domingo, 17 de novembro de 2013

COMO OUVIR UM SERMÃO DE MODO TRANSFORMADOR

Silas Roberto Nogueira

Tiago 1:19-25

Tiago começa a sair do assunto das provações e a entrar na questão da prática da Palavra de Deus. Os assuntos estão interligados, por isso a transição é natural. Os leitores originais foram exortados a proceder de acordo com aquilo que tinham ouvido nos sermões que lhes foram pregados nos cultos. Este é o tema deste trecho. Eles ouviram, mas pouco aproveitaram daquilo que foi ouvido, pois não o praticavam. Tiago então os exorta a preparar-se para receber a Palavra. Fala dos riscos de sermos meros ouvintes de sermões. Compara o homem que ouve um sermão e não pratica a alguém que olha para um espelho e depois esquece sua aparência. Mas Tiago fala também da bem-aventurança de se proceder de acordo com aquilo que ouvimos. Sempre há uma promessa aos que ouvem a Palavra e a praticam. 

Meus caros, num sermão o nosso Bom Pastor fala conosco e uma das marcas de que somos Suas ovelhas é justamente o fato de que podemos discernir a Sua voz (João 10). Por isso é preciso atenção quando um sermão está sendo proferido. Assim como os pais são desonrados quando falam com seus filhos e eles o ignoram, nosso Salvador é desonrado quando ignoramos o que Ele nos diz por meio de um sermão. A exposição da Palavra de Deus é um momento solene, Deus está falando com Seu povo, nós, como o jovem Samuel, deveríamos dizer: “fala, SENHOR, porque o teu servo ouve”. Eis aí exemplificada a maneira básica de ouvir um sermão. Mas Tiago tem mais a dizer-nos sobre isso. Para ouvir um sermão de modo transformador é preciso desenvolver algumas outras atitudes:  

Em primeiro lugar, devemos ser ávidos por ouvir a Palavra, v.19,20. Tiago inicia este trecho com um imperativo, que seus leitores sejam prontos para ouvir. Costumamos aplicar isso ao ouvir de modo geral, contudo, visto que o versículo anterior fala da Palavra (v.18) bem como os versículos posteriores, o ouvir aqui se refere ao ouvir a Palavra. A palavra “pronto” tem o sentido de algo que é “rápido”, a ideia é a de disposição e prontidão de ouvir a acatar a Palavra da verdade referida no v.18. No Velho Testamento temos um exemplo disso, quando o povo se junta e se prepara para ouvir a Palavra de Deus por dias a fio que era lida por Esdras (Ne 8:1-6). No Novo Testamento, um exemplo dessa avidez pela Palavra pode ser ilustrado na atitude de Cornélio que se preparou e desejava ouvir o evangelho (At 10:33). Essa avidez faltava aos leitores originais de Tiago. Se não estamos prontos para ouvir, certamente estaremos para falar. E esse falar será o reflexo exato de uma mente não regida pela Palavra; um irromper de murmurações que inflamará as nossas emoções numa explosão de ira iniqua, v.20. Porventura nossos corações estão prontos e ansiosos para ouvir Deus falar conosco?

O puritano Thomas Watson que devemos vir à casa de Deus “com um santo apetite pela Palavra (1 Pe 2:2). Um bom apetite também faz uma boa digestão”.

Precisamos ansiar pela Palavra de Deus como a corça pelas correntes de água (Sl 42:1) e como o guarda, o romper da manhã (Sl 130:6). Se não há anseio em nosso coração pelo ouvir da Palavra, certamente não haverá anseio em praticar a Palavra.

Em segundo lugar, devemos preparar o terreno para a semente da Palavra, v.21. Neste versículo Tiago exorta seus leitores a preparar o coração para receber a Palavra, à semelhança do terreno que é preparado para receber a semente. É possível que Tiago tenha em mente aqui a parábola do semeador, Lc 8:7 segs. Antes de acolher com mansidão a Palavra neles implantada (plantada), eles precisavam limpar o solo dos seus corações. Calvino diz que Tiago aqui “se refere à semente que é semeada, mas que fica sobre o solo, e não é recebida no seio úmido da terra... Tiago requer deles uma implantação viva, pela qual a Palavra seja unida aos seus corações”[1] Como devem fazer isso? Eles devem se livrar de tudo o que possa comprometer a semente da Palavra de dar seu fruto. O solo do nosso coração deve ser limpo de toda impurezas e “acúmulo de maldade” que literalmente significa “o que ainda resta da maldade em nosso coração”.[2]  Warren Wiersbe afirma que “a expressão "acúmulo de maldade" lembra um jardim mal cuidado, com ervas daninhas por toda parte”. Então conclui “não adianta receber a Palavra de Deus em um coração despreparado”.

Philip G. Ryken escrevendo sobre como ouvir sermões assinala: a primeira coisa é a alma estar preparada. A maioria das pessoas assume que o sermão começa quando o pastor abre a boca no domingo. Entretanto, ouvir um sermão começa na semana anterior. Começa quando oramos pelo ministro, pedindo a Deus que abençoe o tempo que ele gasta estudando a Bíblia e se preparando para pregar. Além de ajudar o pregador, nossas orações ajudam a criar em nós um sentimento de expectativa pelo ministério da Palavra de Deus. Esta é um das razoes porque, no que diz respeito à pregação, as igrejas geralmente recebem o que pedem em oração. A alma precisa de preparação especial na noite antes do culto. No sábado a noite nossos pensamentos devem lembrar do Dia do Senhor. Se possível, seria bom ler a passagem bíblica agendada para a pregação. Devemos também dormir o suficiente. Então, de manhã, nossas primeiras orações devem ser a respeito do culto público, e especialmente acerca da pregação da Palavra de Deus.[3]

Precisamos preparar os nossos corações para a pregação. Um coração despreparado é como um terreno impróprio, um terreno baldio, onde nascem ervas daninhas. Para tornar seu coração próprio à semente da Palavra é preciso limpá-lo de tudo aquilo que pode impedir a semente de dar ser fruto.

Em terceiro lugar, devemos acolher a Palavra, v.21. Além de preparar o coração limpando o terreno, é preciso receber a Palavra com mansidão. A palavra “acolher”, traduzida por “receber” (ARC), não se trata de somente “receber”, mas receber de forma acolhedora, dando boas vindas, abrindo o coração. Um exemplo dessa recepção da Palavra aconteceu entre os crentes de Beréia, At 17:11, e entre os crentes de Tessalônica, 1 Ts 1:6;2:13. Eles não deveriam meramente ouvir a Palavra, mas acolhe-la, guarda-la. O salmista afirmou que justamente o acolhimento da Palavra no seu coração é que o ajudava a não pecar, Sl 119:11.

O puritano Lewis Bayly dizia com acerto como acolher a Palavra “ao ouvir, aplique cada expressão como proferidas a você por Deus, e não pelo homem (Is 2:3; At 10:33: Gl 4:14; 1 Ts 2:13), e esforce-se não tanto para ouvir o som das palavras do pregador em seus ouvidos, mas, sim, para sentir a operação do Espírito agindo em seu coração.”

John Newton criticou severamente aqueles que não acolhiam a palavra, mas a julgavam dizendo: “Há ouvintes que fazem de si mesmos, e não da Escritura, o padrão de seu julgamento. O que eles gostam ou não gostam. O que se encaixa na vida e comodidade deles ou não...E muitos participam, não tanto para ser instruído, mas como um juiz, esperando só o momento para dar sua sentença sobre o que ouviu. Para eles, o púlpito é simplesmente uma plataforma em que o ministro está ali para se submeter ao julgamento deles, uma atitude de censura que poucos escapam, estão ali como juízes e não como ovelhas para serem alimentadas. Juízes inconsistentes em seu ego governante.”

Philip Ryken afirma “Ouvir um sermão — realmente ouvir — envolve mais que nossas mentes. Também requer corações receptivos à influência do Espírito de Deus. Algo importante ocorre quando ouvimos um sermão. Deus fala conosco. Através do ministério interno de seu Espírito Santo, ele usa sua Palavra para acalmar nossos medos, confortar nossos sofrimentos, incomodar nossa consciência, expor nosso pecado, proclamar a graça de Deus e nos fortalecer em nossa fé. Mas todas estas são coisas do coração, não apenas da mente, logo ouvir um sermão nunca é apenas um exercício intelectual. Precisamos receber a verdade bíblica em nossos corações, permitindo que o que Deus fala influencie o que amamos, o que desejamos e o que adoramos”

O que precisamos fazer é ao ouvir um sermão, acolher a Palavra em nossos corações. Precisamos receber a Palavra pregada como Palavra de Deus. Tiago nos diz como fazer isso: “com mansidão”. O sentido é o de uma atitude de abertura e disposição para ouvir, acolher e obedecer a Palavra pregada. Thomas Watson diz a “mansidão envolve um coração submisso, uma prontidão em ouvir os conselhos e repreensões da Palavra. Através da mansidão, a Palavra é gravada na alma e produz “o doce fruto de justiça”.

E Tiago apresenta uma razão para isso – a Palavra é poderosa para salvar as nossas almas. Lembre-se que no v.18 Tiago diz que eles já eram regenerados, assim sendo o sentido aqui é o de santificação. A santificação só pode acontecer com o acolhimento da Palavra.[4]

Em quarto lugar, devemos praticar a Palavra, v.22-25. Depois de acolher a Palavra, Tiago exorta seus leitores a que se tornem praticantes da Palavra. Não basta ouvir a Palavra; também se deve colocá-la em prática. Muitas pessoas têm a ideia equivocada de que ouvir um bom sermão ou estudo bíblico é o que as faz crescer espiritualmente. Não é o ouvir, mas sim o praticar que redunda em crescimento espiritual. Inúmeros cristãos costumam marcar passagens na Bíblia, mas nunca marcam a própria vida! Os que acreditam que são espirituais só porque ouvem a Palavra enganam a si mesmos. Tiago ilustra o ouvinte profissional de sermões como alguém que se contempla no espelho, mas logo que sai dali, se esquece como estava. A Palavra de Deus realmente é um espelho. Quando desejo ver como realmente sou, não olho no espelho, olho na Palavra. Ao me contemplar à luz da Palavra não posso esquecer do que vi.

Natã, o profeta, colocou o espelho da Palavra diante de Davi. Davi não percebeu seu reflexo na parábola da cordeirinha roubada. Mas Natã apresentou-lhe o reflexo com mais precisão ao dizer-lhe “Tú és o homem”. O resultado foi a confissão e o arrependimento: "Pequei contra o  SENHOR" . O espelho da Palavra cumpriu sua função.

Ao ouvir um sermão, atente à mensagem. Examine-se a si mesmo. Pratique a Palavra, abandone o pecado. Para ouvir um sermão de modo transformador é preciso praticar o que ouviu. Thomas Watson dizia com sabedoria “lute para reter e ore sobre aquilo que ouviu. Não deixe o sermão escorrer por sua mente como a água escorre através de uma peneira”.   

Para concluir, quero citar os pontos que Phil Newton, pastor batista estadunidense, nos comunica sobre o assunto:

1. Reconheça a autoridade das Escrituras Sagradas e sua primazia na adoração pública. Durante a semana prepare-se para ouvir a Palavra lendo as Escrituras regular e sistematicamente.

2. Peça que o Senhor lhe dê ouvidos que ouçam a Palavra e um coração obediente – lembre a congregação que eles têm a responsabilidade de se preparar para ouvir tanto quanto você tem a responsabilidade de se preparar para pregar.

3. Examine as Escrituras como os bereanos para ver se as coisas expostas são fiéis à Palavra de Deus (At 17).

4. Faça perguntas no sentido de oferecer uma resposta à exposição das Escrituras:
  • Agora estou convicto, por meio da Palavra, de que existe uma área de minha vida, de meus pensamentos, de minhas ações e do meu comportamento que precisa ser mudada?
  •  Existe um pecado, uma desobediência, uma atitude errada ou alguma desculpa que foi repreendida pela verdade das Escrituras e que agora preciso confessar e dos quais preciso me arrepender diante do Senhor?
  •  Há uma instrução que eu preciso seguir e colocar em prática na minha vida?
  •   Há uma doutrina que eu preciso estudar mais e aplicar ao meu entendimento da verdade cristã?

5. Reflita no texto e na mensagem. Nesse momento você pode alcançar o maior discernimento que já teve sobre a Palavra de Deus. Faça anotações e analise-as novamente após o sermão.

6. Repita as verdades do texto para outra pessoa, talvez usando essa ocasião como uma chance para testemunhar do evangelho ou encorajar um amigo crente.


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Notas da Exposição da Epístola de Tiago na Comunidade Batista da Graça, Suzano/SP

[1] CALVINO, Comentário de Tiago
[2] LOPES, Augustus Nicodemus, Tiago, Cultura Cristã, p. 49
[3] http://www.monergismo.com/philip-ryken/como-ouvir-um-sermao/
[4] LOPES, p.50