quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

SANTIFICAÇÃO



Silas Roberto Nogueira

Aprendendo com John Owen sobre a Mortificação do Pecado
(Notas do Sermão) 

Romanos 8.13


J
ohn Owen nasceu em 1616, na vila de Standhan, Oxfordhire, onde seu pai, Henry Owen, fora pastor.  Precoce, aos dez anos foi enviado para o Queen’s College, Oxford. Tinha só 16 anos quando recebeu o seu diploma de Bacharel em Artes (B.A., em 1632) e 19 anos quando obteve o Mestrado (M.A., 1635). Era tão aplicado aos estudos que não se permitia mais que 4 horas de sono por noite. Saiu de Oxford em 1637 por objetar os estatutos de William Laud, bispo anglicano que se opunha à causa dos puritanos.

Num domingo de 1642, Deus usou um pregador simples, que substituiu Edmund Calamy na Igreja de St. Mary Aldermanbury, para, por meio da exposição de Mateus 8.26, tirar toda dúvida, temores e dar certeza salvação a Owen, imprimindo-lhe profunda paz. No ano seguinte, 1643, Owen tornou-se pastor de uma pequena igreja em Fordhan, Essex. Em 1644 casou com Mary Rooke que lhe deu 11 filhos dos quais nenhum sobreviveu a ele. Uma de suas filhas que alcançou a idade adulta, após um casamento fracassado, morreu em sua casa de tuberculose. Owen experimentou a inenarrável a dor de sepultar todos os filhos e, mais tarde, a sua esposa com quem esteve casado por 31 anos.

Em 1646 ele foi chamado para assumir uma congregação em Londres, cuja frequência era de duas mil pessoas e chegou a pregar ao Parlamento. Oliver Cromwell (1599-1658), líder do governo, fez de Owen seu capelão e em 1651 Deão e no ano seguinte Vice-Chanceler da Universidade da Igreja de Cristo,  Oxford. A Universidade estava num estado lastimável naqueles dias, mas o talento administrativo de Owen a reorganizou com êxito. Além das suas responsabilidades administrativas, era ainda responsável pela pregação e uma infinidade de coisas.

Em 1658, ao lado de Thomas Goodwin, Phili Nye, William Bridge, W. Greenhill e Joseph Caryl, participou de um congresso de ministros com o intuito de preparar uma confissão de fé como a de Westminster, que ficou conhecida como A Declaração de Savoy. A partir de 1660 liderou os independentes “através dos amargos anos de perseguição. Em 24 de agosto de 1683 John Owen faleceu após sofrer algum tempo com a asma e cálculos biliares. Ele foi enterrado em 4 de setembro, no Bunhill Fields, Londres.

Owen se opôs vigorosamente ao arminianismo de seus dias, chegando a publicar um livro sobre o assunto em 1643. A partir daí, Owen não parou mais de escrever, sendo que suas obras, totalizando 24 volumes, são até os dias de hoje uma fonte de edificação e benção. Uma delas, sobre a Mortificação do Pecado nos Crentes (Of the Mortification of Sin in Believers, 1656), tem sido largamente usada para conduzir pessoas a uma vida santificada. Mas o que vem a ser essa coisa chamada “mortificação do pecado”? Vamos aprender com esse gigante.


EXPOSIÇÃO
É verdade que o só ouvi falar em mortificação causa aversão em muitos evangélicos, especialmente aqueles que vieram do catolicismo romano.  Para tais pessoas a mortificação está ligada àquelas práticas penitenciais e ascéticas mais rigorosas, muitas vezes repugnantes, onde o fiel se submete à privação ou dor em busca da santificação ou participação nos sofrimentos de Cristo.

Aliada ao preconceito está a ignorância quanto ao assunto e sua relação essencial com a doutrina da santificação.  A superficialidade que impera no cristianismo moderno é proverbial e escancarou as portas para a introdução de conceitos equivocados quanto à santificação que fizeram com que o tema da mortificação fosse naturalmente negligenciado e considerado como supérfluo. 

No entanto, nem as reminiscências do catolicismo e nem a superficialidade são a causa principal do repúdio à mortificação. A causa concreta, progenitora de todas as outras é a nossa natureza carnal. A nossa natureza carnal se opõe vigorosamente contra a sua mortificação, de modo que há um intenso conflito em nós, em nosso interior. É exatamente aqui que muitos crentes perdem a batalha contra o pecado e isso por não compreender biblicamente e por não praticarem aquilo que as Escrituras ensinam sobre a mortificação.

A meu ver a mortificação é um tema bíblico cuja abordagem é urgente em nossos dias.  Penso que ninguém mais, além dos apóstolos, escreveu sobre o assunto melhor que os puritanos e, entre eles, sobressai John Owen.  Owen lança muita luz sobre a questão, luz tão intensa que atravessa os séculos e iluminando homens que já apalpavam na escuridão dos tempos modernos, superficiais e gratificadores da carne. Assim, ao abordar o assunto, teremos Owen diante dos olhos.

Passemos à análise do texto, destacando, alguns pontos básicos sobre a questão da mortificação:

1.       O texto começa com “se” – uma clausula condicional:
Embora em nossas versões a primeira palavra do versículo seja “porque” (ARA/ARC/ACF/VIBB/A21) ou “pois” (NVI/BJ) para fazê-lo mais compreensível, no original grego a primeira palavra é “se”, uma condicional.  Owen assinala:

Paulo usa este “se” para indicar a conexão entre mortificar os feitos do corpo e o viver. É como se disséssemos a um homem doente: “se tomar o remédio, logo se sentirá melhor”. Ao homem doente se está fazendo uma promessa de melhoria na sua saúde, desde que siga o conselho que lhe é dado. Da mesma maneira, o “se” do nosso texto diz que Deus determinou “mortificar os feitos do corpo” como um meio infalível de conseguirmos “Vida”. Há uma conexão inquebrável entre verdadeiramente mortificarmos o pecado e a vida eterna.   

É, portanto, uma questão de vida ou morte. Nas palavras de David Brown “se não matardes o pecado, o pecado vos matará”. Essa é uma questão crucial, eis a razão pela qual o assunto se reveste de um caráter urgente. 

Dr. John Murray assinala duas coisas aqui. A primeira é que é uma sequência inevitável e invariável, sendo estabelecida por Deus, nem Ele mesmo transgride ou infringe. Ele estabeleceu e fixou que a vida não provém de um viver carnal, fazer o contrário seria uma contradição de Si mesmo. A segunda é que a doutrina da segurança eterna do crente não anula esta sequência. Um mal entendido que perdura é o de que alguém será salvo mesmo que viva segundo a carne, a chamada teoria do crente carnal. No entanto, o que o texto deixa claro é que o viver carnal produzirá morte, não vida.

2.       Evitando o quietismo – nossa responsabilidade
Uma terceira observação é a quem é dirigida essa exortação. A NVI supriu o texto com o pronome “vocês”, referindo-se obviamente aos membros da igreja em Roma, a quem Paulo anteriormente se referiu como “os que estão em Cristo” (v.1, cf. vv. 9,10,11,12).  Disso deduz Owen:

“É estupidez e ignorância se esperar que qualquer um, exceto um verdadeiro cristão, desempenhe este dever”

Os homens estão divididos em dois grupos – os que estão na carne e os que estão em Cristo, v.5. Não há, como se supõe um terceiro grupo, um meio termo entre os dois, mas somente esses dois. Não é ao primeiro grupo, o dos que estão na carne que Paulo conclama a mortificação, mas os que estão em Cristo.

3.       Evitando o legalismo – ajuda do Espírito
Em quarto lugar devemos notar as palavras “mas, se pelo Espírito” (ARA; ACF).  Espírito é palavra que aparece neste capítulo 14 vezes. A ARC grafou espírito nos vv.10, 13,15 e Espírito nos vv.2,4,5,6,9,11 e 14. Contudo, aqui deve ser com maiúscula e não deve haver dúvidas de que é uma referência ao Espírito Santo, do contrário a causa eficiente da mortificação não seria Deus, mas o homem. Owen observou:

A mortificação baseada em nossas próprias forças, efetuada pelos meios de invenção pessoal, com a finalidade de uma justiça própria, é a alma e a substância de todas as religiões falsas existentes no mundo. 

Quando o Dr. Lloyd-Jones chegou a esse trecho de suas exposições em Romanos declarou:
O Espírito é mencionado particularmente, como é natural, porque a Sua presença e a Sua obra constituem a singular e peculiar marca do verdadeiro cristianismo. É isso que diferencia o cristianismo do moralismo, do “legalismo” e do falso puritanismo – “pelo Espírito”! Como já vimos, o Espírito Santo está em nós, cristãos. Você não pode ser cristão sem Ele. Se você é cristão, o Espírito Santo de Deus está em você e está operando em você. Ele nos capacita, Ele nos dá força, Ele nos dá poder. Ele “medeia” para nós a grande salvação que o Senhor Jesus Cristo realizou por nós, e nos habilitou a desenvolvê-la. Portanto, o cristão nunca deve queixar-se de falta de capacidade e de poder. Um cristão dizer, “não posso fazer isso”, é negar as Escrituras. Um homem em quem reside o Espírito Santo nunca deve proferir tais palavras; é negar a verdade a respeito dele próprio. 

4.       Uma batalha interior
Consideremos agora a frase “mortificardes os feitos do corpo”. Vamos focalizar primeiramente a frase “feitos [obras, ARC; atos, NVI] do corpo”.  O termo “feitos” refere-se às práticas pecaminosas características da natureza caída, Cl. 3:9; Gál.5:19.  Ao referir-se primeiro àquilo que fazemos através do corpo, Paulo deixa claro que não considera o corpo mau por si mesmo. O pecado acha expressão através do corpo, no entanto o pecado é um princípio interior, Mc. 7:18-23. Quanto a isso comenta Owen:
A maior preocupação de Paulo não é com os “feitos” externos, mas com suas causas internas. É com o desinibido desejo mal, o qual produz os feitos que precisamos lidar radicalmente.

Em outras palavras a mortificação não é exterior, mas interior. A batalha é travada dentro de nós, no nosso interior, Gl. 5:17; Rm. 7: 15 segs.. Escreveu Owen quanto a isso:
“não é fácil expressarmos com que vigor e variedade o pecado se manifesta nesta questão. Às vezes, o pecado propõe diversões, às vezes causa exaustão, às vezes descobre empecilhos, às vezes desperta afetos contrários, às vezes gera preconceitos e, de uma maneira ou de outra, embaraça a alma, de tal modo a jamais permitir que a graça obtenha absoluto e total sucesso, na realização do seu dever. 

Calvino acertadamente declarou que a vida espiritual não será mantida sem luta. É ilusão achar que haverá tempo de trégua nesta batalha senão até a morte. Paulo usou o tempo verbal presente – “milita” (Gl.5:17) o que indica que a batalha não terá fim enquanto não formos revestidos de incorruptibilidade. Há que se dizer que a ausência desse conflito interior indica igualmente a ausência do Espírito Santo, por conseguinte, o fato de que não se está em Cristo como se pensa.

Passemos agora à palavra “mortificardes”. Primeiro vamos explicar o que isso significa, a razão pela qual devemos fazê-lo e finalmente como devemos fazê-lo, na conclusão, apresentaremos a consequência de não fazê-lo.

1.       O QUE É MORTIFICAÇÃO DO PECADO?
(a)     O que não é? Owen destaca algumas coisas que podem confundir-nos:
·         Mortificar o pecado não é destruí-lo completamente, esse é o alvo, mas não o atingiremos.
·         Mortificar o pecado não é mascará-lo, deixando de praticá-lo, mas ainda desejando-o.
·         Mortificar o pecado não é uma mudança no temperamento.
(b)     O que é? Vamos analisar a palavra “mortificardes”. O termo explica-se por si mesmo. Paulo emprega linguagem figurada cujo sentido é o de amortecer, tornar inoperante, extinguir, tirar a sua força vital. Assim, o que o apóstolo conclama aqui é que devemos matar, amortecer, fazer nulo, dar cabo, enfraquecer, tirar a força do pecado em nós manifesto pelos feitos do nosso corpo. Comenta Owen:
A natureza pecaminosa (ou o pecado remanescente) é comparada a uma pessoa, “o velho eu”, com seus recursos, habilidades, sabedoria, sutileza, força, etc. Isto, diz-nos Paulo, precisa morrer. Precisa ser morto (mortificado), ou seja, sua força, poder e vida precisam ser tirados pelo Espírito.

Nosso alvo é, pois, no poder do Espírito enfraquecer o pecado de modo que se torne inoperante. James I. Packer, com a sabedoria que lhe é peculiar, observou que:

“não nos é prometido que atingiremos o nosso alvo nesta vida, mas nos foi ordenado que avancemos na direção do mesmo, atacando aquelas inclinações e aqueles hábitos mediante os quais a presença do pecado é reconhecida. Não convém meramente que resistamos aos ataques do pecado; precisamos tomar a iniciativa contra ele. Nas palavras de John Owen, devemos procurar “não apenas desapontar o pecado, para que o mesmo não se manifeste...mas devemos buscar a vitória contra o mesmo e persegui-lo até a conquista total”. Está em pauta não somente uma contra-ofensiva, mas a erradicação do pecado. Matar, até onde isso nos for possível, é o alvo em vista”.

(c)     Por quanto tempo? A mortificação é uma daquelas coisas que nos cabe fazer enquanto estivermos vivos, a forma verbal usada por Paulo aqui indica isso. A nossa alegria e vigor espiritual dependem da mortificação do pecado e nada é capaz de nos apartar disso senão o pecado. (Sl.51:12)  Owen nos adverte: “mate o pecado, ou ele matará a sua paz e gozo”.   Um outro ponto aqui quanto a mortificação, subjacente ao anterior, é que é uma disciplina dolorosa. Packer declara acertadamente que “os hábitos pecaminosos tornaram-se uma parte tão entranhada de nós mesmos que tentar destruí-los assemelha-se ao decepar de uma mão ou arrancar de um olho (cf. Mt. 5:29,30). O “eu” carnal, que naturalmente procura sobreviver, fará tudo quanto estiver ao seu alcance para impedir-nos de matá-lo”.  

2.       PORQUE DEVEMOS FAZÊ-LO?
Owen diz “a verdade a ser destacada é que a vitalidade, a força e o conforto de nossa vida espiritual dependem em grande parte de nós mortificarmos o pecado.” Devemos mortificar o pecado pelas seguintes razões:

(a)     Se não mortificarmos o pecado ele nos matará. Essa é a verdade que o texto que estamos estudando nos apresenta. Owen diz “preocupe-se em matar o pecado, senão ele acabará matando você”.
(b)     Se não mortificarmos o pecado não cresceremos na graça. Owen afirma que não há crescimento na graça “ sem a mortificação diária do pecado, pois ele exerce seu poder contra todos os atos de santidade e contra todo o nível de crescimento espiritual que atingimos. Ninguém pense que está fazendo algum progresso na santidade se não pisotear as concupiscências do pecado”.
(c)     Se não mortificarmos o pecado pecamos contra a bondade de Deus. Deus nos deu uma nova natureza e o Espírito Santo com o intuito de que tenhamos força interior para nos opor ao pecado. Portanto, diz Owen “não mortificar diariamente o pecado é pecar contra a bondade, a generosidade, a sabedoria, a graça e o amor de Deus, que nos ofereceu meios de mortificá-lo”.
(d)     Se não mortificarmos o pecado ofendemos o Espírito Santo de Deus. O pecado sempre entristece ao Espírito Santo (Ef 4.30). Quando não mortificamos o pecado ofendemos o Espírito Santo de Deus, repudiando a sua orientação.
(e)     Se não mortificarmos o pecado desobedeceremos a Palavra de Deus. Somos ordenados pela Palavra de Deus a matarmos o nosso pecado, não fazê-lo é pecado de desobediência, Cl 3.5,6.

3.       COMO DEVEMOS FAZÊ-LO?
(a)     Tensão entre o já e o ainda não: Em certo sentido a mortificação foi realizada, mas por outro lado, ainda não. Existe uma tensão entre o que já foi feito por Cristo na cruz e o que precisa ser feito pelo cristão diariamente. Isso é evidente em dois textos paulinos, o primeiro diz “fazei, pois morrer a vossa natureza terrena” (Cl. 3:5). O tempo verbal usado aqui indica uma ação já realizada (Rm. 6:3-11;Cl. 2:12,20). No entanto, no segundo texto, objeto de nosso estudo, Rm. 8:13 “se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis” – o apóstolo usa o tempo verbal presente, como já mencionamos, e isso implica em que a mortificação é uma tarefa contínua. John Owen reconheceu essa tensão:
Em certo sentido este é um fato que já ocorreu. Diz-se que o velho eu já está “crucificado com Cristo” (Rom.6:6). “Morremos com Cristo” (Rom.6:8). Isto aconteceu quando nascemos de novo (Rom.6:3-8). Entretanto, cada cristão tem os remanescentes de uma natureza pecaminosa que irão constantemente procurar se expressar. É dever de cada cristão mortificar os remanescentes desta natureza pecaminosa. Isto precisa ser feito continuamente de modo que aos desejos da natureza pecaminosa não seja dada oportunidade para se expressarem (Gál. 5:16)

(b)     Os modos humanos e o divino:  Há três modos básicos de mortificar o pecado, pelo menos. Dois deles são humanos e um é divino. O primeiro consiste no método católico romano.  Há certas práticas do catolicismo que visam mortificação que podem ser consideradas absolutamente ineficazes, tais como vestir-se com panos de saco, fazer votos, penitências, jejuns, clausura ou autoflagelo. O segundo método consiste no legalismo. Lloyd-Jones referiu-se a esse método como “falso puritanismo”, diz ele:
Esse método pode ser descrito também como “falso puritanismo”. Digo “falso” puritanismo porque na realidade é uma negação dos ensinos do puritanismo. Alguns de nós experimentaram isso em sua vida. Eu, pessoalmente, fui criado nesse tipo de atmosfera. Os nossos mentores não nos ensinaram as grandes doutrinas puritanas; mas nos ensinaram uma espécie de prática puritana, sem dar-nos a doutrina, sem dar-nos a razão, sem dar-nos a verdade. Era um modo de viver imposto a nós com grande rigor, e constituía a principal característica dos não conformistas do fim do século dezenove e do começo do século vinte. Era o tipo de vida no qual você “desprezava os prazeres e vivia dias laboriosos”. Era uma religião sem alegria, uma forma de legalismo, uma tirania em que não havia felicidade, não havia gozo, não havia espírito de exultação. Era uma “religião do medo” que levava à morbidez e à introspecção, e muitas vezes ao desespero. Não passava de puro legalismo, um sistema de vida, um código de ética, um código moral imposto às pessoas de maneira errada.
Podemos dizer que a mortificação dos feitos do corpo por meio do Espírito inclui as seguintes ações: 

(1)     Você precisa estar ciente da sua superioridade. James Packer declara que “ninguém se encoraja muito para uma batalha sobre a qual ele pensa que não poderá vencer. Esperar a derrota é o meio para garanti-la... ao crente está vedado um tão desastroso pessimismo”. Paulo nos diz : “a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus te livrou da lei do pecado...” (Rm 8.2). O que Paulo diz aqui é o Espírito Santo é aquele que nos livra do poder escravizador do pecado.[1] F. F. Bruce comenta “o conflito entre as duas naturezas prossegue, mas onde o Espírito Santo tem domínio e a direção, a velha natureza é compelida a recuar”.[2] Dr. Lloyd-Jones comentou com acerto sobre isso:
Para começar, temos que entender espiritualmente a nossa situação, pois muitos dos nossos problemas são devidos ao fato devidos ao fato de que não compreendemos, e não lembramos, quem somos e o que somos como cristãos.

Em 2 Pe1.2-4, Pedro nos diz que tudo o que diz respeito à piedade nos foi conferido em Cristo. Isso significa que nós temos plena suficiência em Cristo para a vida cristã e isto obviamente inclui poder para a mortificação do pecado pelo Espírito.  Na regeneração o Espírito nos vivificou (Ef .2.5; Cl 2.12,13,31) ou nos fez nascer de novo (Jo 1.12; cap 3; Tg 1.18; 1 Pe 1.3; 1 Jo 5.18). Na prática o que isso significa é que o Espírito Santo trocou o nosso coração e por um novo coração, Ez 36.26. Isso representa um poderoso golpe mortal contra a nossa velha natureza para que não sirvamos mais ao pecado e para que ele não tenha mais domínio sobre nós, Rm 6.6,14. Além disso, o Espírito veio habitar-nos, Ez 36.26,27; Rm 9-11. A habitação do Espírito Santo no crente é uma força opositora ao pecado (Gl 5.16,17) e lhe transmite poder para manifestar o caráter de Cristo, Gl 5.22. Em outras palavras, o Espírito Santo desperta o crente à obediência à verdade e o fortalece a agir conforme a verdade, Fp 2.13.  Martyn Lloyd-Jones comenta sobre isso:
Se você é cristão, o Espírito Santo de Deus está em você e está operando em você. Ele nos capacita, Ele nos dá força, Ele nos dá poder. Ele “medeia” para nós a grande salvação que o Senhor Jesus Cristo realizou por nós, e nos habilitou a desenvolvê-la. Portanto, o cristão nunca deve queixar-se de falta de capacidade e de poder. Um cristão dizer, “não posso fazer isso”, é negar as Escrituras. Um homem em quem reside o Espírito Santo nunca deve proferir tais palavras; é negar a verdade a respeito dele próprio.[3]

(2)     Você precisa andar no Espírito. Paulo diz: “a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito.” (Rm 8.4) . O andar cristão normal é no Espírito Santo como já lemos. Aos gálatas, Paulo disse: “Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne.” (5.16). Em outras palavras, a mortificação do pecado só pode ocorrer quando andamos no Espírito. Não consigo encontrar uma explicação melhor para o andar no Espírito do que a que Paulo oferece em Romanos 8.5: “Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito”.  Paulo define o andar no Espírito como uma inclinação dos pensamentos, dos afetos, dos interesses e dos propósitos. Em outras palavras, a inclinação representa o princípio governante da vida do homem. Aos crentes efésios Paulo expos a mesma verdade nos seguintes termos: “...não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito” (5.18).  Quando alguém está embriagado o poder dominante é a bebida, ele está sob o poder e a influência do álcool e o resultado é a “dissolução”. Por outro lado, quando o poder e a influência dominante é o Espírito os resultados são diferentes. Nós devemos ser cheios do Espírito Santo, devemos nos submeter ao Seu controle, ao Seu domínio, ao Seu poder, à Sua influência. Isso é o que distingue os filhos de Deus: “pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14).

(3)     Você deve buscar crescimento espiritual. O apóstolo Pedro ordena “crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pe 3.18). James I. Packer cita John Owen quanto a isso:
Crescer, vicejar e aprimorar-se na santidade universal é o grande meio para a mortificação do pecado...Quanto mais abundarmos nos frutos do Espírito, menos preocupados ficaremos com as obras da carne... Isso é que derrota o pecado; sem isso, coisa alguma contribuirá para tal derrota.”
Então Packer prossegue:
Precisamos nutrir a nossa nova natureza com a verdade de Deus e exercitá-la continuamente na oração, na adoração, no testemunho e em uma obediência consistente e total. Deveríamos planejar a prática e o desenvolvimento de qualidades mais contrárias aos pecados dos quais precisamos nos desvencilhar: a generosidade, se o nosso problema é a cobiça; o hábito de louvar, se o problema é a autocompaixão; a paciência e a tolerância, se o problema é o mau temperamento; o planejamento da vida diária, se é a indolência; ou quaisquer outras qualidades. Precisamos interceptar as tentativas do pecado em recuperar o controle de nossos corações e poderes, mantendo-nos atarefados no serviço de Deus. Crentes débeis, descuidados, de corações e mentes divididas, jamais poderão mortificar o pecado”[4]  

O apóstolo Pedro afirma a nossa responsabilidade e diligência no desenvolvimento da nossa vida espiritual, 2 Pe 1.3-11. Owen deixa faz questão de esclarecer este ponto dizendo:
O Espírito santo não mortifica o pecado no cristão sem a obediência e a cooperação do cristão. Ele age em nós e sobre nós, do modo que for apropriado à natureza humana. ... Efetua em nós e a nosso favor, não contra nós ou sem nós. [5]

(4)     Você deve ser vigilante quanto às tentações. Devemos orar para que Deus não nos deixe cair em tentação, Mt 6.13; Lc 11.4. Contudo, é nosso dever também fugir da tentação, Sl 18.23b. Packer comenta que “é pura presunção, e não fé, esperar que Deus, em seu poder soberano, mate em nós as concupiscências, ao mesmo tempo em que lemos má literatura, aceitamos más companhias e nos expomos às influências que fomentam as concupiscências; é mais provável atrair uma maldição do que uma benção.” Owen adverte:
Lembre-se, aquele que ousa brincar com as oportunidades para pecar ousará pecar. A maneira de evitar o adultério... é: “afasta o teu caminho da mulher adúltera, e não te aproximes da porta da sua casa” (Pv 5.8)[6]

(5)     Você deve orar. O fato de mencionarmos a oração somente aqui não significa que você deve fazer tudo o que foi mencionado e, se não der certo, então você deve orar, mas fazer tudo o que foi mencionado em oração. Nossa oração deve incluir  um pedido de livramento das tentações – “não nos deixe cair em tentação” (Mt 6.13; Lc 11.4) , como o Senhor nos ensinou. John Stott comenta sobre esta petição na oração do Senhor “o pecador cujo mal praticado no passado foi perdoado anseia ser libertado de sua tirania no futuro”. E o bispo J. C. Ryle declara: rogamos que ele, que ordena todas as coisas no céu e na terra, não nos deixe incorrer naquilo que é prejudicial às nossas almas, e que jamais permita que sejamos tentados acima do que somos capazes de suportar (1 Co 130.13).

A oração mortifica o pecado porque nos inclina cada vez mais para Deus, Sl 119.36, 112; Rm 8.6 (ARC). Aquele que não dedica tempo a oração não terá forças para mortificar o pecado.  J. I. Packer sobre a relação da oração na mortificação do pecado:  
A oração é a atividade mediante a qual o crente garante diretamente a mortificação dos pecados. Isso inclui a lamentação, pela qual ele estende diante de Deus o seu pecado e as suas dificuldades, afligindo a sua alma ao reconhecer humildemente o quanto seus erros têm provocado a ira de Deus contra ele; e inclui também a petição, por meio da qual pleiteia fervorosa e importunamente peãs promessas divinas de livramento e ampara a sua fé no cumprimento dessas promessas, relembrando aqueles eventos nos quais Deus já evidenciou o seu amor para com ele. Subjetivamente falando, o efeito da oração é duplo. Primeiro, a graça é revigorada. “A alma de um crente nunca é soerguida a uma mais elevada tensão de espírito, na busca, no amor e no deleite da santidade, e não é mais confirmado em santidade, moldando-se à mesma, do que quando ele ora”. Em segundo lugar, o pecado é debilitado e definha quando o crente contempla a Cristo com fé e amor. “Que a fé contemple Cristo no evangelho, conforme Ele é ali apresentado, sendo crucificado e morrendo por nós. Olhe para Ele a sofrer sob o peso de nossos pecados; orando, sangrando, morrendo. Contemplando-O dessa forma, traga-O ao seu coração, mediante a fé; aplique o sangue dEle às suas corrupções; faça isso diariamente...”. [7]
As palavras de outro puritano que Owen gostava de ouvir pregar, John Bunyan,  cabem aqui:
A oração fará o homem parar de pecar, ou o pecado o seduzirá a parar de orar.

(6)     Você deve meditar na Palavra de Deus. De acordo com o salmista a Lei do Senhor “restaura” a alma (19.7). A palavra “restaura” em outros lugares das Escrituras é traduzida por “converter” (Sl 51.13). A Palavra de Deus converte o coração do filho a Seu Pai, advertindo-o quanto aos seus pecados, até mesmo os ocultos (19.11) dando-lhes sabedoria (19.7), alegria que vem com a certeza de perdão (19.8), iluminando-os os seus olhos espirituais (19.8) para contemplar a recompensa eterna que tem aqueles que de coração guardaram a Palavra Viva (19.11). Kris Lundgaard[8] declara:
Estude a Palavra escrita para conhecer a Palavra viva. (...) O poder dessa meditação... se encontra na sua habilidade de expor as obras secretas do pecado – que vantagens a carne tem conseguido sobre você; que tentações ela tem usado com sucesso, que danos já causou e que males ainda planeja. ...essa meditação pede ao Espírito que use a Sua Palavra para iluminar as frestas e fendas de sua alma, para mostrar-lhe cada real necessidade e perigo nela.
A meditação na Palavra de Deus é o que nos fará dizer com o salmista:
Considero os meus caminhos e volto os meus passos para os teus testemunhos. Apresso-me, não me detenho, em guardar os teus mandamentos (Sl 119.59,60)
Prossegue Lundgaard:
...a oração e a meditação sondam as profundezas de sua alma, desenterram os esquemas e tramas da lei do pecado e os arrasta para a luz da presença de Deus. Em sua luz, toda a imaginação da carne é julgada, condenada, detestada e lamentada. Mas acima de tudo, abandonada com um brado – “fora daqui” (Is 30.22). 

(7)     Você deve refletir sobre a seriedade do seu pecado. O fato de muitos repudiarem a mortificação do pecado tem suas raízes no fato de que não consideram a seriedade do pecado.  Se o pecado não fosse algo tão grave, tão ofensivo a Deus, tão mortífero, tão debilitante e incapacitante ao homem certamente não exigiria o sacrifício de Cristo. Por isso os crentes envolvidos na mortificação do pecado devem refletir sobre a seriedade do pecado. Devemos refletir:
a)       Pecado é desprezo pela soberania de Deus. Deus, o grande legislador do universo, proíbe o pecado. Pecado é justamente a transgressão dos ditames divinos (1 Jo 3.4). O temor de pecar contra Deus foi o que manteve José longe da cama da mulher de Potifar (Gn 39.9). O pecado é desprezo pela Palavra de Deus. Quando Davi pecou com a mulher de Urias, por intermédio de Natã o Senhor declarou que Davi agiu com desprezo para com a sua palavra (1 Sm 11.9,10). Quando somos assaltados pelo desejo da carne, o que deve estar em nossas mentes é que ao pecar desprezamos a soberania divina e certamente Deus não terá por inocente aqueles que escarnecem de Sua soberania.
b)       Pecado é desprezo pela bondade e amor de Deus. Lundgaard comenta com sabedoria:
Quando o amor de Deus toca a sua alma e transforma você, e você sabe que cada pecado é contra aquele que ama a sua alma, você não vai pecar.
Se amor de Cristo não o constrange a abandonar o pecado é porque você nunca conheceu o amor de Cristo (2 Co 5.14,15).
c)       Pecado merece justo castigo. A Palavra de Deus declara que Ele “não inocenta o culpado” (Êx 34.7). Em outras palavras, todo pecado merece o justo castigo e Deus há de retribuir a cada um segundo as suas obras, por isso declara o autor de Hebreus: “horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10.30,31).

(8)     Você deve ter em mente a sua meta, Fp 3.12-14 (2 Pe 1.11; Hb 12.1-3).  Nós ainda não atingimos a perfeição, portanto nos cumpre prosseguir em direção ao alvo, à meta. 

(9)     Você precisará ter fé para mortificar a sua carne, diz Owen:
“exerce fé em Cristo, tem em mira a morte do teu pecado... e morrerás vencedor. Sim, por meio da providência divina, viverás para ver a tua concupiscência morte aos teus pés”. [9]

a)       Deposite fé em Cristo como provedor de tudo o que você necessita para a mortificação do pecado. Pedro deixou claro que em Cristo temos plena suficiência para tudo o que se refere “à vida e à piedade” (2 Pe 1.3). Diz Owen:
Fixe a sua fé nesta maravilhosa verdade, e medite continuamente nela. É verdade que na sua própria força você nunca conquistará estes poderosos desejos pecaminosos. Você pode ter tentado e fracassado, tão frequentemente, que está cansado da batalha e pronto a desistir. É preciso que fixe a sua fé nAquele que tem poder para capacitá-lo a triunfar na Sua força. Você pode se apropriar da confiante exclamação do apóstolo Paulo: “tudo posso naquele que fortalece” (Fp 4.13). Por mais que seus desejos pecaminosos sejam poderosos e ingovernáveis, fixe sua mente na plenitude da graça de Cristo. Fixe sua mente nos tesouros de força, poder e socorro que estão em Cristo para o seu apoio (veja Jo 1.16; Cl 1.19). Permita que estes pensamentos constantemente encham sua mente.[10]
b)       Pela fé encoraje seu coração na expectativa de alívio da parte de Cristo. Diz Owen:
Esta instrução nos leva a um estágio adiante... Leva-nos da simples crença de que Jesus pode ajudar-nos, para a crença que Ele o fará. A fé se transforma em esperança de uma libertação real. A fé espera no Senhor para vir e ajudar. Ainda que a libertação do Senhor pareça demorar para vir, a fé continua a esperar por ela.[11]
 Para desenvolver esta fé expectante Owen recomenda:
a)       Reflita em Cristo como o seu grande Sumo Sacerdote no céu;
b)       Reflita sobre a fidelidade das promessas de Deus
c)       Reflita nas vantagens que ganhará esperando ajuda de Cristo
E por fim, acrescenta o grande puritano:
Fixe sua fé especialmente na morte de Cristo. A razão fundamental para que você mortifique seus desejos pecaminosos é a morte de Cristo. O grande objetivo da morte de Cristo foi destruir as obras do diabo – “o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda a iniquidade, e purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras” (Tt 2.14). Ele morreu para nos libertar do poder de nossos pecados e para nos purificar de cada desejo pecaminoso que nos macula. Focalize sua fé em Cristo como Ele nos é apresentado no evangelho, morrendo e sendo crucificado por nós. Olhe para Ele quando ora, sangra e morre sob o peso do seu pecado. Pela fé, traga este crucificado Salvador para viver em seu coração (Ef 3.17). Aplique Seu sangue, pela fé, a todos os seus desejos pecaminosos. Faça disso uma prática diária.



[1] Romanos, G. Wilson, p. 148
[2] Romanos, Introdução e Comentário, F. F. Bruce, Vida Nova,  p. 130
[3] Romanos, pp 183,184
[4] Vocábulos de Deus, p. 172
[5] A Tentação, A mortificação, p. 107
[6] A Tentação, A Mortificação, p. 159
[7] Entre os Gigantes de Deus, Ed. Fiel, p.217
[8] O Mal que Habita em Mim, Kris Lundgaard, Cultura Cristã, p. 68
[9] A Tentação, A Mortificação, p. 172
[10] Idem, p.173
[11] Idem, p. 174

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