terça-feira, 23 de abril de 2013

NOMADISMO ECLESIÁSTICO



Silas Roberto Nogueira

Uma das coisas que tenho percebido atualmente é o quanto as pessoas trocam de igreja e a facilidade com que fazem isso. Nasci em uma família de crentes cujas convicções doutrinárias são batistas e tenho permanecido nessa denominação até hoje, não por conveniência, mas por convicção. Contudo, tenho notado nesses anos todos que muitas pessoas são capazes de abandonar as suas igrejas sem o menor constrangimento, assim como trocam de roupa. Conheço pessoas que já passaram por diversas denominações. São nômades eclesiásticos, trocando continuamente de igreja sem parar em nenhuma delas.

Não compactuo com a ideia de que uma pessoa pode deixar a igreja por razões banais. Já tive a oportunidade de conversar com pessoas que deixaram suas igrejas após séria ponderação, por razões realmente justificáveis. Mas também já ouvi as desculpas mais esfarrapadas para o abandono da igreja. Entendo que devemos ser mais criteriosos com relação ao ingresso das pessoas na igreja justamente com vistas a evitar o seu fácil abandono. Entendo que a saída de uma igreja não se justifica:

(a) Quando a igreja possui uma base doutrinária sólida;

(b) Quando a igreja prega o evangelho da graça de Deus sem mistura;

(c) Quando a igreja mantém um culto firmado naquilo que a Bíblia prescreve quanto ao culto;

(d) Quando a igreja ministra adequada e biblicamente as ordenanças ou sacramentos e a disciplina bíblica;

(e) Quando a igreja está envolvida no cumprimento da grande comissão;

(f)  Quando a igreja e sua liderança não podem ser acusadas de desvio moral grave.

Quando uma pessoa abandona uma igreja por razões injustificáveis ainda que seja para frequentar outra comunidade demonstra rebeldia que se manifesta nas mais criativas desculpas e justificativas, que são sempre esfarrapadas. Além do mais, como não existem igrejas perfeitas, é bem possível que o nômade eclesiástico também venha a enfrentar os mesmos problemas em sua nova igreja mais cedo ou mais tarde e tenha que optar por outra comunidade até que tudo se repita. Pense nisso antes de partir! 

terça-feira, 16 de abril de 2013

A Santidade de Deus




Silas R. Nogueira

(Notas dos Estudos de 5º Feira baseados no livro de A.W. Pink, 
Os Atributos de Deus, na Comunidade Batista da Graça)

Apocalipse 15:4


Diz Arthur Pink “Deus é independente, infinita e imutavelmente santo”. A santidade é um atributo moral de Deus. Em certo sentido, a santidade é um atributo comunicável. Há algo desse atributo que pode ser partilhado pelas criaturas morais, anjos e homens. As Escrituras enfatizam esse atributo divino e justamente por isso devemos estuda-lo com máxima atenção.

1.    O que é a santidade de Deus?
Santidade é um atributo essencial de Deus – “...eu sou santo” (1 Pe 1.16). Deus não deseja ser santo, ele é. Sua santidade não é sujeita a nenhuma variação, pois isso implicaria em uma variação em sua natureza essencial, que é imutável. Assim sendo, Deus é santo em sentidos absoluto, superlativo. Isso implica em que a santidade de Deus não é só uma qualidade moral, sendo um atributo comunicável, mas o torna singular e, portanto, é também um atributo transcendente, incomunicável.

A santidade em Deus tem dois aspectos: um é o seu sentido de majestade o outro o sentido moral.

(a) Santidade majestosa de Deus: santo significa “separado” representando algo que é retirado do uso comum para o uso exclusivo. Essa conceituação não se aplica a Deus, pois Deus é separado em sentido diferente. Ele é totalmente separado da existência criada, pois é o Criador de tudo, estando acima de tudo e todos em majestade infinita, Êx 15.11; 1 Sm 2.2; Is 57.15. Comenta Dr Heber Carlos de Campos “ninguém pode ser santo como ele porque ninguém pode ser separado, acima e além das criaturas”.

(b) Santidade moral de Deus: A ideia fundamental de santidade ética de Deus também é a de separação, mas nesse caso, a separação é do mal moral, isto é, do pecado. João assevera “Deus é luz e nele não há treva nenhuma” (1 Jo 1.5). Deus é livre de qualquer contaminação moral.

2.    Importância da santidade divina.
A importância da santidade divina pode ser observada pelos seguintes fatos:

A.  A ênfase das Escrituras: nenhum outro atributo divino é repetido três vezes pelas Escrituras afirmando o que Deus é a não ser a santidade de Deus, Is 6.3; Ap 4.8. De modo geral as Escrituras enfatizam a santidade de Deus, diz Stephen Charnock "Deus é com mais frequência intitulado Santo do que Onipotente, e é mais exposto por esta parte da Sua dignidade do que por qualquer outra. É fixada ao Seu nome como um epiteto mais do que qual­quer outra. Você jamais o vê expresso, "Seu poderoso nome" ou "Seu sábio nome", mas Seu grande nome e, acima de tudo, Seu santo nome. Este é o maior título de honra; neste último transpa­recem a majestade e a venerabilidade do Seu nome.

B.   Deus é louvado por sua santidade: os seres angelicais louvam ao Senhor por sua santidade, Is 6.3; Ap 4.8. A santidade de Deus o distingue de todos, 1 Sm 2.2. Os homens são convocados a que adorem a Deus na beleza da sua santidade, Sl 29.2; 96.9. Joel Beeke afirma com sabedoria que a santidade é a coroa permanente de Deus.[1]

C.   Todos os atributos de Deus são qualificados pela santidade: não devemos concluir, por causa da ênfase das Escrituras, que seja este o mais importante atributo divino. O que precisa ficar claro é que os vários atributos de Deus são qualificados e realçados por sua santidade. Diz Charnock "visto que esta excelência parece se colocar acima de todas as outras perfeições de Deus, assim ela constitui a glória destas; como é a glória da Deidade, assim é a glória de cada uma das perfeições da Deidade; como o poder de Deus é a energia das Suas perfeições, a Sua santidade é a beleza delas: como todas seriam fracas sem a onipotência divina para sustentá-las, seriam todas desgraciosas sem a santidade para adorná-las. Se esta se maculasse, todas as demais perderiam a sua honra; seria como se o sol perdesse a sua luz — no mesmo instante perderia seu calor, seu poder, sua virtude geradora e vivificante. Como no cristão a sinceridade é o brilho de todas as graças, em Deus a pureza é o esplendor de todos os Seus atributos, Sua justiça é santa. Sua sabedoria é santa. Seu braço poderoso é um "braço santo" (Salmo 98:1), Sua verdade ou palavra é uma "santa palavra" (Salmo 105:42). Seu nome, que expressa todos os Seus atributos juntos, é "santo"  (Salmo  103:1)".

D.   A santidade de Deus é a garantia do cumprimento de Sua Palavra: Destaca Heber Carlos de Campos que “a importância da santidade está no fato de Deus usá-la para garantir a veracidade da sua palavra”, cf Salmo 89.34-36. “É por causa da sua santidade essencial que ele não mente nem é falso no que diz”, cf Am 4.2. A sua santidade é a garantia do cumprimento das suas promessas. O cristão pode confiar na Palavra de Deus porque ela é garantida pelo caráter essencial de Deus, que é santo e não pode mentir.

3.    Como se manifesta a santidade de Deus:
A santidade moral de Deus é revelada de várias maneiras nas Escrituras, vejamos:
(a) A santidade de Deus se manifesta em Suas obras: Diz Pink "justo é o Senhor em todos os seus caminhos, e santo em todas as suas obras" (Salmo 145:17). Nada senão o que é excelente pode pro­ceder dEle. A santidade é o padrão de todas as Suas ações. No princípio Ele declarou que tudo o que tinha feito “era muito bom" (Gênesis 1:31), e não poderia ter feito o que fez se nisso houvesse algo imperfeito ou impuro. O homem foi feito "reto" (Eclesiastes 7:29), à imagem e semelhança do seu Criador”, mas meteu-se em muitas astúcias. Os anjos foram criados originalmente bons, mas não guardaram seu estado (Jd v.6). O pecado dos seres morais não procedeu de sua criação, mas porque foram voluntariamente desobedientes à Lei de Deus. Deus é justo e reto, nada imperfeito procede dEle, Dt 32.4.

(b)  A santidade de Deus se manifesta em Sua lei: diz Pinkessa lei proíbe o pecado em todas as suas variantes - nas suas modalidades mais refinadas, e nas mais grosseiras, os intentos da mente, como a contaminação do corpo, o desejo secreto como o ato abertamente praticado. Pelo que lemos: "...a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom" (Romanos 7:12). Sim, "... o mandamento do Senhor é puro, e alumia os olhos. O temor do Senhor é limpo e permanece eternamente, os juízos do Senhor são verdadeiros e justos juntamente" (Salmo 19:8-9)”.

(c) A santidade de Deus se manifesta na redenção: diz Pinkde maneira espan­tosa, e, contudo, a mais solene, a expiação demonstra a santidade infinita de Deus e Seu ódio ao pecado. Quão odioso para Deus há de ser o pecado, a ponto de castigá-lo até ao limite extremo do seu merecimento, quando o imputou ao Seu Filho!” Diz Stephen Charnock  "nem to­dos os vasos do juízo já derramados ou por derramar sobre o mundo ímpio, nem a chama ardente da consciência do pecador, nem a sentença irrevogável pronunciada contra os demônios re­beldes, nem o gemido das criaturas condenadas demonstram o ódio de Deus ao pecado, como o demonstra a ira de Deus derramada sobre o Seu Filho. Nunca a santidade divina parece mais bela e mais amorável do que na hora em que o semblante do Salvador ficou por demais desfigurado em meio aos estertores da Sua agonia mortal. Ele próprio o reconhece no Salmo 22. Quando o Senhor afastou dEle o Seu risonho rosto e Lhe fincou no coração aguda faca, provocando Seu terrível brado, "Deus meu, Deu meu, por que me abandonaste?" (vers. 1). Ele adora esta perfeição — "Tu és santo" (vers. 3)”.

Continua Pink “desde que Deus é santo, Ele odeia todo e qualquer pecado. Ele ama tudo quanto está em conformidade com as Suas leis, e detesta tudo que lhes é contrário. Sua Palavra declara expressamente  "... o perverso é abominação para o Senhor...” (Pro­vérbios 3:32). E ainda: "Abomináveis são para o Senhor os pensamentos do mau., .." (Provérbios 15:26). Segue-se, pois, que Ele necessariamente tem que punir o pecado. Do mesmo modo como o pecado requer a punição por Deus, exige também o Seu ódio. Deus perdoa muitas vezes o pecador; nunca, porém, perdoa o pecado; e o pecador só é perdoado com base no fato de que Outro levou sobre Si o castigo que lhe era devido; sim, pois; “... sem derramamento de sangue não há remissão (Hebreus 9:22).” É uma tristeza que essa doutrina seja negligenciada nos púlpitos atualmente.

4.    As implicações da doutrina da santidade de Deus

A.  A santidade determina a evangelização
Se a santidade de Deus é manifesta na redenção, segue-se que a evangelização tem por base a santidade de Deus. É a santidade de Deus que exige que o evangelho seja anunciado a toda criatura.

B.   A santidade afeta a adoração
   Nosso conceito de adoração é afetado pelo nosso conceito da santidade de Deus. Deus deve ser adorado na beleza da sua santidade, diz o salmista, 96.9. A injunção do Novo Testamento é que o sirvamos de modo agradável, em santo temor, Hb 12.28,29.

C.   A santidade de Deus nos humilha
 A correta visão de Deus sempre nos conduzirá à humildade. Quando contemplamos algo da santidade de Deus temos a mais completa certeza da nossa pequenez, Lc 5:8; Is 6.

Finalmente diz Pinkvisto que Deus é santo, devemos querer amoldar-nos a Ele. Seu mandamento é: “...sede santos, porque eu sou santo"  (1 Pedro 1:16). Não somos obrigados a ser onipotentes ou oniscientes como Deus é, mas temos  que ser santos, e isto em  toda a nossa "... maneira de viver" (1 Pedro 1:15). O puritano Stephen Charnock assinala que uma vida de santidade "é a maneira primordial de honrar a Deus. Glorificamos a Deus pelas atitudes de elevada admiração, pelas expressões eloquentes  pelos pomposos serviços de adoração, mas não tanto como quando aspiramos a conversar com Ele com espírito livre de mácula, e a viver para Ele vivendo como Ele vive". Então, como só Deus é a origem e a fonte da santidade, busquemos zelosamente dEIe a santidade; seja a nossa oração diária no sentido de que Ele nos "...  santifique em tudo ... "; e todo o nosso  "espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vin­da de nosso Senhor Jesus Cristo" (I  Tessalonicenses  5:23),



[1] BEEKE, J., La santidade, el llamamiento de Dios a la santificación, p.7