terça-feira, 16 de setembro de 2014

SERÁ QUE EU SOU UM DOS ELEITOS DE DEUS?


Silas Roberto Nogueira

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para 
revelar-se no último tempo.
1 Pedro 1.3-5


Você já se perguntou: “sou mesmo um cristão?” Já foi assolado por dúvidas quanto à sua eleição em Cristo? Não? Puxa, eu já! E sei também que não fui o primeiro e que não serei o ultimo!

Tais questões muitas vezes assolam alguns queridos irmãos. Muitas vezes algumas pessoas são tão fortemente afligidos por tais questões que caem em melancolia e desânimo. Experimentam uma espécie de depressão espiritual. Talvez esse seja o seu caso, como foi o meu ou até mesmo é possível que você conheça alguém nessas condições. Bem, escrevo pensando em alguém que está nessas condições, para ajudá-lo a compreender o assunto e a sair de tal situação. Essa é minha oração, esse é o meu desejo.

A certeza da salvação é um assunto polêmico em muitos setores do cristianismo moderno. Na verdade é um assunto meio fora de moda. É um assunto ligado a doutrina da Perseverança dos santos, contudo distinto dela. Alguns pensam que é a mesma coisa, porém estão enganados. É importante ter em mente que o crente não perde a salvação, mas a certeza da salvação ele pode não experimentar ou mesmo experimentá-la e perde-la sem que isso afete a sua salvação.

A certeza da salvação é um assunto importante, porém negligenciado atualmente, como tantas outras doutrinas. Ora, o que queremos dizer com certeza de salvação? Quando falamos em certeza da salvação falamos naquela convicção firme, na mente do cristão, da certeza absoluta de sua salvação, tanto atual quanto eterna.

Um vislumbre da história da doutrina pode ajudar-nos a compreender o variado modo de pensar moderno. O catolicismo sempre afirmou que ninguém pode obter certeza da salvação, salvo uma revelação especial da parte de Deus. Louis Berkhof, teólogo presbiteriano, comenta “a Igreja católica Romana nega, não somente que a certeza pessoal pertença à essência da fé, mas até mesmo que ela seja um actus reflexus (ato reflexivo) ou fruto da fé”. Para o romanismo a certeza da salvação é um ensino perigoso, herético e anátema. O romanismo sempre defendeu esse modo de pensar pois isso era muito vantajoso para eles, pois mantinha o fiel preso à igreja a aos sacramentos.

O arminianismo primitivo parece ter caminhado com Roma na questão da certeza da salvação. John Wesley (1700-1791) era de convicções arminianas, mas introduziu algumas mudanças no sistema. Para Wesley a certeza da salvação provinha do testemunho interno do Espírito Santo. Portanto, a certeza da salvação faz parte do arcabouço teológico de Wesley. Ele ensinava a legitimidade e necessidade de crer e defender a doutrina da certeza da salvação, embora não cresse na permanência definitiva dela, isto é, na Perseverança dos Santos.
Os reformadores sempre afirmaram a certeza da salvação. Em sua reação a posição do romanismo muitas vezes eles falavam que a certeza da salvação era essencial à própria fé, o elemento mais importante da fé. Sem essa certeza de salvação podia-se duvidar da presença de verdadeira fé.

Já os Puritanos davam muita ênfase na certeza plena da salvação. Augutus Nicodemus Lopes comenta que os puritanos “sabiam que o propósito do homem é "glorificar a Deus e gozá-lo para sempre", mas entendiam que, enquanto não se alcançasse essa certeza plena de que você era um eleito, não poderia glorificar a Deus de forma total”.

O puritano Willliam Guthrie, no seu livro, "O Maior Benefício do Crente" (1658) diz: "Qual a principal ocupação do homem neste mundo?" Resposta: "Ter certeza de que participa de Cristo e viver de acordo com isto". Mas o movimento puritano avançou em sua concepção do assunto. Eles compreenderam que a certeza da salvação não era critério para julgar se uma pessoa era salva ou não.

Para os Puritanos a certeza da salvação estava ligada à santificação, não era produto de mera persuasão conjectural, mas na infalível promessa de Deus, a manifestação interna de vida espiritual piedosa e do testemunho interno do Espírito. Esse ensino, creio eu, é o que se coaduna com o ensino das Escrituras.

Volte seus olhos para o texto citado no começo do artigo. O que Pedro nos diz aqui? . Em que bases podemos ter certeza plena da nossa salvação?

1. O primeiro ponto que quero ressaltar aqui é que a certeza da salvação repousa nas promessas de salvação que o Deus que não pode mentir nos fez. Pedro nos apresenta a uma gloriosa promessa de salvação nos v.4,5. Observe que Pedro declara que fomos regenerados para herdarmos uma herança que é “incorruptível” ( a morte não toca), “sem mácula” (não manchada pelo mal) e “imarcescível” (perene, não prejudicada pelo tempo) – e que não há nenhum tom de incerteza em suas palavras, fomos salvos para herdar e vamos herdar isso, segundo a promessa da Palavra de Deus. Ora, se a herança não perece porque os herdeiros também não perecem. Pedro ainda faz outra afirmação – essa herança “é reservada nos céus para vós outros”. O termo usado aqui por Pedro indica que a herança existe e está sendo preservada aos que são igualmente guardados para ela (Mt 25.34). No v.5 Pedro declara que não somente a herança nos está reservada, mas que nós mesmos somos guardados para ela. Essa gloriosa promessa das Escrituras serve como alicerce sobre o qual construo o edifício da minha certeza.

Há outros testemunhos das Escrituras que podem ser considerados, 1 Jo 5.10,11; Jo 3.14-16,33,36; 5.24;6.47; At 10.43;13.39. Diz Lloyd Jones “aqui tenho essas declarações das Escrituras, as quais já aceitei como a Palavra de Deus. Elas fazem afirmações categóricas sobre aqueles que creem...Garantem que, se creem, já estão de posse da vida eterna. De modo que encaro essas declarações, e digo: portanto, já tenho a vida eterna, as Escrituras assim o dizem, se não creio nisso, estou declarando que Deus é mentiroso”.

Devemos declarar com Adoniran Hudson “meu futuro é tão brilhante quanto as promessas de Deus”. A Confissão de Fé de Westminster, capítulo 18, afirma que a certeza da salvação “não é uma mera persuasão conjectural e provável, fundada numa esperança falível, mas uma infalível segurança de fé, fundada na divina verdade das promessas de salvação...”.
O puritano Mathew Henry afirmou que a “incredulidade está na raiz de toda nossa insegurança em relação às promessas de Deus”.

Nossa certeza de salvação não provém do testemunho de homens, mas de Deus. Nada há de mais consolador do que repousar sobre a Palavra de um Deus que não pode mentir.

2. O segundo ponto para o qual chamo a sua atenção refere-se ao da evidência interna da graça. Em outras palavras são os sinais da nova vida em nós, mostrando que as coisas velhas passaram e tudo se fez novo, 2 Co 5.17. Lloyd Jones chamou a isso “prova de vida”.  Pedro fala dessas provas de vida em 1.22,23. Ele afirma que como resultado da nova vida em nós haverá o desejo de santificação (“tendo purificado a vossa alma”), a fé (“pela obediência à verdade”) e o amor fraternal (“tendo em vista o amor fraternal”). Em sua segunda Epístola capítulo 1.4-10 o apóstolo expande isso mostrando que aqueles que são salvos desenvolvem a sua salvação e dão evidências de sua eleição, v.10.

Foram esses versículos que em parte trouxeram paz ao coração de John Wesley em 24 de maio de 1738. Ele os leu às 5 horas da manhã, em seu período devocional. À noite, ao ouvir uma leitura da introdução de Lutero a Epístola aos Romanos, sentiu seu coração aquecido e teve certeza da sua salvação, diz ele : “Eu senti que agora confiava realmente em Cristo, somente em Cristo, para salvação: e me foi dada a segurança de que Cristo havia perdoado os meus pecados, sim, os meus, e que eu estava salvo da lei do pecado e da morte”.

Archibald Hodge comenta: “o crente cuja fé é vigorosa e inteligente tem uma evidência distinta em sua própria consciência de que ele, pessoalmente, crê. Daí ser óbvia a conclusão de que ele terá a vida eterna.” Essa experiência indicará que estamos unidos a Cristo e nessa certeza nosso coração descansa.

William Guthrie, um puritano, escreve: "a certeza é obtida através da seguinte argumentação: quem crê em Cristo jamais será condenado, eu creio em Cristo, logo jamais serei condenado", e mais "o Espírito Santo testifica sobre esta avaliação e a torna evidente à mente". Tem que ser as duas coisas. Richard Sibbes no volume um das suas obras diz: "Eu sei que creio porque o Espírito Santo impele a minha alma a isto, porém a forma mais comum de conhecermos o nosso estado diante de Deus é deduzindo a causa a partir dos efeitos".

Devemos fazer um autoexame sincero em nossa vida em busca de evidências internas da graça.


3. O terceiro ponto que desejo ressaltar é que a certeza da salvação repousa no testemunho interno do Espírito Santo. Observe o que Pedro diz “Deus e Pai”.  Foi Deus nosso Pai quem operou em nós a regeneração. Ora, como já vimos a regeneração nos torna filhos de Deus, Jo 1.12,13. A nossa filiação é atestada pela presença do Espírito em nós, 2 Tm 1.14; Tg 4.5; 1 Jo 3.24;4.13 . O Espírito nos tornará templos de Deus (1 Co 6.19), nos guiará (Rm 8.14) e nos santificará (Gl 5.16) e produzirá o caráter de Cristo em nós (Gl 5.22-25). A presença do Espírito em nós torna-se a base final e definitiva da nossa infalível segurança de salvação.
Mas, além da presença do Espírito há o testemunho interno do Espírito Santo, Rm 8.16. Precisamos entender que esse testemunho do Espírito não é uma declaração direta – “você é filho de Deus a partir de agora”, como alguns pensam. Na verdade o testemunho do Espírito com o nosso espírito de que somos filhos de Deus compreende uma série de particulares, todos eles combinados pelo Espírito para tal fim. John Murray afirma que esse testemunho “manifesta-se mediante a selagem, no coração dos crentes, das promessas de que são herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo. isso produz neles certeza do grande amor que o Pai lhes proporciona, a ponto de serem chamados filhos de Deus”.

A questão essencial novamente é se percebemos a atuação do Espírito Santo em nós, nos guiando, nos santificando e produzindo o caráter de Cristo.

Para finalizar, preciso dizer ainda duas coisas.  A Confissão de Fé Batista de 1689 afirma que a certeza da salvação pode ser perdida. A Confissão (cap.18, § 4) trata de três instâncias em que o crente pode ter a certeza da sua salvação abalada:

Os crentes verdadeiros podem ter a sua certeza de salvação abalada, diminuída ou interrompida, de diversas maneiras:

·         por negligência na preservação dessa certeza; por caírem em algum pecado específico, que fere a consciência e entristece o Espírito; 

[2 Pedro 1:5-10; Sl.51:8,12,14; Ef.4:30]

·         por uma tentação súbita ou veemente;

[Mat.26:31-35 (Luc.22:31,32) com 69-72]

·         por Deus retirar de sobre eles a luz da sua presença, permitindo que mesmo os que O temem caminhem em trevas, que não tenham luz.
[Sl.77:7,8; 31:22]

Como exemplo do primeiro caso, temos Davi que pecou e sentiu esvair-se a alegria de sua salvação. A tristeza experimentada por Davi produziu arrependimento genuíno, ao abandonar o pecado e se voltar para Deus, foi restaurado.

Um exemplo do segundo caso pode ser visto em John Bunyan. Ele escreveu acerca de suas lutas espirituais em “Graça Abundante ao principal dos pecadores” que chegou mesmo a pensar que havia cometido o pecado imperdoável. Num outro momento, ele fala das tentações de satanás assolando-o com as dúvidas acerca da sua eleição em Cristo:

“Talvez você não seja um eleito”, dizia o Tentador. De fato, talvez eu não seja, eu pensava. “Então”, dizia Satanás, “você pode também abandonar essas dúvidas e parar de lutar; porque, se você não é realmente um eleito de Deus, não há esperança de que seja salvo, pois: ‘Não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia’”.

Ele relata o estado em que ficava quando tais dúvidas o assolavam:

Estas coisas me deixaram desnorteado, não sabendo eu o que dizer ou como responder a essas tentações. De fato, nunca me ocorreu que era Satanás quem me atacava dessa maneira. Pensava que a minha própria prudência levantava tais questionamentos. Eu defendia, de todo o coração, que somente os eleitos obtinham a vida eterna. Mas, a pergunta era se eu era um deles. Assim, por muitos dias fui severamente afligido e desnorteado por estas coisas. Com frequência, quando caminhava para qualquer lugar, chegava ao ponto de quase cair devido ao desânimo mental. (p.45).

Um exemplo do terceiro caso chamavam os puritanos de “a noite escura da alma”. Hodge explica que isso pode acontecer como “disciplina paternal, com o propósito de testar a nossa fé, de convencer-nos de nossa total dependência e da autossuficiência de seu gracioso socorro”.

Mas não podemos nos esquecer das palavras finais do artigo da Confissão que diz:

“Contudo, eles jamais ficam destituídos da divina semente e da vida de fé, do amor de Cristo e dos irmãos, da sinceridade de coração e da consciência do dever. É a partir dessas graças, por obra do Espírito, que a certeza da salvação pode ser revificada, no devido tempo; e, mediante elas, os crentes são preservados de um total desespero.”

O que isso nos ensina? Ora, que um cristão genuíno pode ser assolado por dúvidas acerca da sua eleição, da sua salvação. Mas suas dúvidas jamais abalam a sua salvação. Precisamos estar cientes de que ninguém é salvo por causa da certeza que tem acerca da sua salvação, mas por causa do decreto soberano de Deus. Lembre-se que se a vida eterna fosse somente para os que nunca sentiram dúvidas, então nenhum de nós iria ao céu!

A segunda coisa a destacar é que há como distinguir entre a verdadeira certeza da salvação da falsa. Há evidências de uma que faltam à outra:

·         A verdadeira certeza produz humildade, não orgulho espiritual, 1 Co 15.10; Gl 6.14

·         A verdadeira certeza produz diligência, não permissividade, Sl 51.12,13,19

·         A verdadeira certeza produz sincero autoexame, Sl 139.23,24.

·         A verdadeira certeza produz desejo de mais íntima comunhão com Deus, 1 Jo 3.2,3.


Finalmente, se você se preocupa com a sua salvação, em saber se é realmente um cristão isso é uma clara evidência de sua salvação, pois os falsos crentes estão sempre muito seguros quanto a isso e jamais em tempo algum cogitam não serem salvos, só descobrirão o contrário naquele grande dia, mas aí será tarde demais, Mt 7. 21,22. 

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