terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

EMOÇÕES

Dr. David Martyn Lloyd-Jones


"Por cujo motivo te lembro que despertes o dom de Deus que existe em ti pela imposição das minhas mãos".

II Timóteo 1:6


Esta é uma grande declaração, mas nosso interesse primário nela está na exortação que o apóstolo dirige a Timóteo, dizendo que ele devia "despertar" o dom que havia nele. E chamo sua atenção a isso como parte de nossa consideração geral do assunto que descrevemos como "depressão espiritual". Estamos tentando diagnosticar e tratar o caso do chamado cristão miserável. Temos nos esforçado para indicar que o próprio termo, em si mesmo, dirige nossa atenção para o que está essencialmente errado nessa condi­ção. Essas palavras são realmente incompatíveis, e no entanto precisamos colocá-las juntas porque elas são uma descrição muito correra de certas pessoas — cristãos miseráveis. Devia ser impos­sível, mas é na verdade um fato. Não devia existir tal coisa, mas existe, e é nosso dever, de acordo com os ensinamentos das Escrituras, tanto do Velho como do Novo  Testamento, tratar desse problema.

Existem pessoas, eu sei, que nem sequer reconhecem a exis­tência do problema, e afastam a idéia com impaciência, dizendo que um cristão é alguém que canta o dia todo, e que, desde que se converteu, esta tem sido sua história — sem qualquer onda na superfície de sua alma, e tudo correndo bem. Uma vez que não reconhecem a existência do problema, têm sérias dúvidas a respei­to daqueles que são propensos à depressão, e até mesmo duvidam que tais pessoas possam ser cristãos. Mostramos repetidamente que as Escrituras são muito mais compassivas com tais pessoas, e apresentam claramente em seus ensinos que é possível que um cristão fique deprimido. Não justificam isso, mas reconhecem o fato, e é o dever de qualquer pessoa que está procupada com o cuidado e bem-estar da alma, entender tais casos e aplicar a eles o remédio que Deus proveu tão livremente nas palavras das Escrituras.

Já consideramos muitas causas dessa condição, e vamos pros­seguir. Elas são quase intermináveis, pois somos confrontados, como eu já mencionei, por um adversário muito sutil e poderoso, o qual nos conhece muito bem, melhor do que nós mesmos nos conhecemos, e seu grande objetivo e empenho é depreciar a glória de Deus e a glória do Senhor Jesus Cristo. Ora, não há modo mais eficiente de fazer isso, do que tornar o povo cristão miserável e deprimido, porque o fato é que o mundo ainda julga Deus e o Senhor Jesus Cristo pelo que vê em nós, e não podemos culpá-los por isso. Fazemos certas declarações; a própria designação de cris­tãos, que aplicamos a nós mesmos, é uma alegação e um desafio, e as pessoas do mundo têm o direito de olhar para nós. "Vocês fazem estas grandes alegações" — dizem elas, e então, olhando para nós, perguntam: "Isso é cristianismo? É para isso que vocês estão nos convidando?" Não há nenhuma dúvida, e vamos deixar isto bem claro, que a razão, acima de todas as outras, responsável pelo fato de tantas pessoas estarem fora da Igreja Cristã hoje, é a condição daqueles que. estão dentro dela. Leiam a história de qualquer avivamento que já houve, e descobrirão que o começo sempre foi o mesmo. Um homem, ou às vezes um grupo de pessoas, subitamente foi despertado para a verdadeira vida cristã, e outros começam a prestar atenção. Reavivamente sempre começa na Igreja, e quando o mundo vê isso, começa a prestar atenção. É por isso que nossa condição como crentes é tão importante.

Já consideramos a maneira como o diabo consegue que nos concentremos no passado — em certo pecado que cometemos, ou o tempo que desperdiçamos — e como lamentamos aquilo e fica­mos deprimidos no presente porque nos preocupamos com o pas­sado. E vimos como ele muda de tática quando isso não funciona, tentando nos levar à depressão no presente ao nos encher de temo­res e pressentimentos sobre o futuro.

Vamos agora passar para outro assunto muito ligado a este, e intimamente associado com esses temores e apreensões com respeito ao futuro. Este assunto é indicado neste sexto versículo (de II Timóteo, capítulo I) e se relaciona com o problema das emoções — emoções na vida cristã. Talvez não haja causa mais frequente de depressão espiritual e infelicidade na vida cristã, do que este problema das emoções. Onde é que elas entram, e como devem ser? Muitas pessoas estão constantemente perturbadas com esta questão, e tenho certeza que todos que já estiveram envolvi­dos em trabalho pastoral concordarão que não há outro assunto que leva tanta gente ao pastor, com tanta frequência, como este problema das emoções. Ora, isso é muito natural, porque, afinal, todos queremos ser felizes. Isso é algo inato na natureza humana; ninguém quer ser miserável, embora eu esteja consciente de que há pessoas que parecem se deleitar na miséria, e outras que pare­cem encontrar sua felicidade no fato de que são infelizes!

Eu considero que é uma grande parte da minha chamada ao ministério, enfatizar a prioridade da mente e do intelecto em cone­xão com a fé; mas ainda que eu insista nisso, estou igualmente pronto a asseverar que as emoções, as sensibilidades, os sentimen­tos, obviamente são de importância vital. Fomos criados de tal forma que eles exercem um papel dominante em nossa formação. Na verdade, eu creio que um dos maiores problemas em nossa vida neste mundo, não só para cristãos, mas para todas as pessoas, é lidar corretamente com nossas emoções e sentimentos. Oh, a devastação que é provocada, a tragédia, a miséria e desgraça que encontramos no mundo simplesmente porque as pessoas não sabem como lidar com suas emoções! O homem é constituído de tal forma que suas emoções ocupam uma posição muito proeminente, e de fato, podemos dizer que talvez a coisa final que a regene­ração e o novo nascimento fazem por nós, é justamente colocar a mente, as emoções e a vontade em suas posições correias. Vamos prosseguir, considerando isso ao analisarmos o assunto. É obvia­mente um grande assunto, o qual não pode ser tratado de forma breve, mas é importante que tenhamos uma visão ampla do assunto.

Há um ponto preliminar aqui que para mim é de muito inte­resse. É, como eu sugeri no princípio, que existe um curioso relacionamento entre este problema particular e aquele outro pro­blema de sentir ansiedade e temor a respeito do futuro. Estas coisas tendem a aparecer juntas, então não é de surpreender que ambas são encontradas neste capítulo. Timóteo, obviamente, era uma pessoa naturalmente tímida, mas igualmente era uma pessoa propensa à depressão; e as duas coisas com frequência são encon­tradas no mesmo tipo de pessoa. Mais uma vez, então, precisamos esclarecer que há certas pessoas que são mais propensas à depres­são, num sentido natural, do que outras. Quero também salientar e enfatizar novamente esta declaração vital em conexão com todo este assunto, que conquanto sejamos convertidos e regenerados, nossa personalidade fundamental não muda. O resultado é que a pessoa que é mais propensa à depressão antes de se converter, ainda terá que lutar contra isso após sua conversão. Todos temos certos problemas comuns na vida cristã, mas também temos certos problemas específicos. Nossos dons variam, nem todos temos os mesmos talentos; e é exatamente o mesmo na questão das nossas dificuldades. "O coração conhece a sua própria amargura", e cada homem tem o seu próprio fardo para carregar. Todos temos algo que representa uma dificuldade peculiar para nós, e em geral é algo que pertence à esfera do nosso temperamento ou formação natural. Então a pessoa que é naturalmente dada à introspecção, morbidez e depressão, vai continuar enfrentando isso na vida cristã. Esse tipo de pessoa sempre vai enfrentar o perigo de ficar deprimida, particularmente em conexão com esta área das emoções.

Portanto, creio que a coisa mais proveitosa a fazer seria examinar este assunto de uma forma geral, e talvez abordar os aspectos particulares mais tarde. Vamos então fazer uma série de declarações gerais a respeito das emoções e o seu lugar na vida cristã. Uma das primeiras perguntas que surgem é esta: onde entram as emoções, qual é o seu papel, qual devia ser a sua posi­ção na experiência cristã? Vou fazer algumas declarações gerais em relação a isso. Antes de tudo, obviamente, na verdadeira expe­riência cristã, as emoções têm que estar envolvidas. Elas devem estar incluídas. Vimos isso quando consideramos aquela grande declaração que Paulo fez aos romanos no capítulo 16, versículo 17. A ênfase ali é que o evangelho de Jesus Cristo é tão grande e glorioso que envolve o homem todo, e não apenas uma parte dele. O que eu quero mostrar agora, portanto, é que nossas emo­ções, tanto quanto nossa mente e nossa vontade, devem estar ativamente envolvidas. Se nunca fomos tocados em nossas emo­ções, então precisamos examinar as bases novamente. Se um poeta como Wordsworth, pensando na natureza, podia dizer: "Senti uma Presença que me agita com a alegria de pensamentos eleva­dos" — se um poeta místico podia dizer uma coisa assim — quanto mais nós devíamos ser capazes de dizê-lo, tendo tal evan­gelho, tal mensagem, tal Salvador, tal Deus, e com tal poder e influência como o Espírito Santo de Deus. Não se pode ler o Novo Testamento sem ver imediatamente que a alegria é uma parte essencial da experiência cristã. Uma das coisas mais notáveis que a conversão faz, é nos tirar de um "lago horrível, um charco de lodo, e pôr nossos pés sobre uma rocha, e firmar nossos passos, e colocar um novo cântico na nossa boca". As emoções devem estar envolvidas, e quando o evangelho chega a nós ele envolve a pessoa toda. Toda sua mente, quando ela compreende suas glorio­sas verdades, toca seu coração da mesma forma, e finalmente toca sua vontade.

A segunda declaração que quero fazer é esta — e estes são pontos muito simples e elementares, mas muitas vezes temos pro­blemas porque os esquecemos — não podemos criar emoções, nem podemos comandá-las segundo a nossa vontade. Deixem-me pôr isto bem claro. Não podemos gerar emoções em nós mesmos. Talvez possamos fazer com que lágrimas cheguem aos nossos olhos, mas isso não significa necessariamente que emoções reais estejam envolvidas. Existe um falso sentimentalismo que é bem diferente da verdadeira emoção. Isso é algo fora do nosso controle; não podemos criá-la. Por mais que tentemos, não teremos sucesso. Na verdade, de certa forma, quanto mais tentarmos produzir emoções em nós mesmos, mais aumentaremos nossa própria miséria. Olhan­do para isso do ponto de vista psicológico, é uma das coisas mais extraordinárias sobre o homem, que nesta área ele não é senhor de si mesmo. Ele não pode gerar ou produzir emoções, não pode trazê-las à existência, e tentar fazer isso sempre vai acabar agravando o problema.

Isso me leva à minha próxima declaração, a qual é, claramente, que não há nada que seja tão variável em nós como nossas emoções. Somos criaturas muito variáveis, e nossas emoções, de tudo que há em nós, são o que temos de mais variável. Isso se deve ao fato de que elas dependem de tantos fatores; existem tantas coisas que influenciam nossas emoções; não somente o temperamento, mas também condições físicas. Os povos antigos, como talvez saibam, criam que as emoções estavam localizadas em diferentes órgãos do corpo. Num certo sentido eles estavam certos: falavam de fleuma, de atitudes melancólicas — "tudo parece amarelo a quem tem icterícia", etc. Há um elemento de verdade nisso. Condições físicas nos afetam profundamente. E quero salientar novamente que tendo se tornado cristãos não significa que vocês perdem imediatamente todas essas tendências da sua constituição. Ainda estão ali, e portanto, com todos esses fatores, nosso humor tende a variar. Ficamos assombrados muitas vezes, ao acordar, quando notamos que nosso humor ou atitude é completamente diferente do que tinha sido no dia anterior. Vocês não conseguem pensar em nada que possa ter causado isso. No dia anterior podem ter se sentido perfeitamente felizes, e foram dormir antecipado outro dia glorioso, mas acordam na manhã seguinte deprimidos e de mau humor. De repente, sem qualquer explicação, se acham nesse estado de espírito. Ora, isso é a essência do problema. Em outras palavras, nossos sentimentos variam, por isso quero enfatizar o perigo de sermos controlados por eles. Já vimos que o mesmo é verdade no que se refere ao nosso temperamento, qualquer que ele seja. Todos recebemos nosso temperamento de Deus. Ele não criou duas pessoas iguais, e devemos permanecer diferentes. Sim, temos o nosso temperamento, mas não há nada mais errado e anti-cristão do que permitir que nosso temperamento nos controle. Naturalmente há pessoas que se gloriam em fazer isso. Todos conhecemos a pessoa que diz: "Sempre digo o que penso". Imaginem o dano causado por tais pessoas, ao calcarem aos pés sem consideração a sensibilidade de outras pessoas! Que aconteceria se todos fizessem isso? Dizem: "Sou assim!" Bem, a resposta a essas pessoas é que não deviam ser assim! Isso não quer dizer que podem mudar seu temperamento, mas que devem controlá-lo. Em outras palavras, o temperamento é um dom de Deus, mas como resultado da queda e do pecado o temperamento precisa ser mantido em seu lugar. É um dom maravilhoso, porém para ser controlado. E é exatamente o mesmo com nossas emoções. Elas estão sempre tentando nos controlar, e se não compreendermos isso, sem dúvida o farão. É a isso que nos referimos quando falamos de humor e de melancolia. O mau humor parece descer sobre nós. Não o queremos, mas está aí. "Ora, o perigo é permitir que ele nos controle. Acordamos de mau humor de manhã, e a tendência é de continuar assim durante o dia, e permanecer assim até que algo aconteça para mudar isso. Temos um grande exemplo disso no Velho Testamento, no caso de Saul, rei de Israel. Corremos o risco de nos submetermos às nossas emoções, permitindo que nos governem e comandem e controlem toda a nossa vida.

Finalmente, ainda sob este tópico, quero chamar a atenção para o perigo de pensarmos que não somos cristãos porque não tivemos algum tipo especial de emoção ou experiência. Do ponto de vista espiritual, esta é uma das manifestações mais comuns desta condição. Estou pensando em pessoas que ouviram outras dando o seu testemunho, mencionando alguma emoção maravilhosa que tiveram, e elas dizem a si mesmas: "Eu nunca tive isso". E come­çam a conjecturar se realmente são cristãs. Quero repetir o que já disse antes: as emoções devem fazer parte do verdadeiro cristianismo, mas o fato de não termos sentido certas emoções especiais, não significa necessariamente que não somos cristãos. As emoções são essenciais, mas se pressupomos que certas emoções são essenciais, podemos muito bem nos tornar vítimas do diabo, passando o resto da nossa vida na infelicidade, "presos em superficialidade e miséria", embora sejamos verdadeiramente cristãos.

Considero este um tema fascinante, mas preciso evitar a tentação de entrar em divagações. Não há dúvida, entretanto, que este ponto em particular levanta não somente a questão do temperamento, mas também da nacionalidade. Não há dúvida que certas nacionalidades são mais dadas a determinados pontos de vista sobre a vida. Certamente existem pessoas na fé cristã, e em geral pertencem às raças célticas, que chegam ao ponto de dizer que é errado um cristão ser muito feliz. Têm tanto medo das emoções, que estão prontas a dizer que sentimentos de felicidade e alegria são quase certamente devidos àquilo que é falso. Isso não está confinado apenas a raças, mas é também uma característica de certas denominações. Houve um sermão pregado por J. C. Philpot, um dos fundadores dos "Batistas Estritos", e que tinha este título: "O filho da luz andando nas trevas e o filho das trevas andando na luz". Era baseado nos dois últimos versículos do capítulo 50 do livro do profeta Isaías. No sermão, Philpot declarava que uma pessoa pode incitar emoções falsas, que pode acender um tipo maravilhoso de fogo e experiências, mas que não vai durar. "O verdadeiro filho de Deus", ele dizia, "por compreender a praga do seu próprio coração e de sua própria pecaminosidade, anda por este mundo penosa e laboriosamente, consciente do seu pecado e da grandeza e majestade de Deus". Eu concordo com a sua ênfase principal, mas sugiro que nesse sermão esse grande e glorioso pre­gador foi longe demais, porque a impressão final que ele deixa conosco é que, se alguém é feliz, provavelmente há alguma coisa errada com ele, e não é realmente um cristão. Isso é ir longe demais. Sem dúvida existem pessoas que pensam que são cristãs, cuja experiência é certamente psicológica em vez de espiritual. Felicidade frívola e despreocupada não é alegria cristã, mas isso não deveria nos levar a dizer que a alegria não é algo cristão.

Bem, o que as Escrituras nos dizem a respeito de tudo isto? Como devemos tratar desse problema das emoções? Quero apre­sentar algumas sugestões. A primeira é bem prática — é simples­mente a seguinte: se você, meu amigo, está deprimido neste mo­mento, deve se certificar de que não existe uma causa óbvia para a ausência de emoções jubilosas em sua vida. Por exemplo, se você é culpado de algum pecado, vai sentir-se miserável. "Duro é o caminho dos transgressores". Se quebrou as leis de Deus e violou Seus mandamentos, não vai ser feliz. Se acha que pode ser cristão e exercer sua própria vontade, seguindo seus próprios ca­minhos, sua vida cristã vai ser miserável. Não há necessidade de argumentar a respeito, isso se segue tão naturalmente quanto a noite segue o dia, se você está abrigando algum pecado favorito, se está se agarrando a algo que o Espírito Santo está condenando através da sua consciência, então não será feliz. E há somente uma coisa a ser feita: confessá-lo, reconhecê-lo, arrepender-se, ir a Deus imediatamente e confessar seu pecado, abrir seu coração, descobrir a sua alma, contar-Lhe tudo, sem reter coisa alguma, e então crer que, porque você fez isso, Ele o perdoou. "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça". Se pecado não confessado é a causa de sua infelicidade, eu estaria perdendo o meu tempo e o seu, se continuasse com minha lista de outras causas. Quantos estão presos nisso! Vamos ser perfeitamente claros a respeito; deixe sua consciência falar com você. Ouça a voz de Deus falando através do Seu Espírito que está em você, e se Ele está colocando Seu dedo sobre algo, livre-se daquilo. Não pode esperar resolver este problema enquanto estiver abrigando algum pecado.

Mas presumindo que não é este o caso, a próxima coisa que eu diria seria esta. Evite o erro de concentrar demais em suas emoções. Acima de tudo, evite o terrível erro de colocá-las no centro. Eu nunca me canso de repetir isso porque frequentemente descubro que isso leva a tropeços. Emoções nunca devem assumir o primeiro lugar, nunca devem ocupar o centro. Se você as colocar ali, estará se condenando à infelicidade, porque não está seguindo a ordem que o próprio Deus estabeleceu. As emoções sempre são o resultado de outra coisa, e como alguém que já tenha lido a Bíblia pode cair nesse erro ultrapassa minha compreensão. O sal­mista o expressa no Salmo 34, dizendo: "Provai, e vede que o Senhor é bom". Você nunca vai ver enquanto não provar; não vai saber, nem sentir, enquanto não experimentar. "Provai e vede", um segue ao outro como a noite segue o dia. Ver antes de provar é impossível. Isso é algo que é constantemente enfatizado nas Escrituras. Afinal, o que temos na Bíblia é a verdade; não é um estímulo emocional, não é algo destinado primariamente a nos dar uma experiência jubilosa. É, antes de tudo, verdade, e verdade é algo dirigido à mente, o dom supremo de Deus ao homem; e é quando compreendemos a verdade e nos submetemos a ela, que as emoções se seguem. Nunca devo fazer a mim mesmo, à primeira instância, a pergunta: "Que sinto a respeito disto?" A primeira pergunta deve ser: "Creio nisso? Aceito isso, isso tomou conta de mim?" Considero esta, talvez, a regra mais importante de todas, que não devemos nos concentrar demais nas emoções. Não gaste tanto tempo sentindo seu próprio pulso e tirando sua própria temperatura espiritual, não gaste tanto tempo analisando seus sen­timentos. Essa é a estrada principal que leva à morbidez.

Esta questão é extremamente sutil, e a sutileza muitas vezes entra desta maneira. Lemos as biografias dos grandes santos da história da Igreja, e descobrimos que cada um deles enfatizou a importância de se auto-examinar. Independente de qual ponto de vista teológico tenham defendido, todos são unânimes neste ponto. Eles instam que nos examinemos a nós mesmos, que precisamos examinar nossos próprios corações. Ora, o fato de que eles fizeram isso significa que, natural e inevitavelmente, nós também devemos examinar nossas emoções. Eles querem certificar-se que não somos meros intelectualistas interessados em discutir teologia. Querem ter certeza que não somos simples moralistas apenas interessados num código moral. Mas a tendência sempre é que, ao seguí-los, passamos a dar importância demasiada às emoções. Henry Martyn foi um exemplo disso. No entanto, talvez o exemplo clássico seja um homem que viveu na américa no século dezessete, chamado Thomas Sheppard. Ele é um perfeito exemplo de um homem que se fez miserável. Ele foi do coração da Inglaterra para a América e foi um dos maiores santos que já andou por este mundo, autor de grandes livros tais como "A parábola das dez virgens". Aquele pobre homem vivia deprimido devido à sua preocupação com seus sentimentos e o perigo de falsas emoções. Ele se fez miserável e infeliz.

O próximo ponto que quero mencionar é este: precisamos reconhecer que há uma grande diferença entre regozijar-se e sen­tir-se feliz. As Escrituras nos dizem que devemos nos regozijar sempre. Veja a lírica epístola de Paulo aos Filipenses, onde ele diz: "Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos". E ele repete isso. Regozijar-se é uma ordem, sim, mas há uma grande diferença entre regozijar-se e ser feliz. Não podemos nos forçar a sermos felizes, mas podemos nos regozijar, no sentido de que sempre vamos nos regozijar no Senhor. Felicidade é algo dentro de nós mesmos, regozijo é "no Senhor". Quão importante, então, é estabelecer a distinção entre regozijar-se no Senhor e sen­tir-se feliz. Vejam o quarto capítulo da Segunda Epístola aos Co­ríntios. Ali verão que o grande apóstolo coloca isso tudo de forma muito simples e clara naquela série de extraordinários contrastes que ele faz: "Em tudo somos atribulados (acho que ele não estava se sentindo muito feliz naquele momento), mas não angustiados; perplexos (não estava se sentindo nem um pouco alegre), mas não desanimados; perseguidos mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos" e assim por diante. Em outras palavras, o apóstolo não está parecendo uma pessoa muito feliz, no sentido carnal, mas ele ainda assim estava se regozijando. Essa é a diferença entre as duas condições.

Isso me conduz ao aspecto prático: o importante nesta ques­tão é saber como podemos nos despertar. Essa é toda a essência desta questão. Como já os tenho lembrado, o perigo é que, quando essa atitude nos assalta, nós permitimos que ela nos domine, somos derrotados e ficamos deprimidos. Dizemos que gostaríamos de ser libertos, todavia nada fazemos a respeito. O apóstolo diz a Timó­teo: "Desperta o dom" — precisamos acabar com indolência e melancolia.

Precisa falar conosco mesmos. Eu já disse isso muitas vezes antes, e vou continuar dizendo-o pois há um sentido em que as Escrituras nos ensinam a falar conosco mesmos. Lembrei vocês que precisam falar consigo mesmos, com seu horrível "eu". Falem com ele, e então "desperte(m) do dom". Lembrem a si mesmos de certas coisas. Lembrem a si mesmos de quem são e o que são. Cada um precisa falar consigo mesmo e dizer: "Não serei domi­nado por você, esta atitude não vai me controlar. Vou sair disso, vou vencer". Então levantem-se e andem, e façam algo. "Desper­tem o dom". Esta é a exortação constante das Escrituras. Se permi­tirem que essa atitude os controle, continuarão se sentindo miserá­veis, mas não devem permitir isso. Livrem-se disso. Não aceitem essa atitude. Digam de novo: "Fora, inércia e indolência".

Mas como podem fazer isso? Desta forma: nosso dever, o seu e o meu, não é despertar sentimentos; é crer. A Bíblia não nos diz, em lugar algum, que somos salvos por nossos emoções; ela diz que somos salvos pela fé. "Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo". Nem uma vez as emoções são colocadas numa posi­ção central. Ora, isto é algo que podemos fazer. Eu não posso forçar a mim mesmo a ser feliz, mas posso lembrar-me da minha fé. Posso exortar a mim mesmo a crer, posso falar com minha alma como o salmista fez no Salmo 42: "Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? espera. . ." Crê, confia. Esse é o caminho. E então nossas emoções cuidarão de si mesmas. Não se preocupem com elas. Falem consigo mes­mos, e ainda que o diabo sugira que, se não sentem nada, então não são cristãos, digam; "Não, eu não sinto nada, mas quer sinta ou não, eu creio nas Escrituras. Creio que a Palavra de Deus é verdadeira, e vou firmar minha alma nela, e crer nela, aconteça o que acontecer". Ponham a fé em primeiro lugar, firmem-se nela. Sim, T. C. Philpot estava certo nesse ponto, o filho da luz às vezes se acha andando nas trevas, mas ele continua andando. Ele não se senta num canto, sentindo pena de si mesmo — esse é o ponto — o filho da luz andando nas trevas. Ele não consegue ver a face do Senhor neste ponto do caminho, mas sabe que Ele está ali; e por isso continua.

Melhor ainda, deixem-me colocá-lo assim. Se vocês querem ser realmente felizes e abençoados, se querem experimentar verda­deira alegria como cristãos, aqui está a receita:' "Bem-aventurados (felizes) os que têm fome e sede de justiça" — não de felicidade. Não saiam em busca de emoções; busquem a justiça. Voltem-se para si mesmos, voltem-se para suas emoções, e digam: "Eu não tenho tempo para me preocupar com emoções, estou interessado em outra coisa. Quero ser feliz, mas mais do que isso, quero ser justo, quero ser santo. Quero ser como o meu Senhor, quero viver neste mundo como Ele viveu, quero andar aqui como Ele andou".

Vocês estão neste mundo, diz João era sua primeira epístola, assim como Ele esteve. Tenham como alvo a justiça," e a santidade, e certamente ao fazer isso serão abençoados, e terão a felicidade que desejam. Busquem a felicidade, e nunca a encontrarão; bus­quem a justiça, e descobrirão que são felizes — a felicidade estará lá, quase sem vocês saberem, sem mesmo buscarem por ela.


Finalmente, deixem-me colocá-lo desta maneira: "Vocês que­rem conhecer alegria suprema, querem experimentar uma felici­dade que desafia descrição? Há somente uma coisa a fazer, buscar o Senhor Jesus Cristo, realmente, buscar a Ele somente, voltar-se apenas para Ele. Se se acharem com sentimentos de depressão, não fiquem num canto sentindo pena de si mesmos; não tentem forçar alguma emoção, mas — e esta é a simples essência da ques­tão — vão diretamente a Ele, busquem Sua face, assim como a criança que se sente infeliz e miserável porque alguém quebrou seu brinquedo corre para seu pai ou sua mãe. Então, se se acharem nas garras deste problema, há somente uma coisa a fazer, e é irem a Ele. Se buscarem o Senhor Jesus Cristo e O encontrarem, não precisarão mais se preocupar com sua felicidade e alegria. Ele é nossa alegria e felicidade, assim como Ele é nossa paz. Ele é vida, Ele é tudo. Então fujam dos estímulos e das tentações de Satanás para dar essa importância central às emoções. Ponham no centro o Único que tem o direito de estar ali, o Senhor da glória, que tanto amou a vocês que foi à cruz e levou sobre Si o castigo e a vergonha dos seus pecados, e morreu por vocês. Busquem a Ele, busquem a Sua face, e todas as demais coisas lhes serão acrescentadas.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

SEIS COMPONENTES DO ARREPENDIMENTO


Thomas Watson


O arrependimento é uma graça do Espírito de Deus por meio da qual um pecador é humilhado em seu íntimo e transformado em seu exterior. A fim de proporcionar melhor entendimento, saiba que o arrependimento é um remédio espiritual formado de seis componentes especiais... Se um for deixado fora, o arrependimento perde o seu poder.

Componente 1: Percepção do pecado. A primeira parte do remédio de Cristo são olhos abertos (At 26.18). Este é um dos fatos importantes a observarmos no arrependimento do filho pródigo: ele caiu em si (Lc 15.17). Ele se viu como pecador e nada mais do que um pecador. Antes que um homem venha a Cristo, ele tem primeiramente de vir a si mesmo. Em sua descrição de arrependimento, Salomão considerou isto como o primeiro componente: “Caírem em si” (1 Rs 8.47). Uma pessoa deve, antes de tudo, reconhecer e considerar o que é o seu pecado e conhecer a praga de seu coração, antes que seja devidamente humilhado por ela. A primeira coisa que Deus criou foi a luz. Portanto, a primeira coisa que deve haver em uma pessoa arrependida é a iluminação. “Agora, sois luz no Senhor” (Ef 5.8). Os olhos são feitos tanto para ver como para chorar. Antes de lamentarmos pelo pecado, temos de vê-lo. Disso, podemos inferir que, onde não percepção do pecado, não pode haver arrependimento. Muitos que acham falhas nos outros não vêem nenhum erro em si mesmos... Pessoas são vendadas por ignorância e amor próprio. Por isso, não vêem o que deforma a sua alma. O Diabo faz com elas como o falcoeiro faz à sua ave: ele as cega e as leva encapuzadas ao inferno.

Componente 2: Tristeza pelo pecado. “Suporto tristeza por causa do meu pecado” (Sl 38.18). Ambrósio chamava essa tristeza de amargura da alma. A palavra hebraica que se traduz por ficar triste significa “ter a alma, por assim dizer, crucificada”. Isso precisa estar presente no verdadeiro arrependimento. “Olharão para aquele a quem traspassaram... e chorarão” (Zc 12.10), como se sentissem os cravos da cruz penetrando o seu lado. Uma mulher pode esperar ter um filho sem dores, assim como alguém pode esperar arrepender-se sem tristeza. Aquele que crê sem duvidar, põe sob suspeita a sua fé; aquele que se arrepende sem entristecer-se nos deixa incertos de seu arrependimento... Esta tristeza pelo pecado não é superficial; é uma agonia santa. Nas Escrituras, ela é chamada de quebrantamento de coração: “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus” (Sl 51.17); um rasgamento do coração: “Rasgai o vosso coração” (Jl 2.13). As expressões bater no peito (Jr 31.19; Lc 18.13), cingir o cilício (Is 22.12), arrancar os cabelos (Ed 9.3) — todas essas expressões são apenas sinais exteriores de tristeza.

Essa tristeza implica (1) tornar a Cristo precioso. Oh! quão precioso é o Salvador para uma alma atribulada! Agora, Cristo é, de fato, Cristo; e a misericórdia é realmente misericórdia. Enquanto o coração não estiver repleto de compunção, ele não estará pronto para o arrependimento. Quão bem-vindo é um cirurgião para um homem que sangra por suas feridas! (2) Implica repelir o pecado. O pecado gera tristeza, e a tristeza mata o pecado... A água salgada das lágrimas mata o verme da consciência. (3) Implica preparar-se para receber firme consolo. “Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão” (Sl 126.5). O penitente tem uma semeadura de lágrimas, mas uma colheita deliciosa. O arrependimento rompe os abscessos do pecado, e, em seguida, a alma fica tranqüila... O ato de Deus em afligir a alma por causa do pecado é como o agitar da água que trazia cura, no tanque (Jo 5.4)


Contudo, nem toda tristeza evidencia o verdadeiro arrependimento... o que é esse entristecer piedoso? Há seis descrições:

1. A verdadeira tristeza espiritual é interior. É interior em duas maneiras: (1) é uma tristeza de coração. A tristeza dos hipócritas evidencia-se somente em sua face. “Desfiguram o rosto” (Mt 6.16). Mostram um rosto melancólico, mas a tristeza deles não vai além disso, como o orvalho que umedece a folha, mas não penetra a raiz. O arrependimento de Acabe foi uma exibição exterior. Seus vestidos foram rasgados, mas não o seu espírito (1 Rs 21.27). A tristeza segundo Deus avança mais além; é como uma veia que sangra internamente. O coração sangra por causa do pecado — “Compungiu-se-lhes o coração” (At 2.37). Assim como o coração tem a parte principal no ato de pecar, o mesmo deve acontecer no caso do entristecer-se. Paulo lamentava por causa da lei em seus membros (Rm 7.23). Aquele que lamenta verdadeiramente o pecado se entristece por conta das incitações do orgulho e da concupiscência. Ele se entristece por causa da “raiz de amargura”, embora ela nunca prospere até ao ponto de levá-lo a agir. Um homem ímpio pode sentir-se atribulado por pecados escandalosos; um verdadeiro convertido lamenta os pecados do coração.

2. A tristeza espiritual é sincera. É a tristeza pela ofensa, e não pela punição. A lei de Deus foi infringida, e seu amor, abusado. Isso leva a alma às lágrimas. Uma pessoa pode ficar triste e não se arrepender. Um ladrão fica triste quando é apanhado, mas não por causa do roubo, e sim porque tem de sofrer a pena... A tristeza piedosa se expressa principalmente por causa da transgressão contra Deus. Portanto, se não houvesse uma consciência a ferir, uma diabo a acusar, um inferno para servir de castigo, a alma ainda se sentiria triste por causa da ofensa praticada contra Deus... Oh! que eu não ofenda o meu bom Deus, nem entristeça o meu Consolador! Isso parte o meu coração!...

3. A tristeza espiritual Deus é repleta de confiança. É mesclada com fé... A tristeza bíblica afundará o coração, se a roldana da fé não o erguer. Assim como o nosso pecado está sempre diante de Deus, assim também a promessa de Deus tem de estar sempre diante de nós...

4. A tristeza espiritual é uma grande tristeza. “Naquele dia, será grande o pranto em Jerusalém, como o pranto de Hadade-Rimom” (Zc 12.11). Dois sóis se puserem no dia em que Josias morreu, e houve um enorme lamento fúnebre. A tristeza pelo pecado deve chegar a esse nível.

5. A tristeza espiritual é, em alguns casos, acompanhada de restituição. Aquele que, por injustiça, errou contra outrem, em seus bens, lidando com fraude, deve em sã consciência realizar a compensação. Há um mandamento claro quanto a isso: “Confessará o pecado que cometer; e, pela culpa, fará plena restituição, e lhe acrescentará a sua quinta parte, e dará tudo àquele contra quem se fez culpado” (Nm 5.7). Por isso, Zaqueu fez restituição: “Se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais” (Lc 19.8).

6. A tristeza espiritual é permanente. Não são algumas lágrimas derramadas ocasionalmente que servirão. Alguns derramarão lágrimas ao ouvirem um sermão, mas isso é como uma chuva de abril — logo acaba — ou como uma veia aberta e fechada novamente. A verdadeira tristeza tem de ser habitual. Ó cristão, a doença de sua alma é crônica, e a recaída, freqüente. Portanto, você tem de tratar-se com remédio continuamente, por meio do arrependimento. Essa é a tristeza “segundo Deus”.

Componente 3: Confissão de pecado. A tristeza é um sentimento tão forte, que terá expressões. Suas expressões são lágrimas nos olhos e confissão nos lábios. “Os da linhagem de Israel... puseram-se em pé e fizeram confissão dos seus pecados” (Ne 9.2). Gregório de Nazianzo chamou a confissão de “um bálsamo para a alma ferida”.

A confissão é auto-acusadora. “Eu é que pequei” (2 Sm 24.17)... E a verdade é que por meio desta auto-acusação impedimos Satanás de acusar-nos. Em nossas confissões, nos identificamos com orgulho, infidelidade e paixão. Assim, quando Satanás, chamado de acusador dos irmãos, lançar essas coisas contra nós, Deus lhe replicará: “Eles já acusaram a si mesmos. Então, Satanás, você está destituído de motivos legítimos; suas acusações surgiram muito tarde...” Agora, ouça o que diz o apóstolo Paulo: “Se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados” (1 Co 11.31).

Entretanto, homens ímpios, como Judas e Saul, não confessaram seus pecados? Sim, mas as suas confissões não eram verdadeiras. Para que a confissão de pecado seja correta e genuína, estas... qualificações precisam estar presentes:

1. A confissão tem de ser espontânea. Tem de surgir como a água que brota do manancial, livremente. A confissão do ímpios é obtida à força, como a confissão de um homem sob tortura. Quando uma faísca da ira de Deus atinge a consciência dos ímpios ou estão sob o temor da morte, eles se prostrarão em confissão... Mas a verdadeira confissão flui dos lábios tal como a mirra jorra da árvore ou o mel da colméia, espontaneamente...

2. A confissão tem ocorrer com contrição. O coração precisa ressentir profundamente o pecado. As confissões de um homem natural procede de seu íntimo assim como uma água que passa por um cano. Elas não o afetam de maneira alguma. Mas a confissão verdadeira deixa impressões que pungem o coração. Ao confessar seus pecados, a alma de Davi sentiu-se sobrecarregada: “Já se elevam acima de minha cabeça as minhas iniqüidades; como fardos pesados, excedem as minhas forças” (Sl 38.4). Uma coisa é confessar o pecado, outra coisa é sentir o pecado.

3. A confissão tem de ser sincera. Nosso coração precisa estar em harmonia com a confissão. O hipócrita confessa o pecado, mas o ama, assim como um ladrão que confessa os bens roubados e continua a amar o roubo. Quantos confessam o orgulho e a cobiça, com seus lábios, mas se deleitam neles ocultamente... Um verdadeiro cristão é mais honesto. Seu coração anda em harmonia com usa língua. Ele é convencido dos pecados que confessa e detesta os pecados dos quais é convencido.

4. Na confissão verdadeira, o crente especifica o pecado. O ímpio reconhece que é um pecador como todos os outros. Ele confessa o pecado de maneira geral... Um verdadeiro convertido reconhece seus pecados específicos. Ele se comporta à semelhança de uma pessoa enferma que vai ao médico e lhe mostra as feridas, dizendo: “Levei um corte na cabeça, recebi um tiro no braço”. O pecador entristecido confessa as diversas imperfeições de sua alma... Por meio de uma inspeção diligente de nosso coração, podemos achar alguns pecados específicos que tratamos com indulgência. Confessemos com lágrimas esses pecados, indicando-os pelo nome.

5. Um pessoa verdadeiramente arrependida confessa o pecado em sua fonte. Ela reconhece a contaminação de sua natureza. O pecado de nossa natureza não é somente uma falta do bem, mas também uma infusão do mal... Nossa natureza é um abismo e uma fonte de todo mal, dos quais procedem os escândalos que infestam o mundo. É essa depravação de natureza que envenena nossas coisas santas. Isso traz os juízos de Deus e paralisa em sua origem as nossas misericórdias. Oh! Confesse o pecado em sua fonte!...

Componente 4: Vergonha pelo pecado. O quarto componente no arrependimento é a vergonha. “Para que... se envergonhe das suas iniqüidades” (Ez 43.10). O envergonhar-se é a força da virtude. Quando o coração se enegrece por causa do pecado, a graça faz o rosto envergonhar-se com rubor — “Estou confuso e envergonhado, para levantar a ti a face” (Ed 9.6). O filho pródigo, arrependido, ficou tão envergonhado de seus excessos que se julgava indigno de ser, outra vez, chamado filho (Lc 15.21). O arrependimento causa um acanhamento santo. Se Cristo não estivesse no coração do pecador, não haveria tanta vergonha se expressando no rosto. Há... algumas considerações sobre o pecado que nos causa vergonha:

1. Todo pecado nos torna culpados, e a culpa nos deixa envergonhados.

2. Em todo pecado, há muita ingratidão. E essa é a razão da vergonha. Abusar da bondade de Deus, como isso nos envergonha!... Ingratidão é um pecado tão grave, que Deus mesmo se admira dele (Is 1.2).

3. O pecado mostra o que somos, e isso nos causa vergonha. O pecado nos rouba as vestes de santidade. E nos deixa destituídos de pureza, deformados aos olhos de Deus; e isso nos envergonha...

4. Nossos pecados expuseram Cristo à vergonha. E não nos envergonharemos deles? Vestimos a púrpura; não vestiremos o carmesim?

5. Aquilo que nos deixa envergonhados é o fato de que os pecados que cometemos são piores do que os pecados dos incrédulos. Agimos contra a luz que possuímos.

6. Nossos pecados são piores do que os pecados dos demônios. Os anjos caídos nunca pecaram contra o sangue de Cristo. Cristo não morreu por eles... Com certeza, se sobrepujamos o pecado dos demônios, isso deve nos causar muita vergonha.

Componente 5: Ódio pelo pecado. O quinto componente do arrependimento é o ódio pelo pecado. Os eruditos distinguem dois tipos de ódio: o ódio das iniquidades e o ódio da inimizade.

Primeiramente, há um ódio ou abominação das iniquidades. “Tereis nojo de vós mesmos por causa das vossas iniquidades e das vossas abominações” (Ez 36.31). Um cristão verdadeiramente arrependido é alguém que detesta o pecado. Se uma pessoa detesta aquilo que faz seu estômago adoecer, ela deve, com muito mais intensidade, detestar aquilo que deixa enferma a sua consciência. É mais fácil abominar o pecado do que deixá-lo... Não amamos a Cristo enquanto não odiamos o pecado. Nuca anelamos o céu enquanto não detestamos o pecado.

Em segundo, há um ódio da inimizade. Não há melhor maneira de descobrir vida do que por meio do movimento. Os olhos se movem, o pulso bate. Portanto, para constatar o arrependimento, não há sinal melhor do que uma antipatia santa para com o pecado... O arrependimento correto começa no amor a Deus e termina no ódio ao pecado.

Como podemos discernir o verdadeiro ódio para com o pecado?

1. Quando a pessoa se mantém resoluta contra o pecado. A língua lamenta amargamente o pecado, e o coração o odeia, de modo que, embora o pecado se apresente de forma atraente, nós o achamos detestável e o abominados com ódio mortal, sem levarmos em conta a sua aparência agradável... O diabo pode vestir e disfarçar o pecado com prazer e proveito, mas um verdadeiro penitente, que tem ódio secreto pelo pecado, sente repulsa e não se envolverá nele.

2. O verdadeiro ódio pelo pecado é abrangente. Isso se aplica a dois aspectos: no que diz respeito às faculdades e ao objeto. (a) O ódio pelo pecado é abrangente no que concerne às faculdades da alma, ou seja, há um desgosto para com o pecado não somente no juízo, mas também na vontade e nas afeições. Há alguns que são convencidos de que o pecado é maligno e, em seu juízo, têm uma aversão para com ele. Mas acham-no agradável e têm satisfação íntima nele. Nesse caso, há um desprazer do pecado no juízo e um aceitação dele nas afeições. No verdadeiro arrependimento, o ódio pelo pecado está presente em todas as faculdades da alma; não somente no intelecto, mas, principalmente, na vontade. “Não faço o que prefiro, e sim o que detesto” (Rm 7.15). Paulo não era livre do pecado, mas a sua vontade se posicionava contra o pecado. (b) O ódio pelo pecado é abrangente no que concerne ao objeto. Aquele que odeia um pecado odeia todos... Os hipócritas odeiam alguns pecados que mancham sua reputação, mas o verdadeiro convertido odeia todos os pecados: os pecados que produzem vantagem, os pecados resultantes de nossas inclinações naturais, as próprias instigações da corrupção. Paulo odiava as obras do pecado (Rm 7.23).

3. O verdadeiro ódio pelo pecado se manifesta contra o pecado em todas as suas formas. Um coração santo detesta o pecado por causa de sua contaminação natural. O pecado deixa uma mancha na alma. Uma pessoa regenerada aborrece o pecado não somente por causa da maldição, mas também por causa do contágio. Ele odeia essa serpente não somente por causa de sua picada, mas também por causa de seu veneno. Abomina o pecado não somente por causa do inferno, mas como o próprio inferno.

4. O verdadeiro ódio pelo pecado é implacável. O cristão genuíno nunca mais se conciliará com o pecado. A ira pode experimentar conciliação, porém o ódio não pode experimentá-la...

5. Onde há verdadeiro ódio pelo pecado, nos opomos ao pecado em nós mesmos e nos outros. A igreja de Éfeso não podia suportar aqueles que eram maus (Ap 2.2). Paulo repreendeu arduamente Pedro por causa de sua dissimulação, embora este fosse um apóstolo. Com insatisfação santa, Cristo expulsou os cambistas do templo (Jo 2.15). Ele não tolerou que o templo sofresse uma mudança. Neemias repreendeu os nobres por sua usura (Ne 5.7) e pela profanação do sábado (Ne 13.17). Aquele que odeia o pecado não suportará a iniqüidade em sua família — “Não há de ficar em minha casa o que usa de fraude” (Sl 101.7). Que vergonha se manifesta quando os magistrados mostram força de espírito em suas paixões e nenhum heroísmo em suprimir o erro! Aqueles que não tem qualquer antipatia para com o pecado não conhecem o arrependimento. O pecado está neles como o veneno está em uma serpente e, por ser natural, lhe proporciona deleite.

Quão distantes estão do arrependimento aqueles que, ao invés de odiarem o pecado, amam-no! Para os santos, o pecado é um espinho nos olhos; para os ímpios, é uma coroa na cabeça — “Que direito tem na minha casa a minha amada, ela que cometeu vilezas? Acaso, ó amada, votos e carnes sacrificadas poderão afastar de ti o mal? Então, saltarias de prazer” (Jr 11.15). Amar o pecado é pior do que praticá-lo. Um homem bom pode precipitar-se cair em uma atitude pecaminosa, mas amar o pecado é desesperador. O que faz um porco amar o revolver-se na lama? O que faz um demônio amar aquilo que se opõe a Deus? Amar o pecado mostra que a vontade está no pecado; e, quanto mais a vontade estiver no pecado, tanto maior ele será. A obstinação faz com que não haja mais purificação para o pecado (Hb 10.26). Oh! quantos existem que amam o fruto proibido! Amam as imprecações e os adultérios. Amam o pecado e odeiam a repreensão... Portanto, quando os homens amam o pecado, apegam-se àquilo que será a sua morte e brincam com a condenação, isso indica que “o coração dos homens está cheio de maldade” (Ec 9.3). Isso nos persuade a mostrar nosso arrependimento por meio de um ódio amargo para com o pecado...

Componente 6: Converter-se do pecado. O sexto componente no arrependimento é converter-se do pecado... Esse converter-se é chamado de abandonar o pecado (Is 55.7), tal como um homem que abandona a companhia de um ladrão ou de um feiticeiro. É chamado de lançar para longe o pecado (Jó 11.14), como Paulo lançou de si aquela víbora, atirando-a ao fogo (At 28.5). Morrer para o pecado é a vida do arrependimento. No mesmo dia em que o crente se converte do pecado, deve se regozijar com um gozo eterno. Os olhos devem fugir de vislumbres impuros. O ouvido tem de fugir dos escárnios. A língua, do praguejamento. As mãos, dos subornos. Os pés, dos caminho das meretrizes. E alma, do amor à impiedade.

Esse converter-se do pecado implica uma mudança notável. Converter-se do pecado é tão visível, que os outros podem percebê-lo. Por isso, é chamado de uma mudança das trevas para a luz (Ef 5.8). Paulo, depois de ter recebido a visão celestial, ficou tão diferente, que todos se admiraram da mudança (At 9.12). O arrependimento transformou o carcereiro em um enfermeiro e médico (At 16.33). Ele cuidou dos apóstolos, lavou-lhes as feridas e serviu-lhes comida. Um navio se dirige ao leste; e o vento muda seu rumo para o oeste. De modo semelhante, um homem se encaminhava para o inferno, mas o vento contrário do Espírito soprou, mudou o seu rumo e o fez andar em direção ao céu... Essa mudança visível que o arrependimento produz em uma pessoa é como se outra alma se abrigasse no mesmo corpo.
Para identifica corretamente o converter-se do pecado, essas poucas coisas são necessárias:

1. Tem de haver um volver-se sinceramente do pecado. O coração é o primum vivens, a primeira coisa que vive. E tem de ser o primum vertens, a primeira coisa que se volve. O coração é aquilo por que o Diabo se empenha arduamente... No cristianismo, o coração é tudo. Se o coração não é convertido do pecado, ele não passa de uma mentira... Deus quer todo o coração convertido do pecado. O verdadeiro arrependimento não pode ter reservas nem outros ocupantes.

2. Tem de haver um volver-se de todo pecado. “Deixe o perverso o seu caminho” (Is 55.7). Uma pessoa verdadeiramente arrependida abandona o caminho do pecado. Ela deixa todo pecado... Aquele que esconde um subversivo em sua casa é um traidor da nação. E aquele que satisfaz um pecado é um hipócrita traiçoeiro.

3. Tem de haver um volver-se do pecado por motivos espirituais. Um homem pode restringir seus atos de pecados e não converter-se do pecado da maneira correta. Atos de pecados podem ser restringidos por temor ou desígnio, mas uma pessoa verdadeiramente arrependida deixa o pecado com base em um princípio espiritual, ou seja, o amor de Deus... Três homens perguntaram um ao outro o que os fizera abandonar o pecado. Um disse: “Acho que são as alegrias do céu”. Outro respondeu: “Acho que são os tormentos do inferno”. Mas o terceiro disse: “Acho que é o amor de Deus; e isso ainda me faz abandonar o pecado. Como eu ofenderia o amor de Deus?”
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Extraído de The Doctrine of Repetance, reimpresso por The Banner of Truth Trust. Esta obra está em português, editora PES.