quarta-feira, 28 de agosto de 2013

RESGATANDO A IDENTIDADE CRISTÃ

Silas Roberto Nogueira

(Anotações do Sermão pregado no encontro de Jovens)

Atos 11:19-26

Então, os que foram dispersos por causa da tribulação que sobreveio a Estêvão se espalharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus. Alguns deles, porém, que eram de Chipre e de Cirene e que foram até Antioquia, falavam também aos gregos, anunciando-lhes o evangelho do Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles, e muitos, crendo, se converteram ao Senhor. A notícia a respeito deles chegou aos ouvidos da igreja que estava em Jerusalém; e enviaram Barnabé até Antioquia. Tendo ele chegado e, vendo a graça de Deus, alegrou-se e exortava a todos a que, com firmeza de coração, permanecessem no Senhor.  Porque era homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé. E muita gente se uniu ao Senhor. E partiu Barnabé para Tarso à procura de Saulo; tendo-o encontrado, levou-o para Antioquia. E, por todo um ano, se reuniram naquela igreja e ensinaram numerosa multidão. Em Antioquia, foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos.


O texto acima trata da chegada do evangelho em Antioquia e da distinção dos discípulos como cristãos. Antioquia era a terceira cidade do mundo em tamanho. Só Roma e Alexandria eram maiores. Estava localizada perto da desembocadura do rio Orontes a uns vinte e quatro quilômetros do Mediterrâneo. Era uma bela e cosmopolita cidade. Mas a cidade era conhecida também como sinônimo de imoralidade e luxúria, e nessa categoria só era superada por Corinto. Assim como em Corinto, em Antioquia sexo e religião se misturavam. Ali era o centro de culto a Dafne, onde prostitutas sagradas se faziam perseguir nos bosques quando finalmente se entregavam prazer sexual com os fieis. Tal culto era tão imoral que a expressão "a moral de Dafne" era uma frase que todo mundo utilizava para referir-se a uma forma de vida desregrada, luxuriosa e sensualizada. Contudo, aprouve ao Senhor salvar alguns em Antioquia pela sua soberana graça e poder do evangelho. 

Vamos, primeiro, tecer alguns comentários versículo por versículo e depois extrair daqui alguns princípios relativos ao tema. 

A primeira coisa que notamos aqui é a pregação do evangelho por anônimos, v.20.Não são os grandes nomes que levam o evangelho a Antioquia, mas pessoas anônimas. Isso de imediato nos ensina que o evangelho não repousa nos ombros de personalidades, mas sobre os ombros de pessoas cujos nomes poucos, quase ninguém ou ninguém sabe. O evangelho não precisa e nem depende de celebridades, grande nome. 


A segunda coisa que notamos aqui é a mensagem do evangelho, v.20b. Eles pregavam o evangelho. É possível traduzir “evangelizavam Jesus como Senhor”. Senhor é palavra chave neste texto, aparece 7 vezes neste capítulo. Nos dias do Novo Testamento existiam muitos “senhores”, entre eles o imperador, adorado como tal. O cerne da mensagem evangélica é justamente a apresentação de Cristo como Senhor, não apenas mais um, mas “o único Senhor”, 1 Co 8:6; 2 Co 4:5. A palavra afirma a deidade de Jesus, pois Senhor no VT é apenas Deus. Reconhecer Cristo como Senhor é obra do Espírito, 1 Co 12:3. Muitos fazem uma dicotomia entre Jesus Senhor e Salvador, como se isso fosse possível. Cristo não é apenas salvador, Ele é Senhor. E Ele não é salvador daqueles que ele não é Senhor, 16.31 com Rm 10.9. A. W. Tozer dizia com acerto “o Senhor não vai salvar aqueles em quem ele não possa mandar. Ele não vai dividir os seus ofícios. Você não pode crer num meio Cristo”.


A terceira coisa a ser notada aqui é a bênção de Deus na pregação, v.21.3. A frase “a mão do Senhor...” refere-se a ação abençoadora da parte de Deus. A verdade que emerge aqui é que a bênção do Senhor repousa sobre a fiel pregação do evangelho. A pregação bíblica é a única estratégia que conta com a bênção de Deus, pois instituiu salvar os homens pela pregação. Nada pode produzir os efeitos que a pregação produz.


A quarta coisa que notamos aqui é a conversão dos incrédulos, v.22. Como resultado da fiel apresentação do evangelho, o povo de Antioquia “crê e se converte”. O evangelho pregado sempre produz resultados. Nós recebemos a ordem de pregar, não de produzir resultados. Os resultados pertencem a Deus. Nós devemos acreditar na suficiência da Palavra de Deus e na suficiência do Espírito Santo. É a pregação da Palavra mediada pela ação do Espírito que resultará na regeneração dos ouvintes (Tg 1:18; 1 Pe 1:23; Jo 3). A conversão implica em uma meia volta, em abandonar uma trajetória, é ir em direção oposta. A implicação óbvia é o abandono do pecado. O puritano Joseph Alleine “A conversão é uma obra profunda - uma obra no coração. Ela invade o homem, a mente, os membros e toda a vida.” Tudo isso é produzido pela Palavra e pela ação do Espírito Santo. Conversão verdadeira é ação divina, não humana. Os homens produzem convencidos, não convertidos.

A quinta coisa a notarmos aqui é o discipulado, v.23-26.5. A conversão do povo de Antioquia ecoou em Jerusalém, cerca de 500 km de distancia. A salvação sempre produz resultados interiores e exteriores. A mudança radical causou surpresa. Barnabé esteve em Antioquia e – “viu” lit. discerniu – as evidências da graça de Deus na vida dos antioquenos. Oswald Smith afirmava “a verdadeira espiritualidade sempre produz resultados”. Barnabé notou a necessidade do discipulado na vida dos irmãos e por isso buscou Paulo para ajudar na tarefa. O discipulado não é opcional, mas uma obrigação da igreja, Mt 28:18-20.  Dietrich Bonhoeffer “Salvação sem discipulado é "graça barata". Eles eram instruídos na Palavra. O puritano William Gurnall “O cristão é gerado pela Palavra e precisa ser alimentado por ela”.

Finalmente, o sexta coisa a notarmos é como os discípulos são distinguidos, v.26c. Por serem discípulos de Cristo, aquelas pessoas foram pejorativamente chamados “cristãos”. Era costume do povo de Antioquia, zombadores desrespeitosos, apelidar as pessoas. Até mesmo o imperador Juliano quando visitou Antioquia recebeu apelido - "o bode". Ao designarem assim os discípulos queriam envergonhá-los, humilhá-los. A palavra "cristão" indicava que os convertidos seguiam a Cristo, tinham-no como Mestre, estavam identificados com Cristo, sua vida e ensinos. Os discípulos são chamados cristãos, note bem isso. Não é chamado cristão meramente um professo, mas um discípulo. 

Vamos extrair daqui alguns princípios relacionados ao tema desta noite que é “resgatando a identidade cristã”.

1. Para resgatarmos a identidade cristã precisamos compreender que o evangelho não depende de personalidades ou celebridades. Essa ideia de celebridades é uma aberração da igreja moderna. Essa atitude é uma clara identificação com o mundo, mas não com o evangelho bíblico. 

2. Para resgatarmos a identidade cristã precisamos de uma perspectiva bíblica do evangelho, da sua mensagem essencial, que é o Senhorio de Cristo. 

3. Para resgatarmos a identidade cristã precisamos experimentar os efeitos do evangelho em nossas vidas. Eles não meramente ouviram, eles creram e se converteram. O evangelho mudou as suas vidas, eles deixaram o pecado, abandonaram a idolatria. 

4. Para resgatarmos a identidade cristã precisamos voltar a ser uma comunidade da Palavra. Note que a igreja começa com a pregação do evangelho e a igreja cresce e se estabelece em torno da Palavra.

5. Para resgatarmos a identidade cristã precisamos nos tornar discípulos. Pessoas ensináveis, submissas. Dispostas a aprender. Discípulos reproduzem o caráter do seu Mestre. 

6.  Para resgatarmos a identidade cristã precisamos deixar de temer o repúdio do mundo. Ottis Fuller certa vez perguntou: “se você preso sob a acusação de ser cristão, haveria provas suficientes para condená-lo?”






[1] MACARTHUR, J., O evangelho segundo Jesus, Fiel, p. 30

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