terça-feira, 24 de setembro de 2013

TRANSFORMANDO PROVAÇÕES EM TRIUNFOS

Silas Roberto Nogueira
Comunidade Batista da Graça, Suzano/SP
Exposição da Epístola de Tiago
Anotações do Sermão


Tiago 1:2-4


Tiago começa sua carta tratando de um dos temas mais espinhosos da vida cristã, as provações. Sem rodeios, ele afirma que as provações são muitas e inevitáveis. O cristão não pode evitar as provações, elas sobrevêm a eles indistintamente e das mais variadas maneiras. Há muitos que ao cair em provações desanimam, murmuram, blasfemam e se impacientam. Sem notar, prolongam as suas provações e as transformam em tentações dando ocasião ao pecado que gera a derrota espiritual. Tiago nos mostra aqui que só existe uma maneira de enfrentar as provações. Só há um único modo de transformamos as tribulações em triunfos. Vejamos o que nos ensina Tiago:

O primeiro ponto que quero destacar é que precisamos enfrentar as provações com alegria. No dicionário, provação e tribulação sempre vem antes de triunfo, mas não antes da alegria. As provações são circunstâncias que nos sobrevém em que nossa fé é testada. A ordem de Tiago aqui não é somente que nos alegremos por causa das provações, mas que experimentemos uma plenitude de alegria (“toda alegria”). Essa mensagem pode ser encontrada em todo o Novo Testamento. Cristo ensinou isso (Mt 5:11,12), essa foi a experiência dos primeiros crentes (At 13:48-52 ) e o ensino dos apóstolos, Paulo ( 2 Co 7:4), Pedro (1 Pe 4:13), autor de Hebreus (Hb 10:34). A questão que devemos levantar então é: qual a natureza dessa alegria? Tiago não explica. Simplesmente ordena: alegre-se. Mas nós não estamos no escuro. O próprio contexto e outras partes da Bíblia explicam a natureza dessa alegria.

Essa alegria não tem sua fonte nas circunstâncias, mas é independente delas. Tiago deixa evidente que a alegria aqui não tem uma relação direta com aquilo que estamos experimentando ou sentindo. A alegria ordenada aqui é possível mesmo em meio às circunstâncias adversas, mesmo em meio às provações. Portanto, a alegria aqui é independente das circunstâncias. O cristão não depende das circunstâncias para experimentar a alegria. John Blanchard “a verdadeira alegria resplandece no escuro.”

Essa alegria não é insensibilidade à dor. Tiago não diz não sinta dor, não chore, mas alegre-se. Essa alegria não nos torna insensíveis ou imunes à dor. Tiago, por exemplo, cita Jó como modelo de alguém que sofreu com paciência (5:11). Ora, nós sabemos que Jó chorou e esteve de luto por tudo que passara (Jó 30:25-31). Tiago também cita os profetas como modelo de sofrimento, e sabemos que entre os que mais sofreram estava Jeremias, cujos lamentos estão registrados em seus livros (Jr 15:10). Essa alegria coexiste com a dor e o sofrimento, não nos torna insensíveis ou imunes a eles.

Essa alegria não é natural, mas sobrenatural. Tiago não diz que devemos produzir alegria. Tiago apenas ordena que nos alegremos. Como um dom perfeito, essa alegria tem como origem o nosso Deus, Tg 1:17. De acordo com Paulo é Deus quem nos enche dessa alegria, Rm 15:13. Aos crentes gálatas Paulo fala dessa alegria como fruto do Espírito santo, Gl 5:22. Assim sendo, essa alegria é divina, não humana, não é natural, mas sobrenatural. O puritano Thomas Watson dizia “há tanta diferença entre as alegrias espirituais e as terrenas quanto entre um banquete saboreado e outro pintado na parede”.


 O segundo ponto que devo destacar é o porquê devemos nos alegrar. De acordo com Tiago “muitas” são as provações pelas quais os crentes passam. Talvez a afirmação de Tiago aqui seja um eco do salmista que havia afirmado “muitas são as aflições do justo” (Sl 34:19). Duas coisas devem ser observadas de imediato: 

(a) As provações são inevitáveis. A palavra “passardes” tem o sentido de ser tomado de assalto e isso indica que as provações sobrevinham a eles de modo repentino, sem que pudessem evitar. Cristo declarou “no mundo tereis tribulações” (Jo 16:33). Paulo afirmou que todos os que querem viver piedosamente padecerão perseguições (2 Tm 3:12). C. S. Lewis afirmou “o verdadeiro problema não está na razão por que algumas pessoas piedosas, humildes e crentes sofrem, mas por que algumas não sofrem”. A igreja em Sardes não enfrentava perseguições, vivia tranquilamente em amizade com o mundo, mas estava morta; 

(b) Só existe uma maneira de enfrentar as provações: embora sejam muitas as provações, só existe uma maneira de enfrenta-las e é com alegria. Os crentes não estão imunes ao sofrimento.  Alguns dos leitores originais de Tiago estavam enfrentando a viuvez e pela orfandade (1:27), alguns foram processados pelos ricos opressores (2:6), outros sofriam opressão social (5:1-4) e ainda outros enfrentavam doenças (5:14). Contudo, Tiago não lhes ensina fugir das provações, mas a enfrenta-las com uma mentalidade alegre. E porque devemos ter tal atitude em relação às provas da vida?

É uma ordem: Mt 5.12; Fp 2.18;4.4; 1 Ts 5.16;1 Pe 4.13. Não nos cabe negociar ou discutir, apenas obedecer. Só há duas maneiras de enfrentar as provações na Bíblia. O primeiro é desobedientemente, isto é, sem alegria e tão somente com a dor; o segundo modo é alegremente, apesar da dor.

Por que a alegria é nossa força. Não há maneira melhor de enfrentar as provações do que com alegria. A razão disso é simples: a alegria do Senhor é nossa força, Ne 8.10. Força para superarmos as provações e sermos finalmente aprovados. John MacAr
thur comenta com sabedoria que “se o cristão não consegue passar nessa prova por responder a ela de maneira incorreta, essa prova então se torna uma tentação, uma incitação ao mal.”

Por que glorifica a Deus. O mundo não conhece essa alegria, mas pode conhecer através de nós. Há incrédulos que enfrentam os revezes da vida com firmeza inabalável, contudo sem alegria. Mas ao cristão é possível a alegria mesmo em meio às dores e isso o mundo não conhece. Ao enfrentar as provações com alegria, o cristão glorifica a Deus. Por isso Narthcote Deck afirmou: “Um cristão sem alegria é um difamador de seu Senhor”

O terceiro e último ponto que devo destacar aqui é como obter a alegria que triunfa da provação. Estamos cientes de que devemos enfrentar as provações com alegria. É uma ordem divina, será bom para nós mesmos, será um bom testemunho e finalmente glorificará a Deus. Mas a questão que se levanta: como podemos obter a alegria triunfante?

Achegue-se a Deus, pois ele é manancial de alegria: A primeira coisa que devemos saber é que essa alegria é fruto do nosso relacionamento com Deus, 1 Cr 16:27 (“formosura” lit. é alegria); Sl 16:11.

Considere a situação sob outra perspectiva: atente para as palavras “tende por motivo”, notou que em algumas versões é “considerai”? (AS21; NVI) O que é considerar? Dar atenção a, levar em conta, observar atentamente, meditar em, pesar, examinar, apreciar. A palavra no original tem a crença que não descansa sobre os sentimentos, mas na devida consideração dos fatos e que contrasta e pesa as circunstâncias. Em outras palavras, não se deixe levar pelas emoções, mas pondere bem e observe que a situação presente pode revelar-se uma ação providencial de Deus que redundará em benefícios espirituais a você e a outros.

Considere que as provações são sempre passageiras: Tiago assevera “tende por motivo de toda alegria o passardes...”. As provações na vida do crente podem ser muitas, mas são sempre passageiras. O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem ao amanhecer, Sl 30:5. Alguns passam pelas lutas de modo rápido, outros mais devagar e ainda outros lentamente, mas todos passam! Pedro ao se referir às provações diz que elas são “por breve tempo” (1 Pe 1:6) e Paulo fala delas “leve e momentânea” provação (2 Co 4:17). O cristão passa pelo deserto, não mora nele. A dor circunstancial não pode fazer com que você perca a alegria que é eterna!

Considere as provações pedagógicas: há um aspecto e esse é absolutamente importante em nossas considerações. Não podemos experimentar alegria se não o compreendermos corretamente. O aspecto sumamente importante em nossa consideração das provações é que elas têm um foco pedagógico, querem nos ensinar, aperfeiçoar e não destruir. A frase “muitas provações” fala não somente de quão variadas são as provações, mas que certamente há uma para cada momento e para cada área em nossa vida que precisa ser aperfeiçoada. Tiago nos diz que as provações visam produzir em nós a “perseverança”. A perseverança é uma das virtudes mais necessárias aos crentes. Os que perseveram em meio às lutas da vida provam que não tem uma fé momentânea. A perseverança é um sinal de uma fé íntegra, não deficiente. As provações não são prisões, mas túneis pelos quais caminhamos rumo à liberdade em Cristo.

Para concluir entendo que cabem bem aqui as palavras de William Shakespeare: “eu aprendi que todos querem viver no topo da montanha, mas toda felicidade e crescimento ocorre quando você está escalando-a”.


Tiago nos ensina que as tribulações da vida devem ser encaradas com alegria. Esse é o método de Deus de transformar tribulações em triunfo. 

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A JOIA PERDIDA DO CRISTIANISMO - O CONTENTAMENTO

Aprendendo com Jeremiah Burroughs

Anotações do Sermão da Série 
Aprendendo com os Gigantes de Deus

Silas Roberto Nogueira

Filipenses 4.11-13


Jeremiah Burroughs nasceu na região conhecida como East Anglia , Inglaterra, entre 1599  ou 1600 .  Em 1617 foi admitido como pensionista no Emmanuel College, Cambridge, recebendo os graus de Bacharel em Artes, em 1621, e Mestre em Artes, em 1624. O fato de ser um não conformista não o impediu de ser ordenado ao ministério em 1622. A princípio era auxiliar de Edmund Calamy, em Bury St Edmunds, Sulffolk. Mas esse início promissor mostrou-se logo uma decepção, escreveu Burroughs: “foram quase três anos e meio com eles, com pouco sucesso”. Ele enfrentou forte oposição na congregação depois de denunciar os pecados de alguns cidadãos e logo seu ministério ali findou. 


A partir de 1631 Burroughs tornou-se ministro em Tivestshall, Norfolk. Seu ministério ali foi interrompido quando ele foi suspenso do púlpito em 1636 e despojado em 1637 pelo bispo Wren por não conformar-se com a leitura do Livro dos Esportes no púlpito, inclinar-se ao nome de Jesus e a recitação de orações, em vez de fazê-las extemporaneamente, etc. Para Burroughs nada deveria ser acrescentado ao culto a Deus sem direta prescrição da Palavra. Para piorar tudo, ele foi difamado por outro ministro como apoiador da causa dos escoceses. Sem sustento, Burroughs passou por muitas dificuldades sendo socorrido pelo Conde Warwick. Mas quando a perseguição aos puritanos aumentou, Burroughs teve que deixar a Inglaterra, indo para a Holanda. De 1638 a 1640, Burroughs viveu na Holanda, em Rotterdã, e ministrou a uma congregação de ingleses independentes (Congregacional) a convite de William Bridge. Ele desenvolveu um brilhante trabalho na Holanda tendo adquirido uma alta reputação. Quando em 1642, por causa da Guerra Civil, o poder das perseguições diminuiu consideravelmente, Burroughs voltou à Inglaterra. De novo em sua pátria ministrou a duas congregações, a de Cripplegate e Stepney, que tinham fama de serem as mais frequentadas da Inglaterra. Burroughs pregava no culto das 7:00 horas em Stpeney e William Greenhill pregava às 15:00 horas. Daí espalhou-se o ditado que Burroughs era a estrela da manhã e Greenhill a estrela da tarde em Stpeney.  Tomas Brooks se referia a ele como “príncipe dos pregadores”. 


Burroughs era um homem de firmes convicções, mas de espírito irênico. Ele participou da Assembleia de Westminster e esteve ao lado dos independentes, mas seu tom era moderado. Ele faleceu em 1646, depois de sofrer uma queda de um cavalo. Ele enfrentou duras provações durante boa parte do seu ministério por suas convicções. Mas o que fez dele um homem persistente em meio às perseguições e injustiças sofridas? O que fez dele um gigante com o qual podemos aprender hoje? Certamente foi o seu entendimento da Palavra de Deus acerca do contentamento cristão. Ele pregou uma série de sermões em Filipenses 4.11 que foram transformados em um livro A Joia Rara do Contentamento Cristão  publicado dois anos após a sua morte, em 1648, e que tem sido usado por Deus para instruir seu povo até hoje. 


EXPOSIÇÃO
Quando Dr Lloyd-Jones chegou a este texto em suas exposições de Filipenses afirmou “temos [aqui] uma das poções das Escrituras que sempre me fazem pensar que há um sentido em que a única coisa certa e própria que de se deve fazer depois de as lermos num culto na igreja é impetrar a bênção!”   Qual a razão de tais palavras? Ora, o fato de estarmos diante de um dos momentos mais sublimes em que Paulo revela o segredo, por assim dizer, da vida cristã mais elevada. Vejamos o que nos ensina o apóstolo:


CONTENTAMENTO É ALGO QUE APRENDEMOS

Quando Burroughs abordou este texto observou com perspicácia que contentamento é uma coisa que se aprende – diz Paulo “pois aprendi”, v.11. E, no v.12, ele diz “tenho experiência” (AS21 e ARA) ou “estou instruído” (ARC) ou “aprendi” (NVI). A primeira palavra (gr emathon) refere-se ao aprendizado pelo ouvir tanto quanto pelo praticar. O sentido é “vim a aprender”, portanto isso não é algo automático na vida cristã. Lloyd-Jones comenta “dou graças a Deus por Paulo ter dito isso. Nem sempre Paulo estava no mesmo nível, como acontece com qualquer um de nós. Ele tinha “vindo a aprender” . Observemos por um instante a segunda palavra usada por Paulo no v.12. Onde se lê “tenho experiência” (AS21 ou ARA) e “instruído” (ARC) a palavra usada pelo apóstolo era usada em conexão com os cultos de mistério. É como se Paulo dissesse que havia sido “iniciado” no aprendizado do contentamento. Burroughs afirma que aqui é como se Paulo dissesse “eu aprendi o mistério ou o segredo disso”, por isso a NVI aqui foi melhor – “aprendi o segredo de viver...”. no entanto, o aprendizado do contentamento cristão não se dá por meio de um ritual místico, mas pelo exercício da confiança na providência divina. 

Certa vez um homem de Wall Strett encontrou um sábio e perguntou: “como faço para ser feliz?” E o sábio respondeu: “contente-se com o que você tem” E o homem partiu triste. Diz o ditado: “uma mente satisfeita é uma festa contínua”. 

Thomas Watson, outro gigante puritano, diz “o apóstolo não diz, eu ouvi que em cada situação eu deveria ser contente, mas eu aprendi. Daí nossa primeira doutrina, que não é suficiente para os cristãos ouvirem seus deveres, mas eles devem aprendê-los. Uma coisa é ouvir e outra aprender, como é uma coisa comer e outra coisa misturar ingredientes. Paulo era um praticante. Cristãos ouvem muito, mas infelizmente, aprendem pouco” . Você é um dos que aprendem? 


O QUE É CONTENTAMENTO

Quando dizemos que Paulo aprendeu a estar contente, o que queremos dizer com isso? Vamos começar a dizendo o que esse contentamento não é, isto é, vamos defini-la primeiro de modo negativo. 

(a) Em primeiro lugar o contentamento não é o mesmo que resignação. Resignação é a aceitação de uma circunstância simplesmente porque não se pode muda-la. O budismo ensina que a vida é sofrimento, portanto o budista é obrigado a aceitar isso simplesmente pelo fato de não poder mudá-lo, é um carma. 

(b) Em segundo lugar o contentamento não é o mesmo que conformismo. Muitas vezes o cristianismo é acusado de implantar nas pessoas um espírito conformista. O conformista é aquele tipo que se contenta com o que tem ou não tem e não busca adquirir, avançar ou melhorar. 

(c) Em terceiro lugar o contentamento nada tem a ver com o temperamento de uma pessoa. Há pessoas que tem uma disposição natural que parece torna-las aparentemente contentes o tempo todo. O tipo de pessoa que parece nunca estar preocupado. 

(d) Em quarto lugar o contentamento não é a indiferença estoica face às circunstâncias. Os estoicos pensavam em que o segredo de uma vida feliz consistia não em possuir muitas coisas, mas em desejar menos. 


Que significa então? Voltemos nossa atenção ao termo usado por Paulo e que foi traduzido por “contente” (ARA) ou “satisfeito” (AS21). Seu sentido básico é o de “autossuficiência” e na ética dos estoicos significava a independência de tudo e de todos. Para os estoicos essa autossuficiência se obtinha eliminando todo o desejo e era uma conquista humana. Mas Paulo não é ume estoico, para ele essa autossuficiência era um dom divino. Burroughs afirma que o sentido das palavras de Paulo aqui é que ele achou suficiente satisfação em seu próprio coração através da graça de Cristo que estava nele e por isso, apesar de não possuir nenhuma espécie de conforto exterior para suprir as suas necessidades ele tinha de Cristo o suficiente para satisfazer a sua alma em todas as situações. 


Burroughs chama a atenção que a palavra “toda e qualquer situação” (ARA) ou “circunstância” (AS21 e NVI) não consta do original e que uma tradução literal seria – “eu sou contente como estou”. Por isso Burroughs afirma que o contentamento aqui “não é o resultado daquilo que temos, mas sim o tipo de pessoa que somos”  O contentamento de Paulo provinha de uma fonte interior, não das coisas exteriores. O contentamento de Paulo não era dirigido pelas circunstâncias, mas pelo que ele era em Cristo. 


Warren Wiersbe narra uma história interessante: “O problema com ele é que é um termómetro e não um termostato!” Esta afirmação feita por um diácono despertou a curiosidade do pastor. Eles estavam falando sobre possíveis membros para a liderança, quando surgiu o nome de Jim. Quando indagado, explicou o diácono: “o caso é este, pastor um termómetro não muda nada à sua volta — limita-se a registar a temperatura. Está sempre oscilando. Mas o termostato regula a zona em que se encontra e muda-a sempre que precisa ser mudada. Jim é um termômetro — não tem poder para mudar as coisas. Em vez disso, são elas que o mudam!”.  O apóstolo Paulo era um termostato, não um termômetro. Em vez de ter altos e baixos espirituais conforme a situação ia mudando, ele aprendeu a viver contente apesar das situações.  Ele não era uma vítima das circunstâncias, mas um vitorioso sobre elas. Paulo não precisava estar empanturrado para se sentir contente; encontrava a sua satisfação nos recursos espirituais abundantemente providenciados por Cristo.  Você é um termômetro ou um termostato? 

COMO SE APRENDE A ESTAR CONTENTE EM TODA SITUAÇÃO

Paulo diz que aprendeu a estar contente em toda situação. O termo usado para aprender tem o sentido de aprender pela experiência, justamente o que ele diz no v.12. Em outras palavras, as situações ou circunstâncias que Paulo enfrentara o treinaram, foram-lhe uma escola, Rm 5.3-5; 2 Co 12.10,11;4.16,17.

Então ele cita dois extremos opostos que representam os dois maiores perigos para a alma humana, de um lado a escassez e de outro a abundância, v.12. Ninguém pode dizer o que é mais difícil, contentar-se com pouco ou com muito? Ambas as situações escondem perigos contra o contentamento. As palavras de Agur exemplificam o que estou dizendo, Pv 30.7-9.  

Lloyd-Jones sugere alguns passos no aprendizado de estar contente em toda e qualquer situação: 

1) As condições estão sempre mudando, logo, é óbvio que eu não devo depender das condições;

2) O que importa suprema e vitalmente é a minha alma e minha relação com Deus – este é o aspecto principal.

3) Como meu Pai, Deus preocupa-se comigo, e nada me acontece independentemente de Deus. 

4) A vontade de Deus e os seus caminhos são um grande mistério, mas eu seu que, seja o que for que ele queira ou permita, é necessariamente para o meu bem.

5) Toda situação na vida é um desdobramento de alguma manifestação do amor e da bondade de Deus. Logo, é meu dever buscar descobrir cada manifestação da bondade e da benignidade de Deus e estar pronto para surpresas e bênçãos, Is 55.8. 

6) Não devo considerar as situações em si mesmas, mas como parte dos procedimentos de Deus para comigo na obra pela qual ele me aperfeiçoa...

7) Sejam quais forem as minhas condições no presente, são temporárias, são passageiras, e jamais poderão privar-me do gozo e da glória que final e supremamente me esperam em Cristo. 

Acredito que o que ajudou Paulo a aprender a estar contente em toda e qualquer situação acima de qualquer outra coisa foi manter os olhos em Cristo, Hb 12.2. Paulo pôs os olhos em Cristo e o seguiu como seu exemplo, 2 Co 4.18. Façamos o mesmo! 

PORQUE DEVO EXERCITAR-ME NO CONTENTAMENTO

Para Burroughs o contentamento faz bem para os crentes pelas seguintes razões:

1) Os cristãos exercitados no contentamento adoram a Deus como Ele deve ser adorado. Dizia Burroughs “a verdadeira adoração não é simplesmente frequentar cultos ou fazer orações. Pelo contrário, é possível participarmos de um culto com o coração tão insatisfeito que afinal Deus não tenha sido adorado de forma alguma. (...) Fazer o que Deus quer, isso é adoração: estar satisfeito com o que Deus dá, isso também é adoração” . Contentamento e adoração andam juntos

2) Os cristãos exercitados no contentamento “fazem o melhor uso dos dons espirituais que Deus lhes concedeu”. O que Burroughs chama dons espirituais são “fé, humildade, amor, paciência, sabedoria e esperança” e diz ele “Deus almeja ver essas coisas se desenvolvendo em seu povo, pois as vidas dos cristãos felizes sempre tem uma influencia positiva sobre os incrédulos”. Segundo ele, os cristãos que sofrem sem murmurar dão um ótimo testemunho, no qual Deus é glorificado. 

3) Os cristãos exercitados no contentamento “são mais úteis”. No entendimento de Burroughs “pessoas inquietas e instáveis não servem para o serviço de Deus....A única coisa que as torna aptas para o trabalho de Deus é um contentamento espiritual interior”

4) Os cristãos exercitados no contentamento “são pessoas mais bem equipadas para resistir a tentações”. Para Burroughs aqueles que murmuram se desviam facilmente. O diabo faz tudo para convencê-los de que Deus é injusto para com eles. 

5) Os cristãos exercitados no contentamento “são aqueles que se deleitam plenamente na vida aqui e agora”. Segundo Burroughs quem está contente o que Deus lhe deus são mais felizes do que aqueles que possuem muito. 

Lloyd-Jones dizia que um cristão descontente era um mau testemunho.

Finalmente, para Burroughs o que impede o contentamento é o pecado, especialmente o da rebelião contra a vontade de Deus. Essa rebelião é manifesta de modo claro numa atitude comum a muitos, a murmuração. Para Burroughs “cristão que reclamam são cristãos orgulhosos, que se recusam a se submeter à vontade de Deus para suas vidas. Eles são semelhantes aos marinheiros que reclamam da tempestade ao invés de prepararem o navio para enfrenta-la, marinheiros sensatos reconhecem a superioridade da tempestade e arriam as velas”.  Ele ainda nos lembra de que a murmuração provoca a ira de Deus. Os israelitas que murmuraram no deserto nunca entraram na Terra Santa, diz ele. 

Para Burroughs o contentamento será alcançado seguindo-se alguns passos básicos: 

1) Devemos tomar cuidado em nos envolvermos demasiadamente com assuntos dessa vida. 

2) Devemos buscar obedecer sempre à Palavra de Deus

3) Devemos viver por fé

4) Devemos trabalhar com afinco para sermos orientados espiritualmente

5) Devemos jamais ficar obcecados com nossos problemas

6) Devemos não colocar demasiadamente confiança nas opiniões dos outros

Para adquirir o contentamento que Paulo explica aqui é preciso não achar contentamento neste mundo, mas em Cristo.