segunda-feira, 24 de março de 2014

OS PURITANOS


Silas R. Nogueira

Série de Breves Artigos do Boletim da Comunidade Batista da Graça

(Parte 1)


Você já ouviu falar dos puritanos? Sabe quem foram eles? Quando eles viveram? O que realizaram? O que eles ensinaram? Para mim a melhor expressão de piedade cristã está no movimento puritano. Exatamente por pensar assim, sinto-me motivado a escrever uma série de artigos sobre eles. O intuito é tentar obter lucro com seus exemplos práticos e extrair benefícios daquilo que ensinaram, de sua visão teocêntrica da vida.

O que é Puritanismo

O puritanismo foi um movimento de reforma do século 16. A expressão “puritano” apareceu pela primeira vez por volta de 1560 para identificar aqueles que não acreditavam que a rainha Elizabeth promovera uma reforma verdadeira na Igreja da Inglaterra. Os Puritanos, segundo Lloyd-Jones, tinham como único interesse que a Reforma fosse além, “eles achavam que a Igreja da Inglaterra tinha parado a meio caminho entre Roma e Genebra”. [1] Segundo Ryken, eles estavam impacientes com esta pausa na reforma.[2] Na sua perspectiva, a Igreja da Inglaterra permanecia “reformada apenas pela metade”. Sua intenção, portanto era “purificar” a igreja dos vestígios restantes do catolicismo.

A princípio eles não eram separatistas, mas a sua não conformidade com as imposições da coroa e da Igreja oficial fê-los caminhar para a dissidência. Viveram num período de conflito e buscavam uma espiritualidade profundamente sustentada na doutrina bíblica e, neste caso, calvinista, mas também profundamente pessoal. Para mim a melhor expressão de piedade cristã está no movimento puritano. A contribuição do puritanismo à espiritualidade cristã é, sem dúvida, uma das mais ricas da história.

Como os Batistas se relacionam com os puritanos

Há um profundo relacionamento entre os batistas e o movimento puritano. Os Batistas Particulares nasceram e floresceram no período puritano.[3] A primeira Igreja Batista calvinista da história começou com um puritano chamado Henry Jacob (1563-1624) que acreditava que por sua natureza a igreja deveria ser “independente”, isso em 1616, em Londres. Essa é, pois a primeira Igreja Batista calvinista da história. Jacob escreveu um ensaio intitulado Princípios e Fundamentos da Religião Cristã no qual defendia que: 
(a) uma igreja deveria ser formada de modo voluntário e somente de pessoas regeneradas, (b) que a igreja local deveria ser independente e soberana sobre sua administração e no cuidado dos seus interesses e 
(c) que deveria ter como oficiais os pastores, presbíteros e diáconos. Esses princípios e mais alguns se tornaram um legado aos batistas. A Jacob seguiram-se John Lathropp (1584-1653) e Henry Jessey (1603-1663), outro puritano. Sob Jessey a Igreja veio a afirmar o credobatismo em 1638. A congregação cresceu rapidamente e em 1640 já não podia se reunir mais no mesmo local. Em 1641, começaram a batizar por imersão, pois até então praticavam a efusão ou aspersão. Já em 1644, ao lado de outras sete igrejas batistas elaboraram a Primeira Confissão de Fé Batista de Londres, precedendo a de Westminster (Presbiterianos) em dois anos. Mais tarde, em 1646 essa mesa Confissão foi corrigida e ampliada. Em 1689, outra Confissão de Fé foi elaborada, calcada na de Westminster, mas salvaguardando os distintivos batistas.

O movimento batista ganhou força no período da Guerra Civil inglesa (1641-1651). Mais tarde, contudo, sofreram os batistas forte oposição e perseguição, mas jamais deixaram de se expandir. Outros batistas ligados ao movimento puritano foram Henserd Knollys (1599-1691), John Bunyan (1628-1688), Benjamim Keach (1640-1704), William Kiffin (1616-1701), John Gill (1697-1771), Mathew Henry (1662-1714), etc.

Características principais do puritanismo

O movimento puritano possuía algumas características peculiares, vejamos:

O puritanismo foi um movimento religioso. A leitura que muitos fazem do movimento puritano não lhes faz jus se não o compreender primariamente como um movimento religioso. O movimento puritano em sua manifestação privada ou pública foi povoado de pessoas obcecadas por Deus. Os puritanos eram pessoas apaixonada pela glória de Deus e este é o seu caráter mais distintivo.

O puritanismo foi um movimento que se caracterizava por uma forte consciência moral. Para o movimento puritano a questão do certo ou errado era mais importante do que qualquer outra. Eles entendiam a vida cristã como um contínuo conflito espiritual no qual o mundo, a carne e o diabo buscam derrotar-nos. Não há campo neutro. Os cristãos deveriam, então, com a ajuda divina, buscar a vitória sobre o pecado com vigilância, integridade e mortificação da carne.

O puritanismo foi um movimento de reforma. Sua identidade foi determinada por suas tentativas de reformar ou mudar algo que já existia. No coração do puritanismo estava a convicção de que as coisas precisavam mudar. Os termos que estavam nos lábios dos puritanos eram “reforma, reformação e reformado”. Os puritanos exortavam os governantes a “reformarem seus países”, o clero a “reformar a religião” – por isso Richard Baxter escreveu o clássico “O Pastor Reformado” [4] - e os pais “a reformarem suas famílias”. Num nível pessoal, o impulso puritano era o de “reformar a sua vida da pecaminosidade e da conduta ímpia”. Foi por isso que James Packer considerou o puritanismo como um movimento de reavivamento.

O puritanismo foi um movimento visionário. Os puritanos propunham uma reforma individual para que se tornasse capaz de servir à vontade divina, e depois, para empregar esse instrumento para transformar a sociedade.

O puritanismo foi um movimento de protesto. Os puritanos protestaram contra o catolicismo e contra os elementos católicos no anglicanismo. Também protestaram contra a visão mundana da família, sexo, dinheiro, trabalho e lazer. Protestaram igualmente contra os elementos extra bíblicos na adoração.  Como declarou Christopher Hill “havia um elemento de protesto social em quase cada atitude puritana”.

O puritanismo foi um movimento de minoria perseguida. O movimento puritano era um movimento de minoria. Embora em certo momento tivessem alcançado imenso poder dentro da sociedade eles nunca foram uma maioria numérica. Além disso, os puritanos eram uma minoria perseguida. Eles foram especialmente hostilizados na Inglaterra e perseguidos em muitos períodos de sua história. Pastores que não se “conformavam” às imposições da Igreja da Inglaterra eram removidos de suas posições e deixados sem sustento algum. Muitos foram presos, alguns castigados. As reuniões eram proibidas, mesmo nos lares.

O puritanismo foi um movimento no qual a Bíblia era central. Para os puritanos a Bíblia era a regra de fé e prática. A Bíblia tinha autoridade. Foi justamente a sua atitude em relação à autoridade da Bíblia que os destacou de outros protestantes ingleses.

Continua...

[1] LLOYD-JONES, Puritanismo, p. 161
[2] RYKEN, L., Santos no mundo, p. 22
[3] HULSE, E., Quem foram os puritanos, p. 235
[4] BAXTER, R. , O pastor aprovado, PES.

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