segunda-feira, 28 de julho de 2014

A MENSAGEM À IGREJA QUE SE ESQUECEU DO MAIS IMPORTANTE, O AMOR.


Uma Mensagem à Igreja em Éfeso

Apocalipse 2:1-7

Silas Roberto Nogueira 
Anotações 

dos sermões da Série em Apocalipse apresentados na Comunidade Batista da Graça, Suzano



A primeira carta de Cristo é endereçada à igreja em Éfeso. Éfeso reclamava como seu o título de "a primeira e maior metrópole da Ásia". Um escritor romano a chamou "A luz da Ásia". Podemos destacar alguns pontos básicos sobre a cidade de Éfeso e de como o evangelho ali chegou:

1.    Era uma cidade rica e um centro comercial. Era a cidade mais importante da província romana da Ásia, na costa ocidental que atualmente é a Turquia. Éfeso situava-se na desembocadura do rio Caister, entre as serras do Coressos e o mar. Era uma cidade opulenta de grandes construções. Uma estrada magnífica com 22 metros de largura e ladeada por colunas atravessava a cidade até um ótimo porto, que hoje está a 11 quilômetros do mar. A cidade era um centro de exportação e servia de rota de caravanas vinda de toda parte da Ásia e uma escala natural para quem ia para a capital do Império. Éfeso era a porta de entrada para Roma. Anos mais tarde, quando muitos mártires foram capturados na Ásia e levados a Roma para serem lançados aos leões, Inácio chamou Éfeso de "a porta dos mártires".

2.    Era uma cidade populosa e culta. Estima-se que a cidade possuísse nos dias de João cerca de 300 mil habitantes. A população era mista e havia ali uma colônia judaica, At 18:19. A cidade possuía teatros imensos, um deles para 25 mil pessoas. Alguns pensam que foi num desses teatros que Paulo lutou com feras, 1 Co 15:32. Havia banhos públicos, mercados e uma biblioteca, a de Celso, com capacidade para 12 mil “livros” (rolos). Éfeso também era o berço da filosofia, pois ali havia residido o filósofo pré-socrático Heráclito (535-475 a.C.). Havia ali uma escola ou uma sala de conferências que pertencia a Tirano, que alguns pensam ser mestre filósofo ou médico, At 19:9.

3.    Era uma cidade dada à idolatria e magia. A cidade era um centro do politeísmo desde sua fundação. Havia em Éfeso um colossal templo dedicado a Artemis ou Diana, deusa da fertilidade. Era uma das sete maravilhas do Mundo Antigo. Possuía 138 metros de comprimento por 71,5 metros de largura com colunas de 19,5 metros de altura e era famoso pelas obras de arte, entre elas a escultura da deusa em ébano, ouro, prata e pedra preta. Sua imagem era um tanto grotesca; uma vez que era representada por uma mulher com vários seios no seu dorso; uma referência à fertilidade. Havia um forte comércio dessas imagens, At 19:24-27. A população de Éfeso se orgulhava de ser a guardiã do templo a Diana, que, acreditava ter caído do céu, possivelmente um meteorito (At. 19:35). Mas Éfeso era também uma cidade cheia de superstição e onde reinava a magia. Eram famosos os livros sagrados – Ephesia Grammata – que continham encantamentos e segredos das artes mágicas. O judaísmo estava presente ali por causa da colônia judaica. Além disso, a cidade era um dos centros difusores do culto ao Imperador.

4.    Era uma cidade espiritual e moralmente doente. O templo de Artemis era um antro de criminosos e um poço de imoralidades. Steve Lawson comenta que “com suas prostitutas, eunucos, dançarinas e cantores, era o esgoto da iniquidade.”[1] Dr. Barclay comenta “qualquer criminoso podia considerar-se seguro caso conseguisse entrar no Templo de Ártemis. Além disso, o Templo tinha centenas de sacerdotisas que funcionavam como prostitutas sagradas. Todas estas características faziam de Éfeso uma cidade que transbordava imoralidades de todo tipo”.[2] O filósofo Heráclito explicava que ninguém poderia viver em Éfeso, como ele o tinha feito, sem deixar de chorar todo o tempo pela degeneração e a corrupção que imperavam nessa grande cidade.

5.    Era um ponto de difusão do cristianismo primitivo. Mesmo em um ambiente inóspito o evangelho floresce. A igreja em Éfeso parece ter sido iniciada por Aquila e Priscila por volta de 52 d.C., At 18:18,19. Essa igreja foi privilegiada com a presença de Paulo ali por dois anos (At 19:8,10). Mais tarde, enviou à igreja uma dos mais belos documentos do Novo Testamento, a Epístola aos Efésios. Depois que Paulo partiu, Timóteo esteve ali (1 Tm 1:3) como pastor. O fervoroso pregador Apolo também passou pela igreja (At 18:24) e posteriormente sabe-se que o apóstolo João terminou ali seus dias. Supõe-se que ali tenha escrito suas Epístolas e até mesmo o Apocalipse. Éfeso foi um centro de difusão do evangelho para toda a Ásia Menor.

Agora, depois de quarenta anos que a igreja fora fundada, na segunda geração de crentes, Jesus envia uma carta à igreja, mostrando que ela permanecia fiel na doutrina, mas já havia se esquecido do seu primeiro amor.

1.   CRISTO SE APRESENTA PARA A IGREJA, v.1
A carte é remetida para o anjo da igreja. Para entendermos algo sobre a identidade desse anjo, precisamos nos lembrar do fluxo da revelação referida no v.1.  Deus concedeu a Cristo revelar-se, Ele por sua vez usou um anjo para intermediar a revelação ao “servo” João que por sua vez deveria escrever e passa-las aos outros “servos”. Assim sendo, os anjos a quem as cartas são destinadas podem muito bem ser os líderes das igrejas, os servos que estariam incumbidos de ler o conteúdo do Apocalipse às suas congregações. 

·         Cristo tem a liderança da igreja nas mãos: o que João narrou ter visto é reafirmado por Cristo à suas igrejas. João viu que Cristo tinha sete estrelas na mão. Cristo afirma que “detém” as sete estrelas em sua mão direita. A palavra usada aqui tem mais força e o sentido é que Cristo detém as sete estrelas em sua mão, segurando-as bem firme, guardando, protegendo e dispondo delas como bem entender, pois elas estão sob seu poder e domínio. Se João era mesmo o líder da Igreja em Éfeso quando escreveu o Apocalipse, seu coração acelerou quando ouviu estas palavras, especialmente à luz do v.5.

·         Cristo age continuamente na vida da sua igreja: João viu que Cristo estava no meio da igreja, mas aqui Cristo diz que anda no meio da igreja. O particípio presente indica que Cristo está andando indicando atuação constante e incessante. Há um paralelo interessante de Deus andando no meio do acampamento de Israel, Lv 26:12; Dt 23:14. O povo de Deus sempre estará sob seus cuidados. Ele anda no meio da igreja para encorajar, repreender e chamar ao arrependimento.

2.   CRISTO CONHECE A IGREJA, v.2,3,4,6
A apresentação de Cristo no v. 1 está diretamente relacionada ao que ele vê na Igreja, v.2. Já dissemos que Cristo não vê a igreja como nós vemos, Ele a vê como ela realmente é. A palavra “conheço” (v.2) enfatiza a clareza absoluta de uma visão mental que registra todos os fatos da vida como eles realmente são. O que Cristo vê?

2.1.      Cristo vê as virtudes da Igreja em Éfeso, v.2,3,6
Éfeso era uma igreja extraordinária. Não nos surpreende que Cristo inicie elogiando as muitas virtudes da Igreja.

·         Era uma igreja envolvida na obra de Deus, v.2ª. A igreja de Éfeso possuía um ministério dinâmico. Não era um museu de santos inativos, mas uma infantaria para santos envolvidos em trabalho ativo. Cristo conhece as obras da igreja bem como o resultado disso, o cansaço. A palavra “labor” (ARA), “trabalho” (NVI, AS21) refere-se ao desgaste ou exaustão provocados pelo trabalho duro. A igreja estava envolvida arduamente na obra de Deus. Jesus pode dizer o mesmo a nosso respeito? Temos sido uma igreja operosa? Você tem sido um ramo frutífero da Videira Verdadeira? Você tem sido um membro dinâmico do Corpo de Cristo?

·         Era uma igreja disciplinadora,v.2b. Uma segunda virtude elogiada por Cristo na igreja de Éfeso é que ela não podia suportar pessoas más. Éfeso era uma cidade imoral, devassa. A igreja resistia lutando em duas frentes. Não tolerava a imoralidade de fora e nem qualquer imoralidade dos de dentro. Era uma igreja disciplinadora, firmemente compromissada com a sua pureza. Somos assim?

·         Era uma igreja fiel na doutrina, v.2c. Paulo já havia avisado os presbíteros dessa igreja (At 20:29-30) sobre os lobos que penetrariam no meio do rebanho e sobre aqueles que se levantariam entre eles, falando coisas pervertidas para arrastar atrás deles os discípulos. Agora os lobos haviam chegado e arrogavam-se apóstolos. Mas suas reivindicações foram examinadas e se constatou que eram vãs e falsas. Éfeso era a cidadela da ortodoxia. O vigor de um ministério encontrasse em sua pureza doutrinária. Como os alicerces de uma casa, a correção teológica proporciona estabilidade, força e longevidade. E nós, como estamos?

·         Era uma igreja que aprendeu a sofrer pelo evangelho, v.3. Éfeso era uma igreja perseverante mesmo em meio ao sofrimento. Éfeso sofreu por sua fidelidade ao evangelho, por seu apego à verdade. Não obstante à oposição crescente à Cristo, esta igreja permaneceu como sólida rocha. Seus crentes não recuaram em sua missão. Enquanto vivessem no esgoto do paganismo, cuidaram com tenacidade de seu testemunho cristão. Mesmo atacados por suas convicções, não recuaram. Suportavam tudo em nome de Jesus. E nós, estamos dispostos a sofrer pela verdade? Estamos dispostos a sofrer por Cristo?

·         Era uma igreja que odiava as obras dos nicolaítas, v.6. Uma das coisas que militava a favor da igreja de Éfeso era seu ódio pelas obras dos nicolaítas contrastando com a Igreja de Pérgamo que tolerava a doutrina dos Nicolaítas, 2:15. Segundo os estudiosos os nicolaítas conduziam pessoas à perversão, eram imorais e seduziam os membros da igreja com tentações sensuais. O ensino deles pervertia a graça e substituía a liberdade pela licenciosidade. Tal comportamento era repugnante à igreja de Éfeso. E nós, odiamos o pecado da licenciosidade?

2.2.     Cristo vê as falhas da Igreja em Éfeso, v.4
Apesar de suas tantas virtudes Cristo vê na igreja uma falha. Cristo não vê a igreja como nós vemos, ele a vê como ela é. O que enche os nossos olhos e é capaz de maquiar a verdade não enche os olhos do Senhor e não o impedem de ver a real situação em que nos encontramos. Assim, abruptamente, Jesus muda de tom. O Mestre coloca seu dedo na ferida da igreja. Ele aponta a falha fatal, tão séria que colocava em perigo a existência da própria igreja. É digno de nota o fato de que somente na primeira, Éfeso, e na última, Laodicéia, das sete cartas às igrejas são ameaçadas de completa destruição, pela desanimadora, e puramente negativa, razão que é a falta de fervente devoção. Jonathan Edwards afirmava com razão a importância das afeições na religião. A palavra “abandonaste” (ARA) ou “deixaste” (AS21) traduz uma palavra cujo sentido é o de esquecer. A igreja se ocupou com tantas coisas e se esqueceu daquilo que era o mais importante, o amor. Como Éfeso veio a cair em tal situação?

·         Éfeso se esqueceu do amor quando o substituiu pela ortodoxia e trabalho. A luta pela ortodoxia, o intenso trabalho e as perseguições levaram a igreja de Éfeso a um desgaste emocional. Uma esposa pode ser fiel ao seu marido sem amá-lo com toda a sua devoção. Ela pode cumprir com os seus devores, mas não motivada por um profundo amor. Devemos nos lembrar de que o que cremos e o que fazemos para o Senhor é importante, mas o motivo pelo qual cremos e pelo qual fazemos também importa!

·         Éfeso se esqueceu do amor quando o substituiu pelo zelo religioso. Warren Wiersbe assinala que “os cristãos de Éfeso estavam tão ocupados mantendo sua separação que deixaram de lado a adoração”. E conclui: “o trabalho não substitui o amor; a pureza não substitui o fervor. A igreja precisa tanto de uma coisa quanto de outra a fim de agradar ao Senhor”.[3]  Todo nosso serviço, sacrifício e sofrimento deve ser por amor, que é o vínculo da perfeição, Cl 3:14. 

·         Éfeso se esqueceu do amor quando praticamos o exame, mas não o autoexame. A igreja de Éfeso examinava os outros e era capaz de identificar os falsos ensinos, mas não era capaz de examinar a si mesma. Discernia os perigos de fora, mas não os de dentro. Identifica a apostasia doutrinária nos outros, mas não a apostasia do amor em si mesma.

3.   CRISTO REPREENDE A IGREJA E APRESENTA A SOLUÇÃO, v.5
3.1.A solução: o "primeiro amor" pode ser recuperado se forem seguidas as três instruções que Cristo dá.

·         É preciso lembrar-se: “lembra-te...”, v.5ª. Tais palavras contrastam com “deixaste” – lit. “esqueceste”. É uma ordem, não um conselho. O presente indica que esse lembrar deve ser contínuo.  O passado precisa tornar-se novamente um presente vivo. Não basta saber que é preciso arrepender-se. Pelo contrário, cabe perguntar para onde precisamos retornar. Para o ponto do qual nos desviamos! É por isso que o arrependimento frutífero sempre consiste em “lembrar-se”. Retornar para um lugar qualquer nos levaria tão somente a novos descaminhos.

·         É preciso arrepender-se: “arrepende-te”, v.5b.  O termo “arrepender-te” literalmente significa uma mudança de mente, pensar diferente. É uma mudança de coração, mente e vontade. Significa voltar às coisas como eram antes. E uma volta a Cristo. O arrependimento implica em confissão de pecados (1 Jo 1:9).

·         É preciso praticar a coisa certa, v. 5c. Não arrependimento, e depois repetidamente arrependimento, mas arrependimento e depois frutos do arrependimento, ou seja, as primeiras obras. Ninguém se arrepende de um pecado e o continua praticando.

3.2.Uma solene advertência, v.5. Candeeiro é feito para brilhar. Se ele não brilha, ele é inútil, desnecessário. A igreja não tem luz própria. Ela só reflete a luz de Cristo. Mas, se não tem intimidade com Cristo, ela não brilha, se ela não ama ela não brilha, porque quem não ama está nas trevas.

O juízo começa pela Casa de Deus. Antes de julgar o mundo, Jesus julga a igreja. A igreja de Éfeso deixou de existir. A cidade de Éfeso deixou também de existir. Hoje, só existem ruínas e uma lembrança de uma igreja que perdeu o tempo da sua visitação.

Conclusão:
Aos que vencerem a apatia espiritual e retomarem ao primeiro amor, Jesus faz uma grande promessa, v.7.

1. No meio da igreja há sempre um remanescente fiel. Esses são os vencedores. Eles rejeitaram as comidas sacrificadas aos ídolos oferecida pelos Nicolaítas, mas agora se alimentam na Arvore da Vida.

2. Árvore da Vida fala de vida eterna. Vida eterna é conhecer a Deus e Deus é amor. O céu só é céu, porque lá é a Casa do Pai, e ele é amor. Lá vamos desfrutar desse amor pleno e abundante do nosso Noivo. A recompensa do Amor é mais Amor na perfeita comunhão do céu. 

3. Jesus está hoje no nosso meio, andando entre nós. O que ele está vendo? Que elogios ele faz a esta igreja? Que exortações ele tem para nós? Quem aqui já perdeu o encanto do primeiro amor? Quem aqui precisa lembrar-se, arrepender-se e voltar ao Senhor? Que mudanças precisamos fazer? Ouça o que o Espírito diz a esta igreja!



[1] LAWSON, Steve, Alerta Final, CPAD, p. 78
[2] BARCLAY, W., Comentário do Novo Testamento, p. 70
[3] WIERSBE, p. 729

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