segunda-feira, 1 de julho de 2013

QUE É UM CRISTÃO?


João 17:1-24

Silas Roberto Nogueira

(Notas da série de Sermões em João 17)


O assunto que trataremos hoje é a soberania divina na salvação. Isso não é difícil de entender, mas como afirmou Steven Lawson, “é uma verdade difícil de engolir”.[1] Muitos se opõem as chamadas “doutrinas da graça”, mas elas podem ser encontradas nas Escrituras, sobretudo o Evangelho de João. Este Evangelho é considerado o Monte Everest das doutrinas da graça. A tônica de João é a soberania divina na salvação. A humanidade incrédula ama as trevas e não deseja vir a Cristo para ter vida, os que vêm foram enviados pelo Pai, são as ovelhas pelas quais Ele dá sua vida e aqueles que atrai irresistivelmente a Si e esses mesmos são guardados pelo Pai até o dia final. Surpreendente, no entanto, é o fato de que esse mesmo ensino esteja concentrado numa única e singular passagem, o capítulo 17.   Devo lembra-lo do momento solene em que tais palavras foram pronunciadas! Não somente isso, chamo sua atenção a quem tais palavras são dirigidas. Devo lembra-lo de que tais palavras não são palavras de grandes teólogos, de vultos do passado, de homens piedosos, mas do próprio Cristo. Nesta sublime oração, Cristo apresenta três fatos sumamente importantes acerca dos cristãos, são eles:

A primeira declaração acerca do cristão é a de que ele foi escolhido por Deus. O que faz de alguém um cristão não é uma decisão pessoal por Cristo, como hoje alguns pensam. Homens mortos não tomam decisões! E a Bíblia diz que os incrédulos estão mortos em seus delitos e pecados, Ef 2:1-3. É importante dizer que não nego que os homens venham a Cristo voluntariamente. Eles vêm, mas não antes de serem vivificados. O fato de homens virem à Cristo não é a causa de se tornarem cristãos, é, por assim dizer, um efeito. A causa é outra, quer saibam disso ou não. A causa de uma pessoa vir a Cristo é a escolha soberana da parte de Deus, Jo 6.37. Sobre esta escolha divina podemos afirmar:

1.    É escolha é eterna, vv.1,2. O v.2 Jesus diz que Deus o Pai concedeu autoridade a Ele sobre toda carne com o objetivo de dar vida eterna aos que o Pai lhe dera. A palavra “autoridade” (gr exousia) ou “poder” e refere-se ao fato de Cristo tornar os eleitos filhos de Deus, 1:12,13. Essa autoridade foi recebida na eternidade, bem como a escolha do Pai daqueles que viriam a ser seus filhos também ocorre na eternidade, Ef 1:4,5; 2Tm 1:9; 2 Ts 2:13.

2.    É escolha é soberana, vv.1,2. Essa escolha não se baseia em nada além da vontade de Deus. O texto apenas afirma que os eleitos pertencem a Deus, nada mais. Isso indica inequivocamente que a escolha é soberana. Pouco antes, no discurso que antecede essa oração, Cristo afirmou: “não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros...” (15:16). Essa escolha é baseada unicamente na vontade de Deus, segundo afirma Paulo, Ef. 1:4-5.

3.   É escolha é possessiva, vv.1,2. Diversas vezes Cristo afirma que os escolhidos pertencem a Deus (v.2,6,7,9,11,12,22,24). O significado disso é que mesmo antes da conversão os eleitos pertenciam a Deus. Essa mesma verdade é expressa no capítulo 10:27-29.  Paulo diz que fomos “escolhidos antes da fundação do mundo” (Ef. 1:4), o sentido da raiz da palavra usada no original é “selecionar para si próprio.[2] Aqueles que Deus escolhe Ele achega a si, Sl. 65:4. Os eleitos são propriedade de Deus, Tt 2:14

Essa escolha graciosa, chamada de eleição da graça por Paulo (Rm 11:5), ocorreu na eternidade, mas é efetuada no tempo. É a escolha da parte de Deus que garante:

1.    Que os eleitos serão chamados do mundo, v.6 . Cristo diz que os que vêm à Cristo só o fazem por causa de Deus os ter trazido, Jo 6:37. Steven Lawson diz acertadamente que “a escolha soberana de Deus tanto precede como produz a escolha que o homem faz de Cristo”.[3]

2.   Que os eleitos crerão em Cristo, v.6-8. Os homens não são eleitos porque creram em Cristo, como alguns pensam. A fé é dom de Deus, Ef. 2:8-10. Os homens creem em Cristo porque foram eleitos por Deus. A fé é o resultado da eleição, não a sua causa. 

3.  Que os eleitos serão sustentados no mundo, v. 9-12. No mundo sofremos muitas tentações, experimentamos provações e perseguições. Não somos salvos por nossa perseverança, mas nossa perseverança é resultado da nossa eleição. Aqueles que sucumbem, como Judas, nunca foram eleitos, 1 Jo 2:19.

4.   Que os eleitos serão guardados do Maligno, v.15.Os eleitos de Deus são guardados contra Satanás e suas hostes malignas, 1 Jo 5:18,19. Satanás procura destruir os crentes (1 Pe 5:8),mas Deus  é nosso poderoso protetor, Jo 12:31; 16:11; 2 Co 4:4; Jd v.24,25.

5.     Que os eleitos serão santos, v.17.Ninguém é salvo por causa de sua santidade e alta moral. Toda nossa justiça é como trapos imundos, Is 64:6, mas aqueles a quem Deus elegeu serão santos e santificados.

6.   Que os eleitos terão o amor do Pai e o próprio Cristo nEle, v.26.Os eleitos de Deus terão o amor de Deus derramado em seus corações e Cristo mesmo morando neles. Aqui reside a diferença entre o cristianismo e todos os sistemas religiosos, Cristo em nós, Cl 1:27

C. H. Spurgeon afirmou certa vez: “creio na doutrina da eleição porque estou certo que, se Deus não me tivesse escolhido, eu nunca o teria escolhido”.

A segunda declaração acerca dos crentes é que eles são particularmente redimidos. O que ela afirma é que Cristo deu a sua vida somente pelos eleitos de Deus. Essa é a parte mais delicada das doutrinas da graça. Muitos creem que Cristo deu a sua vida por todos do mundo, mas a doutrina que temos aqui exposta pelo próprio Cristo difere disso. Aqui Cristo afirma que sua morte, que seu sacrifício tinha em perspectiva somente os eleitos pelo Pai, não o mundo. O uso que João faz do termo mundo é variado, às vezes refere-se ao universo (1:10), terra física (16:33), sistema mundano (12:31), pessoas em geral (7:4), incrédulos (17.9,14) e finalmente, os crentes, os eleitos (3.16,17;6:33;12:47). A interpretação correta é crucial para uma doutrina correta. Há uma clara distinção entre os do mundo e os eleitos neste texto que deixa claro que a morte de Cristo diz respeito somente aos eleitos:

1.   Cristo dá vida somente aos que pertencem ao Pai, v.2. As palavras de Cristo são claras, Ele dá vida eterna aos eleitos. Se Cristo tivesse morrido por todos indistintamente, segue-se que todos deveriam ter vida eterna! Isso é heresia universalista.

2.     Cristo torna filhos de Deus somente os que pertencem ao Pai, v. 6. Cristo manifesta o nome de Deus somente aos eleitos. Que nome é esse? O nome é “Pai” – esse nome somente os discípulos de Cristo tem o privilégio de usar (Mt 6:9). Essa autoridade é conferida no novo nascimento que é operado pelo Espírito (3:5,6,8), pela vontade de Deus (1:12,13). Se Cristo tivesse morrido por todos os homens, todos seriam filhos de Deus.

3.      Cristo intercede apenas pelos que pertencem ao Pai, v.9. Cristo intercede somente pelos eleitos, não pelo mundo. Observe que ele intercede pelos discípulos imediatos e depois por aqueles que viriam a crer em seu nome, v.20. Contudo, não ora pelo mundo. O autor da Epístola aos Hebreus afirma a mesma verdade, 7:25.

4.    Cristo se santifica somente em favor dos que pertencem ao Pai, v.19. Cristo é santo, sem pecado algum e não depende de melhoramento moral (Hb 7:26,27), portanto a frase “me santifico” quer dizer que Ele se consagra a tarefa de Sumo-sacerdote (Êx 28:41) para o oferecimento de Si mesmo como sacrifício expiatório. A frase “em favor deles” (gr hyper auton) indica que seu sacrifício é substitutivo, vicário. Sabemos que seu sacrifício foi cabal, assim sendo, ao dar-se em nosso lugar, obteve a nossa redenção. Se tivesse morrido pelo mundo, o mundo seria redimido.

5.  Cristo habita somente naqueles que pertencem ao Pai, v.26. Finalmente, Cristo habita somente os eleitos. Não somente Cristo, mas somos habitados pelo Deus Triúno (14:14,23) e isso porque Cristo deu a sua vida por nós. Se Cristo  tivesse morrido por todos, todos seriam templo do Espírito Santo.

Quando alguém diz que creio em uma expiação limitada, lembro-me das palavras de A. W. Pink “ a única limitação da expiação é a que decorre unicamente da soberania de Deus; não é uma limitação de valor e de virtude, mas somente de desígnio e de aplicação”.

A terceira declaração acerca do cristão é que eles são poderosamente guardados por Deus. A implicação disso é que o eleito não perde a salvação. Há pessoas que dizem que o cristão pode perder a salvação, contudo isso não corresponde à verdade bíblica. Se fosse possível a um crente perder a salvação Cristo seria desonrado.

1.    O cristão não perde a salvação porque já tem a vida eterna, v.3. O cristão não perde a salvação porque a salvação não é algo que se refere ao futuro apenas, a salvação implica em uma vida eterna que começamos a experimentar aqui e agora. Jesus afirma que a posse da vida eterna é no presente, 5:24; 3:36; 6:40,47.

2.   O cristão não perde a salvação porque Cristo intercede por eles, v.9,20. O cristão não perde a salvação porque Cristo intercede por ele. Se ele perdesse a salvação o sacrifício de Cristo seria ineficaz e sua oração intercessória teria falhado!

3.     O Cristão não perde a salvação porque quem o guarda é Deus, v. 11. O cristão não perde a salvação porque se isso acontecesse significaria que Deus falhou em guarda-lo. Pedro diz que somos guardados pelo poder de Deus não somente por um momento, mas até a consumação de todas as coisas (1 Pe 1:5). Devemos lembrar-nos de que Deus não nos guarda em qualquer lugar, mas em Suas mãos, Jo 10:29. Nossos nomes Ele gravou nas palmas de Suas mãos, Is 49:16.

É claro que uma doutrina como essa pode levar a conclusões equivocadas. Uma delas é pensar que somente pelo fato de você não perder a salvação significa que você pode viver como quiser. Não é isso que estamos advogando, muito pelo contrário. O nome correto da doutrina é Perseverança dos Santos:

1.    A segurança da salvação diz respeito aos que guardam a Palavra, v. 6. O tempo perfeito usado aqui para “guardar” (gr. teréô) é melhor traduzido na ARA/NVI “eles têm guardado”, pois refere-se a uma ação no passado cujo reflexo é sentido até o momento presente.

2.     A segurança da salvação diz respeito aos que não são do mundo, v. 14. A intercessão de Cristo refere-se aos que se distinguem do mundo justamente por não viverem segundo os seus padrões. O eleito persevera em sua distinção do mundo.

3.      A segurança da salvação diz respeito aos santificados pela Palavra da verdade, v. 17. A santificação é uma das marcas dos eleitos, nós somos eleitos “mediante a santificação do Espírito”, 2 Ts 2:13;1 Pe 1:1,2.  O eleito persevera na santidade.

4.   A segurança da salvação diz respeito aos que vivem em unidade com o corpo, v. 21-23. Os eleitos são incorporados à Igreja, por isso ninguém pode se dizer cristão se não está unido à ela. Calvino dizia que Deus é nosso Pai, a Igreja nossa mãe. O eleito persevera na igreja. 

5.   A segurança da salvação diz respeito aos que tem o amor do Pai, v.26. Os eleitos são distintamente marcados pelo amor. Paulo diz aos crentes de Roma que o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado, Rm 5:5. O eleito persevera em amor.

6.  A segurança da salvação diz respeito aos que tem Cristo habitando em si,v.26b. Os eleitos são habitação da santa Trindade e isso é o que distingue o cristão verdadeiro. O eleito persevera em glorificar a Deus por meio do corpo, 1 Co 6:19,20.

Quais são as implicações desses três fatos em nossas vidas?

1.       O fato de sermos escolhidos
(a)     Deve conduzir-nos à humildade. 
(b)     Deve conduzir-nos à ação de graças.
(c)     Deve consolar-nos.  

2.       O fato de Cristo ter morrido por nós:
(a)     Deve fazer-nos odiar o pecado.
(b)     Deve fazer-nos dedicados

3.       O fato de saber que somos guardados por Deus:
(a)     Deve fazer-nos diligentes
(b)     Deve fazer-nos ousados



[1] LAWSON, sermão na Conferencia Fiel em 2012
[2] VAUGHAN, Curtis, Efésios, comentário bíblico, Vida, p. 22
[3] Lamson, p. 394

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