sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

DISCIPLINA


Dr. D. M. Lloyd-Jones


"E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, e à ciência temperança, e à temperança paciência, e à paciência piedade, e à piedade amor fraternal; e ao amor fraternal caridade".
II Pedro 1:5-7




Aqui neste primeiro capítulo de sua segunda epístola, o após­tolo Pedro trata de mais uma causa de depressão espiritual. De fato, seu objetivo ao escrever a carta era tratar desse problema. Ele escreve para animar pessoas que estavam desanimadas, e desa­nimadas a tal ponto que estavam quase duvidando da fé que tinham aceito. Isso é algo que pode surgir como um perigo muito real neste estado de depressão espiritual; e se a condição persiste e continua, invariavelmente leva a dúvidas e incertezas, e a uma tendência de olhar atrás, para a vida da qual fomos libertos.

Felizmente o apóstolo nos dá uma descrição muito exata deste problema. Ele nos conta, indiretamente, uma série de coisas a respeito das pessoas a quem está escrevendo. Por exemplo, após fazer sua exortação, ele diz no versículo oito: "Porque, se em vós houver e abundarem estas coisas, não vos deixarão ociosos nem estéreis no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo". Ele diz: "Se estas coisas existirem em vós" — farão de vocês o que não são no momento. Ou seja, "farão com que não sejam ociosos nem estéreis no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo" — impli­cando que a condição deles era "ociosa e estéril". Mas não é só isso; ele diz que eles eram cegos, "nada vendo ao longe, havendo-se esquecido da purificação dos seus antigos pecados". Na verdade, há Uma insinuação de que eles estavam tropeçando, pois ele lhes diz que, se fizessem essas coisas, "nunca jamais tropeçariam"; e não só isso, mas se fizessem essas coisas, tornariam "cada vez mais firme" a sua vocação. É claro que eles não tinham muita certeza a respeito destas coisas na ocasião em que o apóstolo lhes escreveu.

Não há dúvida de que eles eram cristãos. Precisamos repetir isso, porque há pessoas que têm noções tão falsas e sem base nas Escrituras, as quais julgam que alguém que se enquadra nos termos em que o apóstolo Pedro descreve estas pessoas não pode realmente ser um cristão. Mas obviamente estas pessoas eram cristãs, ou ele não estaria escrevendo para elas. Muitas pessoas têm uma idéia errônea do cristão, como alguém que está sempre vivendo no topo da montanha, acima das circunstâncias; e há alguns que pensam que se alguém não está lá o tempo todo, não é realmente um cristão. Tal idéia sobre o cristão não tem qualquer fundamento nas Escrituras. Essas pessoas eram cristãs, mas estavam infelizes, vivendo uma vida ineficaz, que parecia não levar a lugar algum, e não estavam ajudando outras pessoas. Não só isso, mas não eram muito produtivas no tocante às suas próprias vidas, e sua fé não lhes dava gozo nem segurança. Eram ociosas e estéreis. Estas pa­lavras realmente as descrevem — ineficazes para ajudar os outros, com falta de conhecimento e compreensão. Elas não estão cres­cendo no conhecimento do Senhor. Aqui está disponível este tre­mendo conhecimento e compreensão, mas não os possuem, não têm crescido neles, são estéreis nesse sentido. Na verdade, apesar de não haver dúvidas quanto ao fato de serem cristãs, estas pessoas parecem ter muito pouco que demonstrasse isso. E também parecem não compreender o significado da sua conversão, parecem ter esquecido o fato de que foram purificadas dos seus pecados de outrora, e estão vivendo como se isso nem tivesse acontecido. Agora, todas essas coisas inevitavelmente caminham juntas. Quando há uma falta de entendimento e de produtividade neste aspecto da compreensão, vocês sempre encontrarão um fracasso corres­pondente na vida, tanto no que se refere à sua própria santidade, como também à sua utilidade e valor para outras pessoas.

Essa é a descrição que o apóstolo dá destas pessoas, e natu­ralmente todos estamos bem familiarizados com esse tipo. É o tipo de indivíduo que não podem negar ser um cristão, apesar de sua vida pouco demonstrar isso. Ele parece estar preso em superficia­lidades e misérias, e não dá a impressão de ser nada do que o Senhor disse que um cristão seria quando recebesse o Espírito Santo: "Rios de água viva correrão do seu interior". Não, a im­pressão que ele dá é de esterilidade e improdutividade, nada está sendo produzido por ele, e parece não estar dando nada a outros. Sua vida é fraca e não parece estar em crescimento ou desenvolvi­mento. Sua vida toda parece totalmente ineficaz, e ele vive aba­tido, infeliz e tomado de dúvidas. Parece incapaz de dar uma razão da esperança que há nele; diz crer, e no entanto está sempre nessa posição em que o próprio fundamento de sua fé parece sujeito a ser abalado. Ora, essa é a condição da qual o apóstolo trata aqui, e que estamos considerando.

A primeira coisa que devemos considerar é a causa desta condição. Como é que alguém pode chegar a tal estado? Há cris­tãos que correspondem a esta descrição. Por que são assim? Por que não são como outros cristãos, cujas vidas são dinâmicas, efe­tivas e que transmitem vida? Qual é a diferença? Essa é a pergunta, que devemos considerar, e parece estar bem claro que o apóstolo aqui diz a essas pessoas que existe apenas uma causa de todas as manifestações desta depressão — a falta de disciplina. Esse é o problema real, uma completa ausência de disciplina e ordem em suas vidas. Mas, felizmente para nós, o apóstolo não se limita a uma declaração genérica. Os escritores do Novo Testamento nunca se limitam a generalidades; eles sempre prosseguem, salientando os detalhes, considerando o problema ponto por ponto; e felizmente o apóstolo faz isso neste caso particular.

Por que essas pessoas não têm disciplina? Por que essa frou­xidão, essa indolência é tão aparente em suas vidas? A primeira causa parece ser que elas têm uma perspectiva errada da fé. Encontro isso no começo do quinto versículo, onde ele diz: "E vós também, pondo nisto mesmo toda diligência, acrescentai à vossa fé" — complemente a sua fé, guarneça sua fé com as coisas que ele passa a mencionar. Temos aqui uma sugestão de que eles tinham uma perspectiva errada da fé. Isso é algo muito comum. Parece que essas pessoas tinham uma espécie de visão mágica da fé; em outras palavras, tinham a idéia de que, enquanto alguém tivesse fé, tudo estaria bem, sua fé operaria automatica­mente em sua vida, e tudo que ele precisa fazer como cristão é crer na verdade. Precisa aceitar a fé, e tendo feito isso, tudo o mais acontecerá automaticamente; ele dá um passo, toma uma decisão — qualquer que seja a expressão usada — e isso é tudo que é necessário. Eu o descrevo como uma visão quase mágica da fé,  ou uma concepção automática  da fé.  Mas  talvez possa expressá-lo de forma diferente. Muitas vezes existe o que podemos descrever como uma visão mística da fé. Isso certamente explica o problema de muitas pessoas. O que quero dizer com visão mís­tica, é uma concepção de fé que sempre pensa nela como um todo. Colocando-o de forma negativa, quero dizer que tais pessoas não compreendem que a fé precisa ser complementada pela virtude, ciências, temperança, paciência, piedade, amor fraternal e caridade, como o apóstolo mostra aqui. Elas têm somente uma fórmula, e essa fórmula é que uma pessoa deve estar sempre "olhando para o Senhor", e enquanto "olhar para o Senhor" não precisa fazer mais nada. Elas dizem que qualquer tentativa de fazer outra coisa e voltar à posição de "salvação pelas obras". Então, se um cristão tem um problema em sua vida cristã, simplesmente dizem: "Olhe para o Senhor, permaneça nEle".

Este é um erro muito comum. Irmãos, vocês podem encon­trá-lo numa forma muito interessante em expositores que tomam este ponto de vista. Ao expor certas passagens das Escrituras onde muita ênfase é colocada em detalhes, eles obviamente caem em dificuldades, porque do ponto de vista deles não devemos nos preocupar com detalhes. Há somente uma coisa a ser feita, é "permanecer no Senhor e olhar para Ele", e enquanto fizermos isso, não há mais nada a fazer. Esta é uma causa extremamente produtiva deste tipo de depressão espiritual e letargia de que esta­mos tratando. Tais pessoas passam o tempo todo nesta condição infeliz. Tentam colocar em prática esta exortação de "permanecer no Senhor" e "olhar para o Senhor", e por algum tempo tudo parece estar bem, mas então, de alguma forma, algo acontece de errado, e parecem não estar mais "permanecendo", e mais uma vez sentem-se infelizes. O problema volta, e assim passam sua vida toda tentando manter esta posição, a única que reconhecem. Ora, obviamente isto é um assunto muito importante, e precisamos ter certeza de que nossa visão da fé é a visão do Novo Testamento, e que compreendemos o que o apóstolo quer dizer, ao afirmar que devemos suplementar, ou complementar nossa fé com certas coisas.

A segunda causa geral desta condição é, sem dúvida, nada mais que mera preguiça ou indolência, nada mais que frouxidão, ou, nas palavras do apóstolo, falta de diligência. Ele diz: "Pondo nisto toda diligência". Ele quer ter certeza que entendemos isso bem, e o repete no décimo versículo. Creio que todos sabemos algo a esse respeito. Existe uma espécie de indolência ou preguiça geral que aflige a todos nós, e que é indubitavelmente produzida pelo próprio diabo. Já não percebemos, todos nós, que no que se refere à vida espiritual, parece que não temos o mesmo zelo e entusiasmo, nem aplicamos a mesma energia dedicada à nossa vocação secular, nossa profissão ou negócio, nossas distrações, ou algo que nos interessa? Todos já não percebemos que podemos estar trabalhando com muita disposição, mas se paramos para um tempo de oração, repentinamente nos sentimos extremamente can­sados? Não é curioso que sempre ficamos com sono e cansados quando vamos ler a Bíblia? Estamos plenamente convencidos de que é algo puramente físico, que realmente nada há que possamos fazer, mas é certo que a partir do momento em que começamos a nos dedicar às coisas espirituais, imediatamente vamos nos de­frontar com esse problema de indolência e preguiça que nos afeta, por mais alertas e dispostos e cheios de energia que pudéssemos estar previamente.

Ou observem isso quando assume a forma de procrastinação. Queremos ler a Bíblia, queremos estudá-la, queremos ler um co­mentário; mas não sentimos vontade no momento, achamos que não é certo fazer estas coisas quando não temos vontade, e que devemos esperar até que estejamos nos sentindo melhor, e que haverá uma oportunidade melhor mais tarde. Ou não temos tempo, ou não temos oportunidade. Quantas vezes todos nós passamos por esse tipo de experiência! Mas então, quando chega a hora certa, por estranho que pareça, ainda não conseguimos nos dedicar àquilo. Está fora de discussão que a maioria de nós está vivendo vidas que carecem de disciplina, ordem e organização. Talvez nunca antes a vida fosse tão difícil para os cristãos como na época atual. O mundo e as organizações da vida ao nosso redor tornam as coisas quase impossíveis; a coisa mais difícil é pôr em ordem nossas próprias vidas e administrá-las. A razão disso não é que estas coisas externas nos compelem, mas se não reconhecemos o perigo de nos desviarmos, se não assumimos uma posição contra isso, já teremos falhado sem saber. Há tantas coisas que nos dis­traem. Começamos com o jornal da manhã (e muitas pessoas co­meçam com dois em vez de um), e então, depois de algumas horas chega o jornal (ou jornais) da tarde. Essas coisas são lançadas sobre nós. Naturalmente não somos obrigados a comprar os jornais, mas estão aí, e todo mundo faz isso. Talvez seja entregue à nossa porta. É colocado à nossa frente, e quase sem percebermos, está ocupando o nosso tempo. Não preciso deter-me com todos estes detalhes — o rádio, a televisão, as coisas que temos de fazer, reuniões para assistir, incidentes aqui e ali, problemas que surgem. O fato é que cada um de nós está lutando por sua vida no presente, lutando para controlar, governar e viver sua própria vida. Todos os pastores concordarão comigo quando eu digo que não há nada que nos é dito com mais frequência hoje em dia do que isto: "Eu não sei o que fazer, parece que não tenho tempo de ler a Bíblia e meditar como eu gostaria".

A simples resposta para isso é que não passa de falta de dis­ciplina, uma falha em organizar nossas vidas. Não adianta reclamar a respeito das circunstâncias. Sempre voltamos para isso, e não há necessidade de discutir o assunto — todos temos tempo! Se temos tempo para fazer tantas outras coisas, então temos tempo, e o segredo do sucesso nesta área é tomar esse tempo e insistir que seja dedicado às questões da alma, em vez de ser gasto com tantas outras coisas. Essa é a segunda causa do problema — uma falta de disciplina em nossas vidas, uma falha em organizar, comandar e controlar nossas vidas como no fundo do coração sabemos que deveríamos fazer.

Sendo essa a causa, passemos agora para o tratamento. Qual é o tratamento prescrito pelo apóstolo Pedro para esta condição? É simplesmente o inverso da causa do problema. Em primeiro lugar e antes de tudo, ele enfatiza "toda a diligência". "Façam o máximo de esforço" diz outra tradução, É isso — "fazer o má­ximo de esforço" — à luz destas coisas, à luz de Suas grandíssimas e preciosas promessas que nos foram dadas, para que por elas nos tornemos participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção que pela concupiscência há no mundo — por causa de todas estas coisas, façam todo o esforço, ponham toda a diligência, ou, como está traduzido no décimo versículo, "procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação". Aqui, então, está o tratamento: o  exercício de disciplina e diligência.

Talvez a melhor maneira de esclarecer este assunto seja colo­cando-o num contexto histórico. Eu desafio vocês a lerem a vida de qualquer santo que já adornou a vida da Igreja, sem perceber imediatamente que a grande característica da vida dessa pessoa era ordem e disciplina. É invariavelmente a característica universal e marcante da vida de todos os grandes homens e mulheres de Deus.

Leiam sobre Henry Martyn, David Brainerd, Jonathan Edwards, os irmãos Wesley, e Whitefield — leiam seus diários. Não importa a que ramo da Igreja pertenceram — todos disciplinaram suas vidas e insistiram na necessidade disso; e obviamente é algo bíblico e absolutamente essencial. "É necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe", diz o autor da Epístola aos Hebreus (Hebreus 11:6); sim, e também "que é galardoador dos que o buscam diligentemente". Precisamos ser diligentes em buscar a Deus. "Mas", alguém dirá, "esse tipo de ensino não esta­ria aprovando a justificação pelas obras?" Veja como o diabo é sutil! "Você certamente está voltando à heresia católica romana, e à forma católica de devoção!" A resposta a isso é que foi o apóstolo Pedro, o apóstolo inspirado, que se esforçou para nos lembrar que todas as Escrituras são inspiradas, e é ele que também nos diz que devemos acrescentar todas essas outras coisas à nossa fé, e exercer toda a diligência ao fazer isso. Sejam mais zelosos, sejam ainda mais ativos, ele diz. E é claro que não há nenhuma contradição nisso. O erro da justificação pelas obras está em confiar na disciplina de sua própria alma para salvar sua alma; mas o oposto de confiar em suas obras, não é não fazer coisa alguma, é fazer tudo sem colocar a sua confiança no que faz. Não são as obras que estão erradas, é colocar sua fé nelas, confiar em suas próprias obras. Mas que perigo sutil temos aqui! Creio que um dos maiores perigos no protestantismo hoje em dia, especialmente nos círculos evangélicos, é que, em nosso medo do erro da justifi­cação pelas obras, temos declarado que as obras não têm qualquer importância. Argumentamos que a fé somente é que conta, e porque sou um homem de fé, não importa o que eu faço e minha vida pode ser completamente indisciplinada. De maneira nenhuma! O oposto de uma confiança falsa nas obras não é indolência, falta de disciplina e não fazer nada; é ser diligente, e mais que dili­gente, ser zeloso, e "acrescentar à sua fé". Mas ao mesmo tempo devem compreender que suas ações nunca serão suficientes, e sim que Deus certamente é galardoador daqueles que O buscam com diligência. Tantas pessoas dizem que dariam tudo para ter um vestígio que fosse do conhecimento que os santos tiveram. "Se eu pudesse ter esse mesmo gozo, essa alegria que tiveram! Eu daria o mundo inteiro em troca disso, por que não posso ter essa expe­riência?" — perguntam. A resposta é que nunca realmente a bus­caram. Observem as vidas desses homens, e o tempo que dedicaram à leitura da Bíblia e à oração e várias outras formas de auto-avalia­ção e exercícios espirituais. Eles creram no exercício da disciplina da vida espiritual, e foi por causa disso que Deus os recompensou, dando-lhes aquelas manifestações graciosas de Si mesmo, e aquelas experiências estupendas que aqueceram seus corações.

Então, colocamos em primeiro lugar a necessidade de disci­plina e ordem. Na verdade, vejo-me tentado neste ponto a tratar do assunto em detalhes. Se concordamos com a importância de reivindicar tempo e organizar nossa vida diária, devemos insistir a todo custo que certas coisas precisam ser feitas. Em outras pa­lavras, se realmente creio que a Bíblia é mais importante para mim do que o jornal matutino, devo ler a Bíblia antes de ler o jornal.

O que quer que eu tenha deixado de fazer, isso deve ser feito. Devo ser fiel em meu tempo de oração, devo gastar tempo em meditação; outras coisas talvez fiquem por fazer, mas isso tem que ser feito. Este é o começo, é uma ilustração de um elemento de ordem sendo incorporado à minha vida. Tantas pessoas falham, e se tornam infelizes e deprimidas simplesmente porque não assu­miram controle de si mesmas. Vocês mesmos precisam fazer estas coisas; ninguém mais as fará por vocês — na verdade, ninguém mais pode fazê-las por vocês. Se não prestarem atenção a essas coisas em detalhes, continuarão sendo cristãos deprimidos, podem ter certeza! Sejam diligentes, façam todo esforço, sejam mais que zelosos — cuidem disso a qualquer preço.

O segundo princípio é que devemos suplementar a nossa fé. "Acrescentai à vossa fé", diz a tradução que eu li; "suplemente a sua fé", diz outra tradução; ainda outra diz, "guarneça a sua fé". Os estudiosos nos dizem que a palavra "guarnecer" é uma palavra grega usada em conexão com a representação de um drama. Signi­fica providenciar uma espécie de orquestra ou coro. A represen-
tação é guarnecida com esta orquestra, este coro, para que possa ser completa. Era algo que rematava a apresentação, tornando-a perfeita. Esse é o significado da palavra: acrescentar, guarnecer, suplementar, tornar a coisa completa — uma fé integral.

O que se deve acrescentar à fé? O apóstolo nos dá uma lista, a qual eu quero citar aqui. A primeira coisa que ele diz é: "Acres­centai à vossa fé a virtude". O que ele quer dizer com isso? Aqui temos novamente uma palavra cujo sentido mudou com o decorrer do tempo. Não significa virtude no sentido que comumente usamos a palavra hoje em dia, pois cada um destes itens é uma virtude em si. Seu sentido aqui é de energia, energia moral; significa poder, vigor. Isto é muito importante. A condição da qual o após­tolo está tratando aqui é este tipo de vida cristã lânguida, indis­ciplinada e frouxa, e ele começa lembrando-os disso: "Agora que têm fé, vocês crêem na verdade, e não há dúvida quanto a isso, vocês têm essa mesma fé preciosa que está em nós". Bem, o que mais eles precisam fazer a respeito? Ele lhes diz que em acréscimo à fé que têm, eles precisam deixar de ser lânguidos. Em outras palavras, acrescentem à sua fé essa energia moral, assumam con­trole de si mesmos, não se arrastem através da vida cristã, andem por ela como devem, com vigor, acrescentem à sua fé força e poder. Não sejam cristãos debilitados que sempre dão a impressão de que estão ao ponto de ter uma vertigem e desmaiar, e que podem falhar a qualquer momento. Não sejam lânguidos, diz o apóstolo, guarneçam a sua fé com virilidade e poder — virtude.

Como essa exortação é necessária! Comparem, façam um contraste do cristão típico e comum com a pessoa típica e comum do mundo. O cristão declara estar interessado em coisas espirituais, no reino de Deus, e num conhecimento de Deus e de Cristo. Esta é sua reivindicação. Ele diz que tem fé, e é isso que a fé significa. Comparem-no com a pessoa típica do mundo, que está interessada em jogos e nas coisas que acontecem no mundo dos esportes. Vocês percebem a diferença; não há nada lânguido a respeito da pessoa que está interessada nessas coisas. Observem seu entusiasmo e sua energia. Então observem o cristão em contraste, como ele é débil, sempre com uma expressão de pesar. E a razão é que esse tipo de cristão falhou em "acrescentar à sua fé". Ele diz que é um cristão e que crê na verdade, mas falhou em "guarnecer" a sua fé.

"Acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência". Isso não quer dizer simplesmente conhecimento de doutrina. Temos isso numa certa medida — de outro modo nem teríamos fé. Isto signi­fica um tipo de discernimento, significa entendimento, significa iluminação. Não sabemos tudo no momento em que cremos em Cristo, não entendemos todas as coisas; isso é só o começo. Há constantes apelos e exortações nas epístolas do Novo Testamento para que cresçamos em entendimento — "para que o vosso amor cresça", diz Paulo, "em entendimento". Isso é o que o apóstolo Pedro está dizendo neste ponto. Ele diz que os cristãos não devem parar na fé. Já são cristãos, mas precisam entender a vida cristã. Devem compreender os perigos sutis que os cercam, precisam compreender algo da sutileza de Satanás. Precisam de compreensão: por isso, "acrescentai à vossa fé" — esforcem-se por ter esse dis­cernimento, essa compreensão, essa iluminação. Como isso é essen­cial — que nos entreguemos à leitura diligente das Escrituras e de livros a respeito das Escrituras e das doutrinas da fé. Vocês nunca compreenderão a fé verdadeiramente se não se dedicarem a essas coisas. Às vezes é um processo doloroso, e certamente exige toda a disciplina que pudermos aplicar. Um estudante nunca se torna perito em qualquer assunto sem trabalho árduo. Aquela conversa a respeito do tipo de homem que tem uma inteligência tão brilhante que nunca precisa estudar ou se esforçar, e depois recebe o primeiro lugar nos exames, é puro mito. Isso não acontece — é uma mentira. Sem conhecimento — e nunca se pode ter conhecimento se não se esforçar — a pessoa nunca terá verdadeira compreensão, verdadeiro discernimento. Isso requer disciplina e esforço; na verdade, guarnecer sua fé com conhecimento, ou ciên­cia, é trabalho muito árduo.

O próximo item é. temperança, que significa domínio próprio, e aqui não significa simplesmente que controlamos a nossa vida em geral. Esta temperança é uma coisa muito mais detalhada e particular do que isso. Significa que precisamos controlar cada aspecto da nossa vida. Talvez signifique que tenhamos que con­trolar até o que comemos e bebemos. Os médicos constantemente estão nos dizendo que muitas pessoas estão numa condição pre­cária de saúde física porque comem ou bebem demais. Não há dúvida de que isso é verdade, e há uma tendência crescente a isso no mundo moderno. É lançado sobre nós, de maneira atraente, e há pessoas que sofrem de cansaço e lentidão muitas vezes por simples falta de temperança ou domínio próprio. Não controlam seus apetites, seus desejos, suas paixões; comem demais, ou bebem demais, ou até mesmo dormem demais. O meio de se obter uma boa visão disso é ler as vidas dos santos, ler seus diários, ler o que eles faziam e como controlavam suas vidas. Como temiam essas coisas, e como compreendiam claramente que tinham de evitá-las a todo custo!

Paciência significa perseverança para continuar mesmo em meio ao desânimo. Temos que fazer isso — nós mesmos. Precisa­mos acrescentar isso à nossa fé. Não significa apenas olhar passi­vamente para o Senhor; nós mesmos precisamos exercer paciência e perseverança, e continuar fazendo isso dia após dia.

Depois vem a piedade, que neste ponto sem dúvida significa preocupação e cuidado em manter a nossa comunhão com Deus. Então os dois últimos itens da lista se referem à nossa atitude para com os nossos semelhantes. Amor fraternal significa nosso relacionamento para com nossos irmãos em Cristo. E caridade significa amor a todos os homens, mesmo aqueles que não estão na fé. Precisamos observar estas coisas em detalhes.

Depois de nos levar através desses vários passos e estágios, o apóstolo agora nos encoraja a fazer tudo o que ele nos disse. Qual é o encorajamento? Antes de tudo, ele nos lembra do que nós somos. Ele nos diz que nos tornamos "participantes da natureza divina". Se vocês acham que estou pregando uma doutrina dura, e que estou reduzindo a vida cristã a uma tarefa árdua, se sentem hesitações e dúvidas, quero lhes fazer algumas perguntas. Vocês percebem o que são como cristãos? Percebem que são "partici­pantes da natureza divina" e que o Filho de Deus veio do céu à terra e foi até a cruz do Calvário para salvá-los, para libertá-los do mundo e suas concupiscências? "Havendo escapado da corrup­ção que pela concupiscência há no mundo." Concupiscência é a causa dessa corrupção. Vão permanecer nessa condição? Não que­rem escapar dela? Percebam, ele diz, que Cristo morreu para que pudessem ser tirados dela, e que realmente foram tirados dela. Por isso, então, "ponde nisto toda a diligência". "Certamente", Pedro pergunta, "vocês não esqueceram que foram purificados dos seus pecados, certamente não esqueceram que morreram com Cristo, e que portanto estão mortos para a lei e mortos para o pecado?" "Como viveremos para o pecado, nós os que para ele morremos?" Essa é a forma que Paulo o expressa. Esse também é o argumento de Pedro. Precisamos compreender isso, e é um extraordinário encorajamento ao enfrentarmos a batalha da fé.

No entanto, não devemos parar aí. O apóstolo diz que também devemos compreender que somente fazendo estas coisas é que tere­mos grande alegria e felicidade no presente. "Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição". E vocês podem tornar firme a sua vocação fazendo estas coisas. Nunca serão felizes de outra forma. Não basta dizer: "A Palavra de Deus diz — todo aquele que nele crê — eu creio, portanto. . ." Isso é verdade, mas nem sempre satisfaz. Está correto racionarmos assim, e faz parte da nossa segurança, porém se pensarmos que nossa segurança se limita a isso, estaremos cometendo um grande engano. Se quisermos tornar firme a nossa vocação e eleição, de­vemos ser diligentes em todas estas coisas que o apóstolo men­ciona, e se o fizermos, teremos grande alegria, paz e felicidade. Saberemos qual é nossa posição, e colheremos os primeiros frutos da glória que nos aguarda.

"Fazendo isto, nunca jamais tropeçareis". Nada é mais desa­nimador do que nossas quedas e tropeços. Tropeçamos, e então nos sentimos miseráveis e infelizes, e lá vem a depressão que faz com que nos sintamos totalmente sem esperança a respeito de tudo. Bem, o que devemos fazer é evitar as quedas, os tropeços — e se fizermos essas coisas, jamais tropeçaremos. Isso não significa que estamos sendo guardados, sem fazer coisa alguma. Ele diz: "Façam estas coisas, e vocês não tropeçarão". Então, reunam toda a dili­gência para fazer estas coisas, e não tropeçarão.

E finalmente — e como isso é glorioso ! — "porque assim", ele diz, "vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo". Ele não está falando sobre salvação aqui, porque estas pessoas já são salvas; ele fala sobre a entrada para a glória. Observem a palavra "concedida". Ele diz que a entrada será concedida a nós. Essa é exatamente a mesma palavra que anteriormente foi traduzida como "acrescen­tar". Vocês "concedera" essas coisas à sua fé, e a entrada será concedida a vocês. Isso funciona reciprocamente. Em outras pala­vras, "se fizerem estas coisas", Pedro diz, "se disciplinarem as suas vidas, se organizarem as suas vidas e guarnecerem a sua fé dessa maneira e com todas essas várias qualidades, vocês não tropeçarão no presente, e terão grande alegria e felicidade resul­tantes de sua segurança, e quando o fim chegar, deixarão esta vida com suas velos cheias pelas gloriosas brisas celestes. Não haverá nenhuma hesitação em sua entrada, não será feita com velas ras­gadas; será uma entrada ampla a que será concedida a vocês. Não precisarão dizer, como Lord Tennyson:

E que não haja ranger do madeirame Quando em me fizer ao mar.

Porque não será uma saída para um mar desconhecido, mas antes, um fim das tormentas da vida e uma entrada triunfante no porto do nosso eterno descanso e glória na presença de Deus.


Se somos cristãos infelizes e deprimidos, é muito provável que seja devido a essa falta de disciplina. Portanto, vamos ser posi­tivos e ativos, pondo toda diligência, vamos suplementar a nossa fé, sem termos medo. Vamos esclarecer as nossas idéias e então colocá-las em prática, e complementar a nossa fé com esta força e vigor, com este conhecimento, com esta temperança, com esta paciência, piedade, amor fraternal e caridade. Vamos começar a desfrutar da nossa vida cristã e ser úteis aos outros. Vamos crescer na graça e no conhecimento, e assim atrairemos todos que nos conhecem, para que se unam a nós nesta fé preciosa, e para que experimentem a bem-aventurança destas grandes e preciosas pro­messas que nunca falham.