segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

SÍNTESE HISTÓRICA DA HERMENÊUTICA

Notas de Aula 

(parte I) 

Silas R. Nogueira

Assim como placas de sinalização nos ajudam numa viagem rodoviária, o entendimento de como pessoas e grupos interpretavam a Bíblia antigamanete pode funcionar para nós como uma espécie de sinalização, advertindo, conduzindo e informando. Como a placa de advertência, o estudo da história da interpretação bíblica pode nos ajudar a enxergar os erros que outros cometeram no passado e suas consequências, alertando-nos assim pata evitarmos que se repitam. Como placa que indica a direção, o conhecimento de algo da evolução da interpretação bíblica ao longo dos séculos pode ajudar-nos a perceber a importância das interpretações corretas e o que implicam. Como placa informativa, a história da interpretação ajuda-nos a entender como certas questões de interpretação surgiram e o modo como foram abordadas no passado.

A Interpretação Judaica
Para dar uma visão geral do assunto, apresentamos uma síntese dos princípios adotados pelos judeus na interpretação bíblica.

1.   Judeus palestinos
Eles tinham profundo respeito pela Bíblia como a infalível Palavra de Deus. Consideravam sagradas até mesmo as letras, e seus copistas tinham o hábito de contá-las, a fim de evitar que alguma se perdesse na transcrição. Estimavam a Lei (Torah) mais que os outros escritos, por isso a interpretação da Lei era seu grande objetivo. Faziam clara distinção entre o sentido literal da Bíblia (peshat) e sua exposição exegética (midrash).  De modo geral a literatura midrash pode ser dividida em duas classes:

  •    Halakhah – interpretação de caráter legal, tratando de assunto de obrigações impostas pela lei em sentido estritamente legalístico. 
  •    Haggadah – interpretações de tendência mais livre e edificante, abrangendo todas as partes não legalistas das Escrituras. Essa última classe de interpretação era mais homilética e ilustrativa do que exegética.

Uma das grandes fraquezas da interpretação dos escribas é devida ao fato de exaltar a Lei Oral, que é, em última análise, idêntica à inferências dos rabinos, como apoio necessário da Lei Escrita, e finalmente usá-la como meio para desprezar a Lei Escrita.  Isso deu margem ao aparecimento de várias formas arbitrárias de interpretação, Mc 7:13. Hillel foi um dos maiores intérpretes entre os judeus. Ele deixou sete regras de interpretação, pelas quais ensinou, ao menos aparentemente, que a tradição oral devia ser deduzida dos dados fornecidos pela Lei Escrita. Estas regras, em forma sucinta, podem ser sintetizadas assim:
A primeira está associada a inferências do menos para o mais importante e vice versa. A segunda é a inferência por analogia; a terceira é a formação de uma família, isto é, quando um grupo de passagens possui conteúdos semelhantes, considera-se que tal grupo tenha a mesma natureza, oriunda do sentido da passagem principal do grupo. A quarta é como a terceira, limitada, porém, a duas passagens. A quinta regra baseia-se numa relação entre o genérico e o específico. A sexta era a exposição com base em outra passagem parecida. A sétima trata de uma dedução a partir do contexto. (J. D. Wood, The Interpretation of the Bible: a historical introduction, p. 14).

2.   Judeus alexandrinos
Sua interpretação era mais ou menos determinada pela filosofia de Alexandria. Adotavam o princípio fundamental de Platão de que ninguém deve acreditar em algo que seja indigno de Deus. Quando encontravam alguma coisa no VT que não concordava com a sua filosofia e que fendia a sua lógica recorriam às interpretações alegóricas. Filo foi o grande mestre deste método de interpretação entre os judeus.  Ele não rejeitou totalmente o sentido literal das Escrituras, mas considerava uma concessão à nossa fraqueza. Para ele, a letra era apenas um símbolo de coisas muito mais profundas. A significação oculta das Escrituras era o que havia de maior importância.  Ele deixou-nos alguns princípios de interpretação. O primeiro diz que o sentido literal deve ser excluído quando o que afirma é indigno de Deus, quando envolve contradição, quando a própria Escritura alegoriza; o segundo diz que o texto deve ser alegorizado quando expressões são ambíguas, quando existem palavras supérfluas, quando há repetição de fatos já conhecidos quando a expressão é variada, quando há o emprego de sinônimos, quando é possível um jogo de palavras em qualquer modalidade, quando as palavras admitem uma ligeira alteração, quando a expressão é rara, quando existe algo de anormal, quanto ao número e ao tempo gramatical. Essas regras abriram caminho a toda espécie de erros de interpretação.

3.   Caraítas
Judeus Caraítas – Karaítas ou “beni mikra” (Filhos da Leitura), oriundos do século IX d.C., seita que   representa uma reação contra a influência do maometismo no rabinismo.  São chamados “Beni Mikra” porque seu princípio fundamental era considerar as Escrituras como a única autoridade  em matéria de fé. Graças a isso, foram apelidados de “os protestantes dentre os judeus”. Isso representava um desprezo pela tradição oral e à interpretação rabínica e evocava por outro lado, um novo e cuidadoso estudo do texto das Escrituras.  A reação dos rabinos ao movimento caraíta culminou na conclusão do texto massorético. Sua exegese, de modo geral, era muito mais correta do que a dos judeus palestínicos e alexandrinos.

4.   Judeus Cabalistas
A palavra Qabbalah significa recepção e designa o conjunto de doutrinas judaicas de caráter esotérico, místico e mágico. O movimento teve sua origem na Espanha e na Alemanha por volta do século XIII, como uma reação contra a filosofia racionalista. Os cabalistas conferiam valor sobrenatural a cada palavra, letra ou mesmo sinal do texto massorético, fazendo combinações numéricas, superposições e substituições de letras e sinais, na busca de sentidos ocultos.


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