segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Jonas, o homem, seu tempo e mensagem

Silas Roberto Nogueira

Primeiro sermão da Série de Exposições 


Jonas 1.1
1.      QUEM É JONAS?
Teólogos liberais e até mesmo alguns dentro do círculo ortodoxo[1] defenderam a tese de que Jonas não foi um personagem histórico, mas fruto da imaginação de um escritor do terceiro século antes de Cristo.[2] Contudo, entendemos Jonas como um personagem histórico e não um personagem fictício. 
Sabemos que seu pai se chamava Amitai, que significa “verdadeiro”. Sabemos que Jonas era natural de Gate-Hefer, na tribo de Zebulom, região da Galiléia, 2 Rs 14.25. Os fariseus erraram quando afirmaram que da Galiléia não se levanta profeta (Jo 7.52).
Jonas significa “pombo”, diz, no entanto Lloyd John Ogilvie, que “gavião” teria captado melhor o seu caráter combativo.[3] Jonas era um nacionalista estrito, um profeta ideologizado, que havia profetizado a expansão do reino de Israel e não queria ministrar a uma nação gentia e má que ameaçaria a soberania do seu país. Esse é o pano de fundo que revela o sentimento de Jonas e as suas motivações para fugir da missão divina em vez de cumpri-la.  Jonas desejava a destruição da Assíria, não a sua redenção.
Jonas se revela então um homem obstinado, rebelde (1.2).  Ele se mostra uma pessoa que embora ortodoxa, é insensível às necessidades dos que estão à sua volta (1.4,5). Ele encara a morte não com altruísmo, mas como uma possibilidade de se desvencilhar da sua missão (1.12). Quando a morte esperada não vem (1.17) e Jonas tem que cumprir o que o Senhor lhe ordenara, ele o faz contrariado e se desgosta profundamente com o sucesso obtido (3.3,5-10;4.1). Jonas é estranho, obteve o sucesso e desejou morrer. Ele era um homem irado (“ressentido”, ARC; “furioso”, A21) e rabugento.[4] Entregue ao desgosto, depressivo, desfalecido, Jonas chega a desejar a morte (4.8,9).

Embora os traços negativos de Jonas sejam mais visíveis no livro, ele é um servo de Deus, é um profeta (1 Rs 14.25). Jonas teme a Deus (1.9). Ele tem uma teologia ortodoxa, crê que o Senhor é o único Deus verdadeiro, que é o criador de tudo o que existe (1.9), que atende a oração (2.2), de quem unicamente procede a salvação (2.9), que é um Deus compassivo, misericordiosos, longânimo e grande em benignidade (4.2). Mas a teologia de Jonas precisava ser corrigida.  O livro mostra-nos exatamente em que pontos a teologia de Jonas precisava de correções. 
Há um pouco de Jonas em cada um de nós. Não somos muito diferentes de Jonas quanto pensamos. Os tempos mudam, mas os homens não. Somos servos de Deus, mas muitas vezes, como Jonas, somos rebeldes, mesquinhos e vingativos. Nossa teologia também precisa de uns ajustes. 


2.      TEMPO DE MINISTÉRIO
Jonas provavelmente iniciou seu ministério pouco antes do reinado de Jeroboão II (c.739-753),[5] exercendo seu ministério quando esse monarca ilustre governou em Samaria durante 41 anos, num tempo de prosperidade financeira, conquistas militares e paz nas fronteiras. Portanto, o ministério de Jonas se deu provavelmente na primeira metade do 8° século.
Apesar da prosperidade do reino de Israel os dias de Jeroboão II eram de grande declínio moral e espiritual. Hernandes Dias Lopes afirma que “nessa mesma época a nação também se entregou à opressão econômica, aos desmandos legais, ao descalabro moral e à apostasia religiosa. Foi nesse tempo que Amós denunciou a ganância insaciável dos poderosos, a mancomunação dos juízes com os ricos para oprimirem os pobres, a corrupção dos valores morais e o desaparecimento da piedade em virtude de uma religião sem ortodoxia e sem vida.”[6]


3.      UM LIVRO RIDICULARIZADO
Charles Feinberg afirma que a descrença tem atacado esse livro talvez mais do que outro. Jonas tem sido alvo de humor irrefletido e zombaria imerecida.[7] A razão principal dos ataques ao Livro de Jonas é por causa dos milagres ali mencionados. A zombaria concentra-se, sobretudo no fato de Jonas ter sido engolido por um grande peixe, sobrevivido e depois engolfado em terra firme, para cumprir a sua missão. Em outras palavras, os liberais não engolem o grande peixe que engoliu Jonas.[8]


Mas o livro inteiro está cheio de milagres e não apenas o fato de Jonas ter sido engolido por um grande peixe e ter sobrevivido. A tempestade foi miraculosa, bem como a sorte lançada ter caído sobre Jonas, o fato de a tempestade ter cessado quando o profeta é jogado na água, o grande peixe, o fato de sobreviver, o fato de o peixe devolver Jonas em terra firme ao comando de Deus, a conversão dos ninivitas, a planta que nasceu e o verme que a destruiu e o vento calmoso que deu sobre o profeta – tudo foi extraordinariamente miraculoso. Tire o elemento miraculoso e sobrenatural do Livro de Jonas e não sobrará nada.


Os liberais têm feito um enorme esforço para reduzir o Livro de Jonas a uma parábola, a uma alegoria. Contudo, se esquecem de que:

1)     O profeta Jonas está vinculado a um fato histórico comprovado (2Rs 14.25). Se Jonas é um personagem mitológico, então, Jeroboão II também o é. Porém, assim como Jeroboão II foi uma pessoa real, Israel foi uma nação real, Hamate foi um local real, Jonas também foi uma pessoa real.

2)     Se Jonas não é um personagem histórico, então, Jesus Cristo enganou-se e faltou com a verdade quando fez menção a ele como um profeta. E impossível negar a historicidade de Jonas e ao mesmo tempo afirmar a credibilidade do Senhor Jesus. Além disso, Jesus Cristo se refere ao arrependimento dos ninivitas como real, mas se Jonas não é um personagem histórico, o arrependimento dos ninivitas também não é e Jesus mentiu e exortou o povo sem base real, Lc 11.32.

3)     Se Jonas não é um personagem histórico, a ressurreição de Jesus foi um embuste. Jesus se comparou a Jonas, referindo-se à sua morte e ressurreição, mas se Jonas não é real, também não o é a ressurreição de Cristo, Mt 12.39-41. Gleason Archer afirma “essa passagem coloca a questão na perspectiva correta. Jesus declara aqui que a experiência de Jonas no ventre da baleia foi um tipo de morte, sepultamento e ressurreição, fatos que aguardavam entre a sexta-feira santa e a manhã de domingo. A iminente experiência de Cristo, que certamente foi história, serve de base à experiência de do profeta Jonas. Se o antítipo foi histórico, o tipo também o é. Nenhum episódio fictício do passado pode servir como tipo profético com um cumprimento literal no futuro. Ficção corresponde à ficção, fatos a fatos.”[9]

4)     Finalmente, até o século XIX, os judeus e cristãos em geral consideraram o livro como relato verdadeiro. Enquanto os teólogos liberais consideram o livro de Jonas apenas como uma lenda ou uma parábola e não creem na sua historicidade, Cristo creu.


4.      O TEMA CENTRAL DO LIVRO DE JONAS
O tema do livro de Jonas não é sobre o homem que foi engolido por um grande peixe.  G. Campbell Morgan declarou certa vez que “os homens se concentraram tanto no grande peixe que não viram o grande Deus”. [10] Sim, o tema do livro de Jonas é Deus. Deus é apresentado nas páginas deste livro como aquele que salva, como aquele que é grande em compaixão e em poder, como aquele que é soberano sobre tudo e todos. Jonas é sobre Deus.
O Livro começa com Deus (1.1) e termina com Deus falando (4.10,11). A palavra do Senhor desencadeia o processo e também o encerra.

Sim, é Deus quem dita o rumo dos eventos. Ele ordena a Jonas que pregue em Nínive (1.1). Quando o comissionado foge, ele o alcança no navio (1.4). Prepara um peixe que o engole (1.17). É Deus quem o mantém vivo dentro do peixe (1.17b; 2.9). Depois, manda ao peixe vomitá-lo (2.10b). Deus dá uma segunda chance a Jonas. Ordena novamente ao recalcitrante profeta que cumpra a sua missão (3.1). Poupa Nínive (3.10). Chama o profeta, à atenção pela primeira vez (4.4). Chama-o à atenção pela segunda vez (4.8). E conclui o livro apregoando o seu direito de ter misericórdia de quem quer ter misericórdia (4.11). Jonas é sobre Deus.
Jonas é mencionado no Livro 18 vezes, o grande peixe, apenas 4 vezes, Nínive, 8 vezes, mas Deus é referido ao todo 36 vezes.[11] O Livro de Jonas é sobre Deus.  Sem Deus, a história de Jonas não faria sentido algum.  

5.      PECULIARIDADES DO LIVRO DE JONAS
O Livro de Jonas tem algumas características peculiares:

1)     É um dos dois únicos livros proféticos do Antigo Testamento escrito por um profeta nascido e criado no reino do Norte, o outro é Oséias.

2)     É uma obra prima da narrativa concisa. Tem apenas 4 capítulos, 48 versículos e cerca de 1300 palavras. Somente a oração do capítulo 2 não está em forma poética.

3)     É mais um relato histórico do que uma profecia.  O livro é mais uma narrativa da experiência do profeta Jonas do que oráculos divinos pregados pelo profeta Jonas. A profecia mesmo tem quatro palavras em hebraico.

4)     É o único profeta comissionado por Deus para pregar diretamente aos gentios. É considerado o grande livro missionário do Antigo Testamento.

5)     É o segundo Livro do Antigo Testamento que termina com uma pergunta retórica, o outro é Naum. Curiosamente os dois profetas profetizaram a Nínive, capital da Assíria.
6)     É um Livro com um toque de ironias, mas não é cômico. A mensagem do Livro é solene, os judeus o liam no dia da Expiação. Quando Cipriano, pai da igreja, do terceiro século, leu o livro e Deus usou a leitura desse livro para sua conversão.[12]

7)      É um Livro que descreve o maior protótipo da morte e ressurreição de Cristo no Antigo Testamento. A experiência vivida por Jonas três dias e três noites no ventre
do grande peixe era um sinal da morte e ressurreição de Cristo (Mt 12.38-40), duas doutrinas centrais do cristianismo.

O QUE PODEMOS APRENDER COM O LIVRO DE JONAS?
Muita tinta já foi gasta tentando explicar o propósito do Livro de Jonas. Paulo afirma, referindo-se às Escrituras do Antigo Testamento, que tudo o que foi escrito para nosso ensino foi escrito (Rm 15.4), portanto creio que Jonas é um Livro didático.

  1. O Livro nos ensina algo sobre Jonas. Ensina-nos que Jonas tinha uma teologia correta e uma prática errada. Jonas era ortodoxo na fé e heterodoxo na prática. Dizia temer a Deus, mas era rebelde. Dizia conhecer a Deus que fez o mar e a terra, portanto diante de quem todas as coisas estão, mas estava disposto a fugir de sua face. Jonas estava dispostos a morrer a fazer a vontade de Deus. Jonas dizia amar a Deus, mas odiava o próximo, sonegando-lhes a palavra de Deus. Tão contraditório Jonas, não é mesmo? E não somos exatamente assim?
  2. O Livro nos ensina algo sobre a salvação. Ensina-nos Jonas que a salvação vem de Deus (2.9). Em primeiro lugar se a salvação vem de Deus é ele quem designa quem vai ser salvo, não nós. Em segundo lugar, a salvação é pela graça e misericórdia de Deus, não por méritos humanos.
  3. O Livro nos ensina muito sobre Deus.   Primeiro a soberania de Deus em todas as áreas da vida humana. Todos os acontecimentos do Livro estão relacionados a Deus em seus mínimos detalhes. Em segundo lugar, que Deus é santo e não tolera o mal. Ele estabeleceu um dia para o juízo da maldade humana (1.2). Em terceiro lugar que os propósitos de Deus não podem ser frustrados.




[1] LASOR, W. S., Introdução ao Antigo Testamento, Vida Nova, p. 419.
[2] CHAMPLIM, R. N., Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, Hagnos, Vol.3, p.  576
[3] OGILVIE, Lloyd John, O Senhor do impossível, Vida, p. 180
[4] FILHO, Isaltino G. C., Jonas nosso contemporâneo, Juerp, p.18
[5] ARCHER, Gleason, Merece confiança o Antigo Testamento, Vida Nova, p. 236
[6] LOPES, H. D., Jonas um homem que preferiu morrer a obedecer a Deus, Hagnos, pp.14,15. 
[7] FEINBERG, Charles, Os profetas menores, Vida, p. 132
[8] PEISKER, A., Comentário bíblico Beacon, CPAD, Vol 5, p. 141
[9] ARCHER, Gleason, Enciclopédia de dificuldades bíblicas, Vida, p. 232,323
[10] DEVER, Mark, A mensagem do Antigo Testamento, CPAD, p. 796
[11] WIERSBE, Warren, Comentário bíblico expositivo, Geográfica, p. 468
[12] FEINBERG, p. 132

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