terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

EMOÇÕES

Dr. David Martyn Lloyd-Jones


"Por cujo motivo te lembro que despertes o dom de Deus que existe em ti pela imposição das minhas mãos".

II Timóteo 1:6


Esta é uma grande declaração, mas nosso interesse primário nela está na exortação que o apóstolo dirige a Timóteo, dizendo que ele devia "despertar" o dom que havia nele. E chamo sua atenção a isso como parte de nossa consideração geral do assunto que descrevemos como "depressão espiritual". Estamos tentando diagnosticar e tratar o caso do chamado cristão miserável. Temos nos esforçado para indicar que o próprio termo, em si mesmo, dirige nossa atenção para o que está essencialmente errado nessa condi­ção. Essas palavras são realmente incompatíveis, e no entanto precisamos colocá-las juntas porque elas são uma descrição muito correra de certas pessoas — cristãos miseráveis. Devia ser impos­sível, mas é na verdade um fato. Não devia existir tal coisa, mas existe, e é nosso dever, de acordo com os ensinamentos das Escrituras, tanto do Velho como do Novo  Testamento, tratar desse problema.

Existem pessoas, eu sei, que nem sequer reconhecem a exis­tência do problema, e afastam a idéia com impaciência, dizendo que um cristão é alguém que canta o dia todo, e que, desde que se converteu, esta tem sido sua história — sem qualquer onda na superfície de sua alma, e tudo correndo bem. Uma vez que não reconhecem a existência do problema, têm sérias dúvidas a respei­to daqueles que são propensos à depressão, e até mesmo duvidam que tais pessoas possam ser cristãos. Mostramos repetidamente que as Escrituras são muito mais compassivas com tais pessoas, e apresentam claramente em seus ensinos que é possível que um cristão fique deprimido. Não justificam isso, mas reconhecem o fato, e é o dever de qualquer pessoa que está procupada com o cuidado e bem-estar da alma, entender tais casos e aplicar a eles o remédio que Deus proveu tão livremente nas palavras das Escrituras.

Já consideramos muitas causas dessa condição, e vamos pros­seguir. Elas são quase intermináveis, pois somos confrontados, como eu já mencionei, por um adversário muito sutil e poderoso, o qual nos conhece muito bem, melhor do que nós mesmos nos conhecemos, e seu grande objetivo e empenho é depreciar a glória de Deus e a glória do Senhor Jesus Cristo. Ora, não há modo mais eficiente de fazer isso, do que tornar o povo cristão miserável e deprimido, porque o fato é que o mundo ainda julga Deus e o Senhor Jesus Cristo pelo que vê em nós, e não podemos culpá-los por isso. Fazemos certas declarações; a própria designação de cris­tãos, que aplicamos a nós mesmos, é uma alegação e um desafio, e as pessoas do mundo têm o direito de olhar para nós. "Vocês fazem estas grandes alegações" — dizem elas, e então, olhando para nós, perguntam: "Isso é cristianismo? É para isso que vocês estão nos convidando?" Não há nenhuma dúvida, e vamos deixar isto bem claro, que a razão, acima de todas as outras, responsável pelo fato de tantas pessoas estarem fora da Igreja Cristã hoje, é a condição daqueles que. estão dentro dela. Leiam a história de qualquer avivamento que já houve, e descobrirão que o começo sempre foi o mesmo. Um homem, ou às vezes um grupo de pessoas, subitamente foi despertado para a verdadeira vida cristã, e outros começam a prestar atenção. Reavivamente sempre começa na Igreja, e quando o mundo vê isso, começa a prestar atenção. É por isso que nossa condição como crentes é tão importante.

Já consideramos a maneira como o diabo consegue que nos concentremos no passado — em certo pecado que cometemos, ou o tempo que desperdiçamos — e como lamentamos aquilo e fica­mos deprimidos no presente porque nos preocupamos com o pas­sado. E vimos como ele muda de tática quando isso não funciona, tentando nos levar à depressão no presente ao nos encher de temo­res e pressentimentos sobre o futuro.

Vamos agora passar para outro assunto muito ligado a este, e intimamente associado com esses temores e apreensões com respeito ao futuro. Este assunto é indicado neste sexto versículo (de II Timóteo, capítulo I) e se relaciona com o problema das emoções — emoções na vida cristã. Talvez não haja causa mais frequente de depressão espiritual e infelicidade na vida cristã, do que este problema das emoções. Onde é que elas entram, e como devem ser? Muitas pessoas estão constantemente perturbadas com esta questão, e tenho certeza que todos que já estiveram envolvi­dos em trabalho pastoral concordarão que não há outro assunto que leva tanta gente ao pastor, com tanta frequência, como este problema das emoções. Ora, isso é muito natural, porque, afinal, todos queremos ser felizes. Isso é algo inato na natureza humana; ninguém quer ser miserável, embora eu esteja consciente de que há pessoas que parecem se deleitar na miséria, e outras que pare­cem encontrar sua felicidade no fato de que são infelizes!

Eu considero que é uma grande parte da minha chamada ao ministério, enfatizar a prioridade da mente e do intelecto em cone­xão com a fé; mas ainda que eu insista nisso, estou igualmente pronto a asseverar que as emoções, as sensibilidades, os sentimen­tos, obviamente são de importância vital. Fomos criados de tal forma que eles exercem um papel dominante em nossa formação. Na verdade, eu creio que um dos maiores problemas em nossa vida neste mundo, não só para cristãos, mas para todas as pessoas, é lidar corretamente com nossas emoções e sentimentos. Oh, a devastação que é provocada, a tragédia, a miséria e desgraça que encontramos no mundo simplesmente porque as pessoas não sabem como lidar com suas emoções! O homem é constituído de tal forma que suas emoções ocupam uma posição muito proeminente, e de fato, podemos dizer que talvez a coisa final que a regene­ração e o novo nascimento fazem por nós, é justamente colocar a mente, as emoções e a vontade em suas posições correias. Vamos prosseguir, considerando isso ao analisarmos o assunto. É obvia­mente um grande assunto, o qual não pode ser tratado de forma breve, mas é importante que tenhamos uma visão ampla do assunto.

Há um ponto preliminar aqui que para mim é de muito inte­resse. É, como eu sugeri no princípio, que existe um curioso relacionamento entre este problema particular e aquele outro pro­blema de sentir ansiedade e temor a respeito do futuro. Estas coisas tendem a aparecer juntas, então não é de surpreender que ambas são encontradas neste capítulo. Timóteo, obviamente, era uma pessoa naturalmente tímida, mas igualmente era uma pessoa propensa à depressão; e as duas coisas com frequência são encon­tradas no mesmo tipo de pessoa. Mais uma vez, então, precisamos esclarecer que há certas pessoas que são mais propensas à depres­são, num sentido natural, do que outras. Quero também salientar e enfatizar novamente esta declaração vital em conexão com todo este assunto, que conquanto sejamos convertidos e regenerados, nossa personalidade fundamental não muda. O resultado é que a pessoa que é mais propensa à depressão antes de se converter, ainda terá que lutar contra isso após sua conversão. Todos temos certos problemas comuns na vida cristã, mas também temos certos problemas específicos. Nossos dons variam, nem todos temos os mesmos talentos; e é exatamente o mesmo na questão das nossas dificuldades. "O coração conhece a sua própria amargura", e cada homem tem o seu próprio fardo para carregar. Todos temos algo que representa uma dificuldade peculiar para nós, e em geral é algo que pertence à esfera do nosso temperamento ou formação natural. Então a pessoa que é naturalmente dada à introspecção, morbidez e depressão, vai continuar enfrentando isso na vida cristã. Esse tipo de pessoa sempre vai enfrentar o perigo de ficar deprimida, particularmente em conexão com esta área das emoções.

Portanto, creio que a coisa mais proveitosa a fazer seria examinar este assunto de uma forma geral, e talvez abordar os aspectos particulares mais tarde. Vamos então fazer uma série de declarações gerais a respeito das emoções e o seu lugar na vida cristã. Uma das primeiras perguntas que surgem é esta: onde entram as emoções, qual é o seu papel, qual devia ser a sua posi­ção na experiência cristã? Vou fazer algumas declarações gerais em relação a isso. Antes de tudo, obviamente, na verdadeira expe­riência cristã, as emoções têm que estar envolvidas. Elas devem estar incluídas. Vimos isso quando consideramos aquela grande declaração que Paulo fez aos romanos no capítulo 16, versículo 17. A ênfase ali é que o evangelho de Jesus Cristo é tão grande e glorioso que envolve o homem todo, e não apenas uma parte dele. O que eu quero mostrar agora, portanto, é que nossas emo­ções, tanto quanto nossa mente e nossa vontade, devem estar ativamente envolvidas. Se nunca fomos tocados em nossas emo­ções, então precisamos examinar as bases novamente. Se um poeta como Wordsworth, pensando na natureza, podia dizer: "Senti uma Presença que me agita com a alegria de pensamentos eleva­dos" — se um poeta místico podia dizer uma coisa assim — quanto mais nós devíamos ser capazes de dizê-lo, tendo tal evan­gelho, tal mensagem, tal Salvador, tal Deus, e com tal poder e influência como o Espírito Santo de Deus. Não se pode ler o Novo Testamento sem ver imediatamente que a alegria é uma parte essencial da experiência cristã. Uma das coisas mais notáveis que a conversão faz, é nos tirar de um "lago horrível, um charco de lodo, e pôr nossos pés sobre uma rocha, e firmar nossos passos, e colocar um novo cântico na nossa boca". As emoções devem estar envolvidas, e quando o evangelho chega a nós ele envolve a pessoa toda. Toda sua mente, quando ela compreende suas glorio­sas verdades, toca seu coração da mesma forma, e finalmente toca sua vontade.

A segunda declaração que quero fazer é esta — e estes são pontos muito simples e elementares, mas muitas vezes temos pro­blemas porque os esquecemos — não podemos criar emoções, nem podemos comandá-las segundo a nossa vontade. Deixem-me pôr isto bem claro. Não podemos gerar emoções em nós mesmos. Talvez possamos fazer com que lágrimas cheguem aos nossos olhos, mas isso não significa necessariamente que emoções reais estejam envolvidas. Existe um falso sentimentalismo que é bem diferente da verdadeira emoção. Isso é algo fora do nosso controle; não podemos criá-la. Por mais que tentemos, não teremos sucesso. Na verdade, de certa forma, quanto mais tentarmos produzir emoções em nós mesmos, mais aumentaremos nossa própria miséria. Olhan­do para isso do ponto de vista psicológico, é uma das coisas mais extraordinárias sobre o homem, que nesta área ele não é senhor de si mesmo. Ele não pode gerar ou produzir emoções, não pode trazê-las à existência, e tentar fazer isso sempre vai acabar agravando o problema.

Isso me leva à minha próxima declaração, a qual é, claramente, que não há nada que seja tão variável em nós como nossas emoções. Somos criaturas muito variáveis, e nossas emoções, de tudo que há em nós, são o que temos de mais variável. Isso se deve ao fato de que elas dependem de tantos fatores; existem tantas coisas que influenciam nossas emoções; não somente o temperamento, mas também condições físicas. Os povos antigos, como talvez saibam, criam que as emoções estavam localizadas em diferentes órgãos do corpo. Num certo sentido eles estavam certos: falavam de fleuma, de atitudes melancólicas — "tudo parece amarelo a quem tem icterícia", etc. Há um elemento de verdade nisso. Condições físicas nos afetam profundamente. E quero salientar novamente que tendo se tornado cristãos não significa que vocês perdem imediatamente todas essas tendências da sua constituição. Ainda estão ali, e portanto, com todos esses fatores, nosso humor tende a variar. Ficamos assombrados muitas vezes, ao acordar, quando notamos que nosso humor ou atitude é completamente diferente do que tinha sido no dia anterior. Vocês não conseguem pensar em nada que possa ter causado isso. No dia anterior podem ter se sentido perfeitamente felizes, e foram dormir antecipado outro dia glorioso, mas acordam na manhã seguinte deprimidos e de mau humor. De repente, sem qualquer explicação, se acham nesse estado de espírito. Ora, isso é a essência do problema. Em outras palavras, nossos sentimentos variam, por isso quero enfatizar o perigo de sermos controlados por eles. Já vimos que o mesmo é verdade no que se refere ao nosso temperamento, qualquer que ele seja. Todos recebemos nosso temperamento de Deus. Ele não criou duas pessoas iguais, e devemos permanecer diferentes. Sim, temos o nosso temperamento, mas não há nada mais errado e anti-cristão do que permitir que nosso temperamento nos controle. Naturalmente há pessoas que se gloriam em fazer isso. Todos conhecemos a pessoa que diz: "Sempre digo o que penso". Imaginem o dano causado por tais pessoas, ao calcarem aos pés sem consideração a sensibilidade de outras pessoas! Que aconteceria se todos fizessem isso? Dizem: "Sou assim!" Bem, a resposta a essas pessoas é que não deviam ser assim! Isso não quer dizer que podem mudar seu temperamento, mas que devem controlá-lo. Em outras palavras, o temperamento é um dom de Deus, mas como resultado da queda e do pecado o temperamento precisa ser mantido em seu lugar. É um dom maravilhoso, porém para ser controlado. E é exatamente o mesmo com nossas emoções. Elas estão sempre tentando nos controlar, e se não compreendermos isso, sem dúvida o farão. É a isso que nos referimos quando falamos de humor e de melancolia. O mau humor parece descer sobre nós. Não o queremos, mas está aí. "Ora, o perigo é permitir que ele nos controle. Acordamos de mau humor de manhã, e a tendência é de continuar assim durante o dia, e permanecer assim até que algo aconteça para mudar isso. Temos um grande exemplo disso no Velho Testamento, no caso de Saul, rei de Israel. Corremos o risco de nos submetermos às nossas emoções, permitindo que nos governem e comandem e controlem toda a nossa vida.

Finalmente, ainda sob este tópico, quero chamar a atenção para o perigo de pensarmos que não somos cristãos porque não tivemos algum tipo especial de emoção ou experiência. Do ponto de vista espiritual, esta é uma das manifestações mais comuns desta condição. Estou pensando em pessoas que ouviram outras dando o seu testemunho, mencionando alguma emoção maravilhosa que tiveram, e elas dizem a si mesmas: "Eu nunca tive isso". E come­çam a conjecturar se realmente são cristãs. Quero repetir o que já disse antes: as emoções devem fazer parte do verdadeiro cristianismo, mas o fato de não termos sentido certas emoções especiais, não significa necessariamente que não somos cristãos. As emoções são essenciais, mas se pressupomos que certas emoções são essenciais, podemos muito bem nos tornar vítimas do diabo, passando o resto da nossa vida na infelicidade, "presos em superficialidade e miséria", embora sejamos verdadeiramente cristãos.

Considero este um tema fascinante, mas preciso evitar a tentação de entrar em divagações. Não há dúvida, entretanto, que este ponto em particular levanta não somente a questão do temperamento, mas também da nacionalidade. Não há dúvida que certas nacionalidades são mais dadas a determinados pontos de vista sobre a vida. Certamente existem pessoas na fé cristã, e em geral pertencem às raças célticas, que chegam ao ponto de dizer que é errado um cristão ser muito feliz. Têm tanto medo das emoções, que estão prontas a dizer que sentimentos de felicidade e alegria são quase certamente devidos àquilo que é falso. Isso não está confinado apenas a raças, mas é também uma característica de certas denominações. Houve um sermão pregado por J. C. Philpot, um dos fundadores dos "Batistas Estritos", e que tinha este título: "O filho da luz andando nas trevas e o filho das trevas andando na luz". Era baseado nos dois últimos versículos do capítulo 50 do livro do profeta Isaías. No sermão, Philpot declarava que uma pessoa pode incitar emoções falsas, que pode acender um tipo maravilhoso de fogo e experiências, mas que não vai durar. "O verdadeiro filho de Deus", ele dizia, "por compreender a praga do seu próprio coração e de sua própria pecaminosidade, anda por este mundo penosa e laboriosamente, consciente do seu pecado e da grandeza e majestade de Deus". Eu concordo com a sua ênfase principal, mas sugiro que nesse sermão esse grande e glorioso pre­gador foi longe demais, porque a impressão final que ele deixa conosco é que, se alguém é feliz, provavelmente há alguma coisa errada com ele, e não é realmente um cristão. Isso é ir longe demais. Sem dúvida existem pessoas que pensam que são cristãs, cuja experiência é certamente psicológica em vez de espiritual. Felicidade frívola e despreocupada não é alegria cristã, mas isso não deveria nos levar a dizer que a alegria não é algo cristão.

Bem, o que as Escrituras nos dizem a respeito de tudo isto? Como devemos tratar desse problema das emoções? Quero apre­sentar algumas sugestões. A primeira é bem prática — é simples­mente a seguinte: se você, meu amigo, está deprimido neste mo­mento, deve se certificar de que não existe uma causa óbvia para a ausência de emoções jubilosas em sua vida. Por exemplo, se você é culpado de algum pecado, vai sentir-se miserável. "Duro é o caminho dos transgressores". Se quebrou as leis de Deus e violou Seus mandamentos, não vai ser feliz. Se acha que pode ser cristão e exercer sua própria vontade, seguindo seus próprios ca­minhos, sua vida cristã vai ser miserável. Não há necessidade de argumentar a respeito, isso se segue tão naturalmente quanto a noite segue o dia, se você está abrigando algum pecado favorito, se está se agarrando a algo que o Espírito Santo está condenando através da sua consciência, então não será feliz. E há somente uma coisa a ser feita: confessá-lo, reconhecê-lo, arrepender-se, ir a Deus imediatamente e confessar seu pecado, abrir seu coração, descobrir a sua alma, contar-Lhe tudo, sem reter coisa alguma, e então crer que, porque você fez isso, Ele o perdoou. "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça". Se pecado não confessado é a causa de sua infelicidade, eu estaria perdendo o meu tempo e o seu, se continuasse com minha lista de outras causas. Quantos estão presos nisso! Vamos ser perfeitamente claros a respeito; deixe sua consciência falar com você. Ouça a voz de Deus falando através do Seu Espírito que está em você, e se Ele está colocando Seu dedo sobre algo, livre-se daquilo. Não pode esperar resolver este problema enquanto estiver abrigando algum pecado.

Mas presumindo que não é este o caso, a próxima coisa que eu diria seria esta. Evite o erro de concentrar demais em suas emoções. Acima de tudo, evite o terrível erro de colocá-las no centro. Eu nunca me canso de repetir isso porque frequentemente descubro que isso leva a tropeços. Emoções nunca devem assumir o primeiro lugar, nunca devem ocupar o centro. Se você as colocar ali, estará se condenando à infelicidade, porque não está seguindo a ordem que o próprio Deus estabeleceu. As emoções sempre são o resultado de outra coisa, e como alguém que já tenha lido a Bíblia pode cair nesse erro ultrapassa minha compreensão. O sal­mista o expressa no Salmo 34, dizendo: "Provai, e vede que o Senhor é bom". Você nunca vai ver enquanto não provar; não vai saber, nem sentir, enquanto não experimentar. "Provai e vede", um segue ao outro como a noite segue o dia. Ver antes de provar é impossível. Isso é algo que é constantemente enfatizado nas Escrituras. Afinal, o que temos na Bíblia é a verdade; não é um estímulo emocional, não é algo destinado primariamente a nos dar uma experiência jubilosa. É, antes de tudo, verdade, e verdade é algo dirigido à mente, o dom supremo de Deus ao homem; e é quando compreendemos a verdade e nos submetemos a ela, que as emoções se seguem. Nunca devo fazer a mim mesmo, à primeira instância, a pergunta: "Que sinto a respeito disto?" A primeira pergunta deve ser: "Creio nisso? Aceito isso, isso tomou conta de mim?" Considero esta, talvez, a regra mais importante de todas, que não devemos nos concentrar demais nas emoções. Não gaste tanto tempo sentindo seu próprio pulso e tirando sua própria temperatura espiritual, não gaste tanto tempo analisando seus sen­timentos. Essa é a estrada principal que leva à morbidez.

Esta questão é extremamente sutil, e a sutileza muitas vezes entra desta maneira. Lemos as biografias dos grandes santos da história da Igreja, e descobrimos que cada um deles enfatizou a importância de se auto-examinar. Independente de qual ponto de vista teológico tenham defendido, todos são unânimes neste ponto. Eles instam que nos examinemos a nós mesmos, que precisamos examinar nossos próprios corações. Ora, o fato de que eles fizeram isso significa que, natural e inevitavelmente, nós também devemos examinar nossas emoções. Eles querem certificar-se que não somos meros intelectualistas interessados em discutir teologia. Querem ter certeza que não somos simples moralistas apenas interessados num código moral. Mas a tendência sempre é que, ao seguí-los, passamos a dar importância demasiada às emoções. Henry Martyn foi um exemplo disso. No entanto, talvez o exemplo clássico seja um homem que viveu na américa no século dezessete, chamado Thomas Sheppard. Ele é um perfeito exemplo de um homem que se fez miserável. Ele foi do coração da Inglaterra para a América e foi um dos maiores santos que já andou por este mundo, autor de grandes livros tais como "A parábola das dez virgens". Aquele pobre homem vivia deprimido devido à sua preocupação com seus sentimentos e o perigo de falsas emoções. Ele se fez miserável e infeliz.

O próximo ponto que quero mencionar é este: precisamos reconhecer que há uma grande diferença entre regozijar-se e sen­tir-se feliz. As Escrituras nos dizem que devemos nos regozijar sempre. Veja a lírica epístola de Paulo aos Filipenses, onde ele diz: "Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos". E ele repete isso. Regozijar-se é uma ordem, sim, mas há uma grande diferença entre regozijar-se e ser feliz. Não podemos nos forçar a sermos felizes, mas podemos nos regozijar, no sentido de que sempre vamos nos regozijar no Senhor. Felicidade é algo dentro de nós mesmos, regozijo é "no Senhor". Quão importante, então, é estabelecer a distinção entre regozijar-se no Senhor e sen­tir-se feliz. Vejam o quarto capítulo da Segunda Epístola aos Co­ríntios. Ali verão que o grande apóstolo coloca isso tudo de forma muito simples e clara naquela série de extraordinários contrastes que ele faz: "Em tudo somos atribulados (acho que ele não estava se sentindo muito feliz naquele momento), mas não angustiados; perplexos (não estava se sentindo nem um pouco alegre), mas não desanimados; perseguidos mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos" e assim por diante. Em outras palavras, o apóstolo não está parecendo uma pessoa muito feliz, no sentido carnal, mas ele ainda assim estava se regozijando. Essa é a diferença entre as duas condições.

Isso me conduz ao aspecto prático: o importante nesta ques­tão é saber como podemos nos despertar. Essa é toda a essência desta questão. Como já os tenho lembrado, o perigo é que, quando essa atitude nos assalta, nós permitimos que ela nos domine, somos derrotados e ficamos deprimidos. Dizemos que gostaríamos de ser libertos, todavia nada fazemos a respeito. O apóstolo diz a Timó­teo: "Desperta o dom" — precisamos acabar com indolência e melancolia.

Precisa falar conosco mesmos. Eu já disse isso muitas vezes antes, e vou continuar dizendo-o pois há um sentido em que as Escrituras nos ensinam a falar conosco mesmos. Lembrei vocês que precisam falar consigo mesmos, com seu horrível "eu". Falem com ele, e então "desperte(m) do dom". Lembrem a si mesmos de certas coisas. Lembrem a si mesmos de quem são e o que são. Cada um precisa falar consigo mesmo e dizer: "Não serei domi­nado por você, esta atitude não vai me controlar. Vou sair disso, vou vencer". Então levantem-se e andem, e façam algo. "Desper­tem o dom". Esta é a exortação constante das Escrituras. Se permi­tirem que essa atitude os controle, continuarão se sentindo miserá­veis, mas não devem permitir isso. Livrem-se disso. Não aceitem essa atitude. Digam de novo: "Fora, inércia e indolência".

Mas como podem fazer isso? Desta forma: nosso dever, o seu e o meu, não é despertar sentimentos; é crer. A Bíblia não nos diz, em lugar algum, que somos salvos por nossos emoções; ela diz que somos salvos pela fé. "Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo". Nem uma vez as emoções são colocadas numa posi­ção central. Ora, isto é algo que podemos fazer. Eu não posso forçar a mim mesmo a ser feliz, mas posso lembrar-me da minha fé. Posso exortar a mim mesmo a crer, posso falar com minha alma como o salmista fez no Salmo 42: "Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? espera. . ." Crê, confia. Esse é o caminho. E então nossas emoções cuidarão de si mesmas. Não se preocupem com elas. Falem consigo mes­mos, e ainda que o diabo sugira que, se não sentem nada, então não são cristãos, digam; "Não, eu não sinto nada, mas quer sinta ou não, eu creio nas Escrituras. Creio que a Palavra de Deus é verdadeira, e vou firmar minha alma nela, e crer nela, aconteça o que acontecer". Ponham a fé em primeiro lugar, firmem-se nela. Sim, T. C. Philpot estava certo nesse ponto, o filho da luz às vezes se acha andando nas trevas, mas ele continua andando. Ele não se senta num canto, sentindo pena de si mesmo — esse é o ponto — o filho da luz andando nas trevas. Ele não consegue ver a face do Senhor neste ponto do caminho, mas sabe que Ele está ali; e por isso continua.

Melhor ainda, deixem-me colocá-lo assim. Se vocês querem ser realmente felizes e abençoados, se querem experimentar verda­deira alegria como cristãos, aqui está a receita:' "Bem-aventurados (felizes) os que têm fome e sede de justiça" — não de felicidade. Não saiam em busca de emoções; busquem a justiça. Voltem-se para si mesmos, voltem-se para suas emoções, e digam: "Eu não tenho tempo para me preocupar com emoções, estou interessado em outra coisa. Quero ser feliz, mas mais do que isso, quero ser justo, quero ser santo. Quero ser como o meu Senhor, quero viver neste mundo como Ele viveu, quero andar aqui como Ele andou".

Vocês estão neste mundo, diz João era sua primeira epístola, assim como Ele esteve. Tenham como alvo a justiça," e a santidade, e certamente ao fazer isso serão abençoados, e terão a felicidade que desejam. Busquem a felicidade, e nunca a encontrarão; bus­quem a justiça, e descobrirão que são felizes — a felicidade estará lá, quase sem vocês saberem, sem mesmo buscarem por ela.


Finalmente, deixem-me colocá-lo desta maneira: "Vocês que­rem conhecer alegria suprema, querem experimentar uma felici­dade que desafia descrição? Há somente uma coisa a fazer, buscar o Senhor Jesus Cristo, realmente, buscar a Ele somente, voltar-se apenas para Ele. Se se acharem com sentimentos de depressão, não fiquem num canto sentindo pena de si mesmos; não tentem forçar alguma emoção, mas — e esta é a simples essência da ques­tão — vão diretamente a Ele, busquem Sua face, assim como a criança que se sente infeliz e miserável porque alguém quebrou seu brinquedo corre para seu pai ou sua mãe. Então, se se acharem nas garras deste problema, há somente uma coisa a fazer, e é irem a Ele. Se buscarem o Senhor Jesus Cristo e O encontrarem, não precisarão mais se preocupar com sua felicidade e alegria. Ele é nossa alegria e felicidade, assim como Ele é nossa paz. Ele é vida, Ele é tudo. Então fujam dos estímulos e das tentações de Satanás para dar essa importância central às emoções. Ponham no centro o Único que tem o direito de estar ali, o Senhor da glória, que tanto amou a vocês que foi à cruz e levou sobre Si o castigo e a vergonha dos seus pecados, e morreu por vocês. Busquem a Ele, busquem a Sua face, e todas as demais coisas lhes serão acrescentadas.

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