 Calvino declara: não se pode achar a vida eterna e imortal em parte alguma, exceto em Deus. Segue-se, então, que o principal cuidado e interesse da nossa vida devem consistir em buscar Deus com todo o afeto dos nossos corações, e não pretender encontrar descanso e paz em lugar nenhum, senão unicamente nEle. Essa afirmação de Calvino deve ser colocada num contexto que deixava de acreditar num mundo teocêntrico, mas adotava o antropocentrismo, o florescer do humanismo. Para Calvino Deus é soberano, domina sobre tudo e nada está fora do Seu poder e conhecimento. Buscar conhecer esse Deus produz certeza e firmeza espiritual é algo essencial... é algo que estabelece em nós uma piedade sólida... Calvino foi expulso de Genebra e depois de alguns anos (13 de setembro de 1541) foi chamado de volta e sabia as lutas e sofrimentos que o aguardavam, porém numa carta a Farel escreveu ele: quando me lembro que não pertenço a mim mesmo, ofereço meu coração como um sacrifício ao Senhor.  Calvino era um homem cuja paixão era a glória de Deus, numa oração aos 30 anos disse: "Ó Deus, o alvo a que dei primazia, e para o que diligentemente trabalhei, foi que a glória da tua bondade e da tua justiça (...) pudessem resplandecer claramente, para que a virtude e as bênçãos do teu Cristo (...) sejam plenamente expostas".

b)     Calvino rendeu sua mente a Cristo:
Por ter uma tão elevada concepção de Deus, Calvino desenvolveu uma doutrina do pecado que afirmava a Total Depravação do homem “uma depravação e corrupção hereditária de nossa natureza, difundida em todas as partes da alma, que primeiramente nos torna sujeitos à ira de Deus e depois também produz em nós aquelas obras que a Escritura chama de ‘obras da carne’” (Inst., 2.1.8). Contudo, Deus por sua infinita graça e misericórdia providenciou um Redentor, Cristo Jesus, como diz Calvino “Se Cristo não tivesse trazido ajuda, toda a raça humana pereceria”.  Tendo rendido sua mente a Cristo desenvolveu o conceito da obra tríplice de Cristo como Profeta (Ungido para ser Arauto e testemunha da graça de Deus), Rei (vice-regente de Deus no governo do mundo) e Sacerdote (único Mediador). Reunindo em Si essa três funções Cristo é apresentado como o único que pode salvar, por isso alertava Calvino: “visto que a nossa salvação inteira, em todas as suas várias partes, é compreendida em Cristo, tomemos cuidado para não esperar a mínima partícula dela de qualquer outra fonte”.

c)      Calvino rendeu sua vida ao Espírito:
Calvino via o governo do Espírito Santo nos homens como uma necessidade por causa do pecado: “por causa da insolência e fraqueza que há em nós, temos de ser governados pelo Espírito de Deus, que é a chave mestra que nos abre as portas do Paraíso.” (Sermões em Efésios) Calvino via a obra do Espírito no homem de modo duplo: O Espírito de Deus realiza uma obra dupla em relação à nossa fé. Ele nos ilumina para fazer-nos entender as coisas que, doutro modo, ficariam ocultas para nós e para recebermos as promessas... essa é a primeira parte da obra. A segunda é que o mesmo Espírito se agrada em habitar-nos e dar-nos perseverança.... (Sermões em Efésios). Para Calvino o Espírito Santo é o meio pelo qual Cristo nos une a Si mesmo. Calvino falava do Espírito como renovador e o doador dos dons, dizia ele: devemos rogar a Deus que nos renove e nos fortaleça pelo Seu Espírito Santo; e aumente cada vez mais seus dons em nós...

Meu amado irmão se, porventura quisermos uma reforma temos que entregar nosso coração a Deus, nossa mente a Cristo e nossa vida ao Espírito Santo – em outras palavras, temos que nos render, como Calvino, à atuação do Deus Triúno Soberano. O que precisamos desesperadamente hoje é de um senso mais profundo acerca de Deus.


PAIXÃO PELA SANTIDADE DE DEUS

A concepção de Calvino acerca de Deus era muito elevada, Deus não é somente soberano, Ele é santo. Ora, os eleitos de Deus devem manifestar em suas vidas a santidade de seu Pai.
a)      Fervor em perseguir a santificação: Calvino insistia que os crentes deviam ser fervorosos em perseguir a santificação manifesta em obediência: visto que o Pai nos reconciliou consigo em Cristo, Ele nos ordena que sejamos conformados com Cristo, o nosso modelo. A menos que nos dediquemos, com fervor e oração, em seguir a retidão de Cristo, não somente nos rebelamos infielmente contra nosso Criador, mas também O abjuramos como nosso Salvador. Se Deus é nosso Pai, devemos nos comportar como seus filhos.

Calvino nada sabia do ensino do crente carnal: o apóstolo nega que alguém conheça realmente a Cristo e não tenha aprendido a despojar-se do velho homem, que se corrompe com as concupiscências do engano, e a revestir-se de Cristo. Para Calvino, tanto como para Paulo, deveríamos perseguir a perfeição: a perfeição deve ser o objetivo final... o alvo pelo qual nos empenhamos.

b)     Perfeição absoluta: Mas ao mesmo tempo em que insistia na busca pela perfeição Calvino advertiu contra estabelecermos um padrão muito elevado para outros crentes: não devemos insistir na absoluta perfeição do evangelho em nossos irmãos, por mais que nós mesmos nos esforcemos por essa perfeição. Devemos ser severos contra nós mesmos, mas misericordiosos para com os outros.

c)      A cruz que devemos suportar: Calvino via a cruz como auto renúncia: ninguém nega corretamente a si mesmo, se não se entrega por completo ao Senhor e está disposto a confiar cada detalhe à boa vontade dele. A cruz segundo Calvino era aceitar das mãos de Deus as contradições da vida, o sofrimento. Mas, não é algo que simplesmente vem sobre nós, é algo que tomamos voluntariamente. Quando foi convidado a voltar a Genebra que o havia expulsado sob cusparadas, podia ter se recusado, mas como não julgava a sua vida como sua, aceitou voluntariamente o tremendo desafio. Para Calvino a cruz nos torna humildes (segundo Calvino o sofrimento nos despoja de toda autoconfiança), esperançosos (Calvino cita Paulo, Romanos 5.3,4), obedientes (segundo Calvino Deus por meio do sofrimento nos ensina a obedecer) e disciplinados ( diz Calvino que o Grande Médico sabe como cuidar de todos os seus pacientes) – em outras palavras, o sofrimento produz santificação. No fim da sua vida, orou Calvino: “Senhor, eu retenho a minha língua porque sei que isto vem de ti. Eu estou chorando como um cão. Tu tens me moído e me transformado em pó, mas isto me basta porque compreendo que é a Tua vontade. Quero oferecer-Te meu corpo e minha alma de forma pronta e sincera”

Meu amado irmão, se, eventualmente, quisermos uma reforma ou avivamento temos que fervorosamente buscarmos manifestar o caráter dAquele que confessamos como Pai até mesmo em meio aos sofrimentos da vida.  


PAIXÃO PELA PALAVRA DE DEUS

Calvino tinha uma profunda paixão pela Palavra de Deus. Primeiro ele cria firmemente na autoridade das Escrituras, segundo ele: as Escrituras vieram do céu. Philip Schaff, respeitado historiador da igreja, escreveu que “Calvino possuía a mais profunda reverência pelas Escrituras como a Palavra de Deus vivo e como a única infalível e suficiente regra de fé e obediência”. Segundo, Calvino cria que o que torna o cristianismo singular é o fato de que Deus nos falou: “O princípio que distingue a nossa religião de todas as outras é o conhecimento que possuímos de que Deus nos falou”. Não existe outro Deus que fale a não ser o nosso Deus (Is 46.5-11). Daí o seu alto conceito da exposição da Palavra. A paixão pela Palavra de Deus fez de Calvino um excepcional expositor, vejamos algumas características de sua pregação:

1.      Pregação expositiva: Calvino era acima de tudo um expositor da Palavra. Alister McGrath declara que a autoridade de Calvino não fluía de sua posição política ou posição social, sua influência procedia de sua “considerável autoridade pessoal como pregador”. O que é pregação expositiva? Uma resposta simples é: leitura do texto bíblico, explicação do mesmo e a aplicação àqueles que ouvem, tudo isso sob a unção do Espírito Santo. Era justamente isso que Calvino fazia. Pregava de modo simples, direto e sob a unção de Deus. Ele não ia ao púlpito com suas ideias e argumentos.

2.      Exposição sequencial: o método de Calvino consistia em pregar sistematicamente sobre livros inteiros da Bíblia. Esse método é chamado lectio contínua. Ele expôs todo o livro de Gênesis, Deuteronômio, Jó, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, os profetas , os Evangelhos, Atos, Coríntios, Gálatas, Efésios, 1 e 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo, Tito e Hebreus.

No século passado Dr Lloyd-Jones ficou conhecido por suas exposições magistrais lectio continua em Romanos (13 anos), Efésios (5 anos), Filipenses, 2 Pedro, 1 João, etc. Atualmente John MacArthur e Mark Dever têm se destacado como expositores que seguem essa metodologia.


3.       Exposição direta: Calvino era notoriamente direto e centrado no ensino principal do texto. Não desperdiçava palavras, começava revisando o sermão anterior estabelecia o contexto da passagem que seria abordada e como o texto se enquadrava no argumento de todo o livro. Depois, lia e expunha versículo por versículo.

4.      Exposição apaixonante: Calvino tinha paixão em alcançar os perdidos e seus sermões pretendiam alcançar o coração dos homens, apelando ao pecador para que se arrependesse e cresse em Cristo. Não era incomum antes de finalizar seus sermões apelar aos perdidos.
5.      Exposição que exalta a Deus: Calvino era doxológico em sua conclusão. Seus sermões eram teocêntricos, não deixava o púlpito sem exaltar a Deus e instar que seus ouvintes se rendessem à supremacia dEle.

Meus irmãos, o que temos visto hoje é o completo desprezo pela pregação. E, como dizia Calvino, quando a pregação é desprezada, Deus é desprezado. Reforma acontece quando recobramos o alto conceito da Palavra de Deus, pois é por meio dela que Ele nos tem falado. 


Calvino é um daqueles homens que é mais fácil caluniar do que imitar. Não sofremos de calvinolatria e nem de calvinofobia, pois nenhuma das duas posições é correta. Vemos Calvino como homem, portanto sujeito às mesmas falhas comuns aos homens, mas vemo-lo também como servo de Deus cuja paixão era a Sua glória. Se hoje conseguimos ver mais longe é porque estamos sobre os ombros de um gigante cujo nome é João Calvino.

Contudo, assim como Lutero, Calvino não promoveu uma reforma completa, ele continuou a edificar sobre aquilo que outros começaram. Exatamente como ele fez, cabe-nos fazer.