domingo, 17 de novembro de 2013

COMO OUVIR UM SERMÃO DE MODO TRANSFORMADOR

Silas Roberto Nogueira

Tiago 1:19-25

Tiago começa a sair do assunto das provações e a entrar na questão da prática da Palavra de Deus. Os assuntos estão interligados, por isso a transição é natural. Os leitores originais foram exortados a proceder de acordo com aquilo que tinham ouvido nos sermões que lhes foram pregados nos cultos. Este é o tema deste trecho. Eles ouviram, mas pouco aproveitaram daquilo que foi ouvido, pois não o praticavam. Tiago então os exorta a preparar-se para receber a Palavra. Fala dos riscos de sermos meros ouvintes de sermões. Compara o homem que ouve um sermão e não pratica a alguém que olha para um espelho e depois esquece sua aparência. Mas Tiago fala também da bem-aventurança de se proceder de acordo com aquilo que ouvimos. Sempre há uma promessa aos que ouvem a Palavra e a praticam. 

Meus caros, num sermão o nosso Bom Pastor fala conosco e uma das marcas de que somos Suas ovelhas é justamente o fato de que podemos discernir a Sua voz (João 10). Por isso é preciso atenção quando um sermão está sendo proferido. Assim como os pais são desonrados quando falam com seus filhos e eles o ignoram, nosso Salvador é desonrado quando ignoramos o que Ele nos diz por meio de um sermão. A exposição da Palavra de Deus é um momento solene, Deus está falando com Seu povo, nós, como o jovem Samuel, deveríamos dizer: “fala, SENHOR, porque o teu servo ouve”. Eis aí exemplificada a maneira básica de ouvir um sermão. Mas Tiago tem mais a dizer-nos sobre isso. Para ouvir um sermão de modo transformador é preciso desenvolver algumas outras atitudes:  

Em primeiro lugar, devemos ser ávidos por ouvir a Palavra, v.19,20. Tiago inicia este trecho com um imperativo, que seus leitores sejam prontos para ouvir. Costumamos aplicar isso ao ouvir de modo geral, contudo, visto que o versículo anterior fala da Palavra (v.18) bem como os versículos posteriores, o ouvir aqui se refere ao ouvir a Palavra. A palavra “pronto” tem o sentido de algo que é “rápido”, a ideia é a de disposição e prontidão de ouvir a acatar a Palavra da verdade referida no v.18. No Velho Testamento temos um exemplo disso, quando o povo se junta e se prepara para ouvir a Palavra de Deus por dias a fio que era lida por Esdras (Ne 8:1-6). No Novo Testamento, um exemplo dessa avidez pela Palavra pode ser ilustrado na atitude de Cornélio que se preparou e desejava ouvir o evangelho (At 10:33). Essa avidez faltava aos leitores originais de Tiago. Se não estamos prontos para ouvir, certamente estaremos para falar. E esse falar será o reflexo exato de uma mente não regida pela Palavra; um irromper de murmurações que inflamará as nossas emoções numa explosão de ira iniqua, v.20. Porventura nossos corações estão prontos e ansiosos para ouvir Deus falar conosco?

O puritano Thomas Watson que devemos vir à casa de Deus “com um santo apetite pela Palavra (1 Pe 2:2). Um bom apetite também faz uma boa digestão”.

Precisamos ansiar pela Palavra de Deus como a corça pelas correntes de água (Sl 42:1) e como o guarda, o romper da manhã (Sl 130:6). Se não há anseio em nosso coração pelo ouvir da Palavra, certamente não haverá anseio em praticar a Palavra.

Em segundo lugar, devemos preparar o terreno para a semente da Palavra, v.21. Neste versículo Tiago exorta seus leitores a preparar o coração para receber a Palavra, à semelhança do terreno que é preparado para receber a semente. É possível que Tiago tenha em mente aqui a parábola do semeador, Lc 8:7 segs. Antes de acolher com mansidão a Palavra neles implantada (plantada), eles precisavam limpar o solo dos seus corações. Calvino diz que Tiago aqui “se refere à semente que é semeada, mas que fica sobre o solo, e não é recebida no seio úmido da terra... Tiago requer deles uma implantação viva, pela qual a Palavra seja unida aos seus corações”[1] Como devem fazer isso? Eles devem se livrar de tudo o que possa comprometer a semente da Palavra de dar seu fruto. O solo do nosso coração deve ser limpo de toda impurezas e “acúmulo de maldade” que literalmente significa “o que ainda resta da maldade em nosso coração”.[2]  Warren Wiersbe afirma que “a expressão "acúmulo de maldade" lembra um jardim mal cuidado, com ervas daninhas por toda parte”. Então conclui “não adianta receber a Palavra de Deus em um coração despreparado”.

Philip G. Ryken escrevendo sobre como ouvir sermões assinala: a primeira coisa é a alma estar preparada. A maioria das pessoas assume que o sermão começa quando o pastor abre a boca no domingo. Entretanto, ouvir um sermão começa na semana anterior. Começa quando oramos pelo ministro, pedindo a Deus que abençoe o tempo que ele gasta estudando a Bíblia e se preparando para pregar. Além de ajudar o pregador, nossas orações ajudam a criar em nós um sentimento de expectativa pelo ministério da Palavra de Deus. Esta é um das razoes porque, no que diz respeito à pregação, as igrejas geralmente recebem o que pedem em oração. A alma precisa de preparação especial na noite antes do culto. No sábado a noite nossos pensamentos devem lembrar do Dia do Senhor. Se possível, seria bom ler a passagem bíblica agendada para a pregação. Devemos também dormir o suficiente. Então, de manhã, nossas primeiras orações devem ser a respeito do culto público, e especialmente acerca da pregação da Palavra de Deus.[3]

Precisamos preparar os nossos corações para a pregação. Um coração despreparado é como um terreno impróprio, um terreno baldio, onde nascem ervas daninhas. Para tornar seu coração próprio à semente da Palavra é preciso limpá-lo de tudo aquilo que pode impedir a semente de dar ser fruto.

Em terceiro lugar, devemos acolher a Palavra, v.21. Além de preparar o coração limpando o terreno, é preciso receber a Palavra com mansidão. A palavra “acolher”, traduzida por “receber” (ARC), não se trata de somente “receber”, mas receber de forma acolhedora, dando boas vindas, abrindo o coração. Um exemplo dessa recepção da Palavra aconteceu entre os crentes de Beréia, At 17:11, e entre os crentes de Tessalônica, 1 Ts 1:6;2:13. Eles não deveriam meramente ouvir a Palavra, mas acolhe-la, guarda-la. O salmista afirmou que justamente o acolhimento da Palavra no seu coração é que o ajudava a não pecar, Sl 119:11.

O puritano Lewis Bayly dizia com acerto como acolher a Palavra “ao ouvir, aplique cada expressão como proferidas a você por Deus, e não pelo homem (Is 2:3; At 10:33: Gl 4:14; 1 Ts 2:13), e esforce-se não tanto para ouvir o som das palavras do pregador em seus ouvidos, mas, sim, para sentir a operação do Espírito agindo em seu coração.”

John Newton criticou severamente aqueles que não acolhiam a palavra, mas a julgavam dizendo: “Há ouvintes que fazem de si mesmos, e não da Escritura, o padrão de seu julgamento. O que eles gostam ou não gostam. O que se encaixa na vida e comodidade deles ou não...E muitos participam, não tanto para ser instruído, mas como um juiz, esperando só o momento para dar sua sentença sobre o que ouviu. Para eles, o púlpito é simplesmente uma plataforma em que o ministro está ali para se submeter ao julgamento deles, uma atitude de censura que poucos escapam, estão ali como juízes e não como ovelhas para serem alimentadas. Juízes inconsistentes em seu ego governante.”

Philip Ryken afirma “Ouvir um sermão — realmente ouvir — envolve mais que nossas mentes. Também requer corações receptivos à influência do Espírito de Deus. Algo importante ocorre quando ouvimos um sermão. Deus fala conosco. Através do ministério interno de seu Espírito Santo, ele usa sua Palavra para acalmar nossos medos, confortar nossos sofrimentos, incomodar nossa consciência, expor nosso pecado, proclamar a graça de Deus e nos fortalecer em nossa fé. Mas todas estas são coisas do coração, não apenas da mente, logo ouvir um sermão nunca é apenas um exercício intelectual. Precisamos receber a verdade bíblica em nossos corações, permitindo que o que Deus fala influencie o que amamos, o que desejamos e o que adoramos”

O que precisamos fazer é ao ouvir um sermão, acolher a Palavra em nossos corações. Precisamos receber a Palavra pregada como Palavra de Deus. Tiago nos diz como fazer isso: “com mansidão”. O sentido é o de uma atitude de abertura e disposição para ouvir, acolher e obedecer a Palavra pregada. Thomas Watson diz a “mansidão envolve um coração submisso, uma prontidão em ouvir os conselhos e repreensões da Palavra. Através da mansidão, a Palavra é gravada na alma e produz “o doce fruto de justiça”.

E Tiago apresenta uma razão para isso – a Palavra é poderosa para salvar as nossas almas. Lembre-se que no v.18 Tiago diz que eles já eram regenerados, assim sendo o sentido aqui é o de santificação. A santificação só pode acontecer com o acolhimento da Palavra.[4]

Em quarto lugar, devemos praticar a Palavra, v.22-25. Depois de acolher a Palavra, Tiago exorta seus leitores a que se tornem praticantes da Palavra. Não basta ouvir a Palavra; também se deve colocá-la em prática. Muitas pessoas têm a ideia equivocada de que ouvir um bom sermão ou estudo bíblico é o que as faz crescer espiritualmente. Não é o ouvir, mas sim o praticar que redunda em crescimento espiritual. Inúmeros cristãos costumam marcar passagens na Bíblia, mas nunca marcam a própria vida! Os que acreditam que são espirituais só porque ouvem a Palavra enganam a si mesmos. Tiago ilustra o ouvinte profissional de sermões como alguém que se contempla no espelho, mas logo que sai dali, se esquece como estava. A Palavra de Deus realmente é um espelho. Quando desejo ver como realmente sou, não olho no espelho, olho na Palavra. Ao me contemplar à luz da Palavra não posso esquecer do que vi.

Natã, o profeta, colocou o espelho da Palavra diante de Davi. Davi não percebeu seu reflexo na parábola da cordeirinha roubada. Mas Natã apresentou-lhe o reflexo com mais precisão ao dizer-lhe “Tú és o homem”. O resultado foi a confissão e o arrependimento: "Pequei contra o  SENHOR" . O espelho da Palavra cumpriu sua função.

Ao ouvir um sermão, atente à mensagem. Examine-se a si mesmo. Pratique a Palavra, abandone o pecado. Para ouvir um sermão de modo transformador é preciso praticar o que ouviu. Thomas Watson dizia com sabedoria “lute para reter e ore sobre aquilo que ouviu. Não deixe o sermão escorrer por sua mente como a água escorre através de uma peneira”.   

Para concluir, quero citar os pontos que Phil Newton, pastor batista estadunidense, nos comunica sobre o assunto:

1. Reconheça a autoridade das Escrituras Sagradas e sua primazia na adoração pública. Durante a semana prepare-se para ouvir a Palavra lendo as Escrituras regular e sistematicamente.

2. Peça que o Senhor lhe dê ouvidos que ouçam a Palavra e um coração obediente – lembre a congregação que eles têm a responsabilidade de se preparar para ouvir tanto quanto você tem a responsabilidade de se preparar para pregar.

3. Examine as Escrituras como os bereanos para ver se as coisas expostas são fiéis à Palavra de Deus (At 17).

4. Faça perguntas no sentido de oferecer uma resposta à exposição das Escrituras:
  • Agora estou convicto, por meio da Palavra, de que existe uma área de minha vida, de meus pensamentos, de minhas ações e do meu comportamento que precisa ser mudada?
  •  Existe um pecado, uma desobediência, uma atitude errada ou alguma desculpa que foi repreendida pela verdade das Escrituras e que agora preciso confessar e dos quais preciso me arrepender diante do Senhor?
  •  Há uma instrução que eu preciso seguir e colocar em prática na minha vida?
  •   Há uma doutrina que eu preciso estudar mais e aplicar ao meu entendimento da verdade cristã?

5. Reflita no texto e na mensagem. Nesse momento você pode alcançar o maior discernimento que já teve sobre a Palavra de Deus. Faça anotações e analise-as novamente após o sermão.

6. Repita as verdades do texto para outra pessoa, talvez usando essa ocasião como uma chance para testemunhar do evangelho ou encorajar um amigo crente.


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Notas da Exposição da Epístola de Tiago na Comunidade Batista da Graça, Suzano/SP

[1] CALVINO, Comentário de Tiago
[2] LOPES, Augustus Nicodemus, Tiago, Cultura Cristã, p. 49
[3] http://www.monergismo.com/philip-ryken/como-ouvir-um-sermao/
[4] LOPES, p.50

terça-feira, 22 de outubro de 2013

CORREÇÃO


Dr. Martyn Lloyd-Jones



"E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, e não des­maies quando por ele fores repreendido; porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer um que recebe por filho. Se su­portais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos. Além do que tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e nós os reverenciamos: não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, para vivermos? Porque aqueles, na ver­dade, por um pouco de tempo nos corrigiam como bem lhes pare­cia; mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade. E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela". Hebreus 12:5-11


Uma das causas mais prolíficas deste estado de depressão espiritual é a falha em, compreender que Deus usa muitos métodos no processo da nossa santificação. Ele é nosso Pai, que "nos amou com um amor eterno". Seu grande propósito para nós é nossa santificação — "Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santi­ficação" (I Tessalonicenses 4:3), e "para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em caridade" (Efésios 1:4). A grande preocupação de Deus por nós é, primariamente, não a nossa felici­dade, mas nossa santidade. Em Seu grande amor por nós, Ele está decidido a nos levar a isso, e emprega muitos métodos diferentes para atingir esse fim.
O fato de não compreendermos isso muitas vezes nos leva a tropeçar e, em nosso pecado e insensatez, até mesmo a compreender de maneira completamente errada o modo como Deus nos trata. Como crianças insensatas, achamos que nosso Pai celestial não está sendo amoroso para conosco, e sentimos pena de nós mesmos, achando que Ele está nos tratando com rudeza. Isso, é claro, leva à depressão, e é tudo devido à nossa falha em compreender os gloriosos propósitos de Deus para conosco.
Esta é a questão tratada de maneira tão extraordinária e perfeita no capítulo doze de Hebreus, onde o tema é que Deus às vezes opera santificação na vida de Seus filhos através da corre­ção, e especialmente capacitando-os a compreender o significado da correção. Esse é o tema para o qual quero chamar a sua atenção. Talvez não haja outra área em que vejamos mais claramente o fato de que santificação é uma obra de Deus, do que em conexão com este assunto da correção. "Vejam as coisas que vocês estão sofrendo", diz o autor. "Por que estão sofrendo tudo isso?" A resposta é que eles estão sofrendo estas coisas porque são filhos de Deus. Ele declara que Deus está fazendo isso para o seu bem — "Porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho". E então observemos que, não satisfeito em colo­cá-lo assim, ele o expressa negativamente também, dizendo: "Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos" — vocês não são verdadeiramente membros' da família, não são filhos. Essa é uma declaração muito significativa. Quero expressá-la na forma de um princípio. O que este homem realmente está dizendo é que a salvação toda é obra de Deus, do começo ao fim, e que Deus tem Seus métodos e meios de produzi-la. Uma vez que Deus começa uma obra, Ele a completa: "Aquele que em vós começou a boa obra, a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo". Deus jamais começa uma obra para desistir dela ou deixá-la numa situação incompleta — quando Deus começa Sua obra em Seus filhos, Ele vai completar essa obra. Deus tem um propósito e objetivo final para eles: que passem a eternidade com Ele na glória. Muito do que acontece conosco neste mundo deve ser entendido e explicado à luz desse fato; e é um fato bem definido, de acordo com o argumento do autor, que Deus vai nos trazer a essa condição, e nada vai impedir que isso aconteça.
Ora, Deus tem vários meios de fazer isso. Um deles, é dar-nos instrução através das grandes doutrinas e dos princípios ensinados na Bíblia. Ele nos deu Sua Palavra. Ele inspirou homens a escrever essas palavras pelo Espírito Santo para nossa instrução, a fim de sermos preparados e aperfeiçoados. Mas se nos tornarmos recalci­trantes, se não aprendermos as lições que nos são apresentadas positivamente na Palavra, então Deus, como nosso Pai, tendo em vista o grande objetivo de nos aperfeiçoar e preparar para a glória, adotará outros métodos. E um desses outros métodos que Ele usa, é este método da correção. Pais terrenos que são dignos desse nome — e estamos vivendo em dias de tanta-indulgência e frou­xidão, que mal podemos usar este argumento da forma que o autor de Hebreus o usou — mas pais dignos desse nome fazem isso. Eles corrigem seus filhos para o seu próprio bem; se a criança não está se comportando de maneira apropriada como resultado de instrução positiva, então a correção deve ser aplicada, a disciplina deve ser exercida. É doloroso, mas necessário, e um bom pai não negligencia isso. E este homem diz que Deus é assim, e infinita­mente mais. Se, portanto, não somos obedientes às lições e instru­ções positivas da Palavra de Deus, não devemos nos surpreender se outras coisas começarem a nos acontecer. Não devemos nos sur­preender se tivermos que enfrentar certas coisas que são dolorosas. Tais coisas nos são enviadas deliberadamente por Deus, diz este homem, como parte do processo da santificação. Observem como ele enfatiza isso. Diz que devemos nos examinar a nós mesmos para descobrir se estamos experimentando isso em nossa vida, porque, ele diz de forma muito clara, se não temos experiência desse tipo de tratamento, então é de duvidar que realmente seja­mos filhos. Se nada conhecemos desse processo, não somos filhos, somos ilegítimos, não pertencemos a Deus, pois "o Senhor corrige o que ama". De certa forma, então, podemos dizer que a pessoa que devia se sentir mais infeliz consigo mesma é aquele cristão (ou que professa ser cristão) que não tem consciência desse tipo de experiência em sua vida. Devíamos ficar alarmados com isso. Longe de ficarmos aborrecidos com o processo, devíamos agradecer a Deus por ele, pois Ele está nos dando provas de que somos Seus filhos, e está nos tratando como tal. Está nos corrigindo e disciplinando para nos conformar ao padrão e nos tornar dignos daquele que é nosso Pai.
Isso é algo que está constantemente acontecendo na vida e na experiência dos filhos de Deus. Também é algo ensinado através de todas as Escrituras. Existem exemplos e ilustrações sem fim que poderiam ser citadas. É a grande mensagem do Salmo 73. É a grande mensagem do livro de Jó. E o apóstolo Paulo trata do assunto no quinto capítulo da Epístola aos Romanos, onde fala sobre regozijo em meio às tribulações, etc. Também faz parte do argumento do capítulo oito de Romanos. É encontrado novamente na Primeira Epístola aos Coríntios, no capítulo onze, na secção que trata da Ceia do Senhor. O apóstolo ensina que havia membros da igreja que estavam doentes e enfermos porque não estavam vivendo a vida cristã: "Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes". Na verdade, muitos até mesmo tinham morrido por causa disso: "E (há) muitos que dormem". Então, leiam o pri­meiro capítulo da Segunda Epístola aos Coríntios e encontrarão o apóstolo descrevendo a experiência que tinha acontecido com ele. Ele afirma que aconteceu para que aprendesse a não confiar em si mesmo, e sim no Deus vivo. Outra grande declaração clássica deste ensino pode ser encontrada no capítulo doze da Segunda Epístola aos Coríntios, onde Paulo fala sobre o "espinho na carne" que lhe fora dado; o propósito disso tudo, ele diz, era mantê-lo numa condição espiritual correta, para que não se exaltasse. Foi-lhe dado um espinho na carne, e embora tivesse orado, pedindo a Deus três vezes que o removesse, Deus não fez isso, e ele final­mente aprendeu sua lição. Portanto, aquilo promoveu sua santifi­cação. No primeiro capítulo da Epístola de Tiago, lemos: "Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações". É algo em que devemos nos regozijar. E então encontramos tudo isso resumido na palavra do próprio Senhor ressuscitado, no ter­ceiro capítulo de Apocalipse, no versículo 19: "Eu repreendo e castigo a todos quantos amo".
Encontramos, então, esta grande doutrina através de toda a Bíblia. Na verdade, todo o tratamento de Deus com os filhos de Israel sob a velha dispensação é um grande comentário disso. Ele tratou com eles daquela maneira porque eram Seus filhos. "De todas as famílias da terra a vós somente conheci; portanto, todas as vossas injustiças visitarei sobre vós" (Amos 3:2). Ele os tratou daquela maneira porque eram Seus filhos.
A pergunta óbvia que vem à nossa mente, então, é: o que é correção? O que significa'? Significa treinar. O sentido básico da palavra é esse. É o treinamento ministrado à criança, ou o método de treinar uma criança. Temos a tendência de confundir correção com a palavra castigo. É certo que inclui disciplina, mas também inclui instrução; inclui repreensão, e na verdade pode incluir um considerável grau de castigo; mas o objetivo essencial da correção é treinar e desenvolver a criança para que se torne uma pessoa adulta. Bem, se esse é o sentido de correção, vamos considerar por um momento os meios pelos quais Deus nos corrige.
Como Deus corrige Seus filhos? Ele o faz especialmente atra­vés das circunstâncias — todo tipo de circunstâncias. Nada é mais importante na vida cristã do que compreender que tudo o que nos acontece tem um sentido, se tão somente o buscarmos. Nada nos acontece por acaso — um pardal "não cairá por terra sem a von­tade do nosso Pai", diz o Senhor, e se isso é verdade a respeito do pardal, quanto mais o será a nosso respeito! Nada pode nos acontecer sem o consentimento do nosso Pai. As circunstâncias estão constantemente nos afetando, e seu propósito é operar a nossa santificação — tanto as circunstâncias agradáveis como as desagradáveis. Devemos portanto ser observadores, sempre bus­cando lições e fazendo perguntas.
Quero agora ser mais específico. A Bíblia ensina muito clara­mente que uma circunstância particular que Deus muitas vezes usa no que toca a essa área, é uma perda financeira, ou mudança na posição material da pessoa, perda de bens, perda de possessões ou de dinheiro. Tais coisas são muitas vezes usadas por Deus. Vemos descrições disso no Velho Testamento, e aconteceu muitas vezes na história subsequente do povo de Deus na Igreja, que através de uma perda no sentido material e temporal, Deus ensinou uma lição a alguém que a pessoa não poderia ter aprendido de outra forma.
Então vamos pensar na questão da saúde. Já mencionei a Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo onze. O apóstolo ensina especificamente que havia algumas pessoas que estavam doentes e fracas porque Deus permitira isso para ensiná-las e treiná-las. "Examine-se pois o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto, há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos  que  dormem".  Este  é um método  que Deus empregou muitas vezes, de modo que aqueles que dizem nunca ser a von­tade de Deus que sejamos doentes ou fracos, estão simplesmente negando as Escrituras. Contudo, que ninguém caia na armadilha de dizer:  "Você está afirmando que toda doença é um castigo enviado por Deus?" Claro que não; estou simplesmente dizendo que Deus às vezes usa esse método para corrigir Seus filhos. É "por causa disto" que muitos estão "doentes e fracos";  é uma obra de Deus. Deus permitiu que aquilo lhes acontecesse, ou talvez Deus mandou aquilo às suas vidas, para seu próprio bem. A von­tade de Deus é mais importante que a saúde do corpo da pessoa, e se ela não se submete e se sujeita à instrução positiva da Palavra de Deus, então Ele certamente vai tratar com essa pessoa, e talvez envie uma doença para fazê-la parar e pensar. Gostaria de men­cionar que o grande Dr. Thomas Chalmers sempre dizia que o que realmente o levou a entender o evangelho, sob a direção de Deus, foi uma doença que o confinou a um quarto por quase um ano. Ele tinha sido um pregador brilhante, muito "científico" e "intelectual", mas saiu daquele quarto de doença como um pre­gador do evangelho, e agradeceu a Deus por aquela visitação. Encontramos um paralelo disso na Segunda Epístola de Paulo aos Coríntios, no capítulo primeiro, versículo nove, onde ele nos diz que "já tinha a sentença de morte em si". Então temos também a clássica declaração sobre o espinho na carne no capítulo doze. Deus não removeu aquele espinho porque queria ensinar o após­tolo a dizer: "Quando sou fraco, então sou forte", e se regozijar na enfermidade, em vez de na saúde, para que a glória de Deus fosse promovida. Não há dúvida que Deus permitiu aquilo, talvez até mesmo o tenha causado, a fim de corrigir e treinar Seu servo daquela forma particular.
Da mesma forma, Deus permitiu perseguição. Estes cristãos hebreus estavam sendo perseguidos. Por isso estavam tão infelizes. Seus bens haviam sido roubados, suas casas destruídas, porque eles eram cristãos, e estavam perguntando: "Por que estamos rece­bendo esse tipo de tratamento? Pensamos que, se crêssemos no evangelho, tudo acabaria bem, mas estamos cheios de problemas, enquanto que aqueles que não são cristãos parecem estar se dando muito bem e tendo sucesso em tudo. Por que isso?" E a resposta à pergunta deles esta nesse capítulo doze da carta aos Hebreus.
A doutrina, todavia, vai além, vai ao ponto de afirmar que Deus às vezes emprega a morte dessa forma: "Há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem". É um mistério que nin­guém pode entender, mas é um ensino claro das Escrituras, e por isso digo que precisamos compreender que todas estas coisas têm um significado. Através das circunstâncias, das coisas que aconte­cem em nossa vida e neste mundo, em nossa carreira, em nossos estudos e exames, pela doença ou saúde, por todas essas coisas, Deus está realizando Seu propósito para nós. Se somos filhos de Deus, todas essas coisas têm um significado, e precisamos aprender a examiná-las, para descobrir sua mensagem. E mediante isso será promovida a nossa santificação.
Outra maneira de Deus nos corrigir, e preciso colocá-la numa categoria à parte, é esta: Deus às vezes, sem dúvida, parece afastar Sua presença e esconder Sua face de nós para alcançar esse propó­sito. É evidente que este é o grande tema do livro de Jó. É encon­trado novamente no livro de Oséias, nos capítulos cinco e seis..
Deus até mesmo diz ao povo ali: "Irei, e voltarei para o meu lugar, até que se reconheçam culpados e busquem a minha face". Deus Se afastou, e afastou Sua presença e Suas bênçãos para levá-los ao arrependimento; isso é uma parte da santificação.
Por outro lado, também sabemos que há variações de senti­mentos e emoções na vida cristã. Essa é uma questão que muitas vezes deixa o povo de Deus confuso e perplexo. Todos já tivemos alguma experiência nesse sentido. Descobrimos que, por alguma razão, a experiência que vínhamos tendo de repente chegou ao fim, e dizemos com Jó: "Ah! se eu soubesse que o poderia achar!" Não temos consciência de nada que tenhamos feito de errado, mas Deus parece ter Se retirado, e temos a sensação de que nos aban­donou. Essas "deserções" do Espírito, que parecem acontecer de tempos em tempos, são também parte do método de Deus de disci­plinar e corrigir Seus filhos; são parte de Seu grande processo de nos treinar e preparar para o grande propósito e objetivo que Ele tem para nós.
Isso então me leva à minha próxima pergunta. Por que Deus corrige? Já vimos o que é correção, e vimos como Deus corrige, e agora fazemos a grande pergunta — por que Deus faz isso? Encontramos abundantes respostas a essa pergunta nesta passagem da Sua Palavra. Do versículo cinco ao versículo quinze, neste capí­tulo doze da Epístola aos Hebreus, o assunto é nada mais que uma ampla resposta a isso. É porque Deus nos ama: "Porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho". Essa é a resposta fundamental. É tudo por causa do amor de Deus. É porque Deus nos ama que Ele às vezes parece ser "cruelmente amoroso". Tudo é feito para o nosso bem; essa é a verdade da qual devemos nos apropriar — é sempre para o nosso bem. Agora vamos observar a declaração do versículo sete. A tradução Revista e Corrigida da Bíblia diz: "Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos". Mas a tradução Revista e Atualizada sem dúvida traduz este texto de forma muito melhor. Em vez de "se suportais a correção", o sentido do texto na verdade é este: "É para disci­plina que perseverais (Deus vos trata como a filhos)". Por que vocês estão perseverando? Essa é a pergunta que esses cristãos hebreus estavam fazendo. "Se somos cristãos, por que estamos suportanto?" E a resposta é que estão suportando porque são cristãos, estão aguentando para sua correção, para sua disciplina. Em outras palavras, o propósito de perseverarem, ou suportarem, é o seu crescimento, seu treinamento, seu desenvolvimento;  as coisas que estão suportando são parte da sua correção. O que é correção? É treinamento. Então temos que nos apropriar firme­mente deste fato, que todo sofrimento e provação e infelicidade tem esse grande propósito em vista, ou seja, nossa preparação e treinamento. E o autor repete isso — observem como ele repete esses conceitos — no versículo dez. "Porque aqueles (nossos pais terrenos), na verdade, por um pouco de tempo, nos corrigiam como bem lhes parecia; mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade." Ora, ai está o conceito, expresso da maneira mais clara; definitivamente o ensino é que Deus nos corrige para que possamos ser participantes da Sua santidade, a fim de que sejamos santificados. Tudo é feito, ele diz, "para o nosso proveito", e o proveito é a santificação. Deus nos santifica pela verdade fazendo estas coisas e então, através da Sua Palavra, esclarecendo o que Ele está fazendo.
Se esse é o objetivo geral que Deus tem em vista ao nos corrigir desta maneira, vamos agora examinar algumas das razões particulares que Ele tem para fazer isso. Uma é que há certas imperfeições em nós, em todos nós, que precisam ser corrigidas. Há certos perigos que confrontam a todos nós na vida cristã, contra os quais precisamos ser protegidos. O fato de alguém ser cristão não significa que essa pessoa é perfeita. Não alcançamos imediatamente um estado de perfeição no momento que cremos no Senhor Jesus Cristo. Na verdade, não alcançamos esse estado de perfeição nesta vida; sempre haverá imperfeição enquanto o "velho homem" existir. Em consequência disso, sempre há certas coisas em nossa vida que precisam ser tratadas; e as Escrituras nos mos­tram muito claramente como Deus usa a correção para tratar de alguns desses problemas. Quais são eles? Um deles é orgulho espi­ritual, exaltação espiritual num sentido errado e perigoso. Quero expressá-lo com as clássicas palavras que mostram isso com tanta perfeição, e não necessitam de qualquer exposição. O apóstolo Paulo, no capítulo doze da Segunda Epístola aos Coríntios diz: "Conheço um homem em Cristo. . . e sei que o tal homem (se no corpo, se fora do corpo não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao paraíso; e ouviu palavras inefáveis, de que ao homem não é lícito falar. De um assim me gloriarei eu, mas de mim mesmo não me gloriarei, senão nas minhas fraquezas. Porque, se quiser gloriar-me, não serei néscio, porque direi a verdade; mas deixo isto, para que ninguém cuide de mim mais do que em mim vê ou de mim ouve"; e observem: "E para que me não exaltasse pelas excelências das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensa­geiro de Satanás para me esbofetear, a fim de me não exaltar". Ai está, com perfeição. O apóstolo recebera uma experiência muito rara, extraordinária e notável, tinha sido arrebatado ao terceiro céu, e havia visto e ouvido e sentido coisas maravilhosas, e corria o risco de cair em orgulho espiritual, exaltando-se a si mesmo. E ele nos diz que lhe foi enviado um espinho na carne — enviado a ele deliberadamente — para resguardá-lo. Orgulho espiritual é um perigo terrível, e é um perigo que persiste. Se Deus, em Sua mise­ricórdia e amor, nos conceder uma experiência incomum, isso nos coloca numa posição em que o diabo pode nos explorar e preju­dicar; e com frequência homens que tiveram tais experiências também tiveram que sofrer correção para mantê-los numa posição segura e correta.
Outro perigo é o perigo da auto-confiança. Deus deu dons aos homens, e o perigo é que passemos a confiar em nós mesmos e em nossos dons, passando a sentir, de certa forma, que não precisamos mais de Deus. Orgulho e auto-confiança são um perigo constante. Não são pecados da carne em si, são perigos espirituais, e são, portanto, ainda mais perigosos e sutis.
E então sempre há o perigo de sermos atraídos pelo mundo, suas perspectiva e seus caminhos. Um ponto enfatizado muitas vezes nas Escrituras é que estas coisas são muito sutis. A pessoa não decide, deliberadamente, que vai voltar ao mundo. É algo que acontece quase imperceptivelmente. O mundo e suas atrações estão sempre presentes, e a pessoa cai nelas quase sem saber. Ela então precisa ser corrigida, para que não passe a amar as coisas do mundo. Ainda um outro perigo é o de nos acomodar — o perigo de nos satisfazer com a posição que alcançamos na vida cristã — presunção, auto-satisfação. Não somos modernistas, não cremos em todas essas coisas em que muitos crêem hoje em dia, somos orto­doxos, cessamos de fazer certas coisas que sabemos ser obviamente erradas. Cremos ser perfeitos em nossa fé, e que nossas vidas estão acima de reprovação, e assim nos tornamos presunçosos e satis­feitos conosco mesmos. Acomodamo-nos, e assim paramos de cres­cer. Se nos compararmos com o que éramos dez anos atrás, real­mente não há diferença. Não conhecemos a Deus mais intimamente, não avançamos um passo sequer, não crescemos "na graça e no conhecimento do Senhor". Descansamos num estado de auto-satis­fação. Talvez eu possa resumi-lo dizendo que é o terrível perigo de esquecer Deus, e não buscá-10, não buscar comunhão com Ele.
É o perigo sério de pensar em nós mesmos em termos de expe­riência, em vez de pensar, constantemente, em termos do nosso conhecimento direto e imediato dEle, e de nosso relacionamento com Ele. À medida que prosseguimos na vida cristã, devíamos ser capazes de dizer que conhecemos a Deus melhor do que conhecía­mos, e que O amamos mais do que O amávamos há anos atrás. Quanto mais conhecemos uma pessoa boa, mais amamos essa pessoa. Multipliquem isso pelo infinito, e aí está nosso relaciona­mento com Deus. Conhecemos melhor a Deus, estamos buscando-O mais e mais? Deus sabe, o perigo é o de nos esquecermos dEle porque estamos mais interessados em nós mesmos e nossas expe­riências. E assim Deus, em Seu amor infinito, corrige-nos para nos fazer compreender estas coisas, a fim de nos levar de volta para Si mesmo e nos resguardar destes terríveis perigos que estão cons­tantemente nos ameaçando e nos cercando. Quero relacionar isso com sua experiência. Acaso, podem dizer que agradecem a Deus por coisas que acontecem contra vocês? Esse é um excelente teste da nossa profissão de fé! Vocês conseguem olhar para trás, para certas coisas — que foram desagradáveis, e que os tornaram infe­lizes na época em que aconteceram — e dizer como o salmista no Salmo 119:71: "Foi-me bom ter sido afligido, para que apren­desse os teus estatutos"?
Digo, então, que Deus nos corrige por estas razões particulares. Mas quero agora pô-lo de forma positiva. Ser santificado significa que exibimos certas qualidades positivas. Significa ser o tipo de pessoa que exemplifica as bem-aventuranças e o sermão do monte em sua vida, ser o tipo de pessoa que demonstra o fruto do Espírito — amor, alegria, paz, etc. É isso que significa santificação. Deus, ao nos santificar, está nos trazendo mais e mais a uma con­formidade com essa condição. E é bem evidente que, para nos levar a esse ponto, não é suficiente que recebamos a instrução positiva da Palavra; o elemento de correção também é necessário. A Palavra nos exorta a "olharmos para Jesus". Observem que faz isso logo antes de abordar o assunto da correção. A exortação do autor é: "Corramos com paciência a carreira que nos está pro­posta: olhando para Jesus..." Se fizéssemos isso sempre, nada mais seria necessário; se mantivéssemos sempre os olhos nEle, tentando nos conformar a Ele, tudo estaria bem. Mas não fazemos isso, e portanto a disciplina se torna necessária. E é necessária a fim de produzir certas qualidades em nós. A primeira delas é a humildade. Ela é, em muitos sentidos, a virtude suprema. Humildade, a mais inestimável de todas as jóias, uma das mais gloriosas de todas as manifestações do fruto do Espírito - humildade. Era a suprema característica do próprio Senhor. Ele era manso e hu­milde de coração. "A cana trilhada não quebrará, nem apagará o pavio que fumega". É o último ponto que alcançamos, e Deus sabe que todos precisamos ser humilhados para nos tornarmos humildes. O fracasso pode ser muito' proveitoso para nós nesse sentido. É muito difícil sermos humildes se somos sempre bem sucedidos; então Deus nos corrige através do fracasso, às vezes, para nos humilhar e assim nos manter humildes. Examinem suas vidas e vejam esse tipo de coisa acontecendo.
Vejam em seguida a devoção. O cristão deve ser devoto, deve ter seus olhos fixos nas coisas de cima. Seus interesses devem estar concentrados lá, e não aqui. Mas como é difícil ter essa atitude, e buscar "as coisas lá do alto", e "pensar nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra". Quantas vezes tem sido necessário que Deus nos corrija, para voltar nossos olhos para o alto. Tendemos a nos apegar tanto ao mundo que Deus tem que fazer algo para nos mostrar claramente que as coisas que nos prendem a este mundo são frágeis e podem se desfazer num se­gundo. E assim despertamos subitamente para o fato de que somos apenas peregrinos neste mundo, e fomos feitos para pensar no céu e na eternidade.
Mansidão] Quão difícil é ser manso em nossa atitude para com os outros e em nosso relacionamento com eles — amar os outros, ter empatia para com eles. Há um certo sentido, eu creio, em que é quase impossível sentirmos empatia, se não conhecemos algo da mesma experiência. Sei muito bem, em meu trabalho como pastor, que nunca teria sido capaz de verdadeira compreensão e simpatia para com certas pessoas, se não tivesse passado pelo mesmo tipo de experiência. Deus às vezes precisa tratar conosco com o propósito de nos lembrar a nossa necessidade de paciência. Ele diz, na verdade: "Você sabe que Eu sou paciente com você; seja paciente com essa outra pessoa!"
Estas, então, são algumas das coisas que nos mostram clara­mente a necessidade de correção. Deus, porque nos ama, porque somos Seus filhos, nos corrige para que eventualmente seja pro­duzido em nós o maravilhoso e incomparável "fruto pacífico de justiça".

Até aqui examinamos o assunto em princípio. No capítulo seguinte espero demonstrar como esta passagem aplica todo esse ensino, e como devemos aplicá-lo a nós mesmos. O grande prin­cípio é que Deus nos corrige porque somos Seus filhos. Se, por­tanto, vocês não estão conscientes desse tipo de tratamento em suas vidas, eu os exorto a examinarem-se a si mesmos, certifican­do-se de que realmente são cristãos, porque: "O Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho". Bendito seja Deus, que Se incumbiu da nossa salvação e do nosso aperfei­çoamento, e que, havendo começado a obra, irá completá-la, e que nos ama tanto que, se não aprendermos as lições voluntaria­mente, nos corrigirá para nos trazer à conformidade com a imagem do Seu amado Filho.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

TRANSFORMANDO PROVAÇÕES EM TRIUNFOS

Silas Roberto Nogueira
Comunidade Batista da Graça, Suzano/SP
Exposição da Epístola de Tiago
Anotações do Sermão


Tiago 1:2-4


Tiago começa sua carta tratando de um dos temas mais espinhosos da vida cristã, as provações. Sem rodeios, ele afirma que as provações são muitas e inevitáveis. O cristão não pode evitar as provações, elas sobrevêm a eles indistintamente e das mais variadas maneiras. Há muitos que ao cair em provações desanimam, murmuram, blasfemam e se impacientam. Sem notar, prolongam as suas provações e as transformam em tentações dando ocasião ao pecado que gera a derrota espiritual. Tiago nos mostra aqui que só existe uma maneira de enfrentar as provações. Só há um único modo de transformamos as tribulações em triunfos. Vejamos o que nos ensina Tiago:

O primeiro ponto que quero destacar é que precisamos enfrentar as provações com alegria. No dicionário, provação e tribulação sempre vem antes de triunfo, mas não antes da alegria. As provações são circunstâncias que nos sobrevém em que nossa fé é testada. A ordem de Tiago aqui não é somente que nos alegremos por causa das provações, mas que experimentemos uma plenitude de alegria (“toda alegria”). Essa mensagem pode ser encontrada em todo o Novo Testamento. Cristo ensinou isso (Mt 5:11,12), essa foi a experiência dos primeiros crentes (At 13:48-52 ) e o ensino dos apóstolos, Paulo ( 2 Co 7:4), Pedro (1 Pe 4:13), autor de Hebreus (Hb 10:34). A questão que devemos levantar então é: qual a natureza dessa alegria? Tiago não explica. Simplesmente ordena: alegre-se. Mas nós não estamos no escuro. O próprio contexto e outras partes da Bíblia explicam a natureza dessa alegria.

Essa alegria não tem sua fonte nas circunstâncias, mas é independente delas. Tiago deixa evidente que a alegria aqui não tem uma relação direta com aquilo que estamos experimentando ou sentindo. A alegria ordenada aqui é possível mesmo em meio às circunstâncias adversas, mesmo em meio às provações. Portanto, a alegria aqui é independente das circunstâncias. O cristão não depende das circunstâncias para experimentar a alegria. John Blanchard “a verdadeira alegria resplandece no escuro.”

Essa alegria não é insensibilidade à dor. Tiago não diz não sinta dor, não chore, mas alegre-se. Essa alegria não nos torna insensíveis ou imunes à dor. Tiago, por exemplo, cita Jó como modelo de alguém que sofreu com paciência (5:11). Ora, nós sabemos que Jó chorou e esteve de luto por tudo que passara (Jó 30:25-31). Tiago também cita os profetas como modelo de sofrimento, e sabemos que entre os que mais sofreram estava Jeremias, cujos lamentos estão registrados em seus livros (Jr 15:10). Essa alegria coexiste com a dor e o sofrimento, não nos torna insensíveis ou imunes a eles.

Essa alegria não é natural, mas sobrenatural. Tiago não diz que devemos produzir alegria. Tiago apenas ordena que nos alegremos. Como um dom perfeito, essa alegria tem como origem o nosso Deus, Tg 1:17. De acordo com Paulo é Deus quem nos enche dessa alegria, Rm 15:13. Aos crentes gálatas Paulo fala dessa alegria como fruto do Espírito santo, Gl 5:22. Assim sendo, essa alegria é divina, não humana, não é natural, mas sobrenatural. O puritano Thomas Watson dizia “há tanta diferença entre as alegrias espirituais e as terrenas quanto entre um banquete saboreado e outro pintado na parede”.


 O segundo ponto que devo destacar é o porquê devemos nos alegrar. De acordo com Tiago “muitas” são as provações pelas quais os crentes passam. Talvez a afirmação de Tiago aqui seja um eco do salmista que havia afirmado “muitas são as aflições do justo” (Sl 34:19). Duas coisas devem ser observadas de imediato: 

(a) As provações são inevitáveis. A palavra “passardes” tem o sentido de ser tomado de assalto e isso indica que as provações sobrevinham a eles de modo repentino, sem que pudessem evitar. Cristo declarou “no mundo tereis tribulações” (Jo 16:33). Paulo afirmou que todos os que querem viver piedosamente padecerão perseguições (2 Tm 3:12). C. S. Lewis afirmou “o verdadeiro problema não está na razão por que algumas pessoas piedosas, humildes e crentes sofrem, mas por que algumas não sofrem”. A igreja em Sardes não enfrentava perseguições, vivia tranquilamente em amizade com o mundo, mas estava morta; 

(b) Só existe uma maneira de enfrentar as provações: embora sejam muitas as provações, só existe uma maneira de enfrenta-las e é com alegria. Os crentes não estão imunes ao sofrimento.  Alguns dos leitores originais de Tiago estavam enfrentando a viuvez e pela orfandade (1:27), alguns foram processados pelos ricos opressores (2:6), outros sofriam opressão social (5:1-4) e ainda outros enfrentavam doenças (5:14). Contudo, Tiago não lhes ensina fugir das provações, mas a enfrenta-las com uma mentalidade alegre. E porque devemos ter tal atitude em relação às provas da vida?

É uma ordem: Mt 5.12; Fp 2.18;4.4; 1 Ts 5.16;1 Pe 4.13. Não nos cabe negociar ou discutir, apenas obedecer. Só há duas maneiras de enfrentar as provações na Bíblia. O primeiro é desobedientemente, isto é, sem alegria e tão somente com a dor; o segundo modo é alegremente, apesar da dor.

Por que a alegria é nossa força. Não há maneira melhor de enfrentar as provações do que com alegria. A razão disso é simples: a alegria do Senhor é nossa força, Ne 8.10. Força para superarmos as provações e sermos finalmente aprovados. John MacAr
thur comenta com sabedoria que “se o cristão não consegue passar nessa prova por responder a ela de maneira incorreta, essa prova então se torna uma tentação, uma incitação ao mal.”

Por que glorifica a Deus. O mundo não conhece essa alegria, mas pode conhecer através de nós. Há incrédulos que enfrentam os revezes da vida com firmeza inabalável, contudo sem alegria. Mas ao cristão é possível a alegria mesmo em meio às dores e isso o mundo não conhece. Ao enfrentar as provações com alegria, o cristão glorifica a Deus. Por isso Narthcote Deck afirmou: “Um cristão sem alegria é um difamador de seu Senhor”

O terceiro e último ponto que devo destacar aqui é como obter a alegria que triunfa da provação. Estamos cientes de que devemos enfrentar as provações com alegria. É uma ordem divina, será bom para nós mesmos, será um bom testemunho e finalmente glorificará a Deus. Mas a questão que se levanta: como podemos obter a alegria triunfante?

Achegue-se a Deus, pois ele é manancial de alegria: A primeira coisa que devemos saber é que essa alegria é fruto do nosso relacionamento com Deus, 1 Cr 16:27 (“formosura” lit. é alegria); Sl 16:11.

Considere a situação sob outra perspectiva: atente para as palavras “tende por motivo”, notou que em algumas versões é “considerai”? (AS21; NVI) O que é considerar? Dar atenção a, levar em conta, observar atentamente, meditar em, pesar, examinar, apreciar. A palavra no original tem a crença que não descansa sobre os sentimentos, mas na devida consideração dos fatos e que contrasta e pesa as circunstâncias. Em outras palavras, não se deixe levar pelas emoções, mas pondere bem e observe que a situação presente pode revelar-se uma ação providencial de Deus que redundará em benefícios espirituais a você e a outros.

Considere que as provações são sempre passageiras: Tiago assevera “tende por motivo de toda alegria o passardes...”. As provações na vida do crente podem ser muitas, mas são sempre passageiras. O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem ao amanhecer, Sl 30:5. Alguns passam pelas lutas de modo rápido, outros mais devagar e ainda outros lentamente, mas todos passam! Pedro ao se referir às provações diz que elas são “por breve tempo” (1 Pe 1:6) e Paulo fala delas “leve e momentânea” provação (2 Co 4:17). O cristão passa pelo deserto, não mora nele. A dor circunstancial não pode fazer com que você perca a alegria que é eterna!

Considere as provações pedagógicas: há um aspecto e esse é absolutamente importante em nossas considerações. Não podemos experimentar alegria se não o compreendermos corretamente. O aspecto sumamente importante em nossa consideração das provações é que elas têm um foco pedagógico, querem nos ensinar, aperfeiçoar e não destruir. A frase “muitas provações” fala não somente de quão variadas são as provações, mas que certamente há uma para cada momento e para cada área em nossa vida que precisa ser aperfeiçoada. Tiago nos diz que as provações visam produzir em nós a “perseverança”. A perseverança é uma das virtudes mais necessárias aos crentes. Os que perseveram em meio às lutas da vida provam que não tem uma fé momentânea. A perseverança é um sinal de uma fé íntegra, não deficiente. As provações não são prisões, mas túneis pelos quais caminhamos rumo à liberdade em Cristo.

Para concluir entendo que cabem bem aqui as palavras de William Shakespeare: “eu aprendi que todos querem viver no topo da montanha, mas toda felicidade e crescimento ocorre quando você está escalando-a”.


Tiago nos ensina que as tribulações da vida devem ser encaradas com alegria. Esse é o método de Deus de transformar tribulações em triunfo. 

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A JOIA PERDIDA DO CRISTIANISMO - O CONTENTAMENTO

Aprendendo com Jeremiah Burroughs

Anotações do Sermão da Série 
Aprendendo com os Gigantes de Deus

Silas Roberto Nogueira

Filipenses 4.11-13


Jeremiah Burroughs nasceu na região conhecida como East Anglia , Inglaterra, entre 1599  ou 1600 .  Em 1617 foi admitido como pensionista no Emmanuel College, Cambridge, recebendo os graus de Bacharel em Artes, em 1621, e Mestre em Artes, em 1624. O fato de ser um não conformista não o impediu de ser ordenado ao ministério em 1622. A princípio era auxiliar de Edmund Calamy, em Bury St Edmunds, Sulffolk. Mas esse início promissor mostrou-se logo uma decepção, escreveu Burroughs: “foram quase três anos e meio com eles, com pouco sucesso”. Ele enfrentou forte oposição na congregação depois de denunciar os pecados de alguns cidadãos e logo seu ministério ali findou. 


A partir de 1631 Burroughs tornou-se ministro em Tivestshall, Norfolk. Seu ministério ali foi interrompido quando ele foi suspenso do púlpito em 1636 e despojado em 1637 pelo bispo Wren por não conformar-se com a leitura do Livro dos Esportes no púlpito, inclinar-se ao nome de Jesus e a recitação de orações, em vez de fazê-las extemporaneamente, etc. Para Burroughs nada deveria ser acrescentado ao culto a Deus sem direta prescrição da Palavra. Para piorar tudo, ele foi difamado por outro ministro como apoiador da causa dos escoceses. Sem sustento, Burroughs passou por muitas dificuldades sendo socorrido pelo Conde Warwick. Mas quando a perseguição aos puritanos aumentou, Burroughs teve que deixar a Inglaterra, indo para a Holanda. De 1638 a 1640, Burroughs viveu na Holanda, em Rotterdã, e ministrou a uma congregação de ingleses independentes (Congregacional) a convite de William Bridge. Ele desenvolveu um brilhante trabalho na Holanda tendo adquirido uma alta reputação. Quando em 1642, por causa da Guerra Civil, o poder das perseguições diminuiu consideravelmente, Burroughs voltou à Inglaterra. De novo em sua pátria ministrou a duas congregações, a de Cripplegate e Stepney, que tinham fama de serem as mais frequentadas da Inglaterra. Burroughs pregava no culto das 7:00 horas em Stpeney e William Greenhill pregava às 15:00 horas. Daí espalhou-se o ditado que Burroughs era a estrela da manhã e Greenhill a estrela da tarde em Stpeney.  Tomas Brooks se referia a ele como “príncipe dos pregadores”. 


Burroughs era um homem de firmes convicções, mas de espírito irênico. Ele participou da Assembleia de Westminster e esteve ao lado dos independentes, mas seu tom era moderado. Ele faleceu em 1646, depois de sofrer uma queda de um cavalo. Ele enfrentou duras provações durante boa parte do seu ministério por suas convicções. Mas o que fez dele um homem persistente em meio às perseguições e injustiças sofridas? O que fez dele um gigante com o qual podemos aprender hoje? Certamente foi o seu entendimento da Palavra de Deus acerca do contentamento cristão. Ele pregou uma série de sermões em Filipenses 4.11 que foram transformados em um livro A Joia Rara do Contentamento Cristão  publicado dois anos após a sua morte, em 1648, e que tem sido usado por Deus para instruir seu povo até hoje. 


EXPOSIÇÃO
Quando Dr Lloyd-Jones chegou a este texto em suas exposições de Filipenses afirmou “temos [aqui] uma das poções das Escrituras que sempre me fazem pensar que há um sentido em que a única coisa certa e própria que de se deve fazer depois de as lermos num culto na igreja é impetrar a bênção!”   Qual a razão de tais palavras? Ora, o fato de estarmos diante de um dos momentos mais sublimes em que Paulo revela o segredo, por assim dizer, da vida cristã mais elevada. Vejamos o que nos ensina o apóstolo:


CONTENTAMENTO É ALGO QUE APRENDEMOS

Quando Burroughs abordou este texto observou com perspicácia que contentamento é uma coisa que se aprende – diz Paulo “pois aprendi”, v.11. E, no v.12, ele diz “tenho experiência” (AS21 e ARA) ou “estou instruído” (ARC) ou “aprendi” (NVI). A primeira palavra (gr emathon) refere-se ao aprendizado pelo ouvir tanto quanto pelo praticar. O sentido é “vim a aprender”, portanto isso não é algo automático na vida cristã. Lloyd-Jones comenta “dou graças a Deus por Paulo ter dito isso. Nem sempre Paulo estava no mesmo nível, como acontece com qualquer um de nós. Ele tinha “vindo a aprender” . Observemos por um instante a segunda palavra usada por Paulo no v.12. Onde se lê “tenho experiência” (AS21 ou ARA) e “instruído” (ARC) a palavra usada pelo apóstolo era usada em conexão com os cultos de mistério. É como se Paulo dissesse que havia sido “iniciado” no aprendizado do contentamento. Burroughs afirma que aqui é como se Paulo dissesse “eu aprendi o mistério ou o segredo disso”, por isso a NVI aqui foi melhor – “aprendi o segredo de viver...”. no entanto, o aprendizado do contentamento cristão não se dá por meio de um ritual místico, mas pelo exercício da confiança na providência divina. 

Certa vez um homem de Wall Strett encontrou um sábio e perguntou: “como faço para ser feliz?” E o sábio respondeu: “contente-se com o que você tem” E o homem partiu triste. Diz o ditado: “uma mente satisfeita é uma festa contínua”. 

Thomas Watson, outro gigante puritano, diz “o apóstolo não diz, eu ouvi que em cada situação eu deveria ser contente, mas eu aprendi. Daí nossa primeira doutrina, que não é suficiente para os cristãos ouvirem seus deveres, mas eles devem aprendê-los. Uma coisa é ouvir e outra aprender, como é uma coisa comer e outra coisa misturar ingredientes. Paulo era um praticante. Cristãos ouvem muito, mas infelizmente, aprendem pouco” . Você é um dos que aprendem? 


O QUE É CONTENTAMENTO

Quando dizemos que Paulo aprendeu a estar contente, o que queremos dizer com isso? Vamos começar a dizendo o que esse contentamento não é, isto é, vamos defini-la primeiro de modo negativo. 

(a) Em primeiro lugar o contentamento não é o mesmo que resignação. Resignação é a aceitação de uma circunstância simplesmente porque não se pode muda-la. O budismo ensina que a vida é sofrimento, portanto o budista é obrigado a aceitar isso simplesmente pelo fato de não poder mudá-lo, é um carma. 

(b) Em segundo lugar o contentamento não é o mesmo que conformismo. Muitas vezes o cristianismo é acusado de implantar nas pessoas um espírito conformista. O conformista é aquele tipo que se contenta com o que tem ou não tem e não busca adquirir, avançar ou melhorar. 

(c) Em terceiro lugar o contentamento nada tem a ver com o temperamento de uma pessoa. Há pessoas que tem uma disposição natural que parece torna-las aparentemente contentes o tempo todo. O tipo de pessoa que parece nunca estar preocupado. 

(d) Em quarto lugar o contentamento não é a indiferença estoica face às circunstâncias. Os estoicos pensavam em que o segredo de uma vida feliz consistia não em possuir muitas coisas, mas em desejar menos. 


Que significa então? Voltemos nossa atenção ao termo usado por Paulo e que foi traduzido por “contente” (ARA) ou “satisfeito” (AS21). Seu sentido básico é o de “autossuficiência” e na ética dos estoicos significava a independência de tudo e de todos. Para os estoicos essa autossuficiência se obtinha eliminando todo o desejo e era uma conquista humana. Mas Paulo não é ume estoico, para ele essa autossuficiência era um dom divino. Burroughs afirma que o sentido das palavras de Paulo aqui é que ele achou suficiente satisfação em seu próprio coração através da graça de Cristo que estava nele e por isso, apesar de não possuir nenhuma espécie de conforto exterior para suprir as suas necessidades ele tinha de Cristo o suficiente para satisfazer a sua alma em todas as situações. 


Burroughs chama a atenção que a palavra “toda e qualquer situação” (ARA) ou “circunstância” (AS21 e NVI) não consta do original e que uma tradução literal seria – “eu sou contente como estou”. Por isso Burroughs afirma que o contentamento aqui “não é o resultado daquilo que temos, mas sim o tipo de pessoa que somos”  O contentamento de Paulo provinha de uma fonte interior, não das coisas exteriores. O contentamento de Paulo não era dirigido pelas circunstâncias, mas pelo que ele era em Cristo. 


Warren Wiersbe narra uma história interessante: “O problema com ele é que é um termómetro e não um termostato!” Esta afirmação feita por um diácono despertou a curiosidade do pastor. Eles estavam falando sobre possíveis membros para a liderança, quando surgiu o nome de Jim. Quando indagado, explicou o diácono: “o caso é este, pastor um termómetro não muda nada à sua volta — limita-se a registar a temperatura. Está sempre oscilando. Mas o termostato regula a zona em que se encontra e muda-a sempre que precisa ser mudada. Jim é um termômetro — não tem poder para mudar as coisas. Em vez disso, são elas que o mudam!”.  O apóstolo Paulo era um termostato, não um termômetro. Em vez de ter altos e baixos espirituais conforme a situação ia mudando, ele aprendeu a viver contente apesar das situações.  Ele não era uma vítima das circunstâncias, mas um vitorioso sobre elas. Paulo não precisava estar empanturrado para se sentir contente; encontrava a sua satisfação nos recursos espirituais abundantemente providenciados por Cristo.  Você é um termômetro ou um termostato? 

COMO SE APRENDE A ESTAR CONTENTE EM TODA SITUAÇÃO

Paulo diz que aprendeu a estar contente em toda situação. O termo usado para aprender tem o sentido de aprender pela experiência, justamente o que ele diz no v.12. Em outras palavras, as situações ou circunstâncias que Paulo enfrentara o treinaram, foram-lhe uma escola, Rm 5.3-5; 2 Co 12.10,11;4.16,17.

Então ele cita dois extremos opostos que representam os dois maiores perigos para a alma humana, de um lado a escassez e de outro a abundância, v.12. Ninguém pode dizer o que é mais difícil, contentar-se com pouco ou com muito? Ambas as situações escondem perigos contra o contentamento. As palavras de Agur exemplificam o que estou dizendo, Pv 30.7-9.  

Lloyd-Jones sugere alguns passos no aprendizado de estar contente em toda e qualquer situação: 

1) As condições estão sempre mudando, logo, é óbvio que eu não devo depender das condições;

2) O que importa suprema e vitalmente é a minha alma e minha relação com Deus – este é o aspecto principal.

3) Como meu Pai, Deus preocupa-se comigo, e nada me acontece independentemente de Deus. 

4) A vontade de Deus e os seus caminhos são um grande mistério, mas eu seu que, seja o que for que ele queira ou permita, é necessariamente para o meu bem.

5) Toda situação na vida é um desdobramento de alguma manifestação do amor e da bondade de Deus. Logo, é meu dever buscar descobrir cada manifestação da bondade e da benignidade de Deus e estar pronto para surpresas e bênçãos, Is 55.8. 

6) Não devo considerar as situações em si mesmas, mas como parte dos procedimentos de Deus para comigo na obra pela qual ele me aperfeiçoa...

7) Sejam quais forem as minhas condições no presente, são temporárias, são passageiras, e jamais poderão privar-me do gozo e da glória que final e supremamente me esperam em Cristo. 

Acredito que o que ajudou Paulo a aprender a estar contente em toda e qualquer situação acima de qualquer outra coisa foi manter os olhos em Cristo, Hb 12.2. Paulo pôs os olhos em Cristo e o seguiu como seu exemplo, 2 Co 4.18. Façamos o mesmo! 

PORQUE DEVO EXERCITAR-ME NO CONTENTAMENTO

Para Burroughs o contentamento faz bem para os crentes pelas seguintes razões:

1) Os cristãos exercitados no contentamento adoram a Deus como Ele deve ser adorado. Dizia Burroughs “a verdadeira adoração não é simplesmente frequentar cultos ou fazer orações. Pelo contrário, é possível participarmos de um culto com o coração tão insatisfeito que afinal Deus não tenha sido adorado de forma alguma. (...) Fazer o que Deus quer, isso é adoração: estar satisfeito com o que Deus dá, isso também é adoração” . Contentamento e adoração andam juntos

2) Os cristãos exercitados no contentamento “fazem o melhor uso dos dons espirituais que Deus lhes concedeu”. O que Burroughs chama dons espirituais são “fé, humildade, amor, paciência, sabedoria e esperança” e diz ele “Deus almeja ver essas coisas se desenvolvendo em seu povo, pois as vidas dos cristãos felizes sempre tem uma influencia positiva sobre os incrédulos”. Segundo ele, os cristãos que sofrem sem murmurar dão um ótimo testemunho, no qual Deus é glorificado. 

3) Os cristãos exercitados no contentamento “são mais úteis”. No entendimento de Burroughs “pessoas inquietas e instáveis não servem para o serviço de Deus....A única coisa que as torna aptas para o trabalho de Deus é um contentamento espiritual interior”

4) Os cristãos exercitados no contentamento “são pessoas mais bem equipadas para resistir a tentações”. Para Burroughs aqueles que murmuram se desviam facilmente. O diabo faz tudo para convencê-los de que Deus é injusto para com eles. 

5) Os cristãos exercitados no contentamento “são aqueles que se deleitam plenamente na vida aqui e agora”. Segundo Burroughs quem está contente o que Deus lhe deus são mais felizes do que aqueles que possuem muito. 

Lloyd-Jones dizia que um cristão descontente era um mau testemunho.

Finalmente, para Burroughs o que impede o contentamento é o pecado, especialmente o da rebelião contra a vontade de Deus. Essa rebelião é manifesta de modo claro numa atitude comum a muitos, a murmuração. Para Burroughs “cristão que reclamam são cristãos orgulhosos, que se recusam a se submeter à vontade de Deus para suas vidas. Eles são semelhantes aos marinheiros que reclamam da tempestade ao invés de prepararem o navio para enfrenta-la, marinheiros sensatos reconhecem a superioridade da tempestade e arriam as velas”.  Ele ainda nos lembra de que a murmuração provoca a ira de Deus. Os israelitas que murmuraram no deserto nunca entraram na Terra Santa, diz ele. 

Para Burroughs o contentamento será alcançado seguindo-se alguns passos básicos: 

1) Devemos tomar cuidado em nos envolvermos demasiadamente com assuntos dessa vida. 

2) Devemos buscar obedecer sempre à Palavra de Deus

3) Devemos viver por fé

4) Devemos trabalhar com afinco para sermos orientados espiritualmente

5) Devemos jamais ficar obcecados com nossos problemas

6) Devemos não colocar demasiadamente confiança nas opiniões dos outros

Para adquirir o contentamento que Paulo explica aqui é preciso não achar contentamento neste mundo, mas em Cristo.