terça-feira, 16 de abril de 2013

A Santidade de Deus




Silas R. Nogueira

(Notas dos Estudos de 5º Feira baseados no livro de A.W. Pink, 
Os Atributos de Deus, na Comunidade Batista da Graça)

Apocalipse 15:4


Diz Arthur Pink “Deus é independente, infinita e imutavelmente santo”. A santidade é um atributo moral de Deus. Em certo sentido, a santidade é um atributo comunicável. Há algo desse atributo que pode ser partilhado pelas criaturas morais, anjos e homens. As Escrituras enfatizam esse atributo divino e justamente por isso devemos estuda-lo com máxima atenção.

1.    O que é a santidade de Deus?
Santidade é um atributo essencial de Deus – “...eu sou santo” (1 Pe 1.16). Deus não deseja ser santo, ele é. Sua santidade não é sujeita a nenhuma variação, pois isso implicaria em uma variação em sua natureza essencial, que é imutável. Assim sendo, Deus é santo em sentidos absoluto, superlativo. Isso implica em que a santidade de Deus não é só uma qualidade moral, sendo um atributo comunicável, mas o torna singular e, portanto, é também um atributo transcendente, incomunicável.

A santidade em Deus tem dois aspectos: um é o seu sentido de majestade o outro o sentido moral.

(a) Santidade majestosa de Deus: santo significa “separado” representando algo que é retirado do uso comum para o uso exclusivo. Essa conceituação não se aplica a Deus, pois Deus é separado em sentido diferente. Ele é totalmente separado da existência criada, pois é o Criador de tudo, estando acima de tudo e todos em majestade infinita, Êx 15.11; 1 Sm 2.2; Is 57.15. Comenta Dr Heber Carlos de Campos “ninguém pode ser santo como ele porque ninguém pode ser separado, acima e além das criaturas”.

(b) Santidade moral de Deus: A ideia fundamental de santidade ética de Deus também é a de separação, mas nesse caso, a separação é do mal moral, isto é, do pecado. João assevera “Deus é luz e nele não há treva nenhuma” (1 Jo 1.5). Deus é livre de qualquer contaminação moral.

2.    Importância da santidade divina.
A importância da santidade divina pode ser observada pelos seguintes fatos:

A.  A ênfase das Escrituras: nenhum outro atributo divino é repetido três vezes pelas Escrituras afirmando o que Deus é a não ser a santidade de Deus, Is 6.3; Ap 4.8. De modo geral as Escrituras enfatizam a santidade de Deus, diz Stephen Charnock "Deus é com mais frequência intitulado Santo do que Onipotente, e é mais exposto por esta parte da Sua dignidade do que por qualquer outra. É fixada ao Seu nome como um epiteto mais do que qual­quer outra. Você jamais o vê expresso, "Seu poderoso nome" ou "Seu sábio nome", mas Seu grande nome e, acima de tudo, Seu santo nome. Este é o maior título de honra; neste último transpa­recem a majestade e a venerabilidade do Seu nome.

B.   Deus é louvado por sua santidade: os seres angelicais louvam ao Senhor por sua santidade, Is 6.3; Ap 4.8. A santidade de Deus o distingue de todos, 1 Sm 2.2. Os homens são convocados a que adorem a Deus na beleza da sua santidade, Sl 29.2; 96.9. Joel Beeke afirma com sabedoria que a santidade é a coroa permanente de Deus.[1]

C.   Todos os atributos de Deus são qualificados pela santidade: não devemos concluir, por causa da ênfase das Escrituras, que seja este o mais importante atributo divino. O que precisa ficar claro é que os vários atributos de Deus são qualificados e realçados por sua santidade. Diz Charnock "visto que esta excelência parece se colocar acima de todas as outras perfeições de Deus, assim ela constitui a glória destas; como é a glória da Deidade, assim é a glória de cada uma das perfeições da Deidade; como o poder de Deus é a energia das Suas perfeições, a Sua santidade é a beleza delas: como todas seriam fracas sem a onipotência divina para sustentá-las, seriam todas desgraciosas sem a santidade para adorná-las. Se esta se maculasse, todas as demais perderiam a sua honra; seria como se o sol perdesse a sua luz — no mesmo instante perderia seu calor, seu poder, sua virtude geradora e vivificante. Como no cristão a sinceridade é o brilho de todas as graças, em Deus a pureza é o esplendor de todos os Seus atributos, Sua justiça é santa. Sua sabedoria é santa. Seu braço poderoso é um "braço santo" (Salmo 98:1), Sua verdade ou palavra é uma "santa palavra" (Salmo 105:42). Seu nome, que expressa todos os Seus atributos juntos, é "santo"  (Salmo  103:1)".

D.   A santidade de Deus é a garantia do cumprimento de Sua Palavra: Destaca Heber Carlos de Campos que “a importância da santidade está no fato de Deus usá-la para garantir a veracidade da sua palavra”, cf Salmo 89.34-36. “É por causa da sua santidade essencial que ele não mente nem é falso no que diz”, cf Am 4.2. A sua santidade é a garantia do cumprimento das suas promessas. O cristão pode confiar na Palavra de Deus porque ela é garantida pelo caráter essencial de Deus, que é santo e não pode mentir.

3.    Como se manifesta a santidade de Deus:
A santidade moral de Deus é revelada de várias maneiras nas Escrituras, vejamos:
(a) A santidade de Deus se manifesta em Suas obras: Diz Pink "justo é o Senhor em todos os seus caminhos, e santo em todas as suas obras" (Salmo 145:17). Nada senão o que é excelente pode pro­ceder dEle. A santidade é o padrão de todas as Suas ações. No princípio Ele declarou que tudo o que tinha feito “era muito bom" (Gênesis 1:31), e não poderia ter feito o que fez se nisso houvesse algo imperfeito ou impuro. O homem foi feito "reto" (Eclesiastes 7:29), à imagem e semelhança do seu Criador”, mas meteu-se em muitas astúcias. Os anjos foram criados originalmente bons, mas não guardaram seu estado (Jd v.6). O pecado dos seres morais não procedeu de sua criação, mas porque foram voluntariamente desobedientes à Lei de Deus. Deus é justo e reto, nada imperfeito procede dEle, Dt 32.4.

(b)  A santidade de Deus se manifesta em Sua lei: diz Pinkessa lei proíbe o pecado em todas as suas variantes - nas suas modalidades mais refinadas, e nas mais grosseiras, os intentos da mente, como a contaminação do corpo, o desejo secreto como o ato abertamente praticado. Pelo que lemos: "...a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom" (Romanos 7:12). Sim, "... o mandamento do Senhor é puro, e alumia os olhos. O temor do Senhor é limpo e permanece eternamente, os juízos do Senhor são verdadeiros e justos juntamente" (Salmo 19:8-9)”.

(c) A santidade de Deus se manifesta na redenção: diz Pinkde maneira espan­tosa, e, contudo, a mais solene, a expiação demonstra a santidade infinita de Deus e Seu ódio ao pecado. Quão odioso para Deus há de ser o pecado, a ponto de castigá-lo até ao limite extremo do seu merecimento, quando o imputou ao Seu Filho!” Diz Stephen Charnock  "nem to­dos os vasos do juízo já derramados ou por derramar sobre o mundo ímpio, nem a chama ardente da consciência do pecador, nem a sentença irrevogável pronunciada contra os demônios re­beldes, nem o gemido das criaturas condenadas demonstram o ódio de Deus ao pecado, como o demonstra a ira de Deus derramada sobre o Seu Filho. Nunca a santidade divina parece mais bela e mais amorável do que na hora em que o semblante do Salvador ficou por demais desfigurado em meio aos estertores da Sua agonia mortal. Ele próprio o reconhece no Salmo 22. Quando o Senhor afastou dEle o Seu risonho rosto e Lhe fincou no coração aguda faca, provocando Seu terrível brado, "Deus meu, Deu meu, por que me abandonaste?" (vers. 1). Ele adora esta perfeição — "Tu és santo" (vers. 3)”.

Continua Pink “desde que Deus é santo, Ele odeia todo e qualquer pecado. Ele ama tudo quanto está em conformidade com as Suas leis, e detesta tudo que lhes é contrário. Sua Palavra declara expressamente  "... o perverso é abominação para o Senhor...” (Pro­vérbios 3:32). E ainda: "Abomináveis são para o Senhor os pensamentos do mau., .." (Provérbios 15:26). Segue-se, pois, que Ele necessariamente tem que punir o pecado. Do mesmo modo como o pecado requer a punição por Deus, exige também o Seu ódio. Deus perdoa muitas vezes o pecador; nunca, porém, perdoa o pecado; e o pecador só é perdoado com base no fato de que Outro levou sobre Si o castigo que lhe era devido; sim, pois; “... sem derramamento de sangue não há remissão (Hebreus 9:22).” É uma tristeza que essa doutrina seja negligenciada nos púlpitos atualmente.

4.    As implicações da doutrina da santidade de Deus

A.  A santidade determina a evangelização
Se a santidade de Deus é manifesta na redenção, segue-se que a evangelização tem por base a santidade de Deus. É a santidade de Deus que exige que o evangelho seja anunciado a toda criatura.

B.   A santidade afeta a adoração
   Nosso conceito de adoração é afetado pelo nosso conceito da santidade de Deus. Deus deve ser adorado na beleza da sua santidade, diz o salmista, 96.9. A injunção do Novo Testamento é que o sirvamos de modo agradável, em santo temor, Hb 12.28,29.

C.   A santidade de Deus nos humilha
 A correta visão de Deus sempre nos conduzirá à humildade. Quando contemplamos algo da santidade de Deus temos a mais completa certeza da nossa pequenez, Lc 5:8; Is 6.

Finalmente diz Pinkvisto que Deus é santo, devemos querer amoldar-nos a Ele. Seu mandamento é: “...sede santos, porque eu sou santo"  (1 Pedro 1:16). Não somos obrigados a ser onipotentes ou oniscientes como Deus é, mas temos  que ser santos, e isto em  toda a nossa "... maneira de viver" (1 Pedro 1:15). O puritano Stephen Charnock assinala que uma vida de santidade "é a maneira primordial de honrar a Deus. Glorificamos a Deus pelas atitudes de elevada admiração, pelas expressões eloquentes  pelos pomposos serviços de adoração, mas não tanto como quando aspiramos a conversar com Ele com espírito livre de mácula, e a viver para Ele vivendo como Ele vive". Então, como só Deus é a origem e a fonte da santidade, busquemos zelosamente dEIe a santidade; seja a nossa oração diária no sentido de que Ele nos "...  santifique em tudo ... "; e todo o nosso  "espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vin­da de nosso Senhor Jesus Cristo" (I  Tessalonicenses  5:23),



[1] BEEKE, J., La santidade, el llamamiento de Dios a la santificación, p.7