quarta-feira, 21 de novembro de 2012

CASAMENTO MISTO - Uma Ameaça à Família da Aliança


Silas Roberto Nogueira



 



Malaquias 2:10 a 16 (vv.10 a 13)



O v. 10 serve como uma introdução ao assunto que Malaquias pretende tratar. Há uma denúncia aqui sobre a deslealdade generalizada do povo, do sacerdote ao camponês. E Malaquias faz questão de mostrar que isso se dá por causa do fracasso espiritual do povo. Não é uma questão puramente social, isto é, não é uma questão do desenvolvimento de politicas públicas, não era uma questão meramente econômica ou mesmo educacional. O cerne mesmo da questão era o relacionamento com Deus. O puritano Mathew Henry comentou sobre esse versículo o seguinte – aquele que é falso com Deus não será fiel ao seu semelhante. Assim, o que rege a vida de um homem é a sua teologia. Uma prática corrupta é fruto de princípios corruptos.

Malaquias faz então um movimento, deixa o geral e parte para o específico. Lloyd-Jones sempre usava este método e dizia que este era o método bíblico. Nos versículos subsequentes ele tratará das questões familiares, especialmente do casamento misto e do divórcio. O princípio é o mesmo, mas aplicado à vida familiar. O profeta vai ao cerne do problema, a família. Nenhum problema social tem origem fora da família. O que Malaquias diz aqui é que a estabilidade da sociedade depende da estabilidade da família. Mas acima disso, a estabilidade da família depende da estabilidade do nosso relacionamento com Deus. Por isso Thomas Watson declarou “O amor de Deus amarra com tanta força os laços do matrimônio que nem a morte nem o inferno podem desatá-los.”

A estabilidade do nosso relacionamento com Deus se mede em nossa obediência para com a Sua Palavra, especialmente no que se refere à constituição de uma família. E a primeira coisa que devemos saber sobre a constituição de uma família é que não devemos nos unir a um incrédulo. Era exatamente aqui que o povo da aliança estava errando e era contra isso que Malaquias levantava a sua voz. Mas por que o casamento misto é condenado nas Escrituras? Há pelo menos três razões, vejamos:


CASAMENTO MISTO VIOLA A ALIANÇA COM DEUS, v.10b

A primeira coisa que devemos saber é que o casamento misto é uma violação da nossa aliança com Deus. Quando entramos num relacionamento com Deus esse relacionamento é chamado aliança ou pacto. Deus fez aliança com Abraão (Gn 15.18) e quando redimiu seu povo da escravidão o fez por causa da aliança com ele (Ex 6.5) e a implicação disso é que Ele seria o nosso Deus e nós o seu povo peculiar (Ex. 6.7; 19.5). Nessa aliança o povo se obrigava a obedecer a seus termos e um desses termos referia-se ao casamento misto, Ex 34.11-17; Dt 7.3,4. Portanto, ao casar-se com um pagão o judeu estava violando os termos da aliança com Deus. Talvez você diga “ah, mas isso se refere aos crentes do Velho Testamento e nós somos do Novo Testamento, não estamos debaixo da lei, mas da graça e tais proibições não nos dizem respeito!”. O que posso dizer a você é que os crentes do Novo Testamento estão igualmente aliançados com Deus em termos muito parecidos com os crentes do Velho Testamento e o sangue de Cristo selou a nova aliança, uma aliança chamada “superior” (Hb 7.22). Os termos da nova aliança também implicam em obediência e igualmente implicam em casar-se com alguém que partilha a mesma fé, 2 Co 6.14; 1 Co 7.39). Portanto, seja no Velho ou no Novo Testamento, casar-se com incrédulo é violar a aliança com Deus. A desobediência é pecado grave, comparado mesmo à feitiçaria, 1 Sm 15.23. Quando quebramos um mandamento, somos culpados de violar todos os mandamentos e é preciso que saibamos que nenhum desobediente terá parte no Reino de Deus.

Nunca se una a alguém que se recuse unir-se a Cristo. John MacArthur conta que em seu primeiro mês de ministério, estando disposto a cumprir a Palavra de Deus, foi submetido a uma grande prova. Uma jovem, filha de um membro influente de sua igreja decidiu casar-se com um incrédulo e queria que ele celebrasse a união. Ao recusar-se, imediatamente instalou-se uma crise na igreja. Os presbíteros o apoiaram e a família saiu da igreja junto com muitos outros, contudo a Comunidade da Graça continuou firme no propósito de obedecer à Palavra de Deus[1].

Alguns anos antes de Malaquias profetizar, o sacerdote Esdras buscou a Palavra de Deus, mas não somente isso buscou também cumpri-la, Esd. 7.10. Não seremos abençoados por Deus se somente buscarmos a Palavra de Deus, nós seremos verdadeiramente abençoados se a cumprirmos. Um cristão comprometido com a Palavra de Deus quer honrar a Deus e a maneira de fazermos isso é cumprimos com fidelidade a Sua Palavra. Será que temos essa disposição em nós?  


CASAMENTO MISTO VIOLA A SANTIDADE DO POVO DE DEUS, v.11

A segunda coisa que devemos saber é que o casamento misto é descrito em termos bastante fortes – é uma deslealdade e uma abominação. O primeiro termo implica em infidelidade, traição. O segundo em algo que provoca náusea ou nojo. Casamento misto é necrofilia espiritual. O casamento misto é um ataque frontal contra a santidade do povo de Deus, uma traição e pelo caráter que assume é algo nojento, algo que deveríamos repudiar. Precisamos entender que há uma razão para isso,

  • O casamento misto é a tentativa de reconciliar coisas irreconciliáveis, 2 Co 6.14-18. A tentativa de reconciliar Cristo e Belial é blasfema. Note que Paulo caminha as instâncias da sociedade, comunhão, harmonia, parceria, acordo e a resposta correta que se deve dar a todas elas é um retumbante não!


  • O casamento misto é a mais íntima comunhão com as obras das trevas, Ef 5.11. Calvino havia comentado que “prender-se a jugo desigual com os incrédulos significa nada menos que manter comunhão com as obras infrutíferas das trevas, e estender-lhes a destra como emblema de companheirismo”.


  • O casamento misto é a porta de entrada para a idolatria, Dt 7.3,4. Os casamentos mistos foram a principal causa da decadência espiritual para Israel, Nm 25. Esdras (9.1,2) e Neemias (10.30; 13.23-27) combateram os casamentos mistos, lembrando-se do exemplo de Salomão. 


Quando Paulo trata do jugo desigual usa uma analogia agrícola do VT que proibia colocar sob o mesmo jugo dois animais de natureza diferentes, Dt 22.10. John Macarthur comenta “que se esses dois animais trabalhassem juntos não conseguiriam abrir um sulco em linha reta. Seus temperamentos, instintos naturais e características físicas tornavam isso impossível.” É uma lição tirada da vida comum, e deve ser aplicada à vida espiritual.

O casamento misto não honra a Deus. Sendo Deus nosso Pai não deveríamos honrá-Lo?


CASAMENTO MISTO SUJEITA O MEMBRO AO JUÍZO DE DEUS, v.12

Em terceiro lugar o que precisamos entender é que o casamento misto sujeita o membro ao juízo de Deus. Esse juízo é sem exceção note – “seja quem for”.  A desobediência traz o juízo, pois Deus nunca premia os rebeldes. O casamento misto significa uma auto exclusão, visto que uma pessoa entra num casamento por livre vontade. Agindo desse modo se sujeita ao castigo por parte de Deus. É como embarcar num navio que de antemão se sabe que vai afundar, mais cedo ou mais tarde.

Se você soubesse em uma companhia área nove em cada dez aviões caem, teria coragem de embarcar num deles para uma viagem de longa distância?

Caros irmãos, por que nós nos colocaríamos sob o juízo de Deus?



Para terminar quero citar a Confissão de Fé de Westminster, XXIV, artigo III:

A todos os que são capazes de dar um consentimento ajuizado, é lícito casar; mas é dever dos cristãos casar somente no Senhor; portanto, os que professam a verdadeira religião reformada não devem casar-se com infiéis, papistas ou outros idólatras; nem devem os piedosos prender-se desigualmente pelo jugo do casamento aos que são notoriamente ímpios em suas vidas ou que mantém heresias perniciosas.

Para os que dizem:

  • Há exceções – sim, mas elas confirmam a regra. Depois, contar com a misericórdia de Deus desse modo é tentá-Lo.

  • “Deu certo para mim” justificam alguns. Bem, sempre costumo dizer que a nossa regra de fé é a Bíblia, não o testemunho pessoal de alguém.




[1] Princípios para uma cosmovisão bíblica, pp.71.72. 
Notas das exposições em Malaquias na Comunidade Batista da Graça, Suzano. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

PAIXÃO PELA GLÓRIA DE DEUS


Silas Roberto Nogueira

Notas do sermão por ocasião da Comemoração da Reforma





Calvino é uma das poucas pessoas na história do cristianismo que é ou muito apreciado ou absolutamente desprezado. Calvino nunca foi uma unanimidade e certamente não o será. A verdade é que pouco esforço fazia para ser agradável aos homens, buscava mesmo ser agradável a Deus.

Quem foi João Calvino?

Veja artigo biográfico aqui

Calvino é um reformador de segunda geração. Nasceu em Noyon em 1509, França e morreu em 1564, em Genebra. A princípio seu pai queria que seguisse carreira eclesiástica, depois jurídica, mas Deus tinha outros planos para João. Não sabemos muitos detalhes de sua vida. Sabemos que por volta de 1533 já havia tido um encontro com Cristo e vemo-lo envolvido com a causa da reforma. Fugindo da França, abriga-se em Estrasburgo. Ao saber disso, Farel, outro nome entre os grandes, o busca e sob pena de maldição o leva à Genebra (1536, aos 26 anos) para levar avante a causa da Reforma. Calvino é considerado o cérebro da Reforma, foi pastor, pregador, escritor, missivista e aquele que fez de um lugar obscuro como era Genebra “a mais perfeita escola de Cristo”. 

A reforma sob Calvino avançou mais?

Joel Beeke diz que Calvino foi além de Lutero pelo menos em quatro áreas:

(a) Sua compreensão da ceia do Senhor.
Lutero desenvolveu a teoria da consubstanciação, Calvino avançou ao conceito de meio de graça, embora memorial.

(b) Sua compreensão do culto
Lutero manteve muito da missa católica; Calvino aboliu do culto todo o que não estava de acordo com as Escrituras.

(c) Sua compreensão da justificação
Lutero avançou da salvação por obras à justificação pela fé, Calvino por sua vez avançou daí para a questão de como deve viver aquele que foi justificado.

(d) Sua compreensão da evangelização do mundo
Calvino começou a olhar como seria possível evangelizar o mundo. Com a bênção de Calvino em 1555 chegou ao Brasil o Pr Jean Jaques Le Balleur (João Bollés), em 21 de março de 1557 ele celebrou a primeira ceia aqui e em 1567 ele foi morto por Anchieta no Rio de Janeiro. 

Quais são os enfoques mais importantes do ministério de Calvino?
Quando falamos o nome de Calvino o que vêm à sua mente? Qual o assunto ou tema teológico que você se lembra? Se for a predestinação, lamento dizer, mas você conhece pouco de Calvino.  Certo estudioso do assunto disse que a predestinação ocupa cerca de 30% da teologia de Calvino. Portanto, a predestinação não é o centro da teologia de Calvino. Mas, se não é esse o assunto central qual seria?


PAIXÃO PELA GLÓRIA DE DEUS

Quando B. B. Warfield referiu-se a Calvino numa certa oportunidade disse: “nenhum homem teve um senso tão profundo de Deus como ele”. Essa é a primeira ênfase do ministério de Calvino. 

a)     Calvino rendeu seu coração a Deus:
Num resumo das Institutas escrito em 1536 Calvino declara: não se pode achar a vida eterna e imortal em parte alguma, exceto em Deus. Segue-se, então, que o principal cuidado e interesse da nossa vida devem consistir em buscar Deus com todo o afeto dos nossos corações, e não pretender encontrar descanso e paz em lugar nenhum, senão unicamente nEle. Essa afirmação de Calvino deve ser colocada num contexto que deixava de acreditar num mundo teocêntrico, mas adotava o antropocentrismo, o florescer do humanismo. Para Calvino Deus é soberano, domina sobre tudo e nada está fora do Seu poder e conhecimento. Buscar conhecer esse Deus produz certeza e firmeza espiritual é algo essencial... é algo que estabelece em nós uma piedade sólida... Calvino foi expulso de Genebra e depois de alguns anos (13 de setembro de 1541) foi chamado de volta e sabia as lutas e sofrimentos que o aguardavam, porém numa carta a Farel escreveu ele: quando me lembro que não pertenço a mim mesmo, ofereço meu coração como um sacrifício ao Senhor.  Calvino era um homem cuja paixão era a glória de Deus, numa oração aos 30 anos disse: "Ó Deus, o alvo a que dei primazia, e para o que diligentemente trabalhei, foi que a glória da tua bondade e da tua justiça (...) pudessem resplandecer claramente, para que a virtude e as bênçãos do teu Cristo (...) sejam plenamente expostas".

b)     Calvino rendeu sua mente a Cristo:
Por ter uma tão elevada concepção de Deus, Calvino desenvolveu uma doutrina do pecado que afirmava a Total Depravação do homem “uma depravação e corrupção hereditária de nossa natureza, difundida em todas as partes da alma, que primeiramente nos torna sujeitos à ira de Deus e depois também produz em nós aquelas obras que a Escritura chama de ‘obras da carne’” (Inst., 2.1.8). Contudo, Deus por sua infinita graça e misericórdia providenciou um Redentor, Cristo Jesus, como diz Calvino “Se Cristo não tivesse trazido ajuda, toda a raça humana pereceria”.  Tendo rendido sua mente a Cristo desenvolveu o conceito da obra tríplice de Cristo como Profeta (Ungido para ser Arauto e testemunha da graça de Deus), Rei (vice-regente de Deus no governo do mundo) e Sacerdote (único Mediador). Reunindo em Si essa três funções Cristo é apresentado como o único que pode salvar, por isso alertava Calvino: “visto que a nossa salvação inteira, em todas as suas várias partes, é compreendida em Cristo, tomemos cuidado para não esperar a mínima partícula dela de qualquer outra fonte”.

c)      Calvino rendeu sua vida ao Espírito:
Calvino via o governo do Espírito Santo nos homens como uma necessidade por causa do pecado: “por causa da insolência e fraqueza que há em nós, temos de ser governados pelo Espírito de Deus, que é a chave mestra que nos abre as portas do Paraíso.” (Sermões em Efésios) Calvino via a obra do Espírito no homem de modo duplo: O Espírito de Deus realiza uma obra dupla em relação à nossa fé. Ele nos ilumina para fazer-nos entender as coisas que, doutro modo, ficariam ocultas para nós e para recebermos as promessas... essa é a primeira parte da obra. A segunda é que o mesmo Espírito se agrada em habitar-nos e dar-nos perseverança.... (Sermões em Efésios). Para Calvino o Espírito Santo é o meio pelo qual Cristo nos une a Si mesmo. Calvino falava do Espírito como renovador e o doador dos dons, dizia ele: devemos rogar a Deus que nos renove e nos fortaleça pelo Seu Espírito Santo; e aumente cada vez mais seus dons em nós...

Meu amado irmão se, porventura quisermos uma reforma temos que entregar nosso coração a Deus, nossa mente a Cristo e nossa vida ao Espírito Santo – em outras palavras, temos que nos render, como Calvino, à atuação do Deus Triúno Soberano. O que precisamos desesperadamente hoje é de um senso mais profundo acerca de Deus.


PAIXÃO PELA SANTIDADE DE DEUS

A concepção de Calvino acerca de Deus era muito elevada, Deus não é somente soberano, Ele é santo. Ora, os eleitos de Deus devem manifestar em suas vidas a santidade de seu Pai.
a)      Fervor em perseguir a santificação: Calvino insistia que os crentes deviam ser fervorosos em perseguir a santificação manifesta em obediência: visto que o Pai nos reconciliou consigo em Cristo, Ele nos ordena que sejamos conformados com Cristo, o nosso modelo. A menos que nos dediquemos, com fervor e oração, em seguir a retidão de Cristo, não somente nos rebelamos infielmente contra nosso Criador, mas também O abjuramos como nosso Salvador. Se Deus é nosso Pai, devemos nos comportar como seus filhos.

Calvino nada sabia do ensino do crente carnal: o apóstolo nega que alguém conheça realmente a Cristo e não tenha aprendido a despojar-se do velho homem, que se corrompe com as concupiscências do engano, e a revestir-se de Cristo. Para Calvino, tanto como para Paulo, deveríamos perseguir a perfeição: a perfeição deve ser o objetivo final... o alvo pelo qual nos empenhamos.

b)     Perfeição absoluta: Mas ao mesmo tempo em que insistia na busca pela perfeição Calvino advertiu contra estabelecermos um padrão muito elevado para outros crentes: não devemos insistir na absoluta perfeição do evangelho em nossos irmãos, por mais que nós mesmos nos esforcemos por essa perfeição. Devemos ser severos contra nós mesmos, mas misericordiosos para com os outros.

c)      A cruz que devemos suportar: Calvino via a cruz como auto renúncia: ninguém nega corretamente a si mesmo, se não se entrega por completo ao Senhor e está disposto a confiar cada detalhe à boa vontade dele. A cruz segundo Calvino era aceitar das mãos de Deus as contradições da vida, o sofrimento. Mas, não é algo que simplesmente vem sobre nós, é algo que tomamos voluntariamente. Quando foi convidado a voltar a Genebra que o havia expulsado sob cusparadas, podia ter se recusado, mas como não julgava a sua vida como sua, aceitou voluntariamente o tremendo desafio. Para Calvino a cruz nos torna humildes (segundo Calvino o sofrimento nos despoja de toda autoconfiança), esperançosos (Calvino cita Paulo, Romanos 5.3,4), obedientes (segundo Calvino Deus por meio do sofrimento nos ensina a obedecer) e disciplinados ( diz Calvino que o Grande Médico sabe como cuidar de todos os seus pacientes) – em outras palavras, o sofrimento produz santificação. No fim da sua vida, orou Calvino: “Senhor, eu retenho a minha língua porque sei que isto vem de ti. Eu estou chorando como um cão. Tu tens me moído e me transformado em pó, mas isto me basta porque compreendo que é a Tua vontade. Quero oferecer-Te meu corpo e minha alma de forma pronta e sincera”

Meu amado irmão, se, eventualmente, quisermos uma reforma ou avivamento temos que fervorosamente buscarmos manifestar o caráter dAquele que confessamos como Pai até mesmo em meio aos sofrimentos da vida.  


PAIXÃO PELA PALAVRA DE DEUS

Calvino tinha uma profunda paixão pela Palavra de Deus. Primeiro ele cria firmemente na autoridade das Escrituras, segundo ele: as Escrituras vieram do céu. Philip Schaff, respeitado historiador da igreja, escreveu que “Calvino possuía a mais profunda reverência pelas Escrituras como a Palavra de Deus vivo e como a única infalível e suficiente regra de fé e obediência”. Segundo, Calvino cria que o que torna o cristianismo singular é o fato de que Deus nos falou: “O princípio que distingue a nossa religião de todas as outras é o conhecimento que possuímos de que Deus nos falou”. Não existe outro Deus que fale a não ser o nosso Deus (Is 46.5-11). Daí o seu alto conceito da exposição da Palavra. A paixão pela Palavra de Deus fez de Calvino um excepcional expositor, vejamos algumas características de sua pregação:

1.      Pregação expositiva: Calvino era acima de tudo um expositor da Palavra. Alister McGrath declara que a autoridade de Calvino não fluía de sua posição política ou posição social, sua influência procedia de sua “considerável autoridade pessoal como pregador”. O que é pregação expositiva? Uma resposta simples é: leitura do texto bíblico, explicação do mesmo e a aplicação àqueles que ouvem, tudo isso sob a unção do Espírito Santo. Era justamente isso que Calvino fazia. Pregava de modo simples, direto e sob a unção de Deus. Ele não ia ao púlpito com suas ideias e argumentos.

2.      Exposição sequencial: o método de Calvino consistia em pregar sistematicamente sobre livros inteiros da Bíblia. Esse método é chamado lectio contínua. Ele expôs todo o livro de Gênesis, Deuteronômio, Jó, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, os profetas , os Evangelhos, Atos, Coríntios, Gálatas, Efésios, 1 e 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo, Tito e Hebreus.

No século passado Dr Lloyd-Jones ficou conhecido por suas exposições magistrais lectio continua em Romanos (13 anos), Efésios (5 anos), Filipenses, 2 Pedro, 1 João, etc. Atualmente John MacArthur e Mark Dever têm se destacado como expositores que seguem essa metodologia.


3.       Exposição direta: Calvino era notoriamente direto e centrado no ensino principal do texto. Não desperdiçava palavras, começava revisando o sermão anterior estabelecia o contexto da passagem que seria abordada e como o texto se enquadrava no argumento de todo o livro. Depois, lia e expunha versículo por versículo.

4.      Exposição apaixonante: Calvino tinha paixão em alcançar os perdidos e seus sermões pretendiam alcançar o coração dos homens, apelando ao pecador para que se arrependesse e cresse em Cristo. Não era incomum antes de finalizar seus sermões apelar aos perdidos.
5.      Exposição que exalta a Deus: Calvino era doxológico em sua conclusão. Seus sermões eram teocêntricos, não deixava o púlpito sem exaltar a Deus e instar que seus ouvintes se rendessem à supremacia dEle.

Meus irmãos, o que temos visto hoje é o completo desprezo pela pregação. E, como dizia Calvino, quando a pregação é desprezada, Deus é desprezado. Reforma acontece quando recobramos o alto conceito da Palavra de Deus, pois é por meio dela que Ele nos tem falado. 


Calvino é um daqueles homens que é mais fácil caluniar do que imitar. Não sofremos de calvinolatria e nem de calvinofobia, pois nenhuma das duas posições é correta. Vemos Calvino como homem, portanto sujeito às mesmas falhas comuns aos homens, mas vemo-lo também como servo de Deus cuja paixão era a Sua glória. Se hoje conseguimos ver mais longe é porque estamos sobre os ombros de um gigante cujo nome é João Calvino.

Contudo, assim como Lutero, Calvino não promoveu uma reforma completa, ele continuou a edificar sobre aquilo que outros começaram. Exatamente como ele fez, cabe-nos fazer.