terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A SEGUNDA VINDA DE CRISTO

Marcos 13:24-37[1]


Silas Roberto Nogueira



No primeiro sermão neste capítulo tratamos da questão dos chamados “sinais” da Segunda Vinda de Cristo. Guerras, rumores de guerras, fomes, terremotos e até mesmo a perseguição são eventos que marcarão toda a era da Igreja. Em meio a tudo isso, o evangelho será pregado a todas as etnias e antes do fim, um período tenebroso definido por Cristo como Grande Tribulação, a conversão de Israel e então o fim, isto é, a Segunda Vinda de Cristo.

A Segunda Vinda de Cristo é o assunto mais enfatizado da Bíblia. Toda a Bíblia trata da Segunda Vinda de Cristo. São ao todo 1845 referências a este “momentoso evento”. No Velho Testamento a segunda vinda é mencionada 1527 vezes, no entanto, o primeiro e o segundo advento estão fundidos na maioria das previsões. No Novo Testamento há 318 referências à segunda vinda, segundo alguns na média de uma referência a cada 25 versículos. Tantas referências fazem do tema uma dos mais importantes para a Igreja cristã.[2]

Apesar das abundantes referências à Segunda Vinda de Cristo nas Escrituras o assunto tem sido motivo de controvérsias, distorções e descrença. Muitas são as escolas de interpretação do testemunho bíblico acerca do assunto. Há os que querem marcar datas a partir daquilo que entendem serem sinais da Segunda Vinda. E, finalmente há os que negam que Jesus vá voltar visto que demora excessivamente.

Neste texto Cristo nos oferece importantes informações quanto à sua segunda vinda, mas não todas. Ele não tinha interesse em suprir a mera curiosidade dos seus discípulos. Em nossa exposição focalizarei o ensino do Senhor Jesus contido neste discurso registrado pelos sinóticos e, por conseguinte não abordaremos alguns tópicos comuns às discussões sobre a doutrina. Vamos destacar aqui os seguintes pontos:


1.     QUANTO À NATUREZA DA SEGUNDA VINDA
Quando Jesus fala “naqueles dias” (v.24) está se referindo aos dias imediatamente anteriores à sua Segunda Vinda.[3] Ele está respondendo à segunda pergunta dos discípulos. Ele não é exaustivo em sua resposta e nem visa satisfazer a curiosidade deles com riqueza de detalhes ou lhes fornecer um mapa completo dos eventos do fim. Ele fala o essencial, do que destacamos os seguintes pontos quanto à natureza do evento:
  1. A Segunda Vinda será inconfundível, v. 24,25.  A linguagem aqui é claramente apocalíptica, Is. 13.10; 24.4; Am.8.9; Jl 2.30-32. Alguns estudiosos pensam que os termos são meramente simbólicos, mas outros interpretam de modo literal. Lucas fala tais acontecimentos como “sinais” que causarão certa “angústia” (gr. sunoxe, aflição), “perplexidade” (gr. aporia, consternação), “terror” (gr. phobos, medo) e “expectativa” (gr. prosdokia, espera expetante) quanto ao que sobrevirá ao mundo e parece pensar em termos literais (Lc 21.25,26). Tais eventos tornarão a Segunda Vinda de Cristo um evento inconfundível. Será uma cena de poder irresistível e de esplendor deslumbrante.[4]

  1. A Segunda Vinda será visível, v. 26.  A Segunda Vinda de Cristo será pessoal, visível e pública, Ap. 1.7. Mateus fala do aparecimento no céu do sinal – singular – da vinda do Filho do homem, Mt 24.30. A própria vinda de Cristo será o sinal.[5] O genitivo grego permite a ideia de que o Filho do homem seja pessoalmente o sinal, podendo ser vertido o texto “o sinal, que é o Filho do homem”.[6] Mateus diz que os “povos da terra se lamentarão” (Mt 24.30). A Segunda Vinda significará alegria para os salvos (Lc 21.28), mas profunda tristeza para os incrédulos, aqueles “que o traspassaram”,  Ap 1.7.[7]  A ideia de que Cristo virá de modo secreto não encontra respaldo nas Escrituras.

  1. A Segunda Vinda será gloriosa, v. 26b. Na primeira vinda, o Rei veio em andrajos, como semelhante a nós, mas na Segunda Vinda, em sua majestosa glória, como ele de fato é, glorioso. Ele virá para ser glorificado nos seus santos (2 Ts 1.10). Ele virá à voz do arcanjo e ao ressoar da trombeta (1 Ts 4.16). Ele virá na sua majestade e com seus anjos santos (Mt 25.31).

  1. A Segunda Vinda será inesperada, v. 33-36. Não se pode marcar uma data para a Segunda Vinda de Cristo, pois ela será inesperada. O acontecimento é certo, mas a data é incerta. Nas palavras de John Charles Ryle:

Há profunda sabedoria e grande misericórdia nesse silêncio intencional. Temos razões para agradecer a Deus de ter ele escondido de nós essa questão. A incerteza quanto á data do retorno de nosso Senhor tem o intuito de manter os crentes em uma atitude de constantes espera, além de servir para preservá-los do desânimo.[8]
Para muitos o ensino de Cristo aqui significa que ele pode voltar a qualquer momento. A isto chamam “iminência”. Mas o foco do ensino de Cristo não é na iminência, mas na vigilância, v.33, 35,37. Não é tanto que Jesus pode vir a qualquer momento, mas que devemos vigiar em todo o tempo.

  1. A Segunda Vinda será única, v. 26,27. A Segunda Vinda será única, isto é, não há distinção entre arrebatamento e Segunda Vinda como alguns ensinam. Este arranjo de uma Segunda Vinda seccionada em duas fases foi necessário para dar suporte à teoria de que a igreja não passará pela Grande Tribulação, mas não tem apoio escriturístico e nem mesmo pode ser achado na história da igreja antes de 1833. O Senhor Jesus deixa claro que a Segunda Vinda será única e concomitante com o arrebatamento da igreja, v.27. 

2.     QUANTO AOS EVENTOS CONCOMITANTES À SEGUNDA VINDA
Há uma diversidade de eventos conectados com a Segunda Vinda de Cristo. Limito-me ao discurso registrado nos sinóticos. Levando em consideração que Marcos é mais breve, recorrerei a Mateus e Lucas no tocante a alguns eventos que estão relacionados a este grande e momentoso evento. Vejamos:

  1. Arrebatamento da Igreja, v.27. Esta é uma clara referência ao que ficou conhecido como “arrebatamento” dos crentes. A palavra “arrebatamento” é usada por Paulo em 1 Ts 4.17 – “depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor”.  O termo grego usado aqui é “harpadzo” que significa uma retirada rápida ou abrupta de alguma coisa, Mt 13.19; Jo 6.15; 10.12. É bom que se saiba que essa palavra não é exclusiva para descrever o que ocorrerá quando da Segunda Vinda de Cristo.

O Senhor Jesus e os apóstolos usaram outros termos para o mesmo evento:
·         Mateus 24:31: “E ele enviará os seus anjos, com grande clangor de trombeta, os quais reunirão [episunago] os seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus”.  (Marcos.13:27)
·         2 Tessalonicenses 2:1: “Irmãos, no que diz respeito à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião [episunagoge] com ele, nós vos exortamos”.
·  1 Tessalonicenses 4:17:  “depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro [apantesis] do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor.” 

Assim, a palavra “arrebatamento” destaca o modo como se dará o evento, mas não a sua natureza, que é explicada pelos termos “reunião” – “episunago” (Marcos 13.27) ou “encontro” - “apantesis” (1 Tessalonicenses 4.17). Este último era um termo técnico para referir-se ao encontro de uma comitiva de boas vindas que recepcionava um oficial no meio do caminho e retornava com ele, Atos 28:15; Mateus 25:1,6. Nós nos encontraremos com Cristo – vivo e mortos, todos transformados - nas nuvens e retornaremos à terra (Mc 13.26).

Segundo Jesus tudo isso se dará com “grande clangor de trombeta” (Mateus 24.31) que é justamente mencionado por Paulo como “trombeta de Deus” (1 Ts 4.17) ou “última trombeta” ( 1 Co 15.52) e que alguns pensam ter conexão com a “sétima trombeta” do Apocalipse (11.15).[9]

  1. Ressurreição dos santos e transformação de todos. Em seu ensino o Senhor Jesus não nos oferece detalhes, apenas diz seus anjos reunirão “os seus escolhidos” (Marcos 13.27). Mas Paulo expande o assunto e deixa claro que duas coisas ocorrerão quando da Segunda Vinda de Cristo e nosso encontro com ele nas nuvens:
a)     Ressurreição dos mortos em Cristo, 1 Tes 4:13-17. Devemos ressuscitar com os nossos corpos, porém numa condição diferente da que hoje possuímos. Esta é a “primeira ressurreição” referida em Apocalipse 20.5 ou ressurreição dos justos (Lc 14.14). A ressurreição dos justos e ímpios não acontece ao mesmo tempo, v.5 (“restante dos mortos não reviveram...”). 
b)     Transformação dos crentes que estiverem vivos, 1 Co 15:50,51,53,54. Quem estiver vivo nos dias do retorno de Cristo experimentará a transformação do seu corpo, isto é, o revestimento de incorruptibilidade.
Tudo isso se dará num único momento, 1 Co 15.52. A palavra usada aqui é “átomos” e Paulo a emprega para referir-se a mais curta fração de tempo possível.[10] É neste contexto que Jesus fala de uma pessoa ser tomada e a outra deixada, Mt 24.40,41 e Lc 21. 34,35.

  1. Juízo final, Mateus, Mt 25.31-34,46. Marcos não menciona a conexão entre a Segunda Vinda e o Dia do Juízo. O juízo aqui é o Juízo Final (Ap 20.11-15)[11] também chamado de Tribunal de Cristo (2 Co. 5.10) e Tribunal de Deus (Rm 14.10).

Todos estarão presentes no Juízo Final (v.32). Todos serão julgados por suas obras (Rm 2.6; Ap 20.12). Os vers. 35-36, 42-45 são muitas vezes mal interpretados, os necessitados aqui – “meus irmãos” (v.40) – não são necessitados de modo geral, nem tão somente os apóstolos ou missionários, mas todos os discípulos de Cristo.[12] O que isso quer dizer é que um dos critérios para o juízo naquele dia será o modo como às pessoas trataram a Igreja de Cristo.

Os cristãos não serão condenados no juízo, pois já foram justificados (Rm 5.1; 8.34), estando separados como ovelhas, dos cabritos (v.32 segs). A eles é dada a posse do reino (v.34) preparado para eles antes da fundação do mundo. Mas há vários graus de recompensa pelo que fizeram nesta vida (Lc 19.11-27; Rm 2.6; 1 Co 3.12-15). Estes são os galardões.

Os incrédulos, por sua vez, ressuscitarão também, mas para o juízo (Jo 5.29). A ressurreição deles será a segunda ressurreição para experimentarem a segunda morte, Ap 20.5,13. Eles serão consignados ao fogo eterno (v.41) e sofrerão as penas eternas de acordo com o que fizeram (v.42-45).

Os anjos também serão julgados neste dia, 1 Co 6.3. Este juízo, segundo penso ocorrerá depois do Milênio, Ap 20.1-10.

3.     QUANTO AO TEMPO DA SEGUNDA VINDA
Três pontos podem ser destacados aqui:

  1. A Segunda Vinda se dará após a Grande Tribulação, v.24-27. Já mencionamos isto na semana passada. Jesus é absolutamente claro em afirmar que Sua Volta se dará depois do período mais tenebroso pelo qual o mundo passará.

  1. A Segunda Vinda está próxima, v.28-32. A referência aqui é primeiro ao evento histórico que sucedeu no ano de 70 d.C.. O histórico e o escatológico são mantidos em tensão.[13] O que sucedeu a Jerusalém prefigura e é o ponto de partida para o evento do fim, v.32.  Paulo afirmou que o dia da nossa salvação está mais próximo agora do que quando começamos a nossa carreira cristã, Rm 13.11,12.

Mas porque demora, então? Na verdade ele não retarda Seu retorno, ele tem o seu tempo próprio. O que consideramos demora faz parte do plano de Deus para alcançar aqueles que ele deseja salvar, 2 Pe 3.8-10.

  1. A Segunda Vinda é certa, porém inesperada, v.33-36. Não temos como saber da data precisa do retorno de Cristo, v.32. Somente a arrogância nos leva a querer descobrir aquilo que o Pai reservou para si, At 1.6. A Segunda Vinda é tão certa quanto inesperada, v.35. Os apóstolos falavam que o dia do Senhor viria como o ladrão (1 Ts.5.1 segs; 2 Pe 3.10) falando em termos de sua imprevisibilidade. Muitos serão pegos de surpresa, como sucedeu nos dias de Noé, Mt 24.37,38. E você, estás preparado para encontrar com o teu criador?
William Gurnall declarou “Cristo nos disse que virá, mas não revelou quando, para que nunca tiremos nossas roupas nem apaguemos nossas lâmpadas”.

CONCLUSÃO
Alguns princípios:
  1. Cuidado com o mundanismo, Lc 21.34,35. 34
“Acautelai-vos por vós mesmos, para que nunca vos suceda que o vosso coração fique sobrecarregado com as consequências da orgia, da embriaguez e das preocupações deste mundo, e para que aquele dia não venha sobre vós repentinamente, como um laço. Pois há de sobrevir a todos os que vivem sobre a face de toda a terra”.

  1. Vigilância, Lc 21.36.
Vigiai, pois, a todo tempo, orando, para que possais escapar de todas estas coisas que têm de suceder e estar em pé na presença do Filho do Homem”.

  1. Santidade de vida, 2 Pe 3.11-14.
“Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade, esperando e apressando a vinda do Dia de Deus, por causa do qual os céus, incendiados, serão desfeitos, e os elementos abrasados se derreterão. Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça. Por essa razão, pois, amados, esperando estas coisas, empenhai-vos por serdes achados por ele em paz, sem mácula e irrepreensíveis”




[1] Sermão proferido em 6 de setembro de 2015.
[2] Sermões expositivos em 2° Pedro, sermão n° 4 proferido em 14 de junho de 2014 na CBG.
[3] MORRIS, Leon, Lucas, introdução e comentário, p. 281
[4] MACDONALD, William, Comentário bíblico popular, p. 141
[5] ATKINSON, Basil F. C., Novo comentário da Bíblia, Vol II, p. 978.
[6] STAGG, Frank, Comentário bíblico Broadman, Vol 8, p. 273.
[7] HENRY, Matthew, Comentário bíblico Novo Testamento, Vol V, p. 321
[8] RYLE, J. C. Meditações no evangelho de Marcos, p. 173,174
[9] SHEDD, R. P., A Escatologia do Novo Testamento, p. 46; posição também defendida por Ézio Pereira da Silva em A Segunda Vinda, uma análise do póstribulacionismo, Vida Nova, p. 139,140.
[10] MORRIS, Leon, 1 Coríntios, introdução e comentário, p. 187
[11] ATKINSON, B., Novo comentário bíblico, Vol II, p. 979
[12] CARSON, D. A., O comentário de Mateus, p. 602
[13] DEWEY, Mullholand, Marcos, p. 204