terça-feira, 3 de janeiro de 2017

SÍNTESE HISTÓRICA DA HERMENÊUTICA

Notas de Aula 

(parte II)

Silas Roberto Nogueira 

A Interpretação Patrística
No desenvolvimento dos princípios de interpretação na patrística há três centros diferentes:

1.   A Escola de Alexandria
No começo do terceiro século A.D. a interpretação bíblica foi influenciada especialmente pela escola catequética de Alexandria. Nesta importante cidade a religião judaica e a filosofia grega se encontraram e se influenciaram mutuamente. A filosofia platônica ainda era corrente ali nas formas do neoplatonismo e do gnosticismo. Os dois principais nomes dessa escola foram Clemente de Alexandria e Orígenes. Ambos criam na inspiração das Escrituras e embora reconhecessem o sentido literal da Bíblia, eram da opinião que somente a interpretação alegórica contribuía para o conhecimento real.

Clemente de Alexandria (155-216) foi o primeiro a aplicar o método alegórico na interpretação do VT.  Propôs o princípio de que toda a Escritura devia ser entendida alegoricamente. Para ele, o sentido literal poderia fornecer apenas um tipo de fé elementar, enquanto que o alegórico conduziria ao verdadeiro conhecimento. Clemente afirmou que qualquer passagem da Bíblia podia ter até cinco significados:

      __ Histórico (as histórias bíblicas)

     _Doutrinário (ensinamentos teológicos e morais)

    _Profético (todas as profecias)

_Filosófico (alegorias com personagens históricos, por exemplo, Sara, simbolizava a verdadeira sabedoria e Hagar, a filosofia pagã)
         
         __ Místico (verdades morais e espirituais)

Em sua excessiva alegorização, Clemente ensinava que as proibições mosaicas de comer porco, falcão, águia e corvo (Lv 11:7,13-19) representavam respectivamente a ânsia impura pela comida, a injustiça, o roubo e a cobiça. No episódio em que 5000 pessoas foram alimentadas (Lc 9.10-17), os dois peixes simbolizavam a filosofia grega. (As Miscelânias, 6:11).

Orígenes (185-254) foi discípulo de Clemente, mas superou seu mestre no saber e influência. Foi o maior teólogo do seu tempo.  Como de acordo com Platão o homem consiste de três partes, corpo, alma e espírito – ele aceitou que a Bíblia tem uma tríplice significação, a saber: literal, moral e mítica ou alegórica. Ele valia-se de alguns textos para consubstanciar a sua tese, entre eles 1 Ts 5:23  - “corpo” (sentido literal), “alma” (sentido moral) e “espírito” (alegórico). Para ele todos os textos tem sentido alegórico, mas nem todos tem sentido literal. Mediante alegorização, Orígenes ensinava que a arca de Noé simbolizava a Igreja e Noé simbolizava Cristo. Quando Rebeca tira água do poço para os servos de Abraão o sentido disso é que devemos recorrer diariamente às Escrituras para ter um encontro com Cristo. Na entrada triunfal de Cristo, a jumenta representava o Velho Testamento, o jumentinho o Novo Testamento e os dois apóstolos os aspectos moral e alegórico das Escrituras. Orígenes desconsiderava o sentido literal das Escrituras e caiu em fantasias desmedidas.

2.   Escola de Antioquia
A escola de Antioquia foi, provavelmente, fundada por Doreteu e Luciano de Samosata (240-312), no fim do terceiro século. Alguns pensam que o fundador desta escola foi Diodoro, primeiro presbítero de Antioquia, e depois de 378 A.D. , bispo de Tarso. Percebendo o crescente abandono do sentido literal das Escrituras por parte dos pais alexandrinos, vários líderes da igreja em Antioquia da Síria sublinharam a interpretação histórica, literal. Eles incentivaram o estudo dos idiomas originais e redigiram vários comentários sobre as Escrituras. Para eles o elo entre o VT e o NT era a tipologia e as profecias em vez da alegorização. Para eles, a interpretação literal incluía a linguagem figurada. Destacados discípulos desta escola são:

Teodoro de Mapsuéstia (350-428) – escreveu comentário sobre a maioria dos livros do VT e sobre as Epístolas de Paulo. Seus comentários, segundo Terry, “encontram-se entre os melhores exemplares da exegese primitiva”. Ele defendeu a interpretação histórico-gramatical.

João Crisóstomo (354-407) – era arcebispo de Constantinopla. Suas mais de 600 homilias constituem-se em discursos expositivos de aplicação prática. Suas obras contêm cerca de 7 mil citações ao VT e em torno de 11 mil do NT.

Podemos destacar os seguintes princípios:
·         Sensibilidade ao sentido literal do texto.
·         Não negavam o caráter metafórico do texto.
·         Buscavam determinar a intenção do autor.
·         Eram contra a descoberta arbitrária de Cristo nas Escrituras.

3.   Os Pais Latinos (A escola latina)
Os pais latinos acolheram alguma coisa da Escola de Alexandria e algo da Escola de Antioquia. O seu ponto mais característico encontra-se no fato de haver acrescentado outro elemento que até então, ainda não havia sido considerado, a saber, a autoridade da tradição e da Igreja na interpretação da Bíblia. Atribuiu valor normativo ao ensino da Igreja no campo da exegese. Dois grandes nomes entre os Pais latinos:

Jerônimo (347-419) - tronou-se muito mais conhecido pela sua tradução da Bíblia, a Vulgata, do que como intérprete. É um exemplo da interpretação quase literal.

Agostinho (354-430) - diferente de Jerônimo, possuía um conhecimento deficiente dos idiomas originais, isso equivale a dizer que não foi fundamentalmente um exegeta. Agostinho sobressaiu na sistematização das verdades bíblicas. Em sua obra De Doctrina Christiana, escrita em 397, ele defendeu a analogia de fé, segundo o qual nenhuma interpretação das Escrituras é aceitável se for contrária ao sentido geral das Escrituras. Ele adotou o sentido quádruplo das Escrituras: histórico, etiológico, analógico e alegórico. Usava a alegoria (espiritualização) de modo livre, por exemplo, ele ensinava que os quatro rios de Gn 2.10-14 eram quatro virtudes fundamentais e que, no episódio da Queda, as folhas de figueira representavam a hipocrisia e o cobrir da carne, a mortalidade (3.7,21). A embriaguez de Noé (Gn 9.20-23) simbolizava o sofrimento e a morte de Cristo e, embora, não negasse a historicidade do Gênesis quanto á criação, alegorizava os dias da criação, pois primeiro houve a luz e depois o sol, e isso e contraditório. Para ele, quando uma passagem fosse contraditória a Deus ou aos cristãos, deveria ser espiritualizada.


De modo geral a espiritualização do VT se dava principalmente por causa da convicção que o NT está contido no VT, e o VT é iluminado pelo NT. 

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