segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Jonas, o homem, seu tempo e mensagem

Silas Roberto Nogueira

Primeiro sermão da Série de Exposições 


Jonas 1.1
1.      QUEM É JONAS?
Teólogos liberais e até mesmo alguns dentro do círculo ortodoxo[1] defenderam a tese de que Jonas não foi um personagem histórico, mas fruto da imaginação de um escritor do terceiro século antes de Cristo.[2] Contudo, entendemos Jonas como um personagem histórico e não um personagem fictício. 
Sabemos que seu pai se chamava Amitai, que significa “verdadeiro”. Sabemos que Jonas era natural de Gate-Hefer, na tribo de Zebulom, região da Galiléia, 2 Rs 14.25. Os fariseus erraram quando afirmaram que da Galiléia não se levanta profeta (Jo 7.52).
Jonas significa “pombo”, diz, no entanto Lloyd John Ogilvie, que “gavião” teria captado melhor o seu caráter combativo.[3] Jonas era um nacionalista estrito, um profeta ideologizado, que havia profetizado a expansão do reino de Israel e não queria ministrar a uma nação gentia e má que ameaçaria a soberania do seu país. Esse é o pano de fundo que revela o sentimento de Jonas e as suas motivações para fugir da missão divina em vez de cumpri-la.  Jonas desejava a destruição da Assíria, não a sua redenção.
Jonas se revela então um homem obstinado, rebelde (1.2).  Ele se mostra uma pessoa que embora ortodoxa, é insensível às necessidades dos que estão à sua volta (1.4,5). Ele encara a morte não com altruísmo, mas como uma possibilidade de se desvencilhar da sua missão (1.12). Quando a morte esperada não vem (1.17) e Jonas tem que cumprir o que o Senhor lhe ordenara, ele o faz contrariado e se desgosta profundamente com o sucesso obtido (3.3,5-10;4.1). Jonas é estranho, obteve o sucesso e desejou morrer. Ele era um homem irado (“ressentido”, ARC; “furioso”, A21) e rabugento.[4] Entregue ao desgosto, depressivo, desfalecido, Jonas chega a desejar a morte (4.8,9).

Embora os traços negativos de Jonas sejam mais visíveis no livro, ele é um servo de Deus, é um profeta (1 Rs 14.25). Jonas teme a Deus (1.9). Ele tem uma teologia ortodoxa, crê que o Senhor é o único Deus verdadeiro, que é o criador de tudo o que existe (1.9), que atende a oração (2.2), de quem unicamente procede a salvação (2.9), que é um Deus compassivo, misericordiosos, longânimo e grande em benignidade (4.2). Mas a teologia de Jonas precisava ser corrigida.  O livro mostra-nos exatamente em que pontos a teologia de Jonas precisava de correções. 
Há um pouco de Jonas em cada um de nós. Não somos muito diferentes de Jonas quanto pensamos. Os tempos mudam, mas os homens não. Somos servos de Deus, mas muitas vezes, como Jonas, somos rebeldes, mesquinhos e vingativos. Nossa teologia também precisa de uns ajustes. 


2.      TEMPO DE MINISTÉRIO
Jonas provavelmente iniciou seu ministério pouco antes do reinado de Jeroboão II (c.739-753),[5] exercendo seu ministério quando esse monarca ilustre governou em Samaria durante 41 anos, num tempo de prosperidade financeira, conquistas militares e paz nas fronteiras. Portanto, o ministério de Jonas se deu provavelmente na primeira metade do 8° século.
Apesar da prosperidade do reino de Israel os dias de Jeroboão II eram de grande declínio moral e espiritual. Hernandes Dias Lopes afirma que “nessa mesma época a nação também se entregou à opressão econômica, aos desmandos legais, ao descalabro moral e à apostasia religiosa. Foi nesse tempo que Amós denunciou a ganância insaciável dos poderosos, a mancomunação dos juízes com os ricos para oprimirem os pobres, a corrupção dos valores morais e o desaparecimento da piedade em virtude de uma religião sem ortodoxia e sem vida.”[6]


3.      UM LIVRO RIDICULARIZADO
Charles Feinberg afirma que a descrença tem atacado esse livro talvez mais do que outro. Jonas tem sido alvo de humor irrefletido e zombaria imerecida.[7] A razão principal dos ataques ao Livro de Jonas é por causa dos milagres ali mencionados. A zombaria concentra-se, sobretudo no fato de Jonas ter sido engolido por um grande peixe, sobrevivido e depois engolfado em terra firme, para cumprir a sua missão. Em outras palavras, os liberais não engolem o grande peixe que engoliu Jonas.[8]


Mas o livro inteiro está cheio de milagres e não apenas o fato de Jonas ter sido engolido por um grande peixe e ter sobrevivido. A tempestade foi miraculosa, bem como a sorte lançada ter caído sobre Jonas, o fato de a tempestade ter cessado quando o profeta é jogado na água, o grande peixe, o fato de sobreviver, o fato de o peixe devolver Jonas em terra firme ao comando de Deus, a conversão dos ninivitas, a planta que nasceu e o verme que a destruiu e o vento calmoso que deu sobre o profeta – tudo foi extraordinariamente miraculoso. Tire o elemento miraculoso e sobrenatural do Livro de Jonas e não sobrará nada.


Os liberais têm feito um enorme esforço para reduzir o Livro de Jonas a uma parábola, a uma alegoria. Contudo, se esquecem de que:

1)     O profeta Jonas está vinculado a um fato histórico comprovado (2Rs 14.25). Se Jonas é um personagem mitológico, então, Jeroboão II também o é. Porém, assim como Jeroboão II foi uma pessoa real, Israel foi uma nação real, Hamate foi um local real, Jonas também foi uma pessoa real.

2)     Se Jonas não é um personagem histórico, então, Jesus Cristo enganou-se e faltou com a verdade quando fez menção a ele como um profeta. E impossível negar a historicidade de Jonas e ao mesmo tempo afirmar a credibilidade do Senhor Jesus. Além disso, Jesus Cristo se refere ao arrependimento dos ninivitas como real, mas se Jonas não é um personagem histórico, o arrependimento dos ninivitas também não é e Jesus mentiu e exortou o povo sem base real, Lc 11.32.

3)     Se Jonas não é um personagem histórico, a ressurreição de Jesus foi um embuste. Jesus se comparou a Jonas, referindo-se à sua morte e ressurreição, mas se Jonas não é real, também não o é a ressurreição de Cristo, Mt 12.39-41. Gleason Archer afirma “essa passagem coloca a questão na perspectiva correta. Jesus declara aqui que a experiência de Jonas no ventre da baleia foi um tipo de morte, sepultamento e ressurreição, fatos que aguardavam entre a sexta-feira santa e a manhã de domingo. A iminente experiência de Cristo, que certamente foi história, serve de base à experiência de do profeta Jonas. Se o antítipo foi histórico, o tipo também o é. Nenhum episódio fictício do passado pode servir como tipo profético com um cumprimento literal no futuro. Ficção corresponde à ficção, fatos a fatos.”[9]

4)     Finalmente, até o século XIX, os judeus e cristãos em geral consideraram o livro como relato verdadeiro. Enquanto os teólogos liberais consideram o livro de Jonas apenas como uma lenda ou uma parábola e não creem na sua historicidade, Cristo creu.


4.      O TEMA CENTRAL DO LIVRO DE JONAS
O tema do livro de Jonas não é sobre o homem que foi engolido por um grande peixe.  G. Campbell Morgan declarou certa vez que “os homens se concentraram tanto no grande peixe que não viram o grande Deus”. [10] Sim, o tema do livro de Jonas é Deus. Deus é apresentado nas páginas deste livro como aquele que salva, como aquele que é grande em compaixão e em poder, como aquele que é soberano sobre tudo e todos. Jonas é sobre Deus.
O Livro começa com Deus (1.1) e termina com Deus falando (4.10,11). A palavra do Senhor desencadeia o processo e também o encerra.

Sim, é Deus quem dita o rumo dos eventos. Ele ordena a Jonas que pregue em Nínive (1.1). Quando o comissionado foge, ele o alcança no navio (1.4). Prepara um peixe que o engole (1.17). É Deus quem o mantém vivo dentro do peixe (1.17b; 2.9). Depois, manda ao peixe vomitá-lo (2.10b). Deus dá uma segunda chance a Jonas. Ordena novamente ao recalcitrante profeta que cumpra a sua missão (3.1). Poupa Nínive (3.10). Chama o profeta, à atenção pela primeira vez (4.4). Chama-o à atenção pela segunda vez (4.8). E conclui o livro apregoando o seu direito de ter misericórdia de quem quer ter misericórdia (4.11). Jonas é sobre Deus.
Jonas é mencionado no Livro 18 vezes, o grande peixe, apenas 4 vezes, Nínive, 8 vezes, mas Deus é referido ao todo 36 vezes.[11] O Livro de Jonas é sobre Deus.  Sem Deus, a história de Jonas não faria sentido algum.  

5.      PECULIARIDADES DO LIVRO DE JONAS
O Livro de Jonas tem algumas características peculiares:

1)     É um dos dois únicos livros proféticos do Antigo Testamento escrito por um profeta nascido e criado no reino do Norte, o outro é Oséias.

2)     É uma obra prima da narrativa concisa. Tem apenas 4 capítulos, 48 versículos e cerca de 1300 palavras. Somente a oração do capítulo 2 não está em forma poética.

3)     É mais um relato histórico do que uma profecia.  O livro é mais uma narrativa da experiência do profeta Jonas do que oráculos divinos pregados pelo profeta Jonas. A profecia mesmo tem quatro palavras em hebraico.

4)     É o único profeta comissionado por Deus para pregar diretamente aos gentios. É considerado o grande livro missionário do Antigo Testamento.

5)     É o segundo Livro do Antigo Testamento que termina com uma pergunta retórica, o outro é Naum. Curiosamente os dois profetas profetizaram a Nínive, capital da Assíria.
6)     É um Livro com um toque de ironias, mas não é cômico. A mensagem do Livro é solene, os judeus o liam no dia da Expiação. Quando Cipriano, pai da igreja, do terceiro século, leu o livro e Deus usou a leitura desse livro para sua conversão.[12]

7)      É um Livro que descreve o maior protótipo da morte e ressurreição de Cristo no Antigo Testamento. A experiência vivida por Jonas três dias e três noites no ventre
do grande peixe era um sinal da morte e ressurreição de Cristo (Mt 12.38-40), duas doutrinas centrais do cristianismo.

O QUE PODEMOS APRENDER COM O LIVRO DE JONAS?
Muita tinta já foi gasta tentando explicar o propósito do Livro de Jonas. Paulo afirma, referindo-se às Escrituras do Antigo Testamento, que tudo o que foi escrito para nosso ensino foi escrito (Rm 15.4), portanto creio que Jonas é um Livro didático.

  1. O Livro nos ensina algo sobre Jonas. Ensina-nos que Jonas tinha uma teologia correta e uma prática errada. Jonas era ortodoxo na fé e heterodoxo na prática. Dizia temer a Deus, mas era rebelde. Dizia conhecer a Deus que fez o mar e a terra, portanto diante de quem todas as coisas estão, mas estava disposto a fugir de sua face. Jonas estava dispostos a morrer a fazer a vontade de Deus. Jonas dizia amar a Deus, mas odiava o próximo, sonegando-lhes a palavra de Deus. Tão contraditório Jonas, não é mesmo? E não somos exatamente assim?
  2. O Livro nos ensina algo sobre a salvação. Ensina-nos Jonas que a salvação vem de Deus (2.9). Em primeiro lugar se a salvação vem de Deus é ele quem designa quem vai ser salvo, não nós. Em segundo lugar, a salvação é pela graça e misericórdia de Deus, não por méritos humanos.
  3. O Livro nos ensina muito sobre Deus.   Primeiro a soberania de Deus em todas as áreas da vida humana. Todos os acontecimentos do Livro estão relacionados a Deus em seus mínimos detalhes. Em segundo lugar, que Deus é santo e não tolera o mal. Ele estabeleceu um dia para o juízo da maldade humana (1.2). Em terceiro lugar que os propósitos de Deus não podem ser frustrados.




[1] LASOR, W. S., Introdução ao Antigo Testamento, Vida Nova, p. 419.
[2] CHAMPLIM, R. N., Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, Hagnos, Vol.3, p.  576
[3] OGILVIE, Lloyd John, O Senhor do impossível, Vida, p. 180
[4] FILHO, Isaltino G. C., Jonas nosso contemporâneo, Juerp, p.18
[5] ARCHER, Gleason, Merece confiança o Antigo Testamento, Vida Nova, p. 236
[6] LOPES, H. D., Jonas um homem que preferiu morrer a obedecer a Deus, Hagnos, pp.14,15. 
[7] FEINBERG, Charles, Os profetas menores, Vida, p. 132
[8] PEISKER, A., Comentário bíblico Beacon, CPAD, Vol 5, p. 141
[9] ARCHER, Gleason, Enciclopédia de dificuldades bíblicas, Vida, p. 232,323
[10] DEVER, Mark, A mensagem do Antigo Testamento, CPAD, p. 796
[11] WIERSBE, Warren, Comentário bíblico expositivo, Geográfica, p. 468
[12] FEINBERG, p. 132

terça-feira, 16 de setembro de 2014

SERÁ QUE EU SOU UM DOS ELEITOS DE DEUS?


Silas Roberto Nogueira

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para 
revelar-se no último tempo.
1 Pedro 1.3-5


Você já se perguntou: “sou mesmo um cristão?” Já foi assolado por dúvidas quanto à sua eleição em Cristo? Não? Puxa, eu já! E sei também que não fui o primeiro e que não serei o ultimo!

Tais questões muitas vezes assolam alguns queridos irmãos. Muitas vezes algumas pessoas são tão fortemente afligidos por tais questões que caem em melancolia e desânimo. Experimentam uma espécie de depressão espiritual. Talvez esse seja o seu caso, como foi o meu ou até mesmo é possível que você conheça alguém nessas condições. Bem, escrevo pensando em alguém que está nessas condições, para ajudá-lo a compreender o assunto e a sair de tal situação. Essa é minha oração, esse é o meu desejo.

A certeza da salvação é um assunto polêmico em muitos setores do cristianismo moderno. Na verdade é um assunto meio fora de moda. É um assunto ligado a doutrina da Perseverança dos santos, contudo distinto dela. Alguns pensam que é a mesma coisa, porém estão enganados. É importante ter em mente que o crente não perde a salvação, mas a certeza da salvação ele pode não experimentar ou mesmo experimentá-la e perde-la sem que isso afete a sua salvação.

A certeza da salvação é um assunto importante, porém negligenciado atualmente, como tantas outras doutrinas. Ora, o que queremos dizer com certeza de salvação? Quando falamos em certeza da salvação falamos naquela convicção firme, na mente do cristão, da certeza absoluta de sua salvação, tanto atual quanto eterna.

Um vislumbre da história da doutrina pode ajudar-nos a compreender o variado modo de pensar moderno. O catolicismo sempre afirmou que ninguém pode obter certeza da salvação, salvo uma revelação especial da parte de Deus. Louis Berkhof, teólogo presbiteriano, comenta “a Igreja católica Romana nega, não somente que a certeza pessoal pertença à essência da fé, mas até mesmo que ela seja um actus reflexus (ato reflexivo) ou fruto da fé”. Para o romanismo a certeza da salvação é um ensino perigoso, herético e anátema. O romanismo sempre defendeu esse modo de pensar pois isso era muito vantajoso para eles, pois mantinha o fiel preso à igreja a aos sacramentos.

O arminianismo primitivo parece ter caminhado com Roma na questão da certeza da salvação. John Wesley (1700-1791) era de convicções arminianas, mas introduziu algumas mudanças no sistema. Para Wesley a certeza da salvação provinha do testemunho interno do Espírito Santo. Portanto, a certeza da salvação faz parte do arcabouço teológico de Wesley. Ele ensinava a legitimidade e necessidade de crer e defender a doutrina da certeza da salvação, embora não cresse na permanência definitiva dela, isto é, na Perseverança dos Santos.
Os reformadores sempre afirmaram a certeza da salvação. Em sua reação a posição do romanismo muitas vezes eles falavam que a certeza da salvação era essencial à própria fé, o elemento mais importante da fé. Sem essa certeza de salvação podia-se duvidar da presença de verdadeira fé.

Já os Puritanos davam muita ênfase na certeza plena da salvação. Augutus Nicodemus Lopes comenta que os puritanos “sabiam que o propósito do homem é "glorificar a Deus e gozá-lo para sempre", mas entendiam que, enquanto não se alcançasse essa certeza plena de que você era um eleito, não poderia glorificar a Deus de forma total”.

O puritano Willliam Guthrie, no seu livro, "O Maior Benefício do Crente" (1658) diz: "Qual a principal ocupação do homem neste mundo?" Resposta: "Ter certeza de que participa de Cristo e viver de acordo com isto". Mas o movimento puritano avançou em sua concepção do assunto. Eles compreenderam que a certeza da salvação não era critério para julgar se uma pessoa era salva ou não.

Para os Puritanos a certeza da salvação estava ligada à santificação, não era produto de mera persuasão conjectural, mas na infalível promessa de Deus, a manifestação interna de vida espiritual piedosa e do testemunho interno do Espírito. Esse ensino, creio eu, é o que se coaduna com o ensino das Escrituras.

Volte seus olhos para o texto citado no começo do artigo. O que Pedro nos diz aqui? . Em que bases podemos ter certeza plena da nossa salvação?

1. O primeiro ponto que quero ressaltar aqui é que a certeza da salvação repousa nas promessas de salvação que o Deus que não pode mentir nos fez. Pedro nos apresenta a uma gloriosa promessa de salvação nos v.4,5. Observe que Pedro declara que fomos regenerados para herdarmos uma herança que é “incorruptível” ( a morte não toca), “sem mácula” (não manchada pelo mal) e “imarcescível” (perene, não prejudicada pelo tempo) – e que não há nenhum tom de incerteza em suas palavras, fomos salvos para herdar e vamos herdar isso, segundo a promessa da Palavra de Deus. Ora, se a herança não perece porque os herdeiros também não perecem. Pedro ainda faz outra afirmação – essa herança “é reservada nos céus para vós outros”. O termo usado aqui por Pedro indica que a herança existe e está sendo preservada aos que são igualmente guardados para ela (Mt 25.34). No v.5 Pedro declara que não somente a herança nos está reservada, mas que nós mesmos somos guardados para ela. Essa gloriosa promessa das Escrituras serve como alicerce sobre o qual construo o edifício da minha certeza.

Há outros testemunhos das Escrituras que podem ser considerados, 1 Jo 5.10,11; Jo 3.14-16,33,36; 5.24;6.47; At 10.43;13.39. Diz Lloyd Jones “aqui tenho essas declarações das Escrituras, as quais já aceitei como a Palavra de Deus. Elas fazem afirmações categóricas sobre aqueles que creem...Garantem que, se creem, já estão de posse da vida eterna. De modo que encaro essas declarações, e digo: portanto, já tenho a vida eterna, as Escrituras assim o dizem, se não creio nisso, estou declarando que Deus é mentiroso”.

Devemos declarar com Adoniran Hudson “meu futuro é tão brilhante quanto as promessas de Deus”. A Confissão de Fé de Westminster, capítulo 18, afirma que a certeza da salvação “não é uma mera persuasão conjectural e provável, fundada numa esperança falível, mas uma infalível segurança de fé, fundada na divina verdade das promessas de salvação...”.
O puritano Mathew Henry afirmou que a “incredulidade está na raiz de toda nossa insegurança em relação às promessas de Deus”.

Nossa certeza de salvação não provém do testemunho de homens, mas de Deus. Nada há de mais consolador do que repousar sobre a Palavra de um Deus que não pode mentir.

2. O segundo ponto para o qual chamo a sua atenção refere-se ao da evidência interna da graça. Em outras palavras são os sinais da nova vida em nós, mostrando que as coisas velhas passaram e tudo se fez novo, 2 Co 5.17. Lloyd Jones chamou a isso “prova de vida”.  Pedro fala dessas provas de vida em 1.22,23. Ele afirma que como resultado da nova vida em nós haverá o desejo de santificação (“tendo purificado a vossa alma”), a fé (“pela obediência à verdade”) e o amor fraternal (“tendo em vista o amor fraternal”). Em sua segunda Epístola capítulo 1.4-10 o apóstolo expande isso mostrando que aqueles que são salvos desenvolvem a sua salvação e dão evidências de sua eleição, v.10.

Foram esses versículos que em parte trouxeram paz ao coração de John Wesley em 24 de maio de 1738. Ele os leu às 5 horas da manhã, em seu período devocional. À noite, ao ouvir uma leitura da introdução de Lutero a Epístola aos Romanos, sentiu seu coração aquecido e teve certeza da sua salvação, diz ele : “Eu senti que agora confiava realmente em Cristo, somente em Cristo, para salvação: e me foi dada a segurança de que Cristo havia perdoado os meus pecados, sim, os meus, e que eu estava salvo da lei do pecado e da morte”.

Archibald Hodge comenta: “o crente cuja fé é vigorosa e inteligente tem uma evidência distinta em sua própria consciência de que ele, pessoalmente, crê. Daí ser óbvia a conclusão de que ele terá a vida eterna.” Essa experiência indicará que estamos unidos a Cristo e nessa certeza nosso coração descansa.

William Guthrie, um puritano, escreve: "a certeza é obtida através da seguinte argumentação: quem crê em Cristo jamais será condenado, eu creio em Cristo, logo jamais serei condenado", e mais "o Espírito Santo testifica sobre esta avaliação e a torna evidente à mente". Tem que ser as duas coisas. Richard Sibbes no volume um das suas obras diz: "Eu sei que creio porque o Espírito Santo impele a minha alma a isto, porém a forma mais comum de conhecermos o nosso estado diante de Deus é deduzindo a causa a partir dos efeitos".

Devemos fazer um autoexame sincero em nossa vida em busca de evidências internas da graça.


3. O terceiro ponto que desejo ressaltar é que a certeza da salvação repousa no testemunho interno do Espírito Santo. Observe o que Pedro diz “Deus e Pai”.  Foi Deus nosso Pai quem operou em nós a regeneração. Ora, como já vimos a regeneração nos torna filhos de Deus, Jo 1.12,13. A nossa filiação é atestada pela presença do Espírito em nós, 2 Tm 1.14; Tg 4.5; 1 Jo 3.24;4.13 . O Espírito nos tornará templos de Deus (1 Co 6.19), nos guiará (Rm 8.14) e nos santificará (Gl 5.16) e produzirá o caráter de Cristo em nós (Gl 5.22-25). A presença do Espírito em nós torna-se a base final e definitiva da nossa infalível segurança de salvação.
Mas, além da presença do Espírito há o testemunho interno do Espírito Santo, Rm 8.16. Precisamos entender que esse testemunho do Espírito não é uma declaração direta – “você é filho de Deus a partir de agora”, como alguns pensam. Na verdade o testemunho do Espírito com o nosso espírito de que somos filhos de Deus compreende uma série de particulares, todos eles combinados pelo Espírito para tal fim. John Murray afirma que esse testemunho “manifesta-se mediante a selagem, no coração dos crentes, das promessas de que são herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo. isso produz neles certeza do grande amor que o Pai lhes proporciona, a ponto de serem chamados filhos de Deus”.

A questão essencial novamente é se percebemos a atuação do Espírito Santo em nós, nos guiando, nos santificando e produzindo o caráter de Cristo.

Para finalizar, preciso dizer ainda duas coisas.  A Confissão de Fé Batista de 1689 afirma que a certeza da salvação pode ser perdida. A Confissão (cap.18, § 4) trata de três instâncias em que o crente pode ter a certeza da sua salvação abalada:

Os crentes verdadeiros podem ter a sua certeza de salvação abalada, diminuída ou interrompida, de diversas maneiras:

·         por negligência na preservação dessa certeza; por caírem em algum pecado específico, que fere a consciência e entristece o Espírito; 

[2 Pedro 1:5-10; Sl.51:8,12,14; Ef.4:30]

·         por uma tentação súbita ou veemente;

[Mat.26:31-35 (Luc.22:31,32) com 69-72]

·         por Deus retirar de sobre eles a luz da sua presença, permitindo que mesmo os que O temem caminhem em trevas, que não tenham luz.
[Sl.77:7,8; 31:22]

Como exemplo do primeiro caso, temos Davi que pecou e sentiu esvair-se a alegria de sua salvação. A tristeza experimentada por Davi produziu arrependimento genuíno, ao abandonar o pecado e se voltar para Deus, foi restaurado.

Um exemplo do segundo caso pode ser visto em John Bunyan. Ele escreveu acerca de suas lutas espirituais em “Graça Abundante ao principal dos pecadores” que chegou mesmo a pensar que havia cometido o pecado imperdoável. Num outro momento, ele fala das tentações de satanás assolando-o com as dúvidas acerca da sua eleição em Cristo:

“Talvez você não seja um eleito”, dizia o Tentador. De fato, talvez eu não seja, eu pensava. “Então”, dizia Satanás, “você pode também abandonar essas dúvidas e parar de lutar; porque, se você não é realmente um eleito de Deus, não há esperança de que seja salvo, pois: ‘Não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia’”.

Ele relata o estado em que ficava quando tais dúvidas o assolavam:

Estas coisas me deixaram desnorteado, não sabendo eu o que dizer ou como responder a essas tentações. De fato, nunca me ocorreu que era Satanás quem me atacava dessa maneira. Pensava que a minha própria prudência levantava tais questionamentos. Eu defendia, de todo o coração, que somente os eleitos obtinham a vida eterna. Mas, a pergunta era se eu era um deles. Assim, por muitos dias fui severamente afligido e desnorteado por estas coisas. Com frequência, quando caminhava para qualquer lugar, chegava ao ponto de quase cair devido ao desânimo mental. (p.45).

Um exemplo do terceiro caso chamavam os puritanos de “a noite escura da alma”. Hodge explica que isso pode acontecer como “disciplina paternal, com o propósito de testar a nossa fé, de convencer-nos de nossa total dependência e da autossuficiência de seu gracioso socorro”.

Mas não podemos nos esquecer das palavras finais do artigo da Confissão que diz:

“Contudo, eles jamais ficam destituídos da divina semente e da vida de fé, do amor de Cristo e dos irmãos, da sinceridade de coração e da consciência do dever. É a partir dessas graças, por obra do Espírito, que a certeza da salvação pode ser revificada, no devido tempo; e, mediante elas, os crentes são preservados de um total desespero.”

O que isso nos ensina? Ora, que um cristão genuíno pode ser assolado por dúvidas acerca da sua eleição, da sua salvação. Mas suas dúvidas jamais abalam a sua salvação. Precisamos estar cientes de que ninguém é salvo por causa da certeza que tem acerca da sua salvação, mas por causa do decreto soberano de Deus. Lembre-se que se a vida eterna fosse somente para os que nunca sentiram dúvidas, então nenhum de nós iria ao céu!

A segunda coisa a destacar é que há como distinguir entre a verdadeira certeza da salvação da falsa. Há evidências de uma que faltam à outra:

·         A verdadeira certeza produz humildade, não orgulho espiritual, 1 Co 15.10; Gl 6.14

·         A verdadeira certeza produz diligência, não permissividade, Sl 51.12,13,19

·         A verdadeira certeza produz sincero autoexame, Sl 139.23,24.

·         A verdadeira certeza produz desejo de mais íntima comunhão com Deus, 1 Jo 3.2,3.


Finalmente, se você se preocupa com a sua salvação, em saber se é realmente um cristão isso é uma clara evidência de sua salvação, pois os falsos crentes estão sempre muito seguros quanto a isso e jamais em tempo algum cogitam não serem salvos, só descobrirão o contrário naquele grande dia, mas aí será tarde demais, Mt 7. 21,22. 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A MENSAGEM À IGREJA QUE SE ESQUECEU DO MAIS IMPORTANTE, O AMOR.


Uma Mensagem à Igreja em Éfeso

Apocalipse 2:1-7

Silas Roberto Nogueira 
Anotações 

dos sermões da Série em Apocalipse apresentados na Comunidade Batista da Graça, Suzano



A primeira carta de Cristo é endereçada à igreja em Éfeso. Éfeso reclamava como seu o título de "a primeira e maior metrópole da Ásia". Um escritor romano a chamou "A luz da Ásia". Podemos destacar alguns pontos básicos sobre a cidade de Éfeso e de como o evangelho ali chegou:

1.    Era uma cidade rica e um centro comercial. Era a cidade mais importante da província romana da Ásia, na costa ocidental que atualmente é a Turquia. Éfeso situava-se na desembocadura do rio Caister, entre as serras do Coressos e o mar. Era uma cidade opulenta de grandes construções. Uma estrada magnífica com 22 metros de largura e ladeada por colunas atravessava a cidade até um ótimo porto, que hoje está a 11 quilômetros do mar. A cidade era um centro de exportação e servia de rota de caravanas vinda de toda parte da Ásia e uma escala natural para quem ia para a capital do Império. Éfeso era a porta de entrada para Roma. Anos mais tarde, quando muitos mártires foram capturados na Ásia e levados a Roma para serem lançados aos leões, Inácio chamou Éfeso de "a porta dos mártires".

2.    Era uma cidade populosa e culta. Estima-se que a cidade possuísse nos dias de João cerca de 300 mil habitantes. A população era mista e havia ali uma colônia judaica, At 18:19. A cidade possuía teatros imensos, um deles para 25 mil pessoas. Alguns pensam que foi num desses teatros que Paulo lutou com feras, 1 Co 15:32. Havia banhos públicos, mercados e uma biblioteca, a de Celso, com capacidade para 12 mil “livros” (rolos). Éfeso também era o berço da filosofia, pois ali havia residido o filósofo pré-socrático Heráclito (535-475 a.C.). Havia ali uma escola ou uma sala de conferências que pertencia a Tirano, que alguns pensam ser mestre filósofo ou médico, At 19:9.

3.    Era uma cidade dada à idolatria e magia. A cidade era um centro do politeísmo desde sua fundação. Havia em Éfeso um colossal templo dedicado a Artemis ou Diana, deusa da fertilidade. Era uma das sete maravilhas do Mundo Antigo. Possuía 138 metros de comprimento por 71,5 metros de largura com colunas de 19,5 metros de altura e era famoso pelas obras de arte, entre elas a escultura da deusa em ébano, ouro, prata e pedra preta. Sua imagem era um tanto grotesca; uma vez que era representada por uma mulher com vários seios no seu dorso; uma referência à fertilidade. Havia um forte comércio dessas imagens, At 19:24-27. A população de Éfeso se orgulhava de ser a guardiã do templo a Diana, que, acreditava ter caído do céu, possivelmente um meteorito (At. 19:35). Mas Éfeso era também uma cidade cheia de superstição e onde reinava a magia. Eram famosos os livros sagrados – Ephesia Grammata – que continham encantamentos e segredos das artes mágicas. O judaísmo estava presente ali por causa da colônia judaica. Além disso, a cidade era um dos centros difusores do culto ao Imperador.

4.    Era uma cidade espiritual e moralmente doente. O templo de Artemis era um antro de criminosos e um poço de imoralidades. Steve Lawson comenta que “com suas prostitutas, eunucos, dançarinas e cantores, era o esgoto da iniquidade.”[1] Dr. Barclay comenta “qualquer criminoso podia considerar-se seguro caso conseguisse entrar no Templo de Ártemis. Além disso, o Templo tinha centenas de sacerdotisas que funcionavam como prostitutas sagradas. Todas estas características faziam de Éfeso uma cidade que transbordava imoralidades de todo tipo”.[2] O filósofo Heráclito explicava que ninguém poderia viver em Éfeso, como ele o tinha feito, sem deixar de chorar todo o tempo pela degeneração e a corrupção que imperavam nessa grande cidade.

5.    Era um ponto de difusão do cristianismo primitivo. Mesmo em um ambiente inóspito o evangelho floresce. A igreja em Éfeso parece ter sido iniciada por Aquila e Priscila por volta de 52 d.C., At 18:18,19. Essa igreja foi privilegiada com a presença de Paulo ali por dois anos (At 19:8,10). Mais tarde, enviou à igreja uma dos mais belos documentos do Novo Testamento, a Epístola aos Efésios. Depois que Paulo partiu, Timóteo esteve ali (1 Tm 1:3) como pastor. O fervoroso pregador Apolo também passou pela igreja (At 18:24) e posteriormente sabe-se que o apóstolo João terminou ali seus dias. Supõe-se que ali tenha escrito suas Epístolas e até mesmo o Apocalipse. Éfeso foi um centro de difusão do evangelho para toda a Ásia Menor.

Agora, depois de quarenta anos que a igreja fora fundada, na segunda geração de crentes, Jesus envia uma carta à igreja, mostrando que ela permanecia fiel na doutrina, mas já havia se esquecido do seu primeiro amor.

1.   CRISTO SE APRESENTA PARA A IGREJA, v.1
A carte é remetida para o anjo da igreja. Para entendermos algo sobre a identidade desse anjo, precisamos nos lembrar do fluxo da revelação referida no v.1.  Deus concedeu a Cristo revelar-se, Ele por sua vez usou um anjo para intermediar a revelação ao “servo” João que por sua vez deveria escrever e passa-las aos outros “servos”. Assim sendo, os anjos a quem as cartas são destinadas podem muito bem ser os líderes das igrejas, os servos que estariam incumbidos de ler o conteúdo do Apocalipse às suas congregações. 

·         Cristo tem a liderança da igreja nas mãos: o que João narrou ter visto é reafirmado por Cristo à suas igrejas. João viu que Cristo tinha sete estrelas na mão. Cristo afirma que “detém” as sete estrelas em sua mão direita. A palavra usada aqui tem mais força e o sentido é que Cristo detém as sete estrelas em sua mão, segurando-as bem firme, guardando, protegendo e dispondo delas como bem entender, pois elas estão sob seu poder e domínio. Se João era mesmo o líder da Igreja em Éfeso quando escreveu o Apocalipse, seu coração acelerou quando ouviu estas palavras, especialmente à luz do v.5.

·         Cristo age continuamente na vida da sua igreja: João viu que Cristo estava no meio da igreja, mas aqui Cristo diz que anda no meio da igreja. O particípio presente indica que Cristo está andando indicando atuação constante e incessante. Há um paralelo interessante de Deus andando no meio do acampamento de Israel, Lv 26:12; Dt 23:14. O povo de Deus sempre estará sob seus cuidados. Ele anda no meio da igreja para encorajar, repreender e chamar ao arrependimento.

2.   CRISTO CONHECE A IGREJA, v.2,3,4,6
A apresentação de Cristo no v. 1 está diretamente relacionada ao que ele vê na Igreja, v.2. Já dissemos que Cristo não vê a igreja como nós vemos, Ele a vê como ela realmente é. A palavra “conheço” (v.2) enfatiza a clareza absoluta de uma visão mental que registra todos os fatos da vida como eles realmente são. O que Cristo vê?

2.1.      Cristo vê as virtudes da Igreja em Éfeso, v.2,3,6
Éfeso era uma igreja extraordinária. Não nos surpreende que Cristo inicie elogiando as muitas virtudes da Igreja.

·         Era uma igreja envolvida na obra de Deus, v.2ª. A igreja de Éfeso possuía um ministério dinâmico. Não era um museu de santos inativos, mas uma infantaria para santos envolvidos em trabalho ativo. Cristo conhece as obras da igreja bem como o resultado disso, o cansaço. A palavra “labor” (ARA), “trabalho” (NVI, AS21) refere-se ao desgaste ou exaustão provocados pelo trabalho duro. A igreja estava envolvida arduamente na obra de Deus. Jesus pode dizer o mesmo a nosso respeito? Temos sido uma igreja operosa? Você tem sido um ramo frutífero da Videira Verdadeira? Você tem sido um membro dinâmico do Corpo de Cristo?

·         Era uma igreja disciplinadora,v.2b. Uma segunda virtude elogiada por Cristo na igreja de Éfeso é que ela não podia suportar pessoas más. Éfeso era uma cidade imoral, devassa. A igreja resistia lutando em duas frentes. Não tolerava a imoralidade de fora e nem qualquer imoralidade dos de dentro. Era uma igreja disciplinadora, firmemente compromissada com a sua pureza. Somos assim?

·         Era uma igreja fiel na doutrina, v.2c. Paulo já havia avisado os presbíteros dessa igreja (At 20:29-30) sobre os lobos que penetrariam no meio do rebanho e sobre aqueles que se levantariam entre eles, falando coisas pervertidas para arrastar atrás deles os discípulos. Agora os lobos haviam chegado e arrogavam-se apóstolos. Mas suas reivindicações foram examinadas e se constatou que eram vãs e falsas. Éfeso era a cidadela da ortodoxia. O vigor de um ministério encontrasse em sua pureza doutrinária. Como os alicerces de uma casa, a correção teológica proporciona estabilidade, força e longevidade. E nós, como estamos?

·         Era uma igreja que aprendeu a sofrer pelo evangelho, v.3. Éfeso era uma igreja perseverante mesmo em meio ao sofrimento. Éfeso sofreu por sua fidelidade ao evangelho, por seu apego à verdade. Não obstante à oposição crescente à Cristo, esta igreja permaneceu como sólida rocha. Seus crentes não recuaram em sua missão. Enquanto vivessem no esgoto do paganismo, cuidaram com tenacidade de seu testemunho cristão. Mesmo atacados por suas convicções, não recuaram. Suportavam tudo em nome de Jesus. E nós, estamos dispostos a sofrer pela verdade? Estamos dispostos a sofrer por Cristo?

·         Era uma igreja que odiava as obras dos nicolaítas, v.6. Uma das coisas que militava a favor da igreja de Éfeso era seu ódio pelas obras dos nicolaítas contrastando com a Igreja de Pérgamo que tolerava a doutrina dos Nicolaítas, 2:15. Segundo os estudiosos os nicolaítas conduziam pessoas à perversão, eram imorais e seduziam os membros da igreja com tentações sensuais. O ensino deles pervertia a graça e substituía a liberdade pela licenciosidade. Tal comportamento era repugnante à igreja de Éfeso. E nós, odiamos o pecado da licenciosidade?

2.2.     Cristo vê as falhas da Igreja em Éfeso, v.4
Apesar de suas tantas virtudes Cristo vê na igreja uma falha. Cristo não vê a igreja como nós vemos, ele a vê como ela é. O que enche os nossos olhos e é capaz de maquiar a verdade não enche os olhos do Senhor e não o impedem de ver a real situação em que nos encontramos. Assim, abruptamente, Jesus muda de tom. O Mestre coloca seu dedo na ferida da igreja. Ele aponta a falha fatal, tão séria que colocava em perigo a existência da própria igreja. É digno de nota o fato de que somente na primeira, Éfeso, e na última, Laodicéia, das sete cartas às igrejas são ameaçadas de completa destruição, pela desanimadora, e puramente negativa, razão que é a falta de fervente devoção. Jonathan Edwards afirmava com razão a importância das afeições na religião. A palavra “abandonaste” (ARA) ou “deixaste” (AS21) traduz uma palavra cujo sentido é o de esquecer. A igreja se ocupou com tantas coisas e se esqueceu daquilo que era o mais importante, o amor. Como Éfeso veio a cair em tal situação?

·         Éfeso se esqueceu do amor quando o substituiu pela ortodoxia e trabalho. A luta pela ortodoxia, o intenso trabalho e as perseguições levaram a igreja de Éfeso a um desgaste emocional. Uma esposa pode ser fiel ao seu marido sem amá-lo com toda a sua devoção. Ela pode cumprir com os seus devores, mas não motivada por um profundo amor. Devemos nos lembrar de que o que cremos e o que fazemos para o Senhor é importante, mas o motivo pelo qual cremos e pelo qual fazemos também importa!

·         Éfeso se esqueceu do amor quando o substituiu pelo zelo religioso. Warren Wiersbe assinala que “os cristãos de Éfeso estavam tão ocupados mantendo sua separação que deixaram de lado a adoração”. E conclui: “o trabalho não substitui o amor; a pureza não substitui o fervor. A igreja precisa tanto de uma coisa quanto de outra a fim de agradar ao Senhor”.[3]  Todo nosso serviço, sacrifício e sofrimento deve ser por amor, que é o vínculo da perfeição, Cl 3:14. 

·         Éfeso se esqueceu do amor quando praticamos o exame, mas não o autoexame. A igreja de Éfeso examinava os outros e era capaz de identificar os falsos ensinos, mas não era capaz de examinar a si mesma. Discernia os perigos de fora, mas não os de dentro. Identifica a apostasia doutrinária nos outros, mas não a apostasia do amor em si mesma.

3.   CRISTO REPREENDE A IGREJA E APRESENTA A SOLUÇÃO, v.5
3.1.A solução: o "primeiro amor" pode ser recuperado se forem seguidas as três instruções que Cristo dá.

·         É preciso lembrar-se: “lembra-te...”, v.5ª. Tais palavras contrastam com “deixaste” – lit. “esqueceste”. É uma ordem, não um conselho. O presente indica que esse lembrar deve ser contínuo.  O passado precisa tornar-se novamente um presente vivo. Não basta saber que é preciso arrepender-se. Pelo contrário, cabe perguntar para onde precisamos retornar. Para o ponto do qual nos desviamos! É por isso que o arrependimento frutífero sempre consiste em “lembrar-se”. Retornar para um lugar qualquer nos levaria tão somente a novos descaminhos.

·         É preciso arrepender-se: “arrepende-te”, v.5b.  O termo “arrepender-te” literalmente significa uma mudança de mente, pensar diferente. É uma mudança de coração, mente e vontade. Significa voltar às coisas como eram antes. E uma volta a Cristo. O arrependimento implica em confissão de pecados (1 Jo 1:9).

·         É preciso praticar a coisa certa, v. 5c. Não arrependimento, e depois repetidamente arrependimento, mas arrependimento e depois frutos do arrependimento, ou seja, as primeiras obras. Ninguém se arrepende de um pecado e o continua praticando.

3.2.Uma solene advertência, v.5. Candeeiro é feito para brilhar. Se ele não brilha, ele é inútil, desnecessário. A igreja não tem luz própria. Ela só reflete a luz de Cristo. Mas, se não tem intimidade com Cristo, ela não brilha, se ela não ama ela não brilha, porque quem não ama está nas trevas.

O juízo começa pela Casa de Deus. Antes de julgar o mundo, Jesus julga a igreja. A igreja de Éfeso deixou de existir. A cidade de Éfeso deixou também de existir. Hoje, só existem ruínas e uma lembrança de uma igreja que perdeu o tempo da sua visitação.

Conclusão:
Aos que vencerem a apatia espiritual e retomarem ao primeiro amor, Jesus faz uma grande promessa, v.7.

1. No meio da igreja há sempre um remanescente fiel. Esses são os vencedores. Eles rejeitaram as comidas sacrificadas aos ídolos oferecida pelos Nicolaítas, mas agora se alimentam na Arvore da Vida.

2. Árvore da Vida fala de vida eterna. Vida eterna é conhecer a Deus e Deus é amor. O céu só é céu, porque lá é a Casa do Pai, e ele é amor. Lá vamos desfrutar desse amor pleno e abundante do nosso Noivo. A recompensa do Amor é mais Amor na perfeita comunhão do céu. 

3. Jesus está hoje no nosso meio, andando entre nós. O que ele está vendo? Que elogios ele faz a esta igreja? Que exortações ele tem para nós? Quem aqui já perdeu o encanto do primeiro amor? Quem aqui precisa lembrar-se, arrepender-se e voltar ao Senhor? Que mudanças precisamos fazer? Ouça o que o Espírito diz a esta igreja!



[1] LAWSON, Steve, Alerta Final, CPAD, p. 78
[2] BARCLAY, W., Comentário do Novo Testamento, p. 70
[3] WIERSBE, p. 729