segunda-feira, 17 de agosto de 2015

DO LAMENTO AO REGOZIJO

Uma meditação no salmo 13

Silas Roberto Nogueira [1]

(Notas do Sermão proferido na Comunidade Batista da Graça, Suzano/SP)



O que fazer quando Deus parece tão distante? Charles Colson era um cristão dedicado e influente. Ele esteve envolvido no chamado Watergate, o escândalo que custou a renúncia de Richard Nixon, acusado e preso, nasceu de novo numa prisão federal do EUA. Sua vida mudou radicalmente. Treinado e discipulado por grandes nomes do evangelicalismo norte americano, Colson se tornou um pregador e desenvolveu um ministério em cadeias. Num artigo na Christianity Today ele fez uma declaração reveladora onde diz que havia nascido de novo no melhor do evangelicalismo norte americano e havia sido discipulado e treinado por bons teólogos, contudo não havia sido preparado para aquilo que os puritanos chamavam de “noite escura da alma”.[2]

A expressão “noite escura da alma” foi usada pela primeira vez por João da Cruz (1542-1591), frade carmelita mítico, para falar daquele momento em que o cristão experimenta a sensação de que Deus se ocultou deles.

Os Puritanos tomaram a expressão por empréstimo e a resignificaram. R. C Sproul explica bem este momento como uma crise de fé, quando uma pessoa experimenta a ausência de Deus.[3] É um momento onde somos assolados por um sentimento do afastamento de Deus, quando percebemos que ele escondeu seu rosto de nós.

O que fazer quando Deus resolve esconder seu rosto de nós? Quando parece que não ouve as nossas orações? Quando não parece se importar conosco? Qual o caminho que nos conduz da noite escura do lamento, do vale da sombra da morte ao cume da montanha? Isso está revelado aqui neste salmo. Nele Davi revela sua profunda tristeza, sua dor e a sua exultação no Senhor.

Não podemos relacionar este salmo a nenhum evento ou período especial da história de Davi. Kirkpatrick associa o salmo ao período na vida de Davi quando era um foragido caçado pelo invejoso rei Saul (1 Sm 27.1), outros comentadores, porém, pensam que o contexto remete à sua fuga de Davi de Absalão, seu filho. Realmente não importa, o que está expresso neste salmo são os mais profundos anseios de uma alma perturbada. Uma alma que sai do vale das lamentações e sobe à montanha da exultação e nos ensina o caminho das pedras.

1.     A SITUAÇÃO DO SALMISTA, v.1,2
Robert Baron em seu livro “Anatomia da Melancolia” afirmou: “se há um inferno na terra, ele se encontra na melancolia do coração do homem”. O que o salmista experimenta aqui é um momento em que Deus silencia e, então o medo e a dúvida falam alto em seu coração.
A dor de Davi:

a)     Ele se sente desamparado, v. 1. Nada fere mais a alma que a sensação de desamparo, a sensação de exclusão. Davi sente que Deus se esqueceu (hb shakach, esquecer, ignorar) dele. Ele sente que Deus escondeu (hb cathar, ocultar, esconder) dele o seu rosto, isto é, já não ouve as suas orações. Ele sente que Deus o ignora deliberadamente.

b)     Ele se sente perturbado, v.2. As versões em português não expressam bem o sentimento do salmista, “encherei de cuidados a minha alma”, VIBB, “relutando...”, ARA, “relutarei...”, A21, “consultarei”, ARC e ACF, “inquietações”, NVI ou “sofrimento”, BJ. O termo usado significa que um turbilhão de pensamentos assolava a mente e açoitava as emoções de Davi. A palavra “tristeza”, no hebraico yagon, que vem logo a seguir refere-se a uma aflição mental e emocional.

c)      Ele se sente ameaçado, v.2b. Davi percebe que seu inimigo se levanta diante dele e não há quem o impeça ou mesmo quem o restrinja. Seu inimigo tem sido bem sucedido em algumas ações contra Davi e ele teme pela sua vida. 

Davi está pasmo diante do silêncio de Deus. Davi está perplexo diante da aparente inação ou indiferença da parte de Deus em relação às circunstâncias que ele está vivendo. Essa perplexidade não é pecado. Ela é resultado da experiência com o Deus ausente. Em sua perplexidade Davi questiona a Deus, pelo menos quatro vezes “até quando”? Outros homens de Deus quando em perplexidade, também usaram das mesmas perguntas, Jó, o patriarca, Jó 13:24, Etã, o ezraíta, Sl 89:46, Asafe, músico e profeta, Sl 74.10, e o profeta Habacuque, Hq 1.2.

Deus se esconde:
Precisamos saber que servimos a um Deus que se oculta, Is. 45:15; 30.7. Na Bíblia, há duas razões para que Deus esconda de nós o seu rosto:

·         Algumas vezes Deus se oculta por causa dos nossos pecados, Is 1:15; 59:2. O nosso pecado é como um muro que nos separa de Deus. Um véu encobrindo de nós o rosto de Deus. Contudo, não parece ser este o caso de Davi.  

·         Outras vezes Deus esconde seu rosto para nos disciplinar. Davi já havia experimentado isso em outra oportunidade, Sl 30:6,7. Muitas vezes Deus oculta seu rosto para mostrar que não somos tão firmes quanto pensamos, deixando evidente a nossa dependência dele.

Na Confissão de Fé de Westminster (XVIII.4) se menciona que embora o eleito não perca a sua salvação, sua certeza pode ser abalada em Deus desviar dele a luz do seu rosto. Na Confissão de Fé Batista de 1689, os mesmos termos aparecem:

4. Os crentes verdadeiros podem ter a sua certeza de salvação abalada, diminuída ou interrompida, de diversas maneiras: por negligência na preservação dessa certeza; por caírem em algum pecado específico, que fere a consciência e entristece o Espírito; por uma tentação súbita ou veemente; por Deus retirar de sobre eles a luz da sua presença, permitindo que mesmo os que O temem caminhem em trevas, que não tenham luz. Contudo, eles jamais ficam destituídos da divina semente 16 e da vida de fé, do amor de Cristo e dos irmãos, da sinceridade de coração e da consciência do dever. É a partir dessas graças, por obra do Espírito, que a certeza da salvação pode ser revificada, no devido tempo; e, mediante elas, os crentes são preservados de um total desespero.

Essa era a expressão de fé dos antigos puritanos, com base em muitos textos das Escrituras.

A questão é: O que você fará quando Deus silenciar? Quando ele esconder de você o seu rosto?

Eu recomendo que você faça como Davi e como os santos do passado: verbalize essa perplexidade, essa dúvida, essa angústia a Deus em oração. Note quantas perguntas há neste texto. Quatro vezes ele começa com “até quando...?”. Spurgeon diz que este salmo deve se chamar “salmo até quando?” Aqui Davi se mostra seu profundo sofrimento diante das circunstâncias, mas muito perturbado com a aparente indiferença da parte de Deus. O salmista desconhece um tipo de espiritualidade em que sempre Deus está à nossa disposição. O salmista não tem receio de apresentar a Deus seus mais profundos sentimentos de desamparo quando da sua maior necessidade. Isso é oração real.

2.     ORAÇÃO DO SALMISTA, v 3,4
As palavras de Davi aqui são reveladoras. Em meio às circunstâncias ele redescobre um Deus pessoal e o busca em oração. Andrew Fuller comentou que nesse momento Davi olha para fora de si por consolação. Note que a fase dos questionamentos passou, embora as trevas ainda permaneçam. Spurgeon diz que essa oração é uma “oração adequada para (1) Todo pecador ignorante. (2) Todo aquele que busca salvação. (3) Todo aprendiz na escola de Cristo. (4) Todo crente experimentado. (5) Todo santo que está morrendo (B. Davies)”. Davi faz três pedidos a Deus:

A oração de Davi:
a) Atenta, v. 3. Literalmente seria “olha”. Sua primeira petição é para que Deus se volte para o seu servo. Esta expressão revela o temor do salmista de que Deus não intervirá sem que seja solicitado. Deus pode esconder seu rosto para que experimentemos o desamparo e recorramos a ele, abandonando a nossa falsa autossuficiência.

b) Responde-me, v. 3b. O seu segundo pedido para que Deus responda às suas orações. Percebemos aqui um clamor urgente pela resposta pela qual se insiste, cf. 1 Rs 18:37; Sl 4.1; 27.5; 55:2; 69.13,16,17, etc. Na maioria das vezes nem nos lembramos das nossas orações, como poderíamos pedir que Deus respondesse?

c) Ilumina-me, v. 3.c. O terceiro pedido é por iluminação. O que significa essa iluminação? Essa expressão significa um pedido de livramento (Sl 18.28), entendimento (Sl 19.8; 119.130,135), refrigério (Ed 9.8) ou bênção (Nm 6.24-26). Mas o sentido aqui parece ser o de salvação (Sl 80.3,7,19).

A base da oração de Davi:
Os pedidos de Davi visavam a sua libertação, mas estavam muito mais ligados à própria honra de Deus. A base da sua oração não era a sua libertação, mas o que isso redundaria em glória a Deus, v.4. Ele era o rei ungido por Deus e se fracassasse, o nome de Deus seria ridicularizado. Por isso pede que o Senhor não permita que o inimigo tenha a alegria de vê-lo fraquejar. O termo “vacilar” (ARA) tem o sentido de oscilar, perturbar-se, estremecer. Se Davi começasse a vacilar o povo poderia pensar que Deus não era capaz de cumprir a sua promessa. Por isso ele ora com base na honra de Deus.

A oração não provoca uma mudança em Deus, mas opera uma mudança na atitude de Davi. A oração verdadeira é aquela que muda aquele que ora. Se nossas orações não nos afetam, não provocam mudanças em nós é porque não estão sendo ouvidas por Deus.

3.     A FÉ DO SALMISTA, v.5,6
Observe atentamente as palavras destes versículos. Observe como começa. A situação ainda não mudou, mas veja como Davi age. Ele não permite que as circunstâncias ou pessoas definam o suas atitudes.

a) Ele confia na graça de Deus, v.5. Davi confia que embora Deus tenha escondido o seu rosto, não escondeu a sua mão. Davi recorre à graça presente do Deus ausente. A palavra “confio” é um dos termos usado nos Velho Testamento para expressar confiança ou dependência. Expressa aquele bem estar e segurança resultante de possuir algo ou alguém em quem depositar confiança. A LXX traduziu o termo por “elpizo”, cujo sentido é o de esperança em sentido positivo de descansar em Deus. Davi deixou a estação temor e partiu para a estação fé. Ele substituiu a face oculta de Deus pela presença amorável de sua graça.

b) Ele se alegra na salvação de Deus, v,5b. Pouco antes o seu coração estava tomado de medo e confusão de sentimentos pela ausência de Deus, agora o salmista experimenta alegria advinda da certeza da salvação de Deus. O céu pode estar escuro, as nuvens podem encobrir o sol, mas não podem extingui-lo. Deus pode ter escondido o seu rosto, mas ainda é o Deus que salva. Alegria da salvação é independente das circunstâncias.

c) Ele adora ao Deus da providência, v.6. O lamento deu lugar ao cântico que percebe o sorriso escondido de Deus na providência mais dura. Mesmo em meio ao sofrimento, Davi diz que Deus tem feito muito bem a ele.  

A situação de Davi não mudou, mas Davi mudou. Parou de olhar seus sentimentos, para as circunstâncias e seus adversários e olhou para Deus pela fé.  Ele pôs os olhos de quem nunca deveria tê-los tirado, do Senhor.

CONCLUSÃO
Alguns princípios para nós:

1. Servimos a um Deus que algumas vezes pode se ocultar de nós.
2. Verbalize a Deus a sua perplexidade.
3. Ore com base na honra de Deus
4. Confie no Deus “ausente”, mas da graça presente.
5. Busque alegria em Cristo.
6. Adore a Deus mesmo em meio à sua perplexidade.




[1] Sermão proferido em 26/01/2014
[2] http://www.christianitytoday.com/ct/2005/december/15.80.html
[3] https://pjmiller.wordpress.com/2008/03/15/rc-sproul-the-dark-night-of-the-soul/

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