terça-feira, 16 de julho de 2013

UM CHAMADO À GLORIOSA LIBERDADE


Silas Roberto Nogueira
(Anotações da Série de Sermões em Gálatas)

Gálatas 5.1-15

Nos dois estudos anteriores afirmei que havíamos chegado ao coração da Epístola, os capítulos 3 e 4. Neles Paulo argumenta vigorosamente em favor da justificação mediante a graça pela fé. Agora, no entanto chegamos a uma nova secção na Epístola, os capítulos 5,6. Percebe-se o início de uma nova secção pelo fato de o apóstolo deixar o tom argumentativo e passar para um tom hortativo, isto é, exortativo. Estes 44 versículos são aplicativos, o que Paulo nos apresenta aqui, como em todas as suas Epístolas, é como a doutrina deve ser aplicada à vida. Isso nos ensina que na mente de Paulo não há um dicotomia entre doutrina e vida, mas que a doutrina deve permear a vida, conduzir ou dirigir a vida. O cristianismo não é uma filosofia destinada somente a encher nossas cabeças, algo que satisfaça somente o intelecto, mas é algo prático, para a vida. E a vida é o ornamento da doutrina. No cristianismo deve haver coerência entre doutrina e vida. Nesta secção final Paulo trata da maneira de viver do cristão. E, segundo Paulo, o modo de viver do cristão é em liberdade, é disso que trata este capítulo. Na primeira parte deste capítulo Paulo se ocupa em definir o cristão como uma pessoa que foi libertada por Cristo e que tem como responsabilidade permanecer neste estado, mas não é só isso, ele apresenta também o legalismo como um dos perigos a liberdade cristã, v.1-12. Na segunda parte, v.13-15, Paulo apresenta o segundo perigo, o mau uso da liberdade, o libertinismo. Passemos ao estudo do texto:

O primeiro ponto a destacar é que nós éramos escravos iludidos, v.1. O texto diz “para a liberdade foi que Cristo nos libertou”. Logo, nós não éramos livres como pensávamos que éramos, mas sim escravos. Mas não é só isso, éramos escravos iludidos, pois pensávamos em nossas mentes que éramos livres. A Bíblia afirma que todo aquele que não conhece a Cristo como Seu salvador pessoal é escravo:

(a)   Escravo do pecado, 1.4 (Jo 8.34; Rm 6.7,18). O pecado é o cativeiro da vontade, das afeições e da mente. Nenhum homem que tenha pecado pode se dizer livre, pois o pecado é escravizador.

(b)  Escravo do mundo, 1.4b; 4.3. (Cl 2.8,20) O mundo jaz no maligno, 1 Jo 5.19. Ninguém consegue escapar do cativeiro que é o mundo, com suas múltiplas tentações e seduções, sem ajuda divina. O mundo dita o comportamento e o pensamento dos homens, Ef 2.2.

(c)   Escravo da lei, 4.4. Os judeus estavam sob a lei, e como já vimos o sistema mosaico era um sistema escravizador, pois a lei apenas evidenciava o pecado, mas não tinha poder para livrar do pecado. A lei sujeita todos os transgressores à condenação.  

(d)  Escravo do diabo, 4.8. (Ef 2.2; Cl 1.13) A Bíblia deixa claro que o pecado nos sujeita a uma relação de escravidão para com as hostes malignas. Essa escravidão espiritual faz com que nosso entendimento espiritual seja entorpecido (2 Co 4.4) e com que nosso desejo seja cumprir a vontade do diabo (Jo 8.44) e que nos afeições sejam más (Jo 3.19).

A implicação desta realidade espiritual é aquilo que chamamos de inabilidade humana para a busca do bem espiritual sem ajuda divina. Essa inabilidade humana para busca da salvação diz respeito tanto ao “querer” (Jo 5.40) quanto ao “poder” (Jo 6.44). O homem precisa de auxílio externo para sair desta condição. Por isso o texto que lemos diz que “Cristo nos libertou”.

Como afirmou Thomas D. Bernard “nosso senso de pecado é diretamente proporcional à nossa proximidade de Deus”. Somente quando nos aproximamos de Deus podemos perceber que saímos de um dos mais terríveis sistemas prisionais da história humana.

Meus amados, vocês perceberam de onde vieram? Notaram os grilhões, as algemas? Cristo nos libertou, não éramos livres, mas escravos iludidos.

O segundo ponto a destacar é que fomos libertados por Cristo, v.1b. Chegamos à controversa questão da liberdade em Cristo. Há muito mal entendido aqui apesar das Escrituras serem absolutamente claras quanto à questão. Parte do problema reside no fato de que nosso conceito sobre a liberdade é mais mundano do que bíblico. Vamos examinar o que diz o nosso texto, quero chamar a sua atenção para alguns pontos aqui:

(1) Liberdade é obra de Deus: a libertação de uma pessoa da escravidão espiritual é obra de Deus. O Novo Testamento não contempla a ideia de que o homem possa por si mesmo obter a sua libertação. Liberdade não é uma conquista humana, mas algo que Deus conquistou para nós. Embora Paulo aqui deixe evidente que Cristo é o agente da libertação, a Bíblia ensina que é a libertação é uma obra da Trindade Santa:

(a)   Deus o Pai nos libertou, Cl. 1.13. Foi o poder onipotente de Deus o Pai que nos libertou do império das trevas.

(b)   Deus o Filho nos libertou, Gl 5.1 (Is 61.1,2) Foi pelo Seu sangue que Cristo nos resgatou (Gl 4.5), nos redimiu (Cl 1.13), nos adquiriu (1 Co 6.20; 7.23; Ap 5.9). 

(c) Deus o Espírito nos libertou, Rm 8.15 com 2 Co 3.17. Foi pela presença libertadora do Espírito Santo em nós que nos tornamos livres para poder chamar Deus de Pai.

(2) Em que consiste essa liberdade. Definir a natureza dessa liberdade é um ponto de suma importância:

(a)   Não é liberdade como autonomia: liberdade no sentido de fazer e dispor de si como bem entender não é liberdade real, pois é escravidão a si mesmo. Ele, embora livre, não pode desobedecer à verdade do evangelho, v. 2,3,7. Note que o texto diz – “para a liberdade foi que Cristo nos libertou” – logo, liberdade nesse sentido não é liberdade. François Fenelon declarou: “A liberdade verdadeira só pode ser encontrada quando escapamos de nós mesmos e entramos na liberdade dos filhos de Deus”.

(b)   Não é liberdade como antinomia: liberdade no sentido de não estar sob nenhuma lei, liberdade no sentido amplo e irrestrito para satisfazer os desejos da carne é libertinagem, que não é liberdade, mas clausura, v.13. O texto diz – “para a liberdade foi que Cristo nos libertou” – logo, o uso da liberdade para ocasião à carne não é liberdade.  Thomas Hall dizia: “A liberdade evangélica é a liberdade do pecado, não para pecar”.

(c) É liberdade “em” Cristo, 2.4. Cristo é a esfera onde essa liberdade é experimentada. Em outras palavras, é preciso um relacionamento com Cristo para desfrutar dessa liberdade e fora dele ela inexiste. Sair dessa esfera é perder a liberdade.

(d)  É liberdade para servir a Deus. v.16-18. A liberdade em Cristo é a liberdade para servir a Deus. O conflito descrito aqui é o conflito de alguém que foi liberto, pois o Espírito só atua antagonizando os desejos carnais naqueles que foram libertos por Cristo e se tornaram filhos de Deus, 4.6,7. Antes nós não podíamos e nem queríamos servir a Deus, mas agora nós o amamos e queremos nos submeter a Ele, sentindo prazer na lei de Deus, Rm 7.22.  Como disse William Hendriksen “a pessoa que é realmente livre já não age mais por coação, e, sim, serve a Deus voluntariamente, com alegria de coração.” Agostinho dizia: “O homem é mais livre quando controlado apenas por Deus”.

(3) Como opera em nós essa liberdade. Nosso texto diz “para a liberdade foi que Cristo nos libertou”. Há aqui duas observações importantes:

(a)   A liberdade é algo sobre nós. Observe o tempo verbal passado “libertou”. Esse tempo verbal nos remente a um momento específico na nossa história, o momento quando somos justificados por Deus. Aquele que é declarado justo por Deus é declarado igualmente livre, pois nenhuma condenação pesa sobre ele. Num certo sentido a liberdade é algo que acontece fora de nós, pois nós somos postos em liberdade. É algo que acontece a nós. Mas o que acontece a um cristão não é apenas o abrir das portas da cela ou das algemas. Como declara Hendriksen – “é liberdade com algo mais”.

(b)   A liberdade é algo em nós. Observe o que Paulo diz –“para a liberdade” – isto é, nós fomos libertos para permanecermos livres e a única maneira de permanecermos assim é sermos adotados na família de Deus. Deus não somente nos liberta, mas garante que permaneçamos livres. Só os filhos de Deus são verdadeiramente livres. E como somos filhos, Deus envia aos nossos corações o seu Espírito, 4.6,7. E, o Espírito nos preserva livres, 2 Co 3.17. A liberdade consiste em nos mantermos sob o controle do Espírito, sendo guiados pelo Espírito de Cristo, produzindo o caráter de Cristo, fazendo a vontade de Cristo.

(c)   A liberdade nos capacita ao serviço na comunidade: Paulo afirma que a liberdade não deve servir de ocasião para servirmos a nós mesmos, antes servimos uns aos outros, v.13,14. Não servimos uns aos outros por qualquer outra razão senão pelo amor. 

O puritano Richard Sibbes afirmou que “o cristão é o homem mais livre do mundo... contudo, em relação ao amor, ele é o maior servo”.

Caros irmãos, que sinais damos da nossa liberdade em Cristo? Servimos a Deus voluntariamente e com alegria? Servimos ao próximo, aos nossos irmãos com o que somos, sabemos ou e temos?

O terceiro ponto é que devemos manter a nossa liberdade, v.1c. Nesse texto estão ladeados dois princípios, o primeiro a ação soberana de Deus, o segundo a responsabilidade humana. Cristo nos libertou soberanamente, mas cabe a nós permanecermos livres. A primeira parte deste versículo bem poderia ser um versículo isolado, pois no grego há um ponto final depois de “libertou”. Pois bem, tudo o que está inserido na primeira parte deste versículo refere-se a soberania de Deus, ao ato soberano de Deus em nos libertar. Contudo, a segunda parte refere-se à nossa responsabilidade, aquilo que nós devemos fazer em relação a essa liberdade. Observemos o seguinte:

(a) A liberdade implica disciplina. Não se pode dissociar liberdade e disciplina. O pensamento que diz que a liberdade é indulgência não faz parte das Escrituras. O verbo “permanecei” está no imperativo, é uma ordem, e está no presente, indicando uma ação habitual e contínua – ou seja, eles deviam perseveram na liberdade que Cristo lhes concedeu. A liberdade se mantém com vigilância para que deliberadamente não nos submetamos a qualquer tipo de “jugo”. Observe que Paulo deixa claro que são eles que se submetem a tais jugos deliberadamente e isso implica em sua responsabilidade.

Paulo passa então e mencionar três jugos que ameaçam a liberdade do cristão:

(b) Legalismo é uma ameaça à liberdade, v.2-6. Os legalistas insistiam na circuncisão para a salvação e Paulo argumentou extensamente contra essa tese nos capítulos 2,3 e 4, aqui ele resume dizendo que a sujeição à lei seria abrir mão da liberdade em Cristo. Submeter-se à circuncisão seria tornar o sacrifício de Cristo inútil – “Cristo de nada vos aproveitará”, v.2. Aquele que se submete ao rito da circuncisão está se obrigando a cumprir os ditames da velha aliança, v.3. Tal atitude tem consequências desastrosas e irremediáveis as quais Paulo ilustra de duas maneiras, a primeira é um desligamento de Cristo e a segunda, o cair da graça, v.4. Esse texto não contradiz a doutrina da perseverança dos santos, como alguns pensam. Daremos atenção a este texto em particular mais tarde. No momento, podemos dizer que Paulo aqui trata a questão sob o ponto de vista da responsabilidade humana. Depois, observe que há uma clara distinção entre “vós” e “nós”, v.1,4,5. Isto é, entre os que buscam a justificação pela lei e os que a obtém mediante a graça pela fé, v.5,6.

(c)  Desobediência é uma ameça à liberdade, v. 7-12. A carreira cristã é metaforicamente considerada a uma corrida. O ensino herético é um obstáculo que impede a concentração do corredor na corrida, tirando-lhe a atenção do alvo. Havia alguém entre os gálatas que os estava tentado distrair em sua corrida na fé, Paulo o considera com potencial destrutivo, como o fermento que faz crescer a massa, v.9. Esse ensino estava impedindo dos crentes da Galácia de obedecerem “à verdade”, 7. Oscilar na obediência é prejudicial à vida cristã, provoca distrações, ameaça à liberdade. Paulo confiava que os crentes não dariam atenção ao ensino que obstaculizaria a sua fé, v.10. Nem mesmo daria atenção às acusações falsas que os seus inimigos faziam sobre ele, v.11. Nas Olimpíadas de 2004, Vanderlei Cordeiro de Lima liderava a maratona e tinha chances de conquistar o ouro para o Brasil, uma vitória inédita. Contudo, no 36° km da prova um padre irlandês invadiu a pista de provas e atrapalhou o corredor brasileiro que perdeu posições e a chance do ouro, ficando com a medalha de bronze. O corredor declarou: “Não fiquei lesionado, nem nada, mas aquilo cortou meu ritmo".  Ele se desconcentrou e perdeu a chance da medalha de ouro. Na vida cristã as heresias são como obstáculos ao nosso crescimento espiritual.

(d) A libertinagem ameaça a liberdade , v. 13-15. No lado oposto dos judaizantes que insistiam no legalismo, havia os antinomistas. Esses estavam fazendo afirmando que o ensino de Paulo servia como uma licença para a carne. Paulo chama a atenção ao fato de que a liberdade quando degenera em libertinagem é clausura, não liberdade. Paulo insiste em que a liberdade em Cristo não é ficar sem lei, mas submeter-se voluntariamente à lei do amor, v.14. A libertinagem é tão escravizadora quanto a lei. Um liberto não deve usar da sua liberdade para ocasião à libertinagem. John Blanchard “Liberdade não é o mesmo que licenciosidade; ser livre não é ser livre e indolente; o cristão não é livre para agradar a si mesmo, mas para agradar a Deus”.


Caros irmãos, a nossa liberdade é obra da graça soberana de Deus. A nossa liberdade custou o sacrifício de Cristo. A manutenção dessa liberdade não pode ser mantida sem vigilância contínua. 
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Sermão entregue na Comunidade Batista da Graça. 
Rua Tókio, 842, Cidade Edson, Suzano/SP