segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

SÍNTESE HISTÓRICA DA HERMENÊUTICA

(parte iv)

Silas Roberto Nogueira

Notas de Aula


O Período da Reforma
O movimento a Reforma foi em muitos sentidos um movimento hermenêutico. O domínio da interpretação alegórica que durava séculos é finalmente quebrado. O retorno aos princípios de interpretação antioqueno marca a pregação, o ensino e os princípios dos reformadores. Os reformadores:
·        Criam que a Bíblia era inspirada Palavra de Deus. Assim, consideravam a Bíblia a mais alta autoridade, e a corte final de apelação em todas as questões teológicas. Contra a infabilidade da Igreja, eles puseram a infabilidade das Escrituras.
·     Rejeitaram o sentido quádruplo da Palavra, se opondo à alegorização. Para os reformadores a Bíblia tem apenas um sentido. Quebraram o domínio da alegoria que dominava a interpretação há tantos séculos. Lutero dizia: “as alegorias são especulações vãs...”
·       Deram ênfase ao sentido literal, sentido gramático-histórico do texto. Havia uma preocupação entre os reformadores em chegar ao sentido claro, óbvio e simples de cada passagem das Escrituras. E isto seria feito pela observação cuidadosa da gramática e do contexto. No trato com textos difíceis o caminho comum era a alegorização, mas os reformadores rejeitavam essa via, partiram então para a harmonização desses com textos mais claros. Dizia Lutero “se são obscuras num lugar, são claras em outros”. A Escritura é seu próprio intérprete.
·         Criam na necessidade de iluminação do Espírito Santo. Como os reformadores enfatizavam a natureza sobrenatural das Escrituras, viam na sua natureza espiritual a principal barreira à interpretação. Assim sendo, enfatizavam o papel indispensável do Espírito Santo no processo de interpretação da mensagem bíblica. Tanto para Lutero como para Calvino, nenhuma pessoa poderia interpretar corretamente as Escrituras sem a ação iluminadora do Espírito santo através da própria Palavra.  
·         A necessidade de estudo das Escrituras. Uma das características da Idade Média era a ignorância em relação à Bíblia, não somente por parte do povo em geral, mas especificamente por parte dos líderes religiosos. Naqueles dias eram muito comum doutores em teologia completamente ignorantes da Bíblia. Além disso, os reformadores reconheciam que havia entre as Escrituras e o intérprete o abismo cultural e lingüístico e muito embora reconhecessem a clareza das Escrituras sabiam que algumas dificuldades existiam em relação a alguns textos e que isso só poderia ser superado se o intérprete estudasse e pesquisasse com afinco o texto nas línguas originais e a cultura da época.
·     Linguagem figurada. Embora recusassem o sentido alegórico, não significava isso que repudiavam a alegoria própria das Escrituras. Os reformadores estavam cientes que determinados textos eram mais bem interpretados como sendo figurados. Um dado curioso quanto a isso é que nestes mesmos textos, o romanismo tão achegado à alegorização, fez caminho inverso, ou seja, apelou à literalidade do texto. Por exemplo, os textos referentes à ceia do Senhor. Os reformadores insistiam, com exceção de Lutero, que o sentido da expressão “isto é o meu corpo” deveria ser entendida não literalmente, ao contrário dos adeptos da transubstanciação.

Martinho Lutero (1438-1546) – dizia “quando monge, eu era perito em alegorias. Eu alegorizava tudo. Mas, depois de fazer preleções sobre a Epístola aos Romanos, passei a conhecer a Cristo. Foi assim que percebi que ele não é nenhuma alegoria e aprendi a saber o que Cristo realmente é”.

João Calvino (1509-1564) – dizia “o texto bíblico interpreta a si mesmo”. E mais “a primeira preocupação do intérprete é deixar o autor dizer o que realmente diz, em vez de atribuir-lhe o que achamos que ele deveria dizer”. Este princípio é o da intenção autoral.

Ulrico Zuinglio (1484-1531) – enfatizava a interpretação contextual, por isso dizia que remover um texto do seu contexto  “é como separar uma flor da raiz”.  Quanto ao ministério do Espírito Santo no processo de interpretação acrescenta “a certeza vem pelo poder e pela nitidez da atuação criadora de Deus e do Espírito Santo”. 


William Tyndale (1494-1536) – famoso por sua tradução do Novo Testamento para o inglês, em 1525. Dizia ele “as Escrituras têm apenas um sentido, que é o literal”. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário